E tu, ainda te lembras do Castanhola?

Acontece com frequência quando volto a jogar algum daqueles videojogos que mantenho imaculado nas minhas memórias e que tão bem está desenhado na minha cabeça. Muitas vezes, por paradoxal que possa parecer, para tudo se esfumar, basta voltar a jogá-lo nos dias de hoje. Chega até a dar “medo”, imaginem. Fica-se algum tempo com a cassete ou disquete na mão até nos decidirmos. Porque há jogos que não “envelhecem” muito bem. Ficavam melhores se continuassem como os guardámos na memória. Voltar a jogá-los, muitas vezes, significa o princípio do fim.
Aqueles que tiveram o privilégio de terem passado tardes inteiras com amigos e primos a jogar Jet Set Willy, Chuckie Egg, Emilio Butragueño, Double Dragon ou Target Renegade – só para citar alguns dos que ainda se mantêm bons - certamente saberão a sensação que estou a tentar descrever.
Para um saudosista como eu, é fácil estabelecer um paralelo entre esta sensação própria do mundo dos videojogos e a relação que mantemos com os grandes amigos que fizeram a nossa adolescência e juventude.
Já aqui escrevi textos sobre alguns dos melhores amigos que tive. Alguns deles são como esses videojogos: eram tudo naquela altura da vida mas, nos dias de hoje (e não há mal nenhum nisso pois a vida leva-nos por caminhos bem diferentes), quando os encontramos, muitas vezes nem nos cumprimentamos ou, se o fazemos, não conseguimos ter uma conversa de mais de cinco minutos sem que nos sintamos constrangidos por, no fundo, ao fim desse tempo, estarmos ali a “fazer sala”. Passamos a ser pouco mais do que estranhos. E isso dói. Muito. Mesmo muito.
Mas depois há os outros, os que continuam com igual ou melhor qualidade. Mesmo que os encontros sejam cada vez em menor número. E desses, dos bons, o melhor exemplo será o Nepinhas (quase só eu tinha o privilégio de te chamar assim, lembras-te?).
Voltar a estar contigo é parar o tempo: é ter o liceu ainda na forma antiga. Quando nos encontramos logo começamos a falar das nossas memórias e o tempo nunca chega para dizermos tudo. Nunca “fazemos sala” um para o outro. E isso distingue os que são realmente grandes.
Lembro-me que fomos bons amigos e, felizmente, colegas de carteira em muitas das disciplinas. A primeira excelente memória que tive contigo (e desculpa por partilhá-la aqui) foi na nossa primeira aula ao ar livre de “Produção Vegetal” em que fazíamos um qualquer trabalho e o professor Filipe ia orientando. Até que chamou a atenção dos alunos da turma que estavam naquela zona para uns alporques e como eram feitos. Como andávamos os dois sempre a dizer piadas, quando o professor se distanciou, aproveitei para fazer aquela que seria a minha primeira tentativa de “alfinetada” dizendo uma piadinha para ti. Dizia eu: “Ó Castanhola, o professor diz que isto é uma alporca. Eu sou o “Al” e tu és a “Porca””. Mal sabia eu com quem me estava a meter. Resposta pronta do amigo Nepinhas: “Que eu saiba tu é que costumas ficar por baixo”. Gargalhada geral. Começava aí uma das amizades mais bonitas que já tive. E foram tantas as piadas que trocámos. Tantas e com tanta qualidade... Como teu colega de carteira testemunhei inúmeras graças que ias dizendo e que não haveria livro com páginas suficientes para anotar.
Sabes, tenho saudades dos dias em que, manhã cedo, atravessava o portão do liceu e a primeira pessoa que procurava eras tu. Lembras-te da minha ansiedade quando chegava mortinho por te mostrar mais um truque de cartas que tinha aprendido no dia anterior ao ver o programa do Luís de Matos? E as vezes que passávamos todo o tempo dos intervalos a recordar os episódios dos Trapalhões que, por essa altura, passavam na recém-criada sic?
E quando a professora Deolinda Pires no 12.º ano nos chamou no final da aula depois de nos entregar o primeiro teste? Nós que éramos alunos tão bons e naquele ano não estávamos a estudar nada... Até nisso fomos juntos.
A memória mais engraçada que tenho contigo, infelizmente, não posso contar aqui na sua totalidade. Fica para quando nos encontrarmos outra vez. Tínhamos acabado de entrar nos balneários junto ao campo de futebol pois íamos ter Educação Física. Estávamos já a equipar-nos e entra o Freitas a cantar “Ó oliveira da serra”... A tua resposta, que não posso reproduzir aqui, ainda hoje me provoca gargalhadas. Como aquelas que arrancaste a todos nesse dia. E o Freitas lá ficou todo corado e com o rabo entre as pernas... Mas sempre a rir-se. Sempre.
Gostavas de estar comigo e eu gostava de estar contigo. Ainda gosto. Muito.
Tenho saudades das tuas anedotas, dos teus raciocínios matemáticos, das tuas histórias passadas nos bombeiros e, sobretudo, tenho saudades das nossas brincadeiras no 12º Ano, na sala 7, junto à mesa da Carla e da Susana.
Sabes, gosto de pensar que um dia, numa outra forma de vida, Deus nos dará também a possibilidade de, como Ele, estarmos em mais do que um lado ao mesmo tempo. Se assim for, estou certo que um dos locais onde eu estarei, será nos antigos corredores do liceu com um rapaz de casaco azul e um humor inacreditável. Porque há amigos que ficam. Para sempre.
Chamam-te Castanhola. Para mim serás sempre o Nepinhas.
Parabéns amigo.

