Filho, não trazes, por acaso, uma faca?

Olá mãe.
Hoje estás de parabéns. São 80 anos, uma idade bonita, a condizer contigo.
O dia amanheceu bem cedo e, à hora habitual, lá estava eu juntamente com os meus irmãos para te ajudarmos a levantar e te darmos o pequeno-almoço. Um ritual que se repete já perdido no tempo e que hoje em tudo foi igual. Ou por outra, quase tudo... Porque ao despedir-me, mesmo sem que ninguém notasse, toquei um bocadinho mais na tua mão.
Foi guiado por essa mão que entrei pela primeira vez na escola primária onde me apresentaste os amigos Eduardo e Paulo Daniel. Não eram uns meninos quaisquer. Eram amigos bons que se tornaram pessoas boas cujo percurso vou acompanhando à distância e que me fazem constantemente lembrar de ti.
Foi também guiado por essa mão que saía de casa aos domingos pouco depois das 7h da manhã a caminho da igreja. Quando comecei a tocar os primeiros cânticos, nas manhãs de inverno, carregavas tu os livros para que pudesse conservar as minhas mãos quentinhas dentro dos bolsos e não me atrapalhar quando chegasse a hora de tocar. Nos dias de hoje, a cada domingo que passa, de cada vez que abro os livros para tocar na igreja, lembro-me constantemente de ti.
Agarrado a essa mesma mão fui tantas vezes à feira na vila quando ela ainda se fazia por outros locais bem diferentes dos de hoje. As calças eram o produto mais requisitado mas ficam na memória aquelas chuteiras da marca “Rei” para usar no recém-criado torneio de futebol do parque. A cada dia 5 e 20, quando chego à vila para trabalhar na Academia e levo mais tempo a estacionar porque há feira, nesses segundos enquanto procuro estacionamento, lembro-me constantemente de ti. Sempre.
Agarrado a essa mesma mão que tantos mimos me dispensou, fui, pela primeira vez, a um ensaio de teatro. Os papéis eram passados por ti, lembras-te? Tudo à mão e com caneta azul e vermelha. Tenho todos organizados numa gaveta como quem guarda o melhor de nós mesmos. E a cada ensaio, a cada nova peça, lembro-me constantemente de ti. Se ainda conseguisses discernir as coisas com naturalidade estou certo que ficarias feliz de saber que atualmente sou o presidente do GCRR.
Essa tua mão levou-me ainda vezes sem conta nas visitas que fazias às tuas irmãs a Sinja e à Lomba onde consigo ainda ver-te com um xaile bege que usavas com frequência. Numa altura em que os marcos dos hectómetros ainda estavam todos intactos, por vezes largavas-me a mão e eu corria até ao próximo marco para me sentar nele à tua espera enquanto vinhas ao meu encontro a sorrir. Sabes, de cada vez que ligo o pisca do carro para regressar a casa, lembro constantemente essas pequenas corridas de 100 metros.
Foi ainda essa tua mão que me salvou a vida naquele dia 17 de julho de 1991 quando pensava que cada respiração iria ser a última. E tu deste-me de novo à luz nesse novo parto que moldaria a minha vida para sempre.
Gostava de conseguir recordar contigo todas estas memórias e tantas outras que trago comigo. Bem sei que já não te recordas quem sou nem sequer do meu nome. Mesmo assim, há dias em que venho para casa com um sorriso maior, como aquele em que chamaste pela Isabelita. Gostamos muito de te ter connosco.
Neste dia tão especial trago-te um texto do antigo livro de leitura da escola primária, lembras-te?

Filho és, pai serás

Há muito tempo, num país distante, um homem, vendo que o seu pai já era velho e não podia trabalhar, resolveu livrar-se dele.
Assim, num certo dia de Inverno, pegou numa manta e numa broa e convidou o pai a acompanhá-lo até ao cimo de um monte.
Chegado lá, o filho disse ao pai que não o podia alimentar e que, por isso, ali o deixava.
O pai, de lágrimas nos olhos pela tristeza de se ver assim tratado pelo filho, ainda teve forças para lhe perguntar:
- Filho, não trazes, por acaso, uma faca?
- Para que a quer, meu pai?
- Olha, filho, lembrei-me de cortar esta manta e esta broa ao meio para que leves uma parte para casa.
- Para quê, pai? – perguntou o filho, intrigado com a atitude do velho.
- É para o teu filho te dar quando fores velho como eu e já não puderes trabalhar...
O filho olhou o pai e, compreendendo a lição que este lhe dera, chorou de arrependimento e trouxe-o de novo para casa onde o tratou com carinho até à hora da sua morte.

Cá em casa não são precisas facas, mãe. Todos os dias te colocamos uma mantinha sobre o corpo para que passes o dia mais quentinha e confortável.
Em tempos, na minha meninice, costumava perguntar-te:
- E se eu não fosse desta casa?
Respondias-me que eu era teu filho e que, por isso, tinha de ser desta casa. Eu insistia com frequência e tu acrescentavas que se eu não fosse desta casa me ias buscar onde eu estivesse. Como eu não era fácil de convencer lembro-me de perguntar:
- E se tu não soubesses o caminho?
Dizias-me que sabias os caminhos todos e que me ias buscar onde eu estivesse porque eu era desta casa.
Hoje passas os teus dias sentada num cadeirão e sou eu que quero dizer-te que se tu não fosses desta casa era eu que te ia buscar onde quer que tu estivesses.
Gosto muito de ti e quero passar todos os dias contigo a encher o saco velho da memória. Porque há-de chegar o dia em que terei de o abrir e será muito melhor encontrá-lo bem cheio.
Obrigado por me teres levado sempre pela mão.
Um dia hei-de voltar a deixar-me ir por onde me levares. Hoje pode muito bem ser esse dia.
Gosto muito de ti. Gostamos. Mesmo que já não saibas quem nós somos. Mas nós sabemos bem quem tu és. E isso faz toda a diferença.
Tenho muitas saudades do teu colo.
Parabéns.

Do teu filho mais novo,
Miguel

A terra dos sonhos

Diz o Jorge Palma que “na terra dos sonhos podes ser quem tu és”.
Confesso que nem nos melhores sonhos imaginava algo assim. É por isso que digo constantemente que ainda bem que há gente que é muito melhor do que nós. 
Em Rossas, ali bem junto à escola primária, num tempo em que as portas das casas ficavam abertas durante o dia, havia uma casa pequenina. A entrada era feita pela parte de trás, onde umas escadas rosadas davam acesso a uma cozinha. Ao fundo dessas escadas foram muitas as vezes que ergui a canastra à tua avó depois de ela trazer sardinha da boa.
Ontem, enquanto fazias a tua atuação de consagração, com o troféu nas mãos, lembrei-me disso e de um dia em particular quando era aluno do ciclo preparatório. O teu pai precisava de sair do ciclo para resolver algo no centro da vila (com o conhecimento da tua avó), mas não tinha a respetiva autorização para sair do recinto da escola. O plano haveria de sair da minha cabeça. Tirei o meu cartão da carteira e copiei exatamente o que lá estava escrito trocando, obviamente, os nomes: “Autorizo que o meu educando...”, etc, etc... Não sei se o teu pai ainda guarda esse cartão mas, embora com o nome da tua avó, são a minha letra e a minha assinatura que estão lá. E foi assim que o plano teve sucesso e o teu pai foi, nesse dia, em plena tarde, ao centro da vila.
Há quem diga que “o Homem nunca é tão grande como quando está de joelhos” e essa foi a imagem mais marcante da noite: ver o teu pai de joelhos. Emociona, muito além da forma como cantaste. Sabes que na minha meninice, a maior parte de nós tinha por Arouca o mundo inteiro. Passados tantos anos o teu pai (e a tua mãe, restante família e amigos, certamente) escancarou-te as portas do mundo. O mais que um pai pode desejar para os seus filhos é que estes sejam muito melhores do que eles foram.
Tu és grande, Simão. Obrigado por me teres emocionado na noite de ontem. Se continuares assim, embora não seja nada fácil, vais ser ainda maior que o teu pai.
Um abraço.

Miguel

O Chalana e o Simão

 

Olá Simão.
Imagina um tempo em que eu era mais pequenino. Ainda mais novo do que tu.
Em Rossas, o edifício da escola primária estava diferente do que vemos hoje. No recinto do recreio, os postes das balizas eram pedras colocadas no chão e a bola (quando existia) era quase sempre de borracha. As equipas eram feitas depois de um par ou ímpar entre dois colegas. Podes não acreditar mas, nesse campo, joguei vezes sem conta com o Chalana, não sei se já ouviste falar... Claro que não era mesmo o meu grande ídolo de infância, aquele que aos domingos à tarde o Ribeiro Cristóvão relatava na Rádio Renascença e que fazia as delícias dos adeptos do Benfica. Era o outro, o meu colega de escola primária e que viria ainda a ser da minha turma também no primeiro ano do ciclo preparatório. Era assim que chamávamos ao teu pai nessa altura. Porque embora pequeninos, queríamos ser grandes. E a sê-lo, escolhíamos os melhores. Por isso nos intervalos corríamos e brincávamos como se o Benfica (ou o Porto e o Sporting, conforme as preferências de cada um) estivesse todo nos nossos pés. O Ribeiro Cristóvão nunca esteve em Rossas mas poderia ter feito relatos de autênticas finais se tivesse visto o Quiquinho, o Pedro do Neca e o do Selmo, o Eduardinho ou eu e o teu pai. Havia habilidades para todos os gostos.
O tempo passa por nós num piscar de olhos. Hoje trabalho na Academia de Música e o teu pai já foi até Presidente da Junta de Freguesia. Vamo-nos encontrando aqui e ali, trocamos dois dedos de conversa, umas risadas e voltamos ao nosso dia-a-dia e às nossas obrigações.
Gostei de ver o teu pai na televisão. E enquanto cantavas eu ia lembrando todas as pequenas histórias da minha meninice em que o teu pai também era protagonista.
Tens o talento natural para estar num palco. Não só no fado mas também na representação. A tua performance e a tua postura só pode encher os arouquenses de orgulho. Claro que os concursos são o que são... Só um levará o prémio embora eu tenha visto e ouvido lá vários vencedores. Naquele palco passaram muitos meninos e meninas com talento bem acima da média. Mas nós gostamos dos que são nossos. E tu, agora és nosso. É por isso que embora não considere que sejas o candidato mais forte gostava muito que ganhasses. Por tudo o que escrevi acima.
Se num jogo de futebol tivesse de escolher entre o teu pai e o verdadeiro Chalana para jogar pela minha equipa a escolha era óbvia: seria o teu pai. Porque é isso que fazemos com os amigos, com aqueles a quem queremos bem. Porque no fim do jogo o Chalana continuaria a ser o Chalana, mas o teu pai continuaria a ser meu amigo.
Para mim, hoje, diria que és o Carlos do Carmo assim mais ou menos como o teu pai é o Chalana.
E embora isso seja o menos importante, gostava muito que ganhasses. Quanto mais não fosse, para ver o teu pai a sorrir na televisão e poder lembrar os meus filhos que tive o prazer de ser seu amigo no longínquo tempo da minha escola primária.
Um abraço.

Miguel

Evocando a Palmirinha da Póvoa

Hoje o telefone tocou. Por coincidência, ao mesmo tempo que o som do sino da igreja entrava pela casa dentro. Do outro lado estava uma voz amiga a cumprir o triste dever de me informar da partida da "Palmirinha da Póvoa".
Era ainda uma criança quando conheci a Palmirinha. Foi pela mão da minha mãe (literalmente) que cheguei ao meu primeiro ensaio de teatro. A peça, da qual já não recordo o nome e que seria protagonizada apenas por crianças, nunca viria a chegar a cena. Mas a Palmirinha, felizmente, não deixaria de continuar a tentar. A acreditar. Por várias vezes a receita repetia-se. Lançava-se as sementes à terra. Uma nova peça ficava na calha. Até que chegou uma altura em que as sementes começaram a dar fruto.
Sob a orientação da Palmirinha entrei em vários espetáculos de teatro. Primeiro em participações em pequenos números, entreatos ou cançonetas e, um pouco mais tarde, em pequenos papéis nas peças de teatro protagonizadas pelos atores mais talentosos que Rossas tinha na altura. Foi assim que comecei, "amparado" pelo Fernando Antunes, pelo Fernando do Souto, pelo Fernando Pinho, pelo Zé Mário, pelo Arménio, pela Isabelita, pelo Alexandre, pelo Zé António, pelo Mário, pela Carmo ou pela Vira. Tudo isto ao lado dos amigos da minha idade como o Tono, o Pedro, o Rui, o Sérgio ou a Belinha. A minha mãe fazia o ponto e a Palmirinha era a encenadora. Parecia ter sempre a resposta certa para todas as dúvidas de "representação". É um talento com que se nasce e a Palmirinha trazia-o com ela como quem leva uma criança pelo colo.
Era ainda muito novo para perceber os sacrifícios que a vida nos obriga a fazer. Com os pais doentes e uma vida de trabalho, a Palmirinha era quase sempre a última a chegar aos ensaios. Era já com os atores a contracenarem que entrava pela porta, apressada, tirando os livrinhos de uma pequena saquita que sempre a acompanhava. Os dedos das mãos mostravam bem as marcas duras de uma vida de trabalho. Na década de 90 desentendemo-nos. Tivemos visões diferentes daquilo que poderia ser o futuro do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas, associação da qual sou o atual presidente e de que a Palmirinha, sócia n.º 4, para além de primeira encenadora, foi fundadora. Uma das principais, acrescente-se.
Carreguei comigo durante bastante tempo o fardo de ver a Palmirinha afastada do mundo do teatro. Embora sempre para o mesmo lado e mais ou menos à mesma velocidade, o mundo dá muitas voltas. Foi assim que ainda no tempo em que o Mário Soares presidia ao GCRR se falava em homenagear a Palmirinha. Um responsabilidade que herdei aquando da minha primeira eleição a 22 de outubro de 2017. Nessa altura, Palmirinha, voltámos até a ensaiar um orfeão. Criámos a revista "APARTE" que fiz com que os exemplares lhe chegassem às mãos. Recordo, agora com saudade, a noite em que me telefonou a agradecer o gesto e se teria de pagar alguma assinatura. O que eu me ri com isso, Palmirinha. Tentei explicar-lhe que a honra estava do nosso lado ao poder oferecer-lhe algumas memórias escritas em papel. Creio que foi a primeira vez que falei consigo a dar-lhe conta da intenção de lhe fazermos uma homenagem. Chegámos a ter encontro marcado em sua casa para eu lhe explicar o que estaríamos a pensar fazer. Levaria a Vira comigo para falarmos mais à vontade. Infelizmente, a Palmirinha haveria de ter o AVC no decorrer dessa semana e as coisas esmoreceram. Lembro-me que nesse telefonema, antes de desligar, me recomendou: "nunca deixes o grupo desviar-se daquilo para o qual foi criado: cultura e recreio". Eu sorri e respondi: "fique descansada. Não esqueço".
Honra me seja feita, se há algo que repito constantemente nos nossos espetáculos e nos nossos ensaios é que devemos honrar os que nos precederam. Os que sonharam antes de nós.
Quem ajuda a fundar uma associação e dá movimento ao teatro, à cultura e ao recreio durante tantos anos, com tanta dedicação e envolvendo tanta gente, não deveria partir assim, de forma apagada e quase solitária.
Hoje o sino tocou.
Por esta altura a Palmirinha estará já em cena, num outro sítio, a preparar um novo espetáculo juntamente com o Sr. Brandão da Seca, a Celestinha da Portela ou o Sr. Silva dos Carreiros.
Por momentos, lembro as palavras de um texto escrito na extinta Defesa de Arouca que evocava o saudoso leiloeiro "Galo". Dizia esse texto que quem vive assim não deveria partir desta forma. Deveria, isso sim, morrer no fim de um verso ou no refrão de uma canção. Acrescento eu: "e com uma ovação de pé".

Miguel Brandão
Sócio n.º 9 e atual Presidente do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas

JMJ 1997 - Paris


Carta aberta aos amigos que participaram comigo nas JMJ de Paris - 1997

Em agosto de 1997 participei nas Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) que se realizaram em Paris. Foram 10 dias em que me desprendi de tudo o que conhecia para ir ao encontro de Deus. O que é mais intrigante é que o fiz praticamente na companhia de gente que não conhecia. Foi com eles que vivi 10 dos melhores dias da minha vida. O coração parecia arder-me por dentro, de tal forma que, cada vez que recordo, ele parece ainda estar em brasa.
Esta semana resolvi levar tudo mais longe e desatei a procurar o que ainda tivesse guardado e que me pudesse transportar para esses dias. Chorei muito, acreditem. Tudo o que encontrei ajudou a avivar o que trazia na memória e, sobretudo, no coração. O padre Misael hoje, na homilia, chamou-lhe Kairós: aquele momento em que damos de caras com Deus. Esta semana deixei que Ele me levasse pela mão e o resultado está nestas linhas.
Quando os meus pais me deram a permissão para ir às JMJ sabia apenas que teria o Tono (o meu melhor amigo, grande Rambo) e o Nuno como companheiros de jornada. Depressa se juntaram alguns aventureiros de Arouca que passaria a conhecer melhor nesses 10 dias. Se a memória não me atraiçoa éramos 13: o padre Nuno, eu, o Tono, o Nuno, a Xani, a Cláudia, o João, o Francisco, o Luís, a Márcia, o Fernando, a Goreti e a Isabel.
Antes de seguirmos em direção a Paris era necessária uma paragem mais a sul de França numa cidade chamada Agen. Por aí estivemos 4 ou 5 dias em que cada um dormiu numa família que lhe calhou em sorte. Nunca falei tanto francês na minha vida. À minha espera estava uma família linda, cheia de bondade, a quem nunca conseguirei agradecer o tanto que me deram em tão pouco tempo. Felizmente, o meu "francês" não era muito enferrujado e conseguíamos comunicar. Como jackpot, o facto de terem um piano em casa, embora pouco lhe tenha tocado pois parava lá pouco tempo. Felizmente, tínhamos o tempo bem organizado e preenchido com muitas atividades. E há tantas histórias que merecem ser eternizadas. Espero estar à altura...
Quem caiu logo no "goto" de toda a malta foi o Fernando que, nas palavras dele, de francês, só sabia dizer "je" e "oui". O que nós nos ríamos. Ele bem tentava mas só lhe saía "oh la la" e "tinonite". De tal forma que passamos apenas a chamá-lo assim durante todas as JMJ. A primeira noite foi a tal em que fomos lançados às feras, individualmente. No dia seguinte, todos queriam contar as suas peripécias de como se tinham saído a falar francês. Ainda ouço a gargalhada que soltei quando o Fernando contava que ao explicar à sua família que fazia jazigos eles ficaram a pensar que o pai dele tinha morrido. Delicioso. Lembro-me também do Nuno dizer que morava com o "vinte e cinco". Na realidade, chamava-se Vincent mas, como era parecido com vingt-cinq...
Numa das manhãs, Fernando, trouxeste duas bicicletas e fomos dar uma volta. Parámos depois na tua família e o teu "pai" deu-nos um aperitivo que eu queria beber mesmo antes de se juntar água.Ai se não eras tu, lembras-te? Tivemos uma festa nessa noite e o teu "pai" só te dizia com aquele sotaque francês impecável: "Ó Fernandô, tu estás fodidô"... Ahahah! Mas olha que eu não estava muito melhor. Eles nem sequer deixavam tocar em água. Foi aí que conhecemos a Nini, quando já vínhamos embora. Vimos que era portuguesa pela camisola. Estava um bocadinho deslocada e tentámos animá-la logo ali. Foi assim que no dia seguinte já tínhamos uma nova amiga na viagem de autocarro e que trazia também a irmã: a Milu. Um jackpot. Gente boa e que nos fez ser maiores quando pensávamos que o limite já há muito estava ultrapassado.
Fomos visitar uma espécie de cave onde ofereciam um vinho no final. Repetimos várias vezes. Ainda estou a ver o padre Nuno a dizer ao garçon que o servia: "isto é a pior coisinha que vocês têm aí, não é?!" e ele, sem perceber nada, lá respondia: "Oui, oui"! E nós sempre a rir. Ahahah.
Lembro ainda o Jean a quem, em jeito de brincadeira, ensinámos as palavras-chave: obrigado, sim, não, c@r@lh&, filh@ da p&&& e Son-go-ku.
Um dos momentos altos foi a criação dos "MAMAR: Movimento dos Animais do Mar" que teve direito a hino e tudo. Os dois primeiros versos foram da autoria do Tono (grande Rambo) usando a música do Dragonball. O resto ficou por minha conta...

Animais do Mar
Bolas de Berlim
Apalpam as gajas
E elas a mim

Animais do Mar
Sempre a mamar
Mesmo que digam
Que estás-me a estorvar

Animais do Mar
Nas suas lambretas
Andam sem mãos
Para as pôr na tetas

Animas do Mar
Só podem ser
Já estão na cama
Prontos para o amanhecer

Depois haveríamos de seguir para Paris onde tantas outras histórias haverá para contar. A começar pelas cerca de 15 torneiras que tinha para o banho e que demorámos aí um quarto de hora para saber como se ligava... Ahahah! Lembras-te, Francisco?! Tenho saudades de nos juntarmos aos grupos de seis com senhas para comermos a fantástica ração de combate.
Foi a primeira vez que vi a Torre Eiffel. Dizia "J-865 avant 2000".
Tenho saudades das canções que aprendi e que cantávamos no metro, por exemplo.
Quem não se lembra de estar a "assar sardinhas" e do Tico-tico (grande Jorge com a viola. Ainda tentei encontrá-lo pela net mas sem sucesso) ou do Vitó que tinha uma gaita. Já para não falar no "Et ils sont, et ils sont, et ils sont phénoménaux".
Lembro-me de andar na Roda Gigante quando ninguém acreditava e do Nuno ser expulso do Louvre por ter ido para a água. Levaram-no por uma porta e ele entrou por outra. Excelente.
Lembro-me das canções brasileiras cantadas pelo padre Nuno. Algumas foram aproveitadas para cantarmos em coro como o "Tum, tum, tum, bateu" ou a "Maria" e a "Romaria" da Elis Regina. E que delícia eram os fados do padre Pedro.
Num dos dias em Paris tivemos uma festa à noite onde me "estraguei" todo (para variar). Foi quando fizeram um jogo em que tínhamos de cantar sempre que nos tocavam nas costas. Fiquei em terceiro lugar mas dei alto show. De tal forma que mesmo não tendo ganho, no dia seguinte todos me davam os parabéns.
Lembro ainda com muita saudade a Alice, a nossa guia em Paris. De uma bondade difícil de igualar.
Francisco, lembras-te de termos "pedido emprestado" uma fotografia de uma rapariga na casa onde dormimos só para dizermos aos nossos colegas que tínhamos "engatado" uma rapariga?!... Ahahah! Inolvidável.
No meio de tanta brincadeira houve lugar para muitos momentos de partilha, de amizade, de encontro, de ressurreição. Ficaram na minha memória as conversas com a Nini e a Milu (muitas saudades) de quem recebi duas cartas já depois das JMJ terem terminado. Sim, ainda tenho tudo bem guardado numa daquelas gavetas em que só eu estou autorizado a mexer.
No Longchamp foi o êxtase. Lembram-se de gritarmos por Timor quando o Papa João Paulo II chamou por Portugal?
Depois... Bem, depois o tempo estava a chegar ao fim. A frase "infelizmente amanhã temos que ir embora" ainda hoje rasga cá por dentro.
Guardo muitas destas memórias no pequeno diário verde que escrevi nesses dias. Assim é mais fácil transportá-las na memória e no coração.
Foram 10 dos melhores dias da minha vida. Obrigado a todos.
Para quando um reencontro?

Miguel Brandão
(um verdadeiro Animal do Mar)


"Há dias que são mais dias que os outros porque os enchemos de paz e alegria".

Arouca em Casa

Arouca em Casa

Dizem que quem nada espera vê o caminho da felicidade de uma forma mais clara. Talvez haja uma ponta de verdade nessas palavras.
Conheço o Tiago Pinho apenas de vista. Não sei sequer se alguma vez tínhamos falado. O convite para participar no “Arouca em Casa” chegou através do Messenger. Esperava-me uma semana intensa de aulas na universidade (os meus colegas de Mestrado poderão confirmar) com entregas e apresentações de trabalhos onde em algumas das noites o meu encontro com a cama foi já para lá das 5h da manhã. Mesmo não conhecendo pessoalmente o Tiago custou-me bastante recusar o convite. Felizmente, aconteceu esta segunda edição e tive direito a novo convite. Agora sim, um pouco mais folgado nos meus estudos, pude responder de forma positiva e, assim, dar o meu pequeno contributo para uma causa que é bastante maior.
O tempo entre o convite e a atuação era de apenas alguns dias pelo que era urgente decidir o que iria ser apresentado. Mesmo assim perdi alguns dias apenas a pensar no que teria levado o Tiago a fazer-me o convite. Depois, foi deixar-me levar pelo delicioso processo de preparação da atuação.
Há mais de vinte anos, quando ainda morava com os meus pais, era frequente trazer os amigos lá a casa para me ouvirem ao piano, “obrigando-os” a reagir às minhas primeiras criações que registei com especial carinho. Lembro também a tarde em que um amigo do peito se sentou comigo ao piano no dia em que cheguei com o meu primeiro songbook dos Queen. Muito bom quando os primeiros acordes de “It’s a Hard Life” começaram a soar...
Foi assim que se começou a decidir na minha cabeça aquilo que iria ser a minha meia hora no “Arouca em Casa”. Não seria um concerto mas, isso sim, uma espécie de conversa com alguns amigos. Uma troca de memórias. Das boas, claro! Resolvi começar pelas da infância prometendo a mim mesmo que não tocaria o Dartacão; parecia-me demasiado óbvio. Foi um ótimo exercício de “coração e amizade” a seleção desses primeiros temas. Infelizmente, alguns acabaram por não resultar tão bem numa primeira abordagem ao piano e acabaram por ficar fora do alinhamento.
Depois quis de alguma forma transmitir um pouco do que têm sido as minhas noites (é quando consigo tempo livre) neste período de quarentena. Em boa hora decidi procurar a novela “Pedra sobre Pedra” para rever com a Odete. Têm sido serões deliciosos. Nem sequer dá qualquer trabalho pois os episódios estão todos disponíveis no daylimotion ou no youtube. Tudo é tão teatral que acaba por ser como que um verdadeiro workshop na arte de representar: Murilo e Pilar estão soberbos; Cândido Alegria deixa saudade; o Sérgio Cabeleira e aquele modo particular de falar merecem a minha vénia; o talento do Adamastor e o Carlão é enorme; o “retratista” Jorge Tadeu é hilariante; as tropelias da delegada (“delegado é meu marido”) e o seu marido Queirós que viria a dar apelido a um bom amigo na Banda de Arouca deixam saudades; e, claro, a bela Marina Batista que vivia um amor secreto com o Leonardo Pontes aviva em mim as melhores memórias possíveis. Tudo isso volta a colocar-me nos corredores do velho liceu junto de gente de quem nunca larguei a mão. Estava decidido, uma das canções a apresentar teria de ser dessa novela. Optei pelo tema do Murilo e da Pilar. Faz-me lembrar um tempo em que vivia também um amor em segredo. De tal forma que nem o “objeto” desse amor o sabia. Mas quem é que nunca transportou um amor em segredo?! E depois, raios... A Marina Batista até “envelheceu” bastante bem. Mas não digam isso à Odete! Bem, adiante...
Uma viagem pelas memórias através do instagram e do facebook não poderia seguir em frente se o Carlos Paião não tivesse parte ativa. A forma como constrói as letras ensina mais do que vinte telescolas. Aqui a dificuldade em decidir o “vinho do porto” esteve relacionada com o excesso de oferta por parte do compositor.
Depois era também necessário abraçar os amigos do teatro de quem já sinto tanta falta. Felizmente havia também muitas boas músicas para escolher. O regresso aos palcos há-de estar para breve.
Para finalizar optei pela “Festa da Vida” numa escolha um bocadinho egoísta pois é uma canção que me diz muito. Ou talvez não seja assim tão egoísta, exatamente pela mesma razão.
Felizmente deu ainda para satisfazer um desejo do meu filho Tiago com o “Ti Manel das Cebolas” e houve ainda tempo para o meu original “Avião de Papel” de 2007 e que, para os curiosos, podem consultar a letra e ouvir aqui (com desafinações).
Queria agradecer a todos pelas palavras simpáticas que me dispensaram. Desculpem as várias falhas, sobretudo no instagram, durante a transmissão. Peço ainda desculpa pois, como percebo pouco de tecnologia e nunca tinha feito um direto no instagram, acabei por perder todos os comentários que lá deixaram. Assim, foi-me impossível ver o que escreveram. Mas os do facebook já os reli vezes sem conta. Obrigado a todos. Em especial aos que tiveram a ousadia de me mimar com mensagens privadas. Há uma em especial que me tocou muito. Quando for grande eu é que quero ser como tu.
Abraços e beijinhos e muito obrigado por terem proporcionado uma noite assim a um pobre homem como eu.
Para os curiosos deixo o alinhamento da noite.
Até sempre.

Vitinho
Era uma vez... o espaço
O Maestro da Charanga
Super Fantástico
Fábulas da floresta verde
Entre a serpente e a estrela (da novela Pedra sobre Pedra)
Vinho do Porto (Carlos Paião)
Ser Ator
Ti Manel das Cebolas (Popular)
A Festa da Vida (cantada pelo Carlos Mendes na Eurovisão em 1972)
What a Wonderful World

A prima da Odete...

Corria o ano de 1996. Quer dizer, corria não!!! Voava, isso sim! Porque o tempo não espera por ninguém. Será talvez o que vamos fazendo com ele que nos pode tornar um bocadinho mais felizes. Pelo menos é assim que vou aproveitando o pouco que extraio dos meus dias.
Mas, dizia eu, voava o ano de 1996. Tinha começado a namorar com a Odete há poucos dias quando conheci a Cati. Era a prima da Odete que vinha de França. As primeiras memórias que tenho são de uma sede do GCRR minúscula na antiga fábrica dos “Móveis Antunes”. E nós lá estávamos a enrolar papéis para aquela que haveria de ser a primeira tômbola do GCRR. E foi assim que tudo começou. O GCRR tem, de facto, este dom de contruir memórias de ouro para todas as pessoas que estejam atentas. Foi assim que fizemos parte do mesmo grupo de cantares onde tocávamos acordeão, um em cada lado do palco. E foi mais ou menos nessa mesma disposição que apresentamos a “Marcha dos Marinheiros”, por exemplo, em muitos dos espetáculos de teatro do GCRR. Foi nesse mesmo palco que demos vida ao Eduardo Rodrigues e à Silvana D’Abreu na famosa “Uma Bomba Chamada Etelvina” do Henrique Santana e que tanto sucesso teve enquanto esteve em cena.
Eras a prima da Odete...
Passámos também por inúmeras aventuras nos saudosos encontros de jovens onde tinha tanta gente boa e de quem tenho tantas saudades. Penso muito nesses tempos. Muito mesmo! Sou um saudosista, reconheço. Ficámos em 2.º lugar, por apenas 2 pontos, naquele Festival no Palácio de Cristal em 2002 em que poderíamos perfeitamente ter ganho. Olhando agora para lá, a esta distância que é longa em tempo mas curta em gratidão (é como se ainda estivesse lá), ainda bem que não ganhámos. Foi o melhor que nos podia ter acontecido. Senão como teria surgido o fantástico “Eco do meu sim” que nos levou à vitória em 2006?
Acredito profundamente que o segredo da amizade ou das pessoas que admiramos se chama “presença”. É o estar lá, mesmo quando não interessa para nada. Ou, sobretudo, quando não se diz nada. Ou, melhor ainda, quando isso acontece. E eu estive lá, por exemplo, quando entraste para a Faculdade. Ainda me lembro da corrida que demos desde o ICBAS até à Caixa Geral de Depósitos para conseguirmos chegar antes da hora de fecho. A esta distância e com esta tranquilidade dá para rir, sabias?! E estive lá também no “durante”. Quando levava a minha vida solitária pelas ruas do Porto e almoçava sozinho na Reitoria. Cheguei a fazê-lo algumas vezes contigo. Eu cantava sozinho enquanto comia e sem me aperceber, lembras-te? Acho que era uma forma de espantar a minha solidão. E fazia-o sem me dar conta. Mas o importante é que eu estive lá nas vezes em que levaste o teu padrinho para almoçar, se bem me lembro, em alturas especiais, como o aniversário que hoje festejas. E como era bom rever o padre Zé.
Também estive lá no fim do curso. Fomos ver o Abrunhosa e, no final, deixei-te em tua casa no Burgo. Aqui já não era apenas a prima da Odete. Eras a Cati.
Na parte final do meu curso de matemática chegaste a levar-me algumas vezes para o Porto. Terá sido talvez numa dessas viagens que me deste a conhecer a “The Drugs Song” que nunca mais esqueci. Uma memória divertida que me acompanhou desde então.
Entretanto casaste e eu, mais uma vez, estava lá. O Pedro é um rapaz 100%. Foi uma honra compor aquela canção “Tu e Eu”. Terá sido a última grande canção que fiz.
Agora és a minha médica e tens já também a Eva e o Diogo que compõem de forma perfeita a família completa. Uma família que vou observando à distância tentando aproveitar-lhe o exemplo.
Queria apenas dizer-te que tenho poucos amigos. Mesmo poucos. Mas são muito bons. Foste a prima da Odete. Foste a Cati. És minha amiga.
Vemo-nos logo no Baile de Carnaval. Lá está, mais uma vez, o GCRR.
Obrigado.
Um beijinho enorme de parabéns.

Miguel
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Memórias ao sabor dos Sons da Praça e da Ala dos Namorados

Os sons voltaram à praça no dia 2 de agosto. Desta vez com a Ala dos Namorados em cartaz. Sair de casa para um concerto desta envergadura tem de obedecer a alguns pré-requisitos: com três filhos pequenos há uma lista interminável de problemas que têm de ser antecipados para irem pré-resolvidos. Foi assim que saímos de casa. Pelo caminho levei memórias de um tempo de primeira universidade onde fiz a travessia do mar de amigos até à solidão. Uma ponte muito ténue, diga-se. A Ala dos Namorados ajuda a trazer algumas das boas memórias desses dias. Havia uma canção que ouvia vezes sem conta na extinta Roma Megastore pela voz do Nuno Guerreiro. Ficava completamente embriagado pelo timbre e pelo acompanhamento ao piano que mais parecia sair de um qualquer génio inimitável, como aqueles que ouvi falar nas aulas de História da Música. De Rossas até ao centro da vila transportei essa secreta vontade de, por momentos, voltar a esses dias ao som dessa música. 
Sentámo-nos nos degraus da praça. Confessei o meu segredo à Odete com as palavras: Só espero que cantem “Ao Sul”. Haveria de ser a canção que abriu o espetáculo. O que poderia desejar mais para quem pedia tão pouco? Uma noite de muitas memórias e, sobretudo, muita admiração. Sejamos francos: a Ala vive muito à custa do talento do Manuel Paulo que me conseguiu prender toda a atenção durante todo o concerto. 
Obrigado Ala e obrigado Banda Musical de Arouca pelo ótimo serão. 
Pelo meio ficou aquele orgulho secreto de quem ouviu sons saídos de arranjos que tiveram a minha humilde contribuição. Por isso as “Águas Furtadas”, por exemplo, pareceram ainda mais bonitas. 
Desculpa Pedro não ter marcado presença no jantar. A minha vida é um caos. O Variações bem insiste em dizer-me ao ouvido: “muda de vida”... 
No dia seguinte tudo voltou ao normal. Ou quase tudo... É que as notas do Manuel Paulo foram uma presença constante na minha cabeça. É bom sinal. 
Até para o ano se Deus quiser, se possível, novamente na companhia de toda a família.

O professor Albino e o Orfeão da Escola Secundária de Arouca

Foto:
Orfeão da Escola Secundária de Arouca no salão dos Bombeiros Voluntários de Arouca na primeira metade dos anos 90.

Cheguei ao antigo liceu no ano letivo de 1988/89. Diziam os papéis afixados nas janelas de um dos pavilhões que iria frequentar as aulas da turma do 7.º I. Tinha uma vida nova pela frente. As rotinas não seriam muito diferentes do ano letivo anterior: apanhar o autocarro logo pela manhã na paragem da Barroca, ir em pé, qual sardinha enlatada, a ouvir o António Sala e a Olga Cardoso no programa despertar e depois acordar para o dia no convívio com os colegas e ao som da voz dos professores que nos calhavam em sorte. Apenas o edifício era diferente, tudo o resto era parecido. Havia o bónus, claro, dos novos colegas de turma que eram sempre recebidos de braços abertos, sobretudo para jogar à bola logo pela manhã. Na hora de almoço, a fila da cantina era ainda maior mas, na companhia dos melhores amigos, o tempo pouco importa. No final do dia continuava a esperar-se no centro da vila a camioneta que nos levava de regresso a casa onde encontrávamos os tais “dois braços à nossa espera” como a Amália tão bem eternizou na “Casa Portuguesa”. E temos de ser francos: mesmo sendo geralmente bem comportado tenho de fazer aqui um reconhecimento público aos condutores dos autocarros. Deveriam ser elevados à categoria de santos tais eram as tropelias que tinham de nos aturar. Era este, assim “grosso modo”, o cenário que se poderia pintar aquando da minha chegada ao sétimo ano de escolaridade.
No liceu, o presidente do Conselho Diretivo era o querido professor Albino. Aprendi, em boa hora, a seguir-lhe o exemplo. Há aquelas pessoas que reconhecemos como modelo. Que, dentro do seu modo de vida, nos transmitem serenidade e admiração. Desde cedo o coloquei nessa “prateleira” e, diga-se a verdade, não me dei nada mal com isso. Pelo contrário: recolhi sábios ensinamentos e exemplos de vida. Claro que, sendo eu aluno, estava obviamente do outro lado da barricada. Por isso era comum entre os alunos, nos corredores, ouvir-se o carinhoso nome de “Ovo Estrelado” em lugar de professor Albino. Era o nome de código que num dia qualquer alguém se lembrou de utilizar como alcunha de tão prestigiada personagem.
Lembro-me da primeira vez que o professor Albino se cruzou comigo num dos corredores do liceu era eu um dos alunos mais pequeninos da escola e, por isso mesmo, andava ainda a descobrir as artérias do novo edifício. Deu-me um bom dia acompanhado de um sorriso ao qual retribui com um sorriso envergonhado.
Lembro-me ainda de um ano letivo em que tinha de andar “à boleia” para fazer o regresso a casa pois os horários da escola não eram coincidentes com os dos autocarros. Numa dessas vezes foi o professor Albino que nos levou (a mim e ao Bruno) tendo feito um interrogatório mais ou menos pormenorizado para averiguar porque é que estávamos a regressar dessa forma e não de autocarro mostrando-se sensível ao nosso ponto de vista. Tudo isto, creio, a bordo de um Citroen AX vermelho (perdoem-me se a memória, desta vez, me está a atraiçoar).
Durante o meu percurso pelo liceu era ainda usual as colocações de alguns professores saírem muito tarde. Havia sempre uma ou duas disciplinas que ficávamos algumas semanas ainda sem professor. Aconteceu no 10.º ano a psicologia. Foi assim que durante uns quinze dias, talvez, o professor Albino foi o nosso “stor” de psicologia. Foi nesse mesmo ano que chegou a ter uma conversa séria e responsável com a nossa turma, no início do ano letivo, pois iríamos ter a professora Laurinda a transmitir-nos os conhecimentos na disciplina de matemática. Lembro-me perfeitamente de pedir a nossa colaboração e compreensão. Confesso que nunca mais vi a professora Laurinda desde os meus tempos de liceu. Gosto de imaginar que está bem e que a vida, a partir de certa altura, terá deixado de ser madrasta com ela. É desta forma que a abraço em muitas das viagens que faço pela memória.
A recordação maior que trago do professor Albino tem a ver com o orfeão que orgulhosamente dirigia. Ainda hoje admiro a forma como esse orfeão era criado. O apelo chegava através de um aviso levado às salas pela mão das funcionárias. Todos os interessados eram convidados a dirigir-se ao edifício da cantina no intervalo maior da manhã. Era impressionante a quantidade de alunos que abdicava do tempo desse precioso intervalo para fazer parte do orfeão. À nossa espera estava o professor Albino. Os exercícios de aquecimento de voz eram feitos a correr (o tempo era escasso) e, quando esta começava a fraquejar e a tosse aparecia ele pedia-nos para tentarmos conter a tosse e engolir saliva. Parece que ajudava a “olear” as cordas vocais. Lembro-me de cantar a “Pompa e Circunstância” de E. Elgar ou o “Va Pensiero” de Verdi.
Quando se tem um gene mais voltado para a solidão, como parece ser o meu caso (ou para o "ensimesmismo" como já me disseram), há lugares, pessoas e tempos aos quais gostaríamos muito de voltar. O intervalo das 10h15 que trazia os ensaios do orfeão dirigidos pelo professor Albino é, certamente, um bom exemplo de tudo isso. Deixou-me memórias de (e com) pessoas que jamais ousarei apagar.
Caro professor Albino, agora vale o que vale, mas queria que soubesse que a semente lançada à terra nessa altura deu bom fruto. Serviu de exemplo. Dos bons.
Muito grato, professor. Muito grato.

Um simples aluno, daqueles que gostou muito de andar na escola.

Miguel Brandão

Nota:
Foto gentilmente cedida pela enorme amiga Carla Tomé juntamente com outras duas fotos dessa mesma atuação.

Há alguém que goste tanto de videojogos como tu?

A pergunta que dá o título a este pequeno texto surgiu, há dias, da boca da Odete. Desengane-se o leitor se pensa que está diretamente relacionada com o tempo que gasto a jogar. Nada podia ser mais errado. O tempo que me sobra é pouco ou quase nenhum. Apenas dá para uma partida rápida aqui e ali, e sempre com muitos dias ou semanas de intervalo. É por isso que este texto já anda na minha cabeça há algum tempo e, confesso, era para se chamar “Há muito que deixei de fazer o que gosto”. No entanto, aquela interrogação da Odete levou-me a reorganizar as ideias. A verdade é que soltei um sorriso rasgado e acabei por responder: “Sim. Há muita gente que gosta muito mais de videojogos do que eu”. Ela insistiu: “E em Arouca? Haverá alguém?”. Voltei a sorrir e respondi, hesitando um pouco: “Não sei. Mas há cá muita gente que joga muito mais e melhor do que eu. Há muita malta nova que passa o dia agarrada aos jogos. Eu não tenho vida para isso”. A Odete é bastante perspicaz e continuou: “E da tua idade? Achas que há alguém em Arouca como tu?”. Confesso: fiquei desarmado. Respondi-lhe que era natural que não houvesse. E lembrei-me do seguinte exemplo que usei para lhe responder: “Tenho guardadas, de forma imaculada, todas as análises a jogos do ZX Spectrum e Commodore Amiga da secção MICROMANIA da extinta JND do Jornal de Notícias de 1989 a 1994. É natural que mais alguém tenha feito isso embora não conheça ninguém em Portugal que o tenha feito. O que é menos comum é eu ter ido mais além e ter transformado tudo num PDF, ter feito uma pesquisa na internet até encontrar a capa da revista n.º1 que ainda trazia o rosto da Tina Turner na minha memória, e ter organizado tudo para encadernar para ler e reler.” Ao acabar de responder mostrei-lhe a minha partilha desse documento em PDF num grupo de retrogaming do facebook onde gente que não conheço me agradecia para toda a vida tal partilha. Houve até quem dissesse que eu tinha feito um autêntico serviço público. A Odete sorriu porque apesar de não partilhar esta minha paixão, aceita de forma carinhosa o meu jeito de viver os videojogos.
Não quero (nem vou) com este texto fazer uma descrição detalhada do meu percurso pelos videojogos mas queria deixar aqui alguns aspetos particulares que podem ajudar a justificar a pergunta feita pela Odete.
Em primeiro lugar, é bem provável que tenha mais de um milhar de jogos em formato físico para as mais diferentes máquinas de videojogos. Só um apaixonado por este mundo poderia ter comprado mais de 80 jogos para a PS2 ainda antes de ter a referida máquina. No último mês, aproveitando ótimos negócios no Marketplace, comprei 17 jogos PS4 e 2 jogos XBOX ONE. Mesmo não tendo tempo para jogar gosto de ter a maior parte dos clássicos e de ter uma “biblioteca” bem organizada. No entanto, apesar de me deliciar com algumas das novas produções, são os títulos da minha adolescência que me continuam a despertar maior fascínio.
A minha relação com este mundo é de uma espécie de revolta constante. Há muito que não faço o que gosto. Preenchem-me o tempo com obrigações sem sentido. Talvez seja tempo de uma resolução de ano novo. Veremos se serei capaz de cumprir. Talvez as pessoas só precisem de me entender. Ou, se calhar, nem isso. Apenas aceitar.
Quem é da minha idade sabe muito bem o que é entrar num salão de jogos arcade. Sabe também, por exemplo, que Shinobi, Midnight Resistance, Toki ou Rodland são experiências que não se esquecem. É em nome de muitos desses títulos que continuo a minha demanda. É por isso que estou a dar uma segunda oportunidade à Xbox One comprando digitalmente clássicos como Sensible World of Soccer, uma remasterização do Gods dos famosos Bitmap Brothers e um jogo novo oriundo do Brasil e que é uma excelente homenagem a jogos como Lotus Esprit Turbo Challenge e que tem por título Horizon Chase Turbo.
É por isso que sei que vou ter o remake do Toki que acabou de sair para a Nintendo Switch ainda antes de comprar a consola. Anseio pelo dia que lhe vou deitar as mãos e que o vou acabar de uma ponta a outra antes que o dia se transforme em noite. No fundo é aquela sensação de saber transportar já uma felicidade que, em rigor, ainda não me pertence.
Quando deixei de ser uma criança, talvez aí por volta dos 40, dei conta que devemos dar importância àquilo que realmente é importante. Desde aí, tenho-me focado muito mais no Commodore Amiga e na minha paixão pelos videojogos. Porque gosto de videojogos. Mas, sobretudo, porque gosto do Nuno, do Simão Pedro, do Miguel “Confiança”, do Tono, do Sérgio e do Pedro. Na impossibilidade de seguir o mesmo rumo de vida, encontrei neste mundo peculiar uma forma de chegar mais perto. É a mágoa que trago comigo: que o mundo não tenha sido assim para sempre. Fica aquela nostalgia que me esforçarei por manter. É por isso que os meus raros momentos de “jogatana” acabam quase sempre com a minha MIST ligada onde tenho todo o espólio do Commodore Amiga instalado. E haverá melhor forma de terminar um dia do que estar acompanhado de Kick Off, Rick Dangerous ou Turrican?