A cidade do Porto e o Coro do DeCA

O Osvaldo era um tipo porreiro.
Soa um pouco estranho, mas é esta a frase que me vai martelando no cérebro mesmo antes de começar este texto. Mas talvez seja melhor começar mesmo do início...
E no início está o Porto. A cidade que, em tempos, foi minha por uma dezena de anos. E hoje foi dia de voltar lá. Houve tempo para chegar um bocadinho antes e voltar a fixar o olhar no 290 da Miguel Bombarda. Um pouco acima, mesmo ali ao lado, percorro Cedofeita quase de uma ponta a outra como fiz outrora alguns milhares de vezes. O café onde parava de manhã e à noite é agora uma boutique. Paro em frente à vitrine e vejo no reflexo a saudade trazida por um rosto igual ao meu. Enquanto sigo o caminho lembro o sorriso rasgado do Osvaldo que todos os dias me trazia o café ao balcão e trocava dois dedos de conversa comigo sobre o nosso Benfica. Nunca mais o vi. Os anos passam. As pessoas também.
Enquanto a praça dos leões vai ficando cada vez mais para trás vou dizendo para os meus botões que ao contrário do que dizia o grande Ary dos Santos, esta é que será a cidade mulher da minha vida.
O relógio parece correr pelo que o passo tem de ser cada vez mais apressado. Mesmo antes de chegar à igreja há ainda tempo para recordar o campo de futebol do CDUP onde passei mesmo há pouco e que me fez reviver os tempos em que fui campeão universitário de futebol de cinco. Quem diria que agora tenho um tornozelo que parece papel?!
Chego à igreja. Mais do que as vozes, afinam-se os últimos pormenores. O Nuno prepara tudo com a qualidade e responsabilidade que lhe são reconhecidas. Os homens trazem roupa de gala e as meninas, neste dia, parecem ainda mais bonitas que nos restantes dias. De tal forma que não cansa o olhar. No concerto há tempo para reconhecer gente amiga na plateia. No final, cumprimenta-se o Filipe e pede-se desculpa ao professor Vasco por só ter marcado presença à noite e ter estado ausente no ensaio da tarde. 
A caminho do carro, sozinho, do tal lado da rua em que parece ser sempre mais noite, vai-se pensando que fazer música em conjunto deve ser das sensações mais extraordinárias que se pode ter. De tal forma que é praticamente indescritível. A sensação é quase como se o Benfica estivesse todo nos meus pés, Chopin todo nas minhas mãos e a 4.ª de Brahms já estivesse comigo desde o dia em que nasci. Sei lá...
Liga-se o carro e a M80 que me dá o “Straight from the Heart” do Bryan Adams logo de início. São 60 Km que se avizinham e é aí que vou escrevendo na cabeça o texto que agora deixo aqui. Sem pressas. Talvez por isso a meia-noite tenha voltado a chegar a casa primeiro do que eu. Não faz mal.
É altura de caminhar de mansinho para os filhotes não acordarem. Pouso a cabeça no travesseiro. O Osvaldo era um tipo porreiro, já disse?
Boa noite.

O que é feito dos nossos ex-alunos (músicos)?



