Olá Esmeralda.
Hoje dirijo-me a ti com uma dor de saudade que não é só minha. Serei, talvez, o porta-voz de uma infinidade de gente que contigo conviveu ao longo dos teus 91 anos de existência.
Sabes, Esmeralda... temos muita sorte. Vivemos numa terra abençoada onde todos se conhecem e, mesmo sem se aperceberem, se tratam de forma carinhosa. Lembro-me do Padre Alfredo me ter confidenciado, estava ele aqui em Rossas ainda há pouco tempo, que uma das coisas que o tinha chamado à atenção era que as pessoas não se tratavam pelo primeiro e último nome, mas antes pelo lugar de onde nasceram ou pelo apelido carinhoso que tinham adquirido. É por isso que eu raramente fui o Miguel Brandão, mas antes, isso sim, o Miguel do Paço ou do Prof. Mário. Pela mesmo razão nunca foste a Esmeralda Soares, mas antes a Esmeralda do “Fê” ou Esmeralda da “Pisca”, como carinhosamente Rossas inteira te reconhecia.
A primeira memória que tenho tua é já muito antiga. Nessa altura, para mim, ainda não eras Esmeralda, mas antes a mãe da Elisabete que foi minha colega na escola primária. Fomos ambos alunos da minha mãe. Felizmente os caminhos com a Elisabete não se cruzaram apenas na escola pelo que nos encontrávamos também no grupo coral e no extinto orfeão do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas dos quais também fazias parte e onde cantámos juntos, entre outras, o Mar Alto e o João Barandão. Foi aí que me deste a tua primeira lição, com o teu exemplo. Como é que alguém que não sabe sequer ler é capaz de sair de casa para fazer polifonia a quatro vozes? Um exemplo notável e que ajudou a moldar a minha vida.
Tudo isto me fez lembrar de uma lição muito particular que recebi na catequese, andava eu no 2.º volume. A catequista era a saudosa Aninhas de Telarda. A certa altura ela contou a história do menino que não sabia rezar. Enquanto os outros sabiam o pai-nosso, a ave-maria ou a salve-rainha, aquele menino, sempre que entrava na igreja não sabia nada disso. Então, o que ele fazia era ajoelhar-se, benzer-se e dizer simplesmente: ó Jesus, eu estou aqui. O silêncio, depois, fazia o resto. Não consigo dissociar esta história das vezes que me confidenciavas que gostavas de vir ao grupo coral. Quando eu ainda era pequenino, o grupo coral era imenso e vinhas em bando, com os da Cavada ou a família da Domingas. Os tempos foram passando, era eu já crescido, e chegou uma altura em que não tinhas com quem vir. Disse-te que te iria buscar a casa para não faltares aos ensaios e assim foi durante muito tempo todas as sextas-feiras. Acho que era a tua forma de dizeres: ó Jesus, eu estou aqui. Agora, os tempos mudam, o grupo coral está bem mais pequeno e, imagina tu, não fosse o Marcelo, seria eu, já com 50 anos, o elemento mais novo. Quem haveria de acreditar numa coisa destas?
Aos poucos fomo-nos tornando amigos, de tal forma que na semana anterior ao meu casamento me preparaste uma surpresa ótima, em casa da minha irmã, com bolas de sardinha e outras iguarias. Tudo isso acompanhado da tua forma alegre e enérgica de falar que terminava quase sempre com uma sonora e cristalina gargalhada. Mesmo que o fizesses de forma tão rápida que, por vezes, obrigava a uma atenção redobrada para perceber e assimilar tudo o que dizias com tanto amor.
Nunca vou esquecer as tuas visitas a minha casa aos domingos à tarde ou os sacos de melindres e laranjas que deixavas à minha porta quando eu não estava. Falavas com uma ternura enorme do Sr. Augusto que partiu cedo demais e de quem repetias vezes sem conta: “era muito meu amigo. O meu homem era muito meu amigo”. E eu contava-te as várias vezes que jogava com ele à malha no antigo recinto da escola primária e o jogador exímio que ele era, fazendo quase sempre o meco tombar, mesmo que lhe colocássemos uma pedra na frente. Estes momentos deixam muita saudade. Foste sempre uma pessoa de coração bom e isso apega-se, acredita. A bondade e o bem, felizmente, são contagiosos.
Foi com muito gosto que eu e a Odete te acolhemos no dia do nosso casamento e ainda ontem quando vim abraçar os teus filhos nesta hora mais difícil, o Feliciano me confidenciava: “a minha mãe gostava muito de ti. Olha que ela chegava a ter a foto do teu casamento lá exposta em casa e as dos filhos arrumadas numa gaveta. Dizia ela que era a foto do meu Miguel”.
Por tudo isso o teu nome não poderia ser outro. Tinha de ser Esmeralda pois foste um ser humano ainda mais precioso que a pedra com o mesmo nome.
Sabes, durante a missa, de cada vez que um cântico acabava, eu fechava os olhos e parecia ainda ouvir a tua voz, aquela voz mais forte e arrastada que parecia terminar todos os cânticos, vinda daquele segundo banco da igreja do lado esquerdo. Sabes como se chama isso? Ressurreição, quando fechamos os olhos e tudo volta a ser como dantes, na qual eu acredito mesmo! Sei que Deus não teve nada a ver com a tua partida porque Ele não pode tudo. Porque Deus é Amor e o amor não pode tudo, por isso sofre e chora também. Mas uma coisa que tenho a certeza que o amor pode é nunca abandonar. Foi isso que fez o amor do Deus em que acreditaste toda a vida... Nunca te abandonou e por isso sei com muita certeza que estás em paz e que Deus te acompanha. Nós todos aqui presentes, vamos também agora em paz. Que Deus nos acompanhe.
Quero só dizer-te, em tom de despedida, que, sobretudo nas minhas noites solitárias em que irei dormir a casa da minha mãe, arranjarei tempo para ir falando contigo. E se não souber o que dizer, irei lembrar-me daquele menino que não sabia rezar e em silêncio irei repetir para mim vezes sem conta: “ó Esmeralda, eu estou aqui”.
Miguel do Professor Mário
30 de outubro de 2026












