Eu, a Carla, o Nepinhas e o Pedro

“Fui para os bosques para viver livremente,
Para sugar o tutano da vida,
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi”. 

Houve um tempo em que éramos mais novos. Não havia tempo para grandes preocupações. Ou então as nossas grandes preocupações é que não eram assim tão grandes. Passavam por não perder o relato do Benfica aos domingos à tarde, levar um novo truque de cartas para mostrar ao Nepinhas na escola no dia seguinte, levar algumas moedas para o bilhar no Cheiro Verde com o Pedro e ter uma roupa lavadinha preparada para não fazer figura triste no liceu junto à Carla nas aulas da manhã. O resto aparecia feito.
No auge da vida, eram assim os meus dias. E nada mais sonhava para além disso. Continuar assim era chegar mais além.
Deus foi muito generoso comigo e, na altura apropriada, ofereceu-me bons amigos, assim como um pai que pousa na mão do filho um saco de berlindes ainda a reluzir. Dentre esses há os que, ainda que mal comparado, são como os berlindes que ainda tenho naquela caixa pousada no sótão que só eu sei onde está e apenas eu estou autorizado a mexer.
Mas, dizia eu, Deus foi muito generoso comigo. É preciso é saber ler nas entrelinhas. Estar atento aos sinais. Abraçar cada momento como se fosse único. E depois é deixarmo-nos ir por onde a alma nos levar. Ela sabe o caminho.
O encontro foi no domingo. Desde aí não paro de olhar a foto. Mas não é um olhar qualquer. É quase como se estivesse no átrio do Colégio de Welton a ser instigado a fazê-lo da melhor forma possível pelo John Keating. É por isso que aqueles rostos que a fotografia parou no tempo são muito mais do que isso. Falam de tanta coisa que, às tantas, queremos lá ficar muito tempo. Foi assim que no domingo fui “para os bosques”.
Depois de uma resolução de ano novo como há muito não tinha, consegui cumprir alguns sonhos antigos. Este domingo realizou-se mais um deles.
O primeiro a chegar foi o Nepinhas. Uma espécie de pontualidade britânica. Enquanto esperávamos fomos logo tratando de começar a planear o futuro almoço/jantar do antigo 10.º/11.ºB numa conversa que envolveu javali à mistura.
Depois chegou o Pedro no seu jeito natural que me lembra sempre os tempos em que foi o meu melhor amigo e que, por isso, me deixa sempre uma sensação agridoce a cada reencontro.
Por último chegou a Carla acompanhada pelo filhote. Trazia consigo um álbum de fotografias e uma caixinha também cheia de fotos e outras boas recordações. A tarde prometia. A foto que há mais de vinte anos tinha ficado gravada na minha memória, aquela que eternizou os momentos antes da minha entrada em palco em pleno Palácio de Cristal tinha sido finalmente trazida pela Carla.
E foi assim que passámos os quatro uma tarde inteira sentados à mesa a conversar.
Tudo o que a Carla trazia dentro daquela caixinha milagrosa foi apenas o acender o rastilho para todos os episódios engraçados que fomos recordando dos tempos em que partilhámos os mesmos corredores e até a mesma sala de aula. Partilhámos risos e saudades. Não tinha noção de que as fotos eram em tamanha quantidade. Foi bom ver imagens de passeios da escola, o interior da antiga sala de Religião e Moral, aquele festival vicarial e diocesano da canção que tanto me marcou (e que tinha tantas fotos que desconhecia).
Um pouco à pressa também mostrei algumas fotos que andam perdidas cá por casa mas haverá mais, certamente, a partilhar. Como alguns bilhetes que trocámos na altura e que ainda estão guardados religiosamente, e não é só cá em casa.
O tempo passou a uma velocidade vertiginosa. Nem sequer deu para tocar um bocadinho de piano a lembrar esses dias gloriosos. Mas é mesmo assim. Não se pode fazer logo tudo num primeiro reencontro.
Para um homem solitário como eu, ter, no mesmo domingo, reunidas três pessoas que, cada uma a seu tempo e à sua maneira, foram a certa altura da minha vida os meus melhores amigos, é algo digno de registo.
Os caminhos da vida são sinuosos e estreitos. Mas podem levar-nos a sítios que nunca ousamos sequer imaginar. A estes meus companheiros de domingo devo um agradecimento enorme por me terem levado, por um bom par de horas, até “aos bosques”. Porque só se é realmente livre quando se está com amigos. É este o verdadeiro tutano da vida.
Até um ano destes.

1 comentários:

Alexandre Noites disse...

É isso mesmo Miguel. à parte aqueles momentos em família, pertença de um patamar diferente, nada melhor que estar na cavaqueira com verdadeiros amigos.
É por isso que faz-me imensa confusão quando vejo, frequentemente, um grupo de pessoas reunidas a dedilhar furiosamente nos telemóveis. Estão juntas apenas fisicamente. Está a perder-se a arte da boa convivência.