Há professores que nos marcam; que não passam indiferentes; que têm carisma; que, à sua maneira, nos servem de modelo e aos quais, ainda que de forma silenciosa, ficamos gratos para o resto das nossas vidas. Daqueles que todos se lembram quando voltamos a falar neles ainda que tenham passado mais de vinte anos. E fazemo-lo de forma carinhosa e com saudade.
Um dos melhores exemplos que se podem encontrar é o da professora Rosa de Filosofia, ou melhor, da “Lola”. Sejamos honestos, era este o nome mais comum nos corredores do velho liceu.
Os meus caminhos cruzaram-se com os da Lola no ano letivo de 1992/93, andava eu no 11.ºB. Eram os tempos em que o Carlos chegava de manhãzinha com estilo na sua Cagiva mas sempre um bocadinho depois do segundo toque. E sempre a rir-se, é assim que o recordo. Esse 11.ºB é a turma que me deixa mais saudades. Mesmo que do núcleo duro dos rapazes só eu e o Carlos fôssemos benfiquistas. Mas nas aulas de Filosofia ganhávamos uma aliada de peso.
Lembro-me duma aula em que a professora não conseguia conter o riso enquanto nos falava do “isocronismo do pêndulo” ou de outra em que da janela da sala 46 todos ficamos a olhar para um par de namorados sentados junto a um poste em frente ao pavilhão 3. A paixão era tão fervorosa que parecia que a língua iria saltar fora da boca do rapaz a qualquer momento. Estava instalada a confusão na sala. Passámos a aula quase toda a “filosofar” sobre tão querido par. Ainda me lembro de tocar para fora e, ao fazer o seu percurso de regresso à sala dos professores, a professora parou mesmo em frente ao par e disse mais ou menos isto para o rapaz: “O senhor estragou-me a aula toda! Estava aí com uma vontade...”. O par ficou um pouco envergonhado, sem saber o que dizer, até que a professora rematou, bem ao seu jeito e sempre virada para o rapaz: “Para a próxima, pelo menos, veja se vai para trás de um pavilhão”! Foi uma risada geral de quase toda a turma que a seguia já à espera de um sermão do género.
E são estas memórias que nos vão mantendo vivos...
Quem me conhece bem sabe o quanto eu gosto de voltar a estar lá. Todas as artérias da antiga escola ainda se apresentam nítidas na minha memória quando as saudades apertam mais um bocadinho. Mas a verdade é que hoje os corredores da nova escola são bem diferentes. Sei-o bem pois percorro-os frequentemente. E de todas as vezes lembro uma história diferente desses tempos de ouro. E foi numa dessas deslocações à nova escola, já há uns meses atrás, que me cruzei com a professora Rosa que me cumprimentou e perguntou: “Não é você que é músico?”. Respondi afirmativamente e diz-me ela: “Vou precisar de si no último fim de semana de maio. Não marque nada nesse dia. Que instrumento é que você toca?”.
E foi dessa forma que se começou a desenhar a minha participação no evento "O que é feito dos nossos ex-alunos (músicos)?". À medida que o dia se ia aproximando começaram as chegar as informações por mail. Por isso nos juntámos numa quarta-feira à noite para conseguir realizar o desejo da professora Rosa de apresentarmos uma música em conjunto no final do evento. Foi bom rever algumas caras embora estas sejam ainda das que vejo com bastante frequência.
Nas informações chegadas por mail pediam-me para que a minha atuação fosse um bocadinho diferente, sugerindo que fosse um pouco humorada e, se possível, com recurso ao acordeão. Confesso que fiquei indeciso com o que haveria de apresentar embora o uso do acordeão tenha ficado posto de parte quase à partida por várias razões. A escolha final acabou por ser o “Não descalces os sapatos”. Uma espécie de homenagem ao enorme Carlos Paião que tantas excelentes músicas pôs na boca do Herman José quando este estava no auge da carreira.
É essa a interpretação que vos deixo, superiormente captada pelo João Martins a quem não tenho palavras suficientes para agradecer.
A todos os colegas que me acompanharam em tão magnífica noite, o meu reconhecido abraço apertado. Temos de nos voltar a juntar um dia destes. Quanto mais não seja, para nos rirmos um bocado. Nós e a professora Rosa. Porque todos gostamos dela. Também da professora Rosa mas, sobretudo da Rosa, que, por acaso, também é professora.
Um beijinho de gratidão, Rosa. Ou Lola, para os mais ousados!