Miguel

Até já...

Foto 1:
Membros da Banda Musical de Arouca que foram presenteados com uma medalha de "Mérito e Dedicação" pelos mais de 25 anos prestados ao serviço da Banda.

Foto 2:
Repolho, Cajarana, Cebolinha e Pepé na Festa do Senhor de Urrô de 2015

“A vida é como um cobertor demasiado pequeno. Puxa-se para cima e fica-se com os pés de fora, sacudimo-lo para baixo e ficamos a tremer de frio nos ombros; mas as pessoas bem dispostas conseguem encolher os joelhos e passam uma noite muito confortável.” 

Eis que é chegado o momento em que os joelhos começam a doer e queremos esticar um bocadinho as pernas. Mas sempre sem perder a boa disposição. 
Com 29 anos de Banda, na hora da partida, não é o gosto pela música que mais nos move. Porque dessa forma nunca partiríamos. A dor maior do parto para uma nova vida é olharmos aqueles que ainda lá estão e que connosco foram envelhecendo dentro da mesma Banda ao longo de todo este tempo; vê-los e dizer-lhes adeus. Rasga bem fundo cá por dentro. E ficamos um bocadinho mais tristes porque é precisamente com estes que deveríamos querer continuar. Para sermos ainda mais felizes e durante mais tempo. Mas depois olhamos para o outro lado e sentimos que estamos a fazer o que tem mesmo de ser feito. Porque vamos ser isso mesmo: mais felizes. De outra forma. A lembrar um anúncio alemão que está muito na moda por estes dias. 
É por isso que hoje, na hora da despedida, gostava de dizer-te tantas e tantas coisas. Como um texto que li há já algum tempo do Ricardo Araújo Pereira e onde procuro inspiração e, já agora, copio a ideia base. 
É por isso que hoje gostava de dizer-te que não me recordo (nem sinto especial prazer) do dia em que o meu pai, juntamente com o Sr. Soares, me levou pela primeira vez à casa de ensaio, no seu Toyota Corolla 1200 branco. Não me recordo sequer do meu tio ter fumado três cigarros dentro do carro até aparecer o Renault 5 preto do Valdemar. 
Gostava de dizer-te que não me desmancho a rir de forma descontrolada de cada vez que me recordo daquela festa em que o Sousa borrou as calças quando foi fazer as necessidades de forma aflitiva num canto qualquer e, à tarde, apareceu de calças de ganga azuis e com aquele riso maroto tão característico dele enquanto contava toda aquela peripécia. 
Gostava de dizer-te que não faço a mínima ideia do que são “borboletas” e que não recordo, quase uma a uma, todas as que foram feitas por esses arraias fora, por miúdos e graúdos com a nossa mui nobre farda vestida. Nem recordo com especial sabor esta última Feira das Colheitas onde o Cajarana serviu de cobaia e explicou aos mais novos como se fazia, entre outros, os famosos “drones”, como ele costuma dizer, de forma "moderadamente espetacular". 
Gostava de dizer-te que não me lembro sequer das 354 vezes que o Valdemar me terá dito que eu tinha cara de bombardino, uma das quais em frente ao saudoso Sr. Noites que, depois de me olhar de alto a baixo, lá disparou: “Esse aí tem cara de tudo”. 
Gostava de dizer-te ainda que uma das minhas saídas preferidas não foi aquela em 1996 onde fomos a Coruche e, durante a viagem, se inventou o famoso “grijo” que o “Nazi” popularizou e que surgiu apenas porque estávamos a passar junto a uma tabuleta com indicação para Grijó. Podia ainda dizer-te que não faço a mínima ideia se essa viagem foi feita connosco a cantar o “Vira-Vira” dos Mamonas Assassinas onde trocávamos a palavra “suruba” por “Xarula”. Nós lá saberíamos porquê. E também não faço a mínima ideia (nem sequer tenho saudades) de irmos parte da viagem a picar o “Nazi” com um alfinete onde só parávamos se ele pronunciasse uma certa quantidade de palavras por uma ordem pré-definida por nós de forma mais ou menos aleatória. 
Queria também dizer-te que não vou sentir qualquer falta daqueles almoços e jantares com o Repolho, o Pepé e o Cajarana que me fazem a alma maior. 
Queria dizer-te ainda mais. Queria dizer-te que não dou qualquer valor ao grupo dos “Arrumadores da Banda” e que não acho que tenha sido a melhor ideia que alguém teve dentro desta nossa Instituição nos últimos tempos. E queria dizer-te que não foi, muitas vezes ainda antes do sol raiar, ou então já fora de horas e com algumas caixas sobre o “lombo” que passei os meus melhores últimos momentos na Banda. 
Gostava também de dizer-te que a cada festa feita ao serviço da Banda nunca sinto a falta daqueles que já lá não estão nem me deixo ficar sentado, no meu canto, a recordar muitos dos bons momentos passados com eles quando eu ainda era muito diferente do que sou hoje. 
Queria ainda dizer-te que, para mim, a palavra “Valência” mais não significa do que um clube que milita na primeira divisão espanhola e não me traz uma das melhores memórias enquanto músico da Banda. Queria dizer-te que não volto a ver o filme todo enquanto fecho os olhos por pequeninos momentos. Não volto a sentir o teu abraço, não lembro o hotel, a viagem, o ter o enorme Repolho ao meu lado, os “arrozitos” do Figueiredo e, sobretudo, a célebre canção que compus no início da viagem de regresso com a guitarra que alguém teve a feliz ideia de levar e que fez com que chegasse a Arouca completamente sem voz. Não me lembro sequer de todos os músicos, um a um, terem cantado em alta voz, na traseira (salvo seja) do autocarro: “Está tudo f%...”. E queria dizer-te ainda que não senti qualquer orgulho quando o Movilar (grande Movilar) subiu ao palco para receber um prémio que era nosso e, por isso, também um bocadinho meu; talvez a fatia mais pequena. E queria realçar que não fico com um sorriso nos lábios de cada vez que me lembro destes dias e que não volto a ler várias vezes o texto que na altura escrevi neste mesmo blogue no dia 19 de julho de 2014 pela madrugada dentro, de forma solitária, no meu quarto de hotel, texto esse que celebrizou a querida frase: “Se eu soubesse escrever”. 
Queria dizer-te que os almoços em casa do grande amigo Cajarana não são já uma saudade e que ainda hoje não me cai um lagrimazita pelo canto do olho quando sei que são também estas coisas que estou, momentaneamente, a deixar para trás. 
Queria dizer-te tudo isso e muito mais, mas não posso. Não posso. Não posso mesmo. E não posso porque, se o fizesse, estaria a mentir. 
A Banda Musical de Arouca, aquilo que ela realmente é, está de tal forma entranhada em mim que não poderia, nem queria, nem conseguiria vivê-la de outra forma. Nunca com uma intensidade menor. É por isso que tenho que te largar a mão por uns tempos. De olhos postos no regresso. Mesmo que este, porventura, nunca aconteça. Porque dói mais se for de outra forma. 
A subida ainda é longa, lembras-te? Confesso: tirei os olhos da roda da frente. E ao fazê-lo dei conta que, por agora, não dá mais. Fica adiado o sonho de vestir a farda juntamente com os meus filhos. É chegada a hora da partida. Ouço mais perto o relógio que a vai dar. Felizmente tenho o consolo de guardar boas memórias em número suficientemente grande para me sentir eternamente pertença dessa grande família que é a Banda Musical de Arouca. 
Claro que num percurso tão longo também tive dias e memórias menos boas como aquela em que no final de um ensaio chorei em casa como uma criança até bem depois das 4h da manhã. Mas hoje não lhes dou hipóteses. Faço como a Mafalda Veiga e “guardo apenas o que é bom de guardar”. E há tanto de bom para guardar. Tanto. Memórias e pessoas. Pessoas que marcam e às quais espero voltar. Porque o tempo ajuda a criar laços mas a amizade e o amor é que os tornam fortes. E foram tantas as viagens de autocarro em que tudo se fortaleceu. 
Sábado, no concerto de Natal, é o dia de vestir a farda pela última vez. Ainda com mais orgulho de quando o fiz pela primeira vez, no dia 1 de Abril de 1988. Para mim tudo é já uma enorme saudade. 
E é assim que aproveito para terminar com as palavras que a Odete em tempos me dispensou e que hoje parecem fazer todo o sentido. Acredito profundamente que é a melhor forma de te abraçar e dizer adeus. 

“Uma vez estava a pensar na ressurreição… Comecei por pensar na de Jesus, mas depois continuei a pensar em como todos ressuscitamos. Mozart e Beethoven ressuscitaram na Música; Picasso na Pintura; Camões e Fernando Pessoa na Literatura; outros nos Descobrimentos, na Escultura, na Moda, no Cinema, no Futebol, na Ciência, nas Tarefas Domésticas, na Fábrica, na Família... Jesus no Amor, nas opções humanizantes que nunca tornaram ninguém mais pequenino.… Podemos não ter os dons da sabedoria que imortalizaram nas Ciências e nas Artes tantos homens e mulheres. Mas todos temos talento para a Amizade e o Amor. Dando-lhes uso, o Fernando torna-se mais Pessoa e nós também!” 

Obrigado a todos por hoje eu ser mais pessoa. Mais músico. 

Até já. 

Cebolinha 


“A despedida é tão doce tristeza que continuarei a dizer “boa noite” até que seja de manhã.” 

William Shakespeare 

Gustav Mahler - Sinfonia n.º2 em Dóm "Ressurreição"



O tempo não chega. Nunca. Cada vez menos.
Estudar música é dos desafios mais interessantes que tive nesta minha vida que conta ainda apenas com 39 anos.
Quando em 1994 acabava o ensino secundário e me decidia pela Matemática Aplicada deixando o piano para trás, não imaginava sequer as voltas que a vida ainda haveria de dar e as boas surpresas que esta ainda tinha para me trazer.
Foi duro o caminho que me fez chegar primeiro a professor de Matemática. As colocações eram sempre longe de casa e com o nascimento da pequenina Rita a vida teve de ser repensada. Veio o desemprego e depois veio também o pequenino Tiago para se juntar à Rita. Com a família a mostrar-me forças onde eu julgava nem sequer existirem veio um emprego na Biblioteca Municipal e a possibilidade de estudar Composição na Universidade de Aveiro. Quando consegui finalmente ser "trabalhador-estudante" lembrava as palavras sábias da minha querida professora de piano Marília Rocha e respondi-lhe vezes sem conta, entre dentes, para os meus botões: "Tinhas razão. Aqui estou eu. Tinhas razão".
Entretanto sou agora um Auxiliar de Acção Educativa na Academia de Música de Arouca que, todas as segundas (e um bocadinho às terças e quintas) se desloca a Aveiro para aprender mais e mais. Música, claro está.
Poder fazer a nossa própria música, alargar horizontes ganhando cumplicidade com as mais diversas técnicas de compor é, qualquer que seja a forma, uma ótima (senão a melhor) forma de viver os nossos dias. Depois há vários caminhos a desbravar onde mais não temos que fazer do que deixar a música entrar. É apenas ela que se respira e nada mais.
É difícil explicar a sensação de nos colocarem, a cada instante, olhos nos olhos com Rossini, Beethoven, Brahms, Ligeti e tantos outros. Os maiores entre os melhores.
Resta o senão de apenas poder fazê-lo a "meio-gás". De outra forma tudo seria ainda melhor. E como tu sabes que eu não sou a "meio-gás". Acaba por ser uma luta contra mim mesmo.
No passado dia 27 de novembro puseram-me no Teatro Aveirense com os meus colegas "em frente" a Mahler e à sua "Ressurreição". Ir à Universidade tão pouco tempo por semana faz com que não se esteja entranhado o suficiente para viver tudo do lado de dentro. Para lhe tomar o devido sabor. Por outro lado, deixa-nos apreciar tudo de outra forma, mais à margem e, se calhar, mais racional. E assim consegue-se dar uma dimensão mais aproximada do que realmente estamos a viver.
No meu canto, naquele em que parece ser sempre mais noite, fui vendo caras de risos, de cumplicidade, de gente que é mais gente porque é assim. E deu uma vontade de voltar a ter 20 anos...
Vi selfies que dariam para ilustrar uma bíblia, entre risos e sorrisos de uns para os outros e com os outros. Vi abraços, beijos, carinhos, segredos, partidas, promessas e tanta coisa mais entre gente que se juntou com um objetivo principal: fazer música. Da boa, por sinal. E eu sou mais feliz por poder estar lá. Ainda que em "part-time" e mais na zona da fronteira.
Na hora de entrar para o palco tudo fica para trás. É o tempo de fazer com que o todo seja maior que a soma das partes e de ser mais ou menos aquilo que Mahler um dia felizmente criou, também para nós.
Deixo-vos com uma foto tirada do facebook da Universidade de Aveiro onde se comprova a minha presença no meio do coro e com um vídeo tirado do youtube onde se pode ver e ouvir um pouco do que foi a parte final da sinfonia onde também estou embora, quase irreconhecível.
Hoje à noite, na Casa da Música, há mais. O espetáculo volta a acontecer. Por motivos vários não poderei estar presente. Com grande pena minha. Sei que os meus colegas estarão à altura.
E como eu queria estar lá, à margem de tudo, a ver mais selfies, risos, abraços ou promessas de bem querer.
Hoje sou mais músico. Obrigado.

Algumas boas memórias com o Sérgio

Quando somos pequeninos é muito fácil fazermos amizades. Na minha infância, no recinto da antiga escola primária, fui amigo de dezenas e dezenas de outros meninos que, como eu, aí se deslocavam para brincar. Dentre esses estavam os que se entranhariam mais na minha vida, quanto mais não fosse porque estavam lá comigo a toda a hora. Lembro-me de nuns dias brincar com uns, noutros dias com outros, mas praticamente todos os dias estava lá o Sérgio. E isso deixa marcas. Das boas, felizmente.
Engraçado que quando começo este texto sou atraiçoado pela minha memória. Logo ela que costuma ser tão clara para mim quando aos assuntos da meninice diz respeito. Mas hoje começa logo por falhar. E digo isto pois quando comecei a organizar as primeiras ideias para este texto a primeira coisa que me tentei lembrar foi da tua bicicleta de infância. Desculpa, mas não consegui. Lembro-me bem de eu andar numa pequenina vermelha e toda velha que já tinha sido da minha irmã Isabelita e também recordo de andar numa maiorzinha, também avermelhada, que era do meu irmão. Só quando fiz uns 14 anos o meu pai me deu uma bicicleta “de montanha” que ainda existe e que hei-de recuperar. Quando o meu pai ma ofereceu nos anos foste o primeiro amigo que encontrei quando cheguei com ela novinha a Rossas e, por isso, foste o primeiro a experimentá-la.
Mas, voltando um bocadinho atrás... Consegui lembrar-me de uma bicicleta de crosse azul clarinha com os punhos amarelados que era do teu irmão, de uma vermelha que o Tono tinha e até de uma preta com os punhos vermelhos que era do Paulo mas de ti... nada. Talvez te tivesse acontecido como eu e tenhas, na altura, ficado com a que era do teu irmão. Como eu que tanto tempo usava a que tinha sido da minha irmã. Se calhar, por isso é que não me consegui lembrar. Desculpa.
Mas, felizmente, consigo lembrar-me de muitas outras coisas.
Lembro-me que andávamos juntos nos ensaios do grupo coral dos mais novos e também de, a certa altura, teres feito parte do teu percurso da escola primária em Mansores. Lembro-me também daquela camisola branca com umas riscas verdes e com um jogador na frente que as nossas mães fizeram iguaizinhas e que ainda duraram bastante tempo. E de quando íamos com a “seita” ver filmes para minha casa ou para casa da Sara. Tenho tantas saudades desses amigos... Esses com quem íamos muitos dos dias das nossas férias para a serra e por lá passávamos as tardes na água ou a jogar cartas.
Lembro-me ainda de ter ido contigo certo dia a S. J. da Madeira pois querias comprar alguma roupa e assim passamos a tarde os dois.
Foste ainda meu companheiro de equipa em muitos dos torneios do Sajú e em muitas das festas que fizemos ao serviço da Banda Musical de Arouca. Recordo em especial um regresso de uma festa fora em que à saída, na barroca, o meu clarinete ainda andou uns metros pelo chão. Ai que riso...
Chegámos também a jogar algumas vezes Commodore Amiga (deveriam ter sido mais) que o teu pai também quase comprou para ti.
Lembro-me ainda de ter partilhado o palco contigo no teatro na canção “O Garoto da Rua”, por exemplo. E lembro-me também de ter sido o teu parceiro de equipa na primeiro torneio de malhas organizado pelo GCR Rossas onde até ficamos bem classificados.
Para o futuro, para continuar a reavivar boas memórias, tenho ainda guardada uma carteira que tu e o teu irmão me ofereceram quando regressaram duma viagem que fizeram ao Brasil. O meu irmão haveria de ficar com uma mais azulada com um Porsche e eu fiquei com uma mais avermelhada que tinha estampado uns pássaros tropicais. Cada vez que lhe pego ainda cheira a infância.
Lembro também episódios menos bons como naquele dia em que ao fim da tarde contavas com todo o pormenor o incêndio na carrinha azul do teu pai. E foi assim que mais tarde essa carrinha azul deu lugar a uma vermelha que ainda hoje recordo como a “SX-55-60”. Se calhar os números até estão errados mas foi assim que recordei até aos dias de hoje. Há coisa que nos ficam na memória, sabe-se lá porquê...
Antes de terminar há ainda duas lembranças que gostaria de partilhar. Talvez por serem das minhas favoritas.
A primeira foi no dia em que o Padre Moreira Duarte veio a casa dos meus pais para apresentar o Padre Ramos que seria o novo padre da freguesia. Lembro-me que estávamos vários da “seita” reunidos em minha casa algures numa sala lá em cima e o meu pai lá me chamou a mim e ao meu irmão para conhecer e cumprimentar o novo padre. Lembro-me de estarmos cá em baixo a falar e ouvirmos alguns estrondos que só mais tarde perceberíamos o que seria. Creio que tu e outros que estavam lá em cima tinham saltado da varanda diretos para a estrada para não terem que ir cumprimentar o novo padre. O que nos rimos depois com isso. Ai como eu queria voltar a estar lá...
A memória que guardo com mais carinho, que não irei explicar aqui, mas que os daquele tempo certamente se lembrarão, resume-se a duas frases que agora aqui te deixo. Imagina-me a rir enquanto as escrevo. Se a tua memória ainda não te atraiçoa, certamente te serão familiares: “Michael Night a da home a da fight” e “A Jangalon a da Selva”.
E, por hoje, é mais ou menos isto que queria partilhar contigo. É uma forma de te dar os parabéns e de te dizer que guardo desde esses tempos o carinho que ainda hoje trago por ti. Mesmo que as nossas vidas há muito se tenham desencontrado. É natural. Acredito que faz parte do percurso natural da vida. Mas hei-de estar sempre grato à família do Isaías e da Fernandinha do Paço. A eles devo muito do que sou hoje.
Há um filme antigo do qual gosto muito em que o ator principal termina com a seguinte frase: “Nunca mais tive amigos como quando tinha 12 anos. Mas quem é que tem?”
Parabéns amigo.
Entretanto vou andando pelo facebook para ver como te vão correndo as coisas.
Grande abraço. Também por hoje, mas sobretudo em nome desses muito bons velhos tempos.

Miguel

O Verão de 1992


“Sou alta” - diz a Amizade.
“Sou profundo” – diz o Amor.
E lembram bem, na verdade,
Montanha e vale, ao sol-pôr,
Pois antes que o sol resvale
Ao pélago, onde se banha,
Já dorme em sombras o vale
E há ainda sol na montanha.

As palavras são do poeta João Saraiva. Ainda não as conhecia em 1992 mas hoje parecem fazer todo o sentido.
Quando escrevo este texto estou só. Há uma cadeira encostada a uma parede de pedra e eu encostado à cadeira. E uns pássaros lá ao fundo a mudarem de árvore em árvore e de galho em galho. De vez em quando picam o chão mas depois voltam ao mesmo lufa-lufa. Estes simples pormenores, juntamente com o tempo airoso que se apresenta, não demoram a levar-me, novamente, para outros tempos. Ai, saudade...
A varanda da casa dos meus pais foi, em tempos, um lugar privilegiado. Mesmo já sem o sabor de outros tempos, era a essa varanda que recorria para ficar a olhar para o antigo recinto da escola primária. Só e apenas isso. Antes das grades e, sobretudo, antes do necessário Polo Escolar. Porque mesmo despovoado trazia memórias que não se conseguem escrever. Apenas sei que revolvem as entranhas, enchem o coração e espremem a alma até a última lágrima cair ao chão. Dentre elas, as melhores serão, porventura, as do Verão de 1992. Aquele em que, para além dos amigos do costume, trouxe também os amigos “franceses” Daniel e Jorge (e as suas primas) que durante todo o período de férias marcavam presença nesse recinto sagrado desde os primeiros raios de sol até ao céu ficar escuro como breu onde até a própria noite já há muito se teria deitado.
Para além do meu irmão, do Pedro, do Tono, do Carlos, do Sérgio, do Paulo das Silveiras ou do João do Selmo, tínhamos nessa altura também o Miguel “Confiança” que embora estivesse por Rossas ainda há pouco tempo já se tinha adaptado aos novos colegas e cedo entrou connosco em muitas aventuras. 
Dessa varanda vi, vezes sem conta, a frase “Cá vou eu” que se tornou célebre e nós lá saberemos porquê. O que nos rimos com isso. E aquele dia em que cheguei com a minha bicicleta novinha em folha e me pediste para dar uma volta... Dói um bocado vê-la abandonada na garagem do meu pai e com as mudanças todas estragadas. Um dia destes mando-a consertar só para ter o prazer de conseguir fazer novamente o percurso da Barroca até casa dos meus pais com a roda da frente no ar. Isto, se ainda mantiver a destreza desses dias. Duvido. Mas sonhar não tem limites, não é?
Os jogos de baliza a baliza sem defender com as mãos era uma das brincadeiras favoritas e tantos foram os episódios de buscar a bola ao campo de milho por chutar com força a mais. E eu lembro algumas dessas histórias e as entranhas voltam a revolver cá dentro.
Depois havia também a “ida às cerejas” que certa vez acabou com uma aventura por meio de pirilampos. E lembro-me de algumas vezes levar uma mesa para o coberto onde passávamos a tarde a jogar ao sobe e desce. Esse Verão trouxe ainda a particularidade de trazer umas aventuras extra que obrigaram a fugir por entre o milho.
Hoje, a esta distância, sei que o Verão de 1992 nunca deveria ter terminado. Nunca. Mas terminou. Nem o recinto sobreviveu. Resta apenas a varanda, ainda, para avivar um pouco a memória, voltar a ter amigos e encher o coração.
Os pássaros voltam a mudar de galho lá ao fundo. É hora de voltar ao presente. Antes de me “desligar” do passado, enquanto me levanto, volto a lembrar as palavras de João Saraiva e volto a cabeça para trás para me fixar nas montanhas. Talvez não seja descabido continuar a viver desta forma. Afinal de contas, “há ainda sol na montanha”.

Knack, Trials Fusion e a PS4

No Natal deram-me um presente de sonho. Pelo menos para um amante dos videojogos desde tenra idade como é o meu caso. O ZX Spectrum e o Commodore Amiga já há muito que lá vão pelo que a PS4 recebida foi acolhida de braços bem abertos.
O tempo é que não chega para nada. Os dias já não se contam pelas mesmas horas que se contavam noutros tempos. Os afazeres (extra) que me arranjam quase diariamente foram-se acumulando anos e anos sem fim até que o meu corpo, muito recentemente, tratou de dizer à minha cabeça que já não dava para mais. Já não dá para aguentar, pura e simplesmente porque o corpo, de facto, já não aguenta. Como é possível “não ser possível” sequer jogar umas cartas, descansadinho, em casa? Já não me lembro da última vez que o fiz, nem sequer em que ano terá sido. E eu até tenho boa memória...Mas adiante!
Na altura em que a PS4 aterrou lá em casa eu ainda tive uns diazitos na época natalícia para desenhar em mim a ilusão de que era ainda um adolescente. E foi assim que ainda consegui acabar o simpático Knack (não está à altura de um Ratchet & Clank mas consegue ser divertido) e perder algumas horas com o excelente Trials Fusion. Um autêntico vício. Excelente.
Depois tudo foi ficando paradinho lá em casa, sem tempo para qualquer uso. Sabiamente, aos poucos, fui enriquecendo a minha coleção de jogos a pensar nas férias que se avizinham. É certo que os tempos são mesmo outros e as férias grandes, com o tempo, foram ficando cada vez mais pequenas. Mesmo assim espero conseguir realizar a minha “vingança”. E para o fazer basta apenas conseguir, nesses dias, dar uma espreitadela aos jogos que tenho na prateleira ainda por experimentar: Destiny, Far Cry 4, Metro Redux, The Last of Us, Assassin’s Creed IV, Wolfenstein, Killzone ou The Order 1886 entre outros. Ora digam lá se não se avizinham umas férias bastante “mais ou menos”?
Aviso já os meus amigos que assim que entrar de férias, poucos serão os dias e as horas em que o meu telemóvel estará ligado. O meu objetivo, a longo prazo, será mesmo prescindir de tal empecilho durante os 365 dias do ano. Porque gente a dar-me que fazer é coisa que não falta. Mas isso é conversa para outro texto...
Um abraço e boas férias, que as minhas ainda não chegaram mas hão-de vir, se Deus quiser.

Dia 14: Chris de Burgh



30 Dias / 30 Artistas – Bandas – Videoclips

Dia 14 – Chris de Burgh

No dia de Páscoa consigo mais uns minutos para deixar mais um pequeno texto neste blogue. Desta vez para dar seguimento à lista de 30 artistas que de alguma forma marcaram o meu percurso da adolescência e juventude e que me comprometi a partilhar aqui neste meu cantinho. Ainda ficam a faltar 16 mas eu hei-de lá chegar.
Hoje trago-vos Chris de Burgh. Cheguei até ele há muitos anos atrás através do meu irmão e do incontornável Borderline. Só isso seria motivo mais do que suficiente para merecer lugar de destaque nesta minha lista de memórias musicais. Ainda hoje é das canções que mais gosto de tocar no piano. Mas felizmente Chris de Burgh trouxe muitas outras de igual qualidade.
Acredito que Lady in Red e Missing You sejam as que os outros comuns mortais mais lembrarão. Mas eu guardo boas memórias ao som de So Beautiful, Much More Than This, The Head and The Heart e, sobretudo, este Here is Your Paradise que vos deixo.
Um compositor que usa muito o piano. Talvez por isso me tenha conquistado desde o início. E hoje voltei a ouvir Borderline outra vez, e outra, e outra, e outra...
Boa Páscoa (e boa adolescência/juventude) para todos.
Até amanhã.

GCRR Sub-12 - Verão 1986

Equipa de sub-12 do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas que participou no Torneio de Futebol Infantil/Juvenil – Verão 1986

Em cima (da esq. para a direita): Pedro Silva (“Selmo”), António Almeida (Paço), José Paulo “Krespim”, Pedro Tavares (cap.)
Em baixo (da esq. para a direita): Miguel Brandão (Eu), Vítor Azevedo (Curro), Pedro Vieira

Tinha apenas 10 anos quando representei pela primeira vez o G. C. R. Rossas que tanto amo. O Grupo, esse, era ainda mais novo… Tinha (oficialmente) apenas 5 anos. Era assim uma espécie de irmão mais novo…
Guardo, com uma nitidez invulgar, as imagens desses tempos em que o “futebol”, para mim, era “jogar à bola”… Tenho saudades de jogar naquele recinto minúsculo da Escola Primária em que quatro pedras desenhavam os postes imaginários das balizas; dos remates por alto que não contavam golo porque o guarda-redes “não lhe chegava”; das bolas de borracha, dos sapatos estragados e das calças rotas no joelho; das habilidades que aprendi a fazer com uma bola, tão sabiamente ensinadas pelo meu irmão (que nestas coisas de “jogar à bola” sempre foi muito melhor do que eu); das inúmeras tardes passadas a dar toques sem deixar cair a bola no chão (chegaram a ser mais de 1000 toques de seguida, com apenas 10 anos…); da escolha das equipas através do par ou ímpar… enfim!!!
E nesse Verão de 1986, o Grupo abriu-me as portas de um sonho, a janela de todas as ilusões… Nesse Verão, tenho a certeza que fomos os melhores… Mesmo caminhando de derrota em derrota (só ganhámos um jogo e empatámos outro), mesmo sendo um Grupo de “bolsos vazios”, cheio de nada e coisa nenhuma, para mim, era cheio de tudo… Dava-nos, nesse torneio, um campo grande para jogar, com redes nas balizas e tudo!!! E, por quarenta minutos, podíamos dar pontapés numa bola “a sério” e passar a bola a um amigo que nesse dia até vestia uma camisola igual à minha e tudo… Que saudades desses equipamentos emprestados pelo Sport Rossas e Malta que tinham os números cosidos nas costas… É daí que vem a curiosidade de jogar sempre com o número 2. Foi o número que me calhou em sorte, na altura… E as saudades das sapatilhas velhas que já não serviam ao meu irmão e das meias até ao joelho que podia usar nesses dias e que o meu irmão me ensinava a calçar… E quando o árbitro apitava, era o paraíso… A partir daí, podia ser todas as imagens que criara, deitado na alcatifa do chão da minha casa de infância, a ouvir o Ribeiro Cristóvão no rádio, a relatar todas as jogadas do meu Benfica… E mesmo sendo derrotados pelos outros, e estando a perder a bola constantemente para outros pés mais habilidosos que os meus, não trocava esses momentos por nada… Como eu queria ter 10 anos outra vez, para voltar a receber a bola nos pés e, naqueles escassos segundos em que a conseguia manter em meu poder, voltar a sentir o Benfica todo nos meus pés… Foram tantas e tantas as vezes que fintei com o nome de “Chalana” ou “Diamantino”, tantos os livres que marquei como sendo o “Carlos Manuel”… E como sabiam tão bem aqueles golos marcados à “Nené” do calção branco… O que poderia eu desejar mais?!! Por isso, perdoem-me se digo que fomos os melhores… Porque afinal, o que é que pode ser melhor do que isto?!!! E o nosso Grupo, o tal dos “bolsos vazios”, cheio de nada e de coisa nenhuma, deu-me isso tudo… O que mais poderia eu pedir?!!
Hoje tenho 38 anos. O Grupo tem 33. Já não consigo descortinar na minha memória todas as coisas que fiz a representar o Grupo. Mas sei que foram muitas. Certamente muitas mais do que aquelas que estás a pensar… E, ao longo de todos estes anos, fui convivendo com as mais variadas pessoas em todas essas actividades… Todas essas pessoas que ajudaram a fazer o Grupo, aquilo que ele é hoje. Porque o Grupo que eu tanto amo não é um símbolo ou emblema… O Grupo é “as pessoas”… E, às vezes, quando estou no palco a representar, sinto-me todas elas (onde eu também me incluo), com os seus “nadas”, a dar tudo a um Grupo que nunca me dá menos do que aquilo que eu lhe dou.
Sim. Tenho 38 anos. Tenho saudades dos meus companheiros da foto. Também agora, mas sobretudo daqueles rapazinhos, com os mesmos nomes, mas que tinham 10 anos e que faziam trocas de cromos de jogadores nos intervalos da Escola Primária, e que brincavam comigo com os carrinhos e os bonecos, à macaca, ao pião, ao arco ou às escondidas...
Obrigado Grupo Cultural e Recreativo de Rossas.

Miguel

E tu, ainda te lembras do Freitas?

Há dias que demoram a chegar até nós. Porque não sabemos a data exata. Apenas acreditamos que vão chegar e mais nada. E isso torna a espera mais demorada mas também o encontro final mais gratificante.
Corria o ano letivo de 1988/89 quando entrei para o 7.º ano do liceu. Muitas coisas eram bastante diferentes dos dias de hoje. As famílias eram maiores, as roupas eram mais escassas, os penteados mais originais e o meio de transporte mais utilizado para chegar à escola ainda era o autocarro.
Aos amigos de Rossas e Várzea que me acompanharam do ciclo, juntaram-se outros da freguesia de Chave. Dentre esses estava o Freitas que foi meu colega de carteira em muitas aulas e de quem tenho aventuras para contar que dariam certamente para escrever um livro.
A princípio, na nossa sala 11, o Freitas ficava na carteira da frente ao lado do Abílio (um amigo que o acompanhou da Tele-Escola) mas, como estavam sempre na brincadeira, não tardou o dia em que uma das professoras o trocou de lugar para uma das carteiras do fundo. Isso fez com que se mudasse para a carteira ao lado daquela que eu partilhava com o meu amigo Rui. Quando fizemos o nosso primeiro teste nessas condições acho que o Freitas viu aí uma pequena mina de ouro. Como nessa altura eu era um óptimo aluno, ele agora poderia trocar papelinhos comigo e melhorar as notas dos seus testes. A tática estava traçada: brincadeiras com o Abílio em mais umas quantas disciplinas, mesmo procedimento por parte dos diferentes professores e, quando me fui dando conta estava a resolver vários testes do Freitas em outras tantas disciplinas. Eu e o Rui, que também ajudava no esquema, principalmente a Matemática.
Já no 8.º ano o Rui haveria de reprovar com 3 negativas (como é que é possível?!) pelo que na transição para o 9.º ano o lugar de meu colega de carteira ficou livre. Não é difícil de adivinhar, pois não? Foi assim que na pequenina sala 28 do pavilhão 3 passei a ter a companhia do Freitas na maior parte das disciplinas. Tempos tão saborosos.
Gosto de fechar os olhos e voltar a estar lá. Para mim é um exercício muito fácil. Talvez por ser um exercício de coração. E eu fecho os olhos e volto a ver as camisas com padrões, umas calças claras (não me perguntes porquê) e, sobretudo, as sapatilhas da “Centro” que andavas com frequência. Nesse escuro que me traz o passado, chegam também as aulas de Educação Física e os célebres jogos de “turma contra turma” que animavam todas as manhãs e as horas de almoço. Nesse silêncio consigo ouvir pulos e gritos de “hora-livre” e as saídas às 18h15 onde se ia esperar a camioneta à vila.
A voz do Freitas, sei-o agora, continua igualzinha. Um timbre que reconheceria nem que outros 20 anos se passassem (mesmo que agora fales 5 línguas diferentes fluentemente). Como os tempos eram outros (nem telemóveis, nem internet entre outras coisas), durante quase 20 anos carreguei comigo a mágoa de nunca mais ter visto o Freitas. E logo ele que era como que um símbolo daqueles anos de ouro que passei no liceu. Um dos primeiros rostos a aparecer quando volto àqueles dias.
Até que fui encontrando alguns dos amigos dessa altura e fomos começando a fazer crescer a ideia de um jantar para juntar a malta dos antigos 10.º e 11.º B. E eu só pensava que alguém haveria de conseguir encontrar o rasto do Freitas. E esse alguém teria de ser eu.
Ainda não consigo disfarçar o meu sorriso quando te liguei e ao explicar-te quem falava deste lado a tua primeira reação foi: “como é que conseguiste o meu número?”. E falámos, falámos, falámos...
Foi óptimo ter-te cá em casa no domingo e saber como te vão correndo as coisas. Ver que estás diferente mas que no fundo, estás igual. Os anos passam e cada um foi fazendo a sua vida. As coisas são mesmo assim.
E o jantar há-de chegar Freitas. Prometo. Lá para Agosto de acordo com a tua disponibilidade. Será essa a vontade da grande maioria dos outros, acredito. Até para voltar a ver o Carlos pois também não lhe ponho a vista em cima desde essa altura. Mas mesmo que assim não fosse jantaríamos os dois. Para voltar a colocar a conversa em dia. Para o futuro ficar mais risonho por nos lembrarmos um bocadinho mais do passado.

E tu, lembras-te do Freitas?

Dia 13: Scorpions



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Dia 13 – Scorpions

Os Scorpions são um dos meus grupos de eleição.
É impossível falar deles sem recordar as suas muitas poderosas baladas.
As mais antigas, se calhar por isso mesmo, são as que me deixam mais saudade. 
Fecho os olhos e vejo imagens nítidas. Com pormenores a salientarem-se naturalmente. De facto, todas essas baladas me transportam para memórias tão boas que não fazem qualquer sentido quando acompanhadas de outros acordes. Há momentos que foram meus e dos Scorpions e de mais ninguém. E isso é impossível mudar. Ficará comigo até ao fim dos meus dias.
- “Believe in Love” foi meu, do meu sofá e da minha aparelhagem com o som próximo do limite máximo.
- “Always somewhere” foi meu e de um tempo que, infelizmente, já não volta.
- “Living for tomorrow” foi meu e de uma cassete que o Pedro me gravou. Lembro-me que chegava ao fim da música e eu invariavelmente lá fazia rewind para voltar a ouvir tudo de novo, vezes e vezes sem conta...
- “Wind of change” foi meu e de toda a gente.
- “Holiday” foi meu e de uma noite no recinto da escola primária ao som do rádio do meu irmão, com os amigos de sempre, e com o Carlos aos pulos a cantar forte quando o Klaus começava aquela parte “Longing for the sun you will come”...
- “You and I” foi meu e da Odete. Foi por essa altura que decidimos começar a nossa linda caminhada em conjunto há quase 19 anos atrás.
E tantas, tantas outras que comigo criaram uma relação especial.
Olho para trás e facilmente percebo que grande parte do meu percurso se confunde com a boa música dos Scorpions. Por isso, quando de qualquer forma alguma música dos Scorpions te chegar aos ouvidos é muito provável que eu também lá esteja. Muitas saudades desses tempos, mesmo sendo grande parte desse mesmo tempo ainda actual.
Estarei por aí, “Always somewhere”.
Acredito profundamente que "The best is yet to come".
Até breve.