D'Artacão e os Três Moscãoteiros - 29 de julho nos cinemas

 

No próximo dia 29 de julho vai estrear nos cinemas portugueses um filme do D'Artacão.
Andava ainda na escola primária quando o D’Artacão aterrou na RTP1. Na altura, fui alertado para a qualidade da série pelo Eduardo, meu grande amigo de infância. Os episódios passavam aos sábados ao início da tarde, precisamente no mesmo horário em que o meu pai abria a biblioteca escolar para todos os meninos que quisessem requisitar livros para ler em casa. Uma das vantagens de ser filho de um professor foi ter conseguido que o meu pai alterasse o horário de atendimento para que assim eu e todos os meus amigos pudéssemos ver o nosso novo herói sem prejuízos das nossas leituras extracurriculares.
Lembro-me de sofrer verdadeiramente com todo o desenrolar da história. Qualquer armadilha ou imprevisto quase me fazia chorar tal era a minha identificação com os heróis da série. Quem não se lembra do colar de pingentes de diamantes, do Falcão Azul (adorei o episódio em que apareceu; a voz do António Feio ainda ressoa no meu cérebro), ou daquele episódio em que após várias provas D’Artacão quase se tornou Moscãoteiro (fiquei tão triste quando não conseguiu)?!
No antigo quiosque de baixo comprei algumas saquetas (poucas, pois os meus pais nunca foram de alimentar esses pequenos vícios) onde vinham uns autocolantes circulares, uma chiclete e ainda um pequenino boneco pela modesta quantia, creio, de 5$00. Lembro-me do meu amigo Eduardo ter ido a minha casa num fim de tarde apenas para me mostrar um soldado que lhe tinha saído numa das carteiras. Que memórias tão boas. Na verdade, esta série, para além de toda a nostalgia, recorda-me muito a turma de alunos da minha mãe, em particular os bons amigos Eduardo e Paulo Daniel. Motivo mais do que suficiente para querer ver este filme que estreia já no próximo dia 29 de julho.
Quem não sente já saudade do Pom, do Mordos, do Dogos, do Arãomis, do Richelião, do Conde de Rocãoforte (mais conhecido como Bigode Preto), do Senhor de Treville, da Julieta, do Rofty ou do Widimer?
Pelo que vejo na internet, a banda sonora composta por Guido e Maurizio de Angelis está ainda mais refinada, superiormente interpretada por uma belíssima orquestra.
Vou preparar as pipocas e já venho.
Mais alguém com saudades de um filme assim?

45 Anos - My Back Pages

Quando eu era pequenino, havia uma coisa a que os adultos chamavam infância. 
Em casa, o ídolo de sempre era o meu irmão. Com ele jogava à bola no corredor de casa, mesmo levando uns ralhetes da minha mãe. Ou fazíamos autênticas finais europeias onde os jogadores eram peças de xadrez e as balizas feitas de pequenos legos. Aprendi a explorar a capacidade inventiva. As minhas irmãs também me mimavam muito por ser o mais novo pelo que as minhas memórias são as melhores possíveis. Era o tempo da cassete com música da Banda Musical de Arouca que a minha irmã Isabelita colocava no gravador ou da leitura apressada da revista “Juvenil” que chegava pelo correio para a minha irmã Cristina. Gostávamos de fazer muito em conjunto. Uma das partes preferidas da casa era a gaveta onde o meu irmão guardava as cadernetas de cromos que, de vez em quando, me autorizava a consultar na sua ausência. Lá se viam os ídolos da equipa principal do Benfica, o Ruy o Pequeno Cid ou os aviões saídos dos invólucros das chiclas “Pirata”. Era o tempo dos serões à volta da fogueira, a confraternizar, sentado no colo da minha mãe ou a jogar à bisca dos três com o meu pai. Rezava-se o terço e depois via-se a telenovela, o Poirot, o Raio Azul, os Soldados da Fortuna ou o 1,2,3 onde esperávamos com alguma ansiedade as rábulas do saudoso Fininho e ficávamos a torcer pelo Arnaldo e pela Rosete enquanto o Carlos Cruz dizia o célebre “e ainda”...
Felizmente, o recinto da escola primária era ali mesmo ao lado. Era lá que se juntavam amigos de todos os lugares da freguesia ao final do dia. Era o tempo dos treinos para as corridas da Festa de Nossa senhora do Campo. Dos lados das Senras e da Portela, chegavam a trazer estacas de madeira com pregos onde se colocava um foguete que servia de vara a transpor. Era assim que jogávamos ao salto em altura como se fôssemos autênticos atletas olímpicos. Uma forma de termos ali mesmo ao pé o Fernando Mamede, a Rosa Mota ou o Carlos Lopes que nos faziam ficar colados ao pequeno ecrã. Ainda trago na memória os arcos que adornavam os dias de festa e que eram deixados junto ao muro da escola com cerca de uma semana de antecedência. Para nós isso era ótimo pois funcionavam como um verdadeiro escorrega.
Era também o tempo da mudança de casa (a distância, felizmente, era mínima) e das finais europeias do meu Benfica, aí já no ciclo preparatório, onde vivi o meu primeiro amor, com troca de bilhetinhos, cuja interlocutora ainda hoje me desperta uma enorme afeição.
Depois haveria de chegar a adolescência e também o ZX Spectrum e o Commodore Amiga. Memórias inapagáveis de bons amigos e de deliciosos momentos passados em frente a um monitor. Num dos aniversários os meus pais compraram-me uma bicicleta, que ainda existe e que ainda hoje guardo como um dos presentes preferidos.
Era o tempo dos ensaios de teatro, do grupo coral dos mais pequeninos, do grupo de jovens e das aulas de piano em São João da Madeira aos sábados.
Depois vieram tempos muito difíceis na universidade atenuados pelas memórias únicas da minha primeira namorada. Primeira e última, acrescente-se. A verdade é que já vamos em 25 anos e eu continuo a apaixonar-me todas as manhãs.
Vieram ainda idas em conjunto a França, à Alemanha, a Espanha, entre passeios, atividades e festivais com amigos que jamais esquecerei.
Depois vieram os filhos. O melhor que me poderia acontecer. A quem tento deixar o exemplo, mesmo não tendo o engenho. E que anseiam por um pai que consiga passar mais tempo em casa. Será, de coração, a minha próxima missão.
Os tempos mudaram. As responsabilidades aumentaram. Talvez por isso é que Deus nos põe esses novos desafios quando já estamos nos 45. Para sermos capazes de os concretizar.
Hoje festejo 45 anos de gratidão. Já não tenho a força da juventude para tocar várias violas ao mesmo tempo. Que eu saiba discernir o pouco que ainda serei capaz de dar. A inspiração chega através do Bob Dylan e de uma canção que ouvia muito na minha adolescência: “My Back Pages”.
Aqueles dois versos não me saem da cabeça. São eles a minha motivação.

“Ah, but I was so much older then
I’m younger than that now”


Um abraço sentido a todos os meus amigos. Obrigado por esta linda viagem.

Miguel

A estrada velha

 

As lições ou exemplos de vida que nos são deixados pelos pais nem sempre se apresentam na primeira pessoa. Muito menos de forma direta. Aparecem nas entrelinhas dos que sabem estar atentos. Nunca falei com o meu pai sobre algo que deixou em mim e que recordo (e uso) frequentemente na minha vida. Tem a ver com as idas ao Porto durante a minha infância. Não foram muitas as viagens mas, sempre que nos deslocávamos ao Porto, o meu pai escolhia sempre a estrada velha. “Por São João era melhor”, insistia eu repetidamente. Mas o meu pai escolhia sempre ir pelo fundo do concelho passando por Lourosa. Pelo caminho, ao volante do saudoso toyota corolla branco, ia apontando casas de colegas seus ou da minha mãe e recordando histórias da sua juventude no mesmo percurso que nessa altura era percorrido pela Feirense até ao Seminário de Vilar. Só alguns anos mais tarde interiorizei o valor deste gesto. As idas eram ao Porto, mas as viagens eram sempre ao passado, aos amigos que sabemos já não rever, aos lugares e às pessoas onde, a certa altura e num certo tempo, deixámos o melhor de nós mesmos.
Estás de parabéns, Pedro. Esta é a forma que hoje escolhi para te abraçar.
A variante é o caminho de todos os dias para o trabalho, mas hoje queria dizer-te que vim pela estrada velha. Há coisas que estão diferentes. Há lugares mais arranjados e passeios e parques a tornar o caminho mais bonito. Há mais carros e, vê lá tu, até as pessoas parecem mais. Há ainda muito de bom para apreciar e onde nos podemos perder. Mas não me sai da cabeça as vezes que vínhamos dos ensaios da banda no carro do meu pai, tanto os da tarde como os da noite. Há muita amizade escrita ao longo desses 7 km de estrada num tempo onde ainda éramos pequenos e os outros é que estavam obrigados a ser grandes.
Hoje não me vou alongar, amigo. Bem sabes que escreveria 100 páginas de um só fôlego para festejar este dia. Não vai ser o caso. Queria apenas que soubesses que vim pela estrada velha. Foram 10 minutos. Foram mais de 40 anos. É uma eternidade.
Hei-de ser criança até o dia em que a morte me levar.
Parabéns.

Two roads diverged in a wood, and I
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
            The Road Not Taken, Robert Frost

Filho, não trazes, por acaso, uma faca?

Olá mãe.
Hoje estás de parabéns. São 80 anos, uma idade bonita, a condizer contigo.
O dia amanheceu bem cedo e, à hora habitual, lá estava eu juntamente com os meus irmãos para te ajudarmos a levantar e te darmos o pequeno-almoço. Um ritual que se repete já perdido no tempo e que hoje em tudo foi igual. Ou por outra, quase tudo... Porque ao despedir-me, mesmo sem que ninguém notasse, toquei um bocadinho mais na tua mão.
Foi guiado por essa mão que entrei pela primeira vez na escola primária onde me apresentaste os amigos Eduardo e Paulo Daniel. Não eram uns meninos quaisquer. Eram amigos bons que se tornaram pessoas boas cujo percurso vou acompanhando à distância e que me fazem constantemente lembrar de ti.
Foi também guiado por essa mão que saía de casa aos domingos pouco depois das 7h da manhã a caminho da igreja. Quando comecei a tocar os primeiros cânticos, nas manhãs de inverno, carregavas tu os livros para que pudesse conservar as minhas mãos quentinhas dentro dos bolsos e não me atrapalhar quando chegasse a hora de tocar. Nos dias de hoje, a cada domingo que passa, de cada vez que abro os livros para tocar na igreja, lembro-me constantemente de ti.
Agarrado a essa mesma mão fui tantas vezes à feira na vila quando ela ainda se fazia por outros locais bem diferentes dos de hoje. As calças eram o produto mais requisitado mas ficam na memória aquelas chuteiras da marca “Rei” para usar no recém-criado torneio de futebol do parque. A cada dia 5 e 20, quando chego à vila para trabalhar na Academia e levo mais tempo a estacionar porque há feira, nesses segundos enquanto procuro estacionamento, lembro-me constantemente de ti. Sempre.
Agarrado a essa mesma mão que tantos mimos me dispensou, fui, pela primeira vez, a um ensaio de teatro. Os papéis eram passados por ti, lembras-te? Tudo à mão e com caneta azul e vermelha. Tenho todos organizados numa gaveta como quem guarda o melhor de nós mesmos. E a cada ensaio, a cada nova peça, lembro-me constantemente de ti. Se ainda conseguisses discernir as coisas com naturalidade estou certo que ficarias feliz de saber que atualmente sou o presidente do GCRR.
Essa tua mão levou-me ainda vezes sem conta nas visitas que fazias às tuas irmãs a Sinja e à Lomba onde consigo ainda ver-te com um xaile bege que usavas com frequência. Numa altura em que os marcos dos hectómetros ainda estavam todos intactos, por vezes largavas-me a mão e eu corria até ao próximo marco para me sentar nele à tua espera enquanto vinhas ao meu encontro a sorrir. Sabes, de cada vez que ligo o pisca do carro para regressar a casa, lembro constantemente essas pequenas corridas de 100 metros.
Foi ainda essa tua mão que me salvou a vida naquele dia 17 de julho de 1991 quando pensava que cada respiração iria ser a última. E tu deste-me de novo à luz nesse novo parto que moldaria a minha vida para sempre.
Gostava de conseguir recordar contigo todas estas memórias e tantas outras que trago comigo. Bem sei que já não te recordas quem sou nem sequer do meu nome. Mesmo assim, há dias em que venho para casa com um sorriso maior, como aquele em que chamaste pela Isabelita. Gostamos muito de te ter connosco.
Neste dia tão especial trago-te um texto do antigo livro de leitura da escola primária, lembras-te?

Filho és, pai serás

Há muito tempo, num país distante, um homem, vendo que o seu pai já era velho e não podia trabalhar, resolveu livrar-se dele.
Assim, num certo dia de Inverno, pegou numa manta e numa broa e convidou o pai a acompanhá-lo até ao cimo de um monte.
Chegado lá, o filho disse ao pai que não o podia alimentar e que, por isso, ali o deixava.
O pai, de lágrimas nos olhos pela tristeza de se ver assim tratado pelo filho, ainda teve forças para lhe perguntar:
- Filho, não trazes, por acaso, uma faca?
- Para que a quer, meu pai?
- Olha, filho, lembrei-me de cortar esta manta e esta broa ao meio para que leves uma parte para casa.
- Para quê, pai? – perguntou o filho, intrigado com a atitude do velho.
- É para o teu filho te dar quando fores velho como eu e já não puderes trabalhar...
O filho olhou o pai e, compreendendo a lição que este lhe dera, chorou de arrependimento e trouxe-o de novo para casa onde o tratou com carinho até à hora da sua morte.

Cá em casa não são precisas facas, mãe. Todos os dias te colocamos uma mantinha sobre o corpo para que passes o dia mais quentinha e confortável.
Em tempos, na minha meninice, costumava perguntar-te:
- E se eu não fosse desta casa?
Respondias-me que eu era teu filho e que, por isso, tinha de ser desta casa. Eu insistia com frequência e tu acrescentavas que se eu não fosse desta casa me ias buscar onde eu estivesse. Como eu não era fácil de convencer lembro-me de perguntar:
- E se tu não soubesses o caminho?
Dizias-me que sabias os caminhos todos e que me ias buscar onde eu estivesse porque eu era desta casa.
Hoje passas os teus dias sentada num cadeirão e sou eu que quero dizer-te que se tu não fosses desta casa era eu que te ia buscar onde quer que tu estivesses.
Gosto muito de ti e quero passar todos os dias contigo a encher o saco velho da memória. Porque há-de chegar o dia em que terei de o abrir e será muito melhor encontrá-lo bem cheio.
Obrigado por me teres levado sempre pela mão.
Um dia hei-de voltar a deixar-me ir por onde me levares. Hoje pode muito bem ser esse dia.
Gosto muito de ti. Gostamos. Mesmo que já não saibas quem nós somos. Mas nós sabemos bem quem tu és. E isso faz toda a diferença.
Tenho muitas saudades do teu colo.
Parabéns.

Do teu filho mais novo,
Miguel

A terra dos sonhos

Diz o Jorge Palma que “na terra dos sonhos podes ser quem tu és”.
Confesso que nem nos melhores sonhos imaginava algo assim. É por isso que digo constantemente que ainda bem que há gente que é muito melhor do que nós. 
Em Rossas, ali bem junto à escola primária, num tempo em que as portas das casas ficavam abertas durante o dia, havia uma casa pequenina. A entrada era feita pela parte de trás, onde umas escadas rosadas davam acesso a uma cozinha. Ao fundo dessas escadas foram muitas as vezes que ergui a canastra à tua avó depois de ela trazer sardinha da boa.
Ontem, enquanto fazias a tua atuação de consagração, com o troféu nas mãos, lembrei-me disso e de um dia em particular quando era aluno do ciclo preparatório. O teu pai precisava de sair do ciclo para resolver algo no centro da vila (com o conhecimento da tua avó), mas não tinha a respetiva autorização para sair do recinto da escola. O plano haveria de sair da minha cabeça. Tirei o meu cartão da carteira e copiei exatamente o que lá estava escrito trocando, obviamente, os nomes: “Autorizo que o meu educando...”, etc, etc... Não sei se o teu pai ainda guarda esse cartão mas, embora com o nome da tua avó, são a minha letra e a minha assinatura que estão lá. E foi assim que o plano teve sucesso e o teu pai foi, nesse dia, em plena tarde, ao centro da vila.
Há quem diga que “o Homem nunca é tão grande como quando está de joelhos” e essa foi a imagem mais marcante da noite: ver o teu pai de joelhos. Emociona, muito além da forma como cantaste. Sabes que na minha meninice, a maior parte de nós tinha por Arouca o mundo inteiro. Passados tantos anos o teu pai (e a tua mãe, restante família e amigos, certamente) escancarou-te as portas do mundo. O mais que um pai pode desejar para os seus filhos é que estes sejam muito melhores do que eles foram.
Tu és grande, Simão. Obrigado por me teres emocionado na noite de ontem. Se continuares assim, embora não seja nada fácil, vais ser ainda maior que o teu pai.
Um abraço.

Miguel

O Chalana e o Simão

 

Olá Simão.
Imagina um tempo em que eu era mais pequenino. Ainda mais novo do que tu.
Em Rossas, o edifício da escola primária estava diferente do que vemos hoje. No recinto do recreio, os postes das balizas eram pedras colocadas no chão e a bola (quando existia) era quase sempre de borracha. As equipas eram feitas depois de um par ou ímpar entre dois colegas. Podes não acreditar mas, nesse campo, joguei vezes sem conta com o Chalana, não sei se já ouviste falar... Claro que não era mesmo o meu grande ídolo de infância, aquele que aos domingos à tarde o Ribeiro Cristóvão relatava na Rádio Renascença e que fazia as delícias dos adeptos do Benfica. Era o outro, o meu colega de escola primária e que viria ainda a ser da minha turma também no primeiro ano do ciclo preparatório. Era assim que chamávamos ao teu pai nessa altura. Porque embora pequeninos, queríamos ser grandes. E a sê-lo, escolhíamos os melhores. Por isso nos intervalos corríamos e brincávamos como se o Benfica (ou o Porto e o Sporting, conforme as preferências de cada um) estivesse todo nos nossos pés. O Ribeiro Cristóvão nunca esteve em Rossas mas poderia ter feito relatos de autênticas finais se tivesse visto o Quiquinho, o Pedro do Neca e o do Selmo, o Eduardinho ou eu e o teu pai. Havia habilidades para todos os gostos.
O tempo passa por nós num piscar de olhos. Hoje trabalho na Academia de Música e o teu pai já foi até Presidente da Junta de Freguesia. Vamo-nos encontrando aqui e ali, trocamos dois dedos de conversa, umas risadas e voltamos ao nosso dia-a-dia e às nossas obrigações.
Gostei de ver o teu pai na televisão. E enquanto cantavas eu ia lembrando todas as pequenas histórias da minha meninice em que o teu pai também era protagonista.
Tens o talento natural para estar num palco. Não só no fado mas também na representação. A tua performance e a tua postura só pode encher os arouquenses de orgulho. Claro que os concursos são o que são... Só um levará o prémio embora eu tenha visto e ouvido lá vários vencedores. Naquele palco passaram muitos meninos e meninas com talento bem acima da média. Mas nós gostamos dos que são nossos. E tu, agora és nosso. É por isso que embora não considere que sejas o candidato mais forte gostava muito que ganhasses. Por tudo o que escrevi acima.
Se num jogo de futebol tivesse de escolher entre o teu pai e o verdadeiro Chalana para jogar pela minha equipa a escolha era óbvia: seria o teu pai. Porque é isso que fazemos com os amigos, com aqueles a quem queremos bem. Porque no fim do jogo o Chalana continuaria a ser o Chalana, mas o teu pai continuaria a ser meu amigo.
Para mim, hoje, diria que és o Carlos do Carmo assim mais ou menos como o teu pai é o Chalana.
E embora isso seja o menos importante, gostava muito que ganhasses. Quanto mais não fosse, para ver o teu pai a sorrir na televisão e poder lembrar os meus filhos que tive o prazer de ser seu amigo no longínquo tempo da minha escola primária.
Um abraço.

Miguel

Evocando a Palmirinha da Póvoa

Hoje o telefone tocou. Por coincidência, ao mesmo tempo que o som do sino da igreja entrava pela casa dentro. Do outro lado estava uma voz amiga a cumprir o triste dever de me informar da partida da "Palmirinha da Póvoa".
Era ainda uma criança quando conheci a Palmirinha. Foi pela mão da minha mãe (literalmente) que cheguei ao meu primeiro ensaio de teatro. A peça, da qual já não recordo o nome e que seria protagonizada apenas por crianças, nunca viria a chegar a cena. Mas a Palmirinha, felizmente, não deixaria de continuar a tentar. A acreditar. Por várias vezes a receita repetia-se. Lançava-se as sementes à terra. Uma nova peça ficava na calha. Até que chegou uma altura em que as sementes começaram a dar fruto.
Sob a orientação da Palmirinha entrei em vários espetáculos de teatro. Primeiro em participações em pequenos números, entreatos ou cançonetas e, um pouco mais tarde, em pequenos papéis nas peças de teatro protagonizadas pelos atores mais talentosos que Rossas tinha na altura. Foi assim que comecei, "amparado" pelo Fernando Antunes, pelo Fernando do Souto, pelo Fernando Pinho, pelo Zé Mário, pelo Arménio, pela Isabelita, pelo Alexandre, pelo Zé António, pelo Mário, pela Carmo ou pela Vira. Tudo isto ao lado dos amigos da minha idade como o Tono, o Pedro, o Rui, o Sérgio ou a Belinha. A minha mãe fazia o ponto e a Palmirinha era a encenadora. Parecia ter sempre a resposta certa para todas as dúvidas de "representação". É um talento com que se nasce e a Palmirinha trazia-o com ela como quem leva uma criança pelo colo.
Era ainda muito novo para perceber os sacrifícios que a vida nos obriga a fazer. Com os pais doentes e uma vida de trabalho, a Palmirinha era quase sempre a última a chegar aos ensaios. Era já com os atores a contracenarem que entrava pela porta, apressada, tirando os livrinhos de uma pequena saquita que sempre a acompanhava. Os dedos das mãos mostravam bem as marcas duras de uma vida de trabalho. Na década de 90 desentendemo-nos. Tivemos visões diferentes daquilo que poderia ser o futuro do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas, associação da qual sou o atual presidente e de que a Palmirinha, sócia n.º 4, para além de primeira encenadora, foi fundadora. Uma das principais, acrescente-se.
Carreguei comigo durante bastante tempo o fardo de ver a Palmirinha afastada do mundo do teatro. Embora sempre para o mesmo lado e mais ou menos à mesma velocidade, o mundo dá muitas voltas. Foi assim que ainda no tempo em que o Mário Soares presidia ao GCRR se falava em homenagear a Palmirinha. Um responsabilidade que herdei aquando da minha primeira eleição a 22 de outubro de 2017. Nessa altura, Palmirinha, voltámos até a ensaiar um orfeão. Criámos a revista "APARTE" que fiz com que os exemplares lhe chegassem às mãos. Recordo, agora com saudade, a noite em que me telefonou a agradecer o gesto e se teria de pagar alguma assinatura. O que eu me ri com isso, Palmirinha. Tentei explicar-lhe que a honra estava do nosso lado ao poder oferecer-lhe algumas memórias escritas em papel. Creio que foi a primeira vez que falei consigo a dar-lhe conta da intenção de lhe fazermos uma homenagem. Chegámos a ter encontro marcado em sua casa para eu lhe explicar o que estaríamos a pensar fazer. Levaria a Vira comigo para falarmos mais à vontade. Infelizmente, a Palmirinha haveria de ter o AVC no decorrer dessa semana e as coisas esmoreceram. Lembro-me que nesse telefonema, antes de desligar, me recomendou: "nunca deixes o grupo desviar-se daquilo para o qual foi criado: cultura e recreio". Eu sorri e respondi: "fique descansada. Não esqueço".
Honra me seja feita, se há algo que repito constantemente nos nossos espetáculos e nos nossos ensaios é que devemos honrar os que nos precederam. Os que sonharam antes de nós.
Quem ajuda a fundar uma associação e dá movimento ao teatro, à cultura e ao recreio durante tantos anos, com tanta dedicação e envolvendo tanta gente, não deveria partir assim, de forma apagada e quase solitária.
Hoje o sino tocou.
Por esta altura a Palmirinha estará já em cena, num outro sítio, a preparar um novo espetáculo juntamente com o Sr. Brandão da Seca, a Celestinha da Portela ou o Sr. Silva dos Carreiros.
Por momentos, lembro as palavras de um texto escrito na extinta Defesa de Arouca que evocava o saudoso leiloeiro "Galo". Dizia esse texto que quem vive assim não deveria partir desta forma. Deveria, isso sim, morrer no fim de um verso ou no refrão de uma canção. Acrescento eu: "e com uma ovação de pé".

Miguel Brandão
Sócio n.º 9 e atual Presidente do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas

JMJ 1997 - Paris


Carta aberta aos amigos que participaram comigo nas JMJ de Paris - 1997

Em agosto de 1997 participei nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) que se realizaram em Paris. Foram 10 dias em que me desprendi de tudo o que conhecia para ir ao encontro de Deus. O que é mais intrigante é que o fiz praticamente na companhia de gente que não conhecia. Foi com eles que vivi 10 dos melhores dias da minha vida. O coração parecia arder-me por dentro, de tal forma que, cada vez que recordo, ele parece ainda estar em brasa.
Esta semana resolvi levar tudo mais longe e desatei a procurar o que ainda tivesse guardado e que me pudesse transportar para esses dias. Chorei muito, acreditem. Tudo o que encontrei ajudou a avivar o que trazia na memória e, sobretudo, no coração. O padre Misael hoje, na homilia, chamou-lhe Kairós: aquele momento em que damos de caras com Deus. Esta semana deixei que Ele me levasse pela mão e o resultado está nestas linhas.
Quando os meus pais me deram a permissão para ir às JMJ sabia apenas que teria o Tono (o meu melhor amigo, grande Rambo) e o Nuno como companheiros de jornada. Depressa se juntaram alguns aventureiros de Arouca que passaria a conhecer melhor nesses 10 dias. Se a memória não me atraiçoa éramos 13: o padre Nuno, eu, o Tono, o Nuno, a Xani, a Cláudia, o João, o Francisco, o Luís, a Márcia, o Fernando, a Goreti e a Isabel.
Antes de seguirmos em direção a Paris era necessária uma paragem mais a sul de França numa cidade chamada Agen. Por aí estivemos 4 ou 5 dias em que cada um dormiu numa família que lhe calhou em sorte. Nunca falei tanto francês na minha vida. À minha espera estava uma família linda, cheia de bondade, a quem nunca conseguirei agradecer o tanto que me deram em tão pouco tempo. Felizmente, o meu "francês" não era muito enferrujado e conseguíamos comunicar. Como jackpot, o facto de terem um piano em casa, embora pouco lhe tenha tocado pois parava lá pouco tempo. Felizmente, tínhamos o tempo bem organizado e preenchido com muitas atividades. E há tantas histórias que merecem ser eternizadas. Espero estar à altura...
Quem caiu logo no "goto" de toda a malta foi o Fernando que, nas palavras dele, de francês, só sabia dizer "je" e "oui". O que nós nos ríamos. Ele bem tentava mas só lhe saía "oh la la" e "tinonite". De tal forma que passamos apenas a chamá-lo assim durante todas as JMJ. A primeira noite foi a tal em que fomos lançados às feras, individualmente. No dia seguinte, todos queriam contar as suas peripécias de como se tinham saído a falar francês. Ainda ouço a gargalhada que soltei quando o Fernando contava que ao explicar à sua família que fazia jazigos eles ficaram a pensar que o pai dele tinha morrido. Delicioso. Lembro-me também do Nuno dizer que morava com o "vinte e cinco". Na realidade, chamava-se Vincent mas, como era parecido com vingt-cinq...
Numa das manhãs, Fernando, trouxeste duas bicicletas e fomos dar uma volta. Parámos depois na tua família e o teu "pai" deu-nos um aperitivo que eu queria beber mesmo antes de se juntar água.Ai se não eras tu, lembras-te? Tivemos uma festa nessa noite e o teu "pai" só te dizia com aquele sotaque francês impecável: "Ó Fernandô, tu estás fodidô"... Ahahah! Mas olha que eu não estava muito melhor. Eles nem sequer deixavam tocar em água. Foi aí que conhecemos a Nini, quando já vínhamos embora. Vimos que era portuguesa pela camisola. Estava um bocadinho deslocada e tentámos animá-la logo ali. Foi assim que no dia seguinte já tínhamos uma nova amiga na viagem de autocarro e que trazia também a irmã: a Milu. Um jackpot. Gente boa e que nos fez ser maiores quando pensávamos que o limite já há muito estava ultrapassado.
Fomos visitar uma espécie de cave onde ofereciam um vinho no final. Repetimos várias vezes. Ainda estou a ver o padre Nuno a dizer ao garçon que o servia: "isto é a pior coisinha que vocês têm aí, não é?!" e ele, sem perceber nada, lá respondia: "Oui, oui"! E nós sempre a rir. Ahahah.
Lembro ainda o Jean a quem, em jeito de brincadeira, ensinámos as palavras-chave: obrigado, sim, não, c@r@lh&, filh@ da p&&& e Son-go-ku.
Um dos momentos altos foi a criação dos "MAMAR: Movimento dos Animais do Mar" que teve direito a hino e tudo. Os dois primeiros versos foram da autoria do Tono (grande Rambo) usando a música do Dragonball. O resto ficou por minha conta...

Animais do Mar
Bolas de Berlim
Apalpam as gajas
E elas a mim

Animais do Mar
Sempre a mamar
Mesmo que digam
Que estás-me a estorvar

Animais do Mar
Nas suas lambretas
Andam sem mãos
Para as pôr na tetas

Animas do Mar
Só podem ser
Já estão na cama
Prontos para o amanhecer

Depois haveríamos de seguir para Paris onde tantas outras histórias haverá para contar. A começar pelas cerca de 15 torneiras que tinha para o banho e que demorámos aí um quarto de hora para saber como se ligava... Ahahah! Lembras-te, Francisco?! Tenho saudades de nos juntarmos aos grupos de seis com senhas para comermos a fantástica ração de combate.
Foi a primeira vez que vi a Torre Eiffel. Dizia "J-865 avant 2000".
Tenho saudades das canções que aprendi e que cantávamos no metro, por exemplo.
Quem não se lembra de estar a "assar sardinhas" e do Tico-tico (grande Jorge com a viola. Ainda tentei encontrá-lo pela net mas sem sucesso) ou do Vitó que tinha uma gaita. Já para não falar no "Et ils sont, et ils sont, et ils sont phénoménaux".
Lembro-me de andar na Roda Gigante quando ninguém acreditava e do Nuno ser expulso do Louvre por ter ido para a água. Levaram-no por uma porta e ele entrou por outra. Excelente.
Lembro-me das canções brasileiras cantadas pelo padre Nuno. Algumas foram aproveitadas para cantarmos em coro como o "Tum, tum, tum, bateu" ou a "Maria" e a "Romaria" da Elis Regina. E que delícia eram os fados do padre Pedro.
Num dos dias em Paris tivemos uma festa à noite onde me "estraguei" todo (para variar). Foi quando fizeram um jogo em que tínhamos de cantar sempre que nos tocavam nas costas. Fiquei em terceiro lugar mas dei alto show. De tal forma que mesmo não tendo ganho, no dia seguinte todos me davam os parabéns.
Lembro ainda com muita saudade a Alice, a nossa guia em Paris. De uma bondade difícil de igualar.
Francisco, lembras-te de termos "pedido emprestado" uma fotografia de uma rapariga na casa onde dormimos só para dizermos aos nossos colegas que tínhamos "engatado" uma rapariga?!... Ahahah! Inolvidável.
No meio de tanta brincadeira houve lugar para muitos momentos de partilha, de amizade, de encontro, de ressurreição. Ficaram na minha memória as conversas com a Nini e a Milu (muitas saudades) de quem recebi duas cartas já depois das JMJ terem terminado. Sim, ainda tenho tudo bem guardado numa daquelas gavetas em que só eu estou autorizado a mexer.
No Longchamp foi o êxtase. Lembram-se de gritarmos por Timor quando o Papa João Paulo II chamou por Portugal?
Depois... Bem, depois o tempo estava a chegar ao fim. A frase "infelizmente amanhã temos que ir embora" ainda hoje rasga cá por dentro.
Guardo muitas destas memórias no pequeno diário verde que escrevi nesses dias. Assim é mais fácil transportá-las na memória e no coração.
Foram 10 dos melhores dias da minha vida. Obrigado a todos.
Para quando um reencontro?

Miguel Brandão
(um verdadeiro Animal do Mar)


"Há dias que são mais dias que os outros porque os enchemos de paz e alegria".

Arouca em Casa

Arouca em Casa

Dizem que quem nada espera vê o caminho da felicidade de uma forma mais clara. Talvez haja uma ponta de verdade nessas palavras.
Conheço o Tiago Pinho apenas de vista. Não sei sequer se alguma vez tínhamos falado. O convite para participar no “Arouca em Casa” chegou através do Messenger. Esperava-me uma semana intensa de aulas na universidade (os meus colegas de Mestrado poderão confirmar) com entregas e apresentações de trabalhos onde em algumas das noites o meu encontro com a cama foi já para lá das 5h da manhã. Mesmo não conhecendo pessoalmente o Tiago custou-me bastante recusar o convite. Felizmente, aconteceu esta segunda edição e tive direito a novo convite. Agora sim, um pouco mais folgado nos meus estudos, pude responder de forma positiva e, assim, dar o meu pequeno contributo para uma causa que é bastante maior.
O tempo entre o convite e a atuação era de apenas alguns dias pelo que era urgente decidir o que iria ser apresentado. Mesmo assim perdi alguns dias apenas a pensar no que teria levado o Tiago a fazer-me o convite. Depois, foi deixar-me levar pelo delicioso processo de preparação da atuação.
Há mais de vinte anos, quando ainda morava com os meus pais, era frequente trazer os amigos lá a casa para me ouvirem ao piano, “obrigando-os” a reagir às minhas primeiras criações que registei com especial carinho. Lembro também a tarde em que um amigo do peito se sentou comigo ao piano no dia em que cheguei com o meu primeiro songbook dos Queen. Muito bom quando os primeiros acordes de “It’s a Hard Life” começaram a soar...
Foi assim que se começou a decidir na minha cabeça aquilo que iria ser a minha meia hora no “Arouca em Casa”. Não seria um concerto mas, isso sim, uma espécie de conversa com alguns amigos. Uma troca de memórias. Das boas, claro! Resolvi começar pelas da infância prometendo a mim mesmo que não tocaria o Dartacão; parecia-me demasiado óbvio. Foi um ótimo exercício de “coração e amizade” a seleção desses primeiros temas. Infelizmente, alguns acabaram por não resultar tão bem numa primeira abordagem ao piano e acabaram por ficar fora do alinhamento.
Depois quis de alguma forma transmitir um pouco do que têm sido as minhas noites (é quando consigo tempo livre) neste período de quarentena. Em boa hora decidi procurar a novela “Pedra sobre Pedra” para rever com a Odete. Têm sido serões deliciosos. Nem sequer dá qualquer trabalho pois os episódios estão todos disponíveis no daylimotion ou no youtube. Tudo é tão teatral que acaba por ser como que um verdadeiro workshop na arte de representar: Murilo e Pilar estão soberbos; Cândido Alegria deixa saudade; o Sérgio Cabeleira e aquele modo particular de falar merecem a minha vénia; o talento do Adamastor e o Carlão é enorme; o “retratista” Jorge Tadeu é hilariante; as tropelias da delegada (“delegado é meu marido”) e o seu marido Queirós que viria a dar apelido a um bom amigo na Banda de Arouca deixam saudades; e, claro, a bela Marina Batista que vivia um amor secreto com o Leonardo Pontes aviva em mim as melhores memórias possíveis. Tudo isso volta a colocar-me nos corredores do velho liceu junto de gente de quem nunca larguei a mão. Estava decidido, uma das canções a apresentar teria de ser dessa novela. Optei pelo tema do Murilo e da Pilar. Faz-me lembrar um tempo em que vivia também um amor em segredo. De tal forma que nem o “objeto” desse amor o sabia. Mas quem é que nunca transportou um amor em segredo?! E depois, raios... A Marina Batista até “envelheceu” bastante bem. Mas não digam isso à Odete! Bem, adiante...
Uma viagem pelas memórias através do instagram e do facebook não poderia seguir em frente se o Carlos Paião não tivesse parte ativa. A forma como constrói as letras ensina mais do que vinte telescolas. Aqui a dificuldade em decidir o “vinho do porto” esteve relacionada com o excesso de oferta por parte do compositor.
Depois era também necessário abraçar os amigos do teatro de quem já sinto tanta falta. Felizmente havia também muitas boas músicas para escolher. O regresso aos palcos há-de estar para breve.
Para finalizar optei pela “Festa da Vida” numa escolha um bocadinho egoísta pois é uma canção que me diz muito. Ou talvez não seja assim tão egoísta, exatamente pela mesma razão.
Felizmente deu ainda para satisfazer um desejo do meu filho Tiago com o “Ti Manel das Cebolas” e houve ainda tempo para o meu original “Avião de Papel” de 2007 e que, para os curiosos, podem consultar a letra e ouvir aqui (com desafinações).
Queria agradecer a todos pelas palavras simpáticas que me dispensaram. Desculpem as várias falhas, sobretudo no instagram, durante a transmissão. Peço ainda desculpa pois, como percebo pouco de tecnologia e nunca tinha feito um direto no instagram, acabei por perder todos os comentários que lá deixaram. Assim, foi-me impossível ver o que escreveram. Mas os do facebook já os reli vezes sem conta. Obrigado a todos. Em especial aos que tiveram a ousadia de me mimar com mensagens privadas. Há uma em especial que me tocou muito. Quando for grande eu é que quero ser como tu.
Abraços e beijinhos e muito obrigado por terem proporcionado uma noite assim a um pobre homem como eu.
Para os curiosos deixo o alinhamento da noite.
Até sempre.

Vitinho
Era uma vez... o espaço
O Maestro da Charanga
Super Fantástico
Fábulas da floresta verde
Entre a serpente e a estrela (da novela Pedra sobre Pedra)
Vinho do Porto (Carlos Paião)
Ser Ator
Ti Manel das Cebolas (Popular)
A Festa da Vida (cantada pelo Carlos Mendes na Eurovisão em 1972)
What a Wonderful World

A prima da Odete...

Corria o ano de 1996. Quer dizer, corria não!!! Voava, isso sim! Porque o tempo não espera por ninguém. Será talvez o que vamos fazendo com ele que nos pode tornar um bocadinho mais felizes. Pelo menos é assim que vou aproveitando o pouco que extraio dos meus dias.
Mas, dizia eu, voava o ano de 1996. Tinha começado a namorar com a Odete há poucos dias quando conheci a Cati. Era a prima da Odete que vinha de França. As primeiras memórias que tenho são de uma sede do GCRR minúscula na antiga fábrica dos “Móveis Antunes”. E nós lá estávamos a enrolar papéis para aquela que haveria de ser a primeira tômbola do GCRR. E foi assim que tudo começou. O GCRR tem, de facto, este dom de contruir memórias de ouro para todas as pessoas que estejam atentas. Foi assim que fizemos parte do mesmo grupo de cantares onde tocávamos acordeão, um em cada lado do palco. E foi mais ou menos nessa mesma disposição que apresentamos a “Marcha dos Marinheiros”, por exemplo, em muitos dos espetáculos de teatro do GCRR. Foi nesse mesmo palco que demos vida ao Eduardo Rodrigues e à Silvana D’Abreu na famosa “Uma Bomba Chamada Etelvina” do Henrique Santana e que tanto sucesso teve enquanto esteve em cena.
Eras a prima da Odete...
Passámos também por inúmeras aventuras nos saudosos encontros de jovens onde tinha tanta gente boa e de quem tenho tantas saudades. Penso muito nesses tempos. Muito mesmo! Sou um saudosista, reconheço. Ficámos em 2.º lugar, por apenas 2 pontos, naquele Festival no Palácio de Cristal em 2002 em que poderíamos perfeitamente ter ganho. Olhando agora para lá, a esta distância que é longa em tempo mas curta em gratidão (é como se ainda estivesse lá), ainda bem que não ganhámos. Foi o melhor que nos podia ter acontecido. Senão como teria surgido o fantástico “Eco do meu sim” que nos levou à vitória em 2006?
Acredito profundamente que o segredo da amizade ou das pessoas que admiramos se chama “presença”. É o estar lá, mesmo quando não interessa para nada. Ou, sobretudo, quando não se diz nada. Ou, melhor ainda, quando isso acontece. E eu estive lá, por exemplo, quando entraste para a Faculdade. Ainda me lembro da corrida que demos desde o ICBAS até à Caixa Geral de Depósitos para conseguirmos chegar antes da hora de fecho. A esta distância e com esta tranquilidade dá para rir, sabias?! E estive lá também no “durante”. Quando levava a minha vida solitária pelas ruas do Porto e almoçava sozinho na Reitoria. Cheguei a fazê-lo algumas vezes contigo. Eu cantava sozinho enquanto comia e sem me aperceber, lembras-te? Acho que era uma forma de espantar a minha solidão. E fazia-o sem me dar conta. Mas o importante é que eu estive lá nas vezes em que levaste o teu padrinho para almoçar, se bem me lembro, em alturas especiais, como o aniversário que hoje festejas. E como era bom rever o padre Zé.
Também estive lá no fim do curso. Fomos ver o Abrunhosa e, no final, deixei-te em tua casa no Burgo. Aqui já não era apenas a prima da Odete. Eras a Cati.
Na parte final do meu curso de matemática chegaste a levar-me algumas vezes para o Porto. Terá sido talvez numa dessas viagens que me deste a conhecer a “The Drugs Song” que nunca mais esqueci. Uma memória divertida que me acompanhou desde então.
Entretanto casaste e eu, mais uma vez, estava lá. O Pedro é um rapaz 100%. Foi uma honra compor aquela canção “Tu e Eu”. Terá sido a última grande canção que fiz.
Agora és a minha médica e tens já também a Eva e o Diogo que compõem de forma perfeita a família completa. Uma família que vou observando à distância tentando aproveitar-lhe o exemplo.
Queria apenas dizer-te que tenho poucos amigos. Mesmo poucos. Mas são muito bons. Foste a prima da Odete. Foste a Cati. És minha amiga.
Vemo-nos logo no Baile de Carnaval. Lá está, mais uma vez, o GCRR.
Obrigado.
Um beijinho enorme de parabéns.

Miguel
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