Eu, o Nelson Mandela e o concerto dos Queen



Madiba foi um homem extraordinário. Inspirador. Daqueles que nos faz acreditar com maior ternura que por trás de tudo há um Deus que nos carrega no colo.
O relógio diz-me que a meia-noite já ficou para trás e eu estou deitado na minha cama com a tv sintonizada na sic radical. Como muitos milhares de pessoas aguardo com uma ansiedade mais ou menos controlada a chegada dos Queen (ou do que ainda resta deles). Fosse este concerto há pouco mais de 20 anos e eu estaria talvez na fila da frente mas o tempo foi passando e as circunstâncias vão mudando. Dizem que as pessoas também. Confesso, sou uma pessoa muito mais solitária do que outrora. Mais reservada. Mas consigo tomar o sabor das coisas de uma forma mais completa. Mesmo com o corpo e a mente a pedirem todo o descanso do mundo.
Deitado na minha cama vi todo o concerto dos Queen e não houve um único momento em que eu não quisesse ter estado lá. E, raios... Nos dias de hoje até teria sido tão fácil. Ainda este mês estive em Lisboa para ver a “República das Bananas” do La Féria. Como é que tinha ousado ficar em casa num concerto dos Queen (ou o que ainda resta deles. Já disse?).
Enquanto o concerto se ia desenrolando dei comigo a pensar que, muito provavelmente, nenhum dos milhares que estava lá ao vivo terá ouvido tanta música dos Queen nesse dia como eu. Isto com o meu corpo cansado numa cama estendido. E lembrei-me do Madiba. Isso mesmo. Do dia em que foi libertado e vi as imagens na televisão. Há dias (re)passou o filme Invictus na tv. A certa altura há uma cena em que o Mandela convida o capitão da seleção de rugby para tomar chá. É arrepiante ouvir da boca do Morgan Freeman que tudo se deveu a um poema. Que nos longos dias que passou em Robben Island era um poema que o ajudava a manter de pé quando tudo o que lhe apetecia era deixar-se cair.
Pois bem, respeitando as evidentes diferenças, os Queen foram mais ou menos isso para mim. Ajudaram-me de tal forma que me conseguiram manter de pé numa longa fase da minha vida em que julguei cair a todo o momento.
É por isso que ontem deveria ter estado lá. Como sinal de agradecimento.
Estiveram só eles.
Ainda que sem o Freddie.
E sem o John.
E sem mim.

Nostalgia

13:06

O dia avança devagar. Quase parado. O tempo para viajar no Tempo parece sobrar. É sempre assim quando nos dispomos a caminhar para trás. O tempo é sempre muito. Demasiado. Basta querermos. Chega a ser tão grande que o próprio pensamento faz eco em qualquer direção. A ressonância é enorme.
Sentado em frente ao computador, neste momento, se não fosse uma pessoa, seria talvez uma espécie de nostalgia personificada.
Abro o dicionário e este diz mais ou menos isto: “Nostalgia: (...) Estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém”. Mais um clique, desta vez na Wikipedia, e as palavras não são muito diferentes: “Nostalgia é um termo que descreve uma sensação de saudade idealizada, e às vezes irreal, por momentos vividos no passado associada com um desejo sentimental de regresso impulsionado por lembranças de momentos felizes e antigas relações sociais. (...)”
Confesso, a parte das “antigas relações sociais” revolve-me as entranhas. Onde terei falhado? Não sei. Creio não o ter feito. Mas continua a mexer cá por dentro.
Há decisões difíceis e esta terá sido uma das maiores entre todas as que são grandes. A hora em que decidi dar a volta às voltas que o Tempo dá. Afinal de contas o Tempo, hoje e agora, sobra. Ou, pelo menos, parece. E é assim que vou tramá-lo. Hoje, finalmente, vou virar-te as costas, percebeste?

É por isso que se eu pudesse, este respirar fundo era um campo de futebol aos domingos de manhã. Não em Sinja mas antes na Portela. Mais pequenino e mais íntimo. E mostravas-me o mesmo sorriso da última sexta à entrada do liceu, lembras-te? Continua igualzinho, apenas com mais cabelos brancos. Ainda mais do que quando foste meu professor no ciclo e no liceu. Perguntaste-me pelo tornozelo e eu disse-te que parecia papel. Ias jogar futebol e eu estava a chegar para um concerto. Também mudei nestes últimos 25 anos. O meu cabelo está também agora mais branco. E trocámos um último sorriso enquanto dizíamos adeus.

Se eu pudesse, este cheiro a Primavera era o recinto da antiga escola primária que tão poucos conhecerão como eu. E dizias “cá vou eu” enquanto sacavas aquele cavalo na tua BMX que acabaria por correr mal, te furou a t-shirt e nos abriu os pulmões de tanto rir. Felizmente não te magoaste. Desculpa esta característica própria do ser humano de se rir dos males alheios.
Tenho saudades tuas, sabes? Desde esses anos vi-te apenas por mais uma vez. Foi já há algum tempo, a atravessar a praça, mesmo no coração da nossa vila. Não tive coragem de ir ter contigo e dar-te um abraço. Desculpa. Fiquei ao longe a olhar-te até desapareceres para dentro do centro comercial. Nesse bocadinho vi o rapazinho de há 25 anos atrás e outras tantas boas memórias. Talvez por isso me tenha detido sem ir ao teu encontro. Decidi conservar as memórias da forma imaculada que as guardo. Julgo assim ser mais feliz. Mesmo querendo muito ter-te agradecido.

Se eu pudesse, esta terra que seguro nas mãos era tudo menos um parque de estacionamento. Muito menos uma casa de escuteiros. Era, isso sim, o campo virgem de outrora de onde a tua avó tirou o punhado de terra que nos atirou na brincadeira enquanto regressávamos de mais um ensaio do grupo coral. Eu gostava muito da tua avó, sabias? E de ti e de todas as nossas boas histórias, sabias? Como aquela do “hóquei de praia” e a dos “Bryan Adams”. Sinto muito a tua falta. Quando ainda eras o Pujante. E quando eu ainda era eu. O Tempo é mesmo tramado. No outro dia, na igreja, quando cheguei e te cumprimentei, fiquei algum tempo a pensar nestas coisas. Gosto muito de ti, já disse? Agora tens menos cabelo e eu, lá está... Ainda tenho cabelo mas está mais branco. Gosto de te ver. Faz-me lembrar oitocentos e trinta e quatro episódios dos nossos melhores dias. E isso não tem preço. Nem tempo.

Se eu pudesse, este sol era um jogo de futebol de baliza a baliza. Como tantos que fizemos em que não podíamos defender com as mãos. Tenho saudades até das vezes em que a bola ia ao campo do outeiro ou até mesmo ao campo da seca onde a tua avó andava frequentemente de enxada na mão. A esta distância consigo ver-nos com aquela camisola que tinha um jogador estampado que as nossas mães fizeram iguaizinhas, uma para cada um.
Já viste como está o sol hoje? Digo-te que era capaz de sair agora mesmo, de onde estou, a correr até à escola primária. Sempre a correr. Sem parar. Só para jogar mais uma vez. E outra. E mais outra. E ainda outra. Sempre mais outra “última vez”. Bem sei que já não dá. Porque agora somos outros. O tua barba continua certinha mas está agora mais branca. A minha também está a começar a ficar branca mas está longe de ser certinha. As preocupações trouxeram também umas “peladas” que estão difíceis de ultrapassar. O Tempo teima em querer trazer-me ao presente mas consigo ainda recordar o meu coração a ficar cheio ao ver na semana passada as fotos que partilhaste das tuas lições de “bicicleta” ao teu irmão. E volto a lembrar aquele dia que também era de sol quando cheguei a Rossas com a minha bicicleta nova em folha que os meus pais me deram nos anos e que trouxe da Casinha da loja do tio do Tono. Depois de mim foste o primeiro a experimentá-la no recreio da escola. No tempo em que a frase “Deixa-me dar uma volta” era muito popular. 

Se eu pudesse, este teclado não era de um Mac. Era, isso sim, um Commodore Amiga. E voltávamos a matar naves alienígenas, a estilhaçar braços e pernas a gangues de rua, a disparar bolas pela boca de macacos ou a encaixar peças que iam caindo do céu da forma mais ordenada possível. E, no fim, como um bom jogo dos anos 80/90, acabaríamos por trazer a princesa a salvo para casa.
Esta semana limpei a minha bicicleta, sabias? Enquanto lhe passava o pano ia recordando aquelas retas inteiras de roda no ar. Lembro-me bem da tua bicicleta. Costumavas deixá-la no recinto da escola primária enquanto passávamos uma tarde inteira no sótão de minha casa a dar vida a milhentos heróis saídos das cores hipnotizadoras do monitor do Amiga. E a bicicleta lá ficava, muitas das vezes, guardada pelo pequeno Roberto que te pedia constantemente para o fazer. Sim, é verdade. O pequeno Roberto “das quintas” que agora já é grande e teve de fazer a vida para os lados de Lisboa.
A bicicleta está quase limpa, sabes? Mais uma passagem do pano do pó e fica pronta. Entretanto surge mais uma lembrança. Agora são os corredores do liceu que me querem ver a fraquejar. Mas eu não deixo. Ainda os conheço todos de cor. Deve ser por tê-los percorrido sempre contigo. Mesmo quando acabámos o 12.º ano chegámos a ir lá várias vezes os dois. Eu vinha de propósito do Porto, às quartas, mesmo levando uns ralhetes da minha mãe. Porque éramos amigos. Os melhores. Mas isso era antes, com o cabelo preto. Agora o teu está mais branco. Como o meu, diga-se.

Se eu pudesse, este abraço era o teu abraço. Como aquele que me deste quando acabou o jogo do Benfica com o Marselha em 1990 que ouvimos pela rádio na sala de nossa casa.
Sabes, sempre quis ser como tu embora soubesse que nunca conseguiria. Quem nasce Miguel nunca chega a Zé Mário. É um facto. Mas obrigado por teres sido um modelo para mim. Fez-me ser melhor do que aquilo que eu alguma vez seria sem te ter como exemplo. Como amigo. Como irmão.
Lembrar-te é voltar a ter o Alves, o Humberto Coelho, o Shéu, o Bento, o Nené, o Carlos Manuel e o Chalana na ponta da língua. E tantos abraços e brincadeiras na alcatifa da nossa casa de infância. Gosto de fechar os olhos e voltar a ouvir o “Cielito Lindo” que foi o grande hino daquela noite de Reis. E eu estava lá. Como também estava naquele Toyota Corolla branco que era do pai e que nos levava para a serra nas tardes de Verão juntamente com os nossos amigos. Tudo fazia com que ser feliz parecesse tão fácil. E, se calhar, até é. Mesmo que o teu cabelo esteja agora mais branco. Como o meu, diga-se.
Gosto muito de ti, já te disse?

Tenho que parar, sabes? Digo que o tempo passa devagar mas ambos sabemos que não é verdade. Ou não. Depende do que quisermos fazer com ele. Será?

13:07

Um fim-de-semana com o coro do DeCA

Nota: Foto tirada do site do Diário de Aveiro.


Sexta-feira, Aveiro. 
É dia de sair um bocadinho mais cedo do trabalho para conseguir chegar a tempo ao ensaio geral na Universidade de Aveiro às 20h. Chego, ainda muito a tempo. Já dentro do Auditório, sentado no meu canto, dou conta que afinal a minha presença apenas era necessária às 20h30. Aproveito para descansar na minha cadeira enquanto ouço uns acordes de Liszt que me vão enchendo a alma. Pouco depois, do outro lado da sala, uma amiga larga momentaneamente os amigos mais chegados para me vir cumprimentar e perguntar pelo novo rebento que está a caminho. A alma engrandece à medida que reconhecemos nesses amigos atitudes que caracterizam os que são verdadeiramente grandes. 
Um a um, vão chegando os restantes colegas. Antes de cantarmos há ainda tempo para ver o “jogo mais difícil do mundo” no telemóvel ao lado. 
Ao final da noite Delius e Nietzsche estão já mais próximos e seguros. Enquanto se deixa um abraço de “até amanhã” há ainda tempo de trocar umas palavras com uma grande amiga de Arouca enquanto se aproveita para combinar a boleia para o dia seguinte. 

Sábado, Coimbra. 
A saída acontece ao início da tarde deixando tudo preparado em casa para a festa de anos da pequenina Rita. Toda a viagem é feita na companhia da Eva que me acompanhará na orquestra no concerto da noite. Já em Coimbra, enquanto se bebe um café, põem-se os assuntos em dia. Há tempo para se ser surpreendido por algumas novidades. A hora aproxima-se. Há que entrar na Sé Velha. Sou apanhado de surpresa quando alguém me vem dar os parabéns pela Rita. 
Já bem depois do ensaio de colocação, enquanto se espera pelas senhas de jantar, olham-se as ruas. São estreitas mas sem estrangular. Parecem antes aproximar. Como o par de namorados que troca um beijo enquanto passa. Uma parede traz à lembrança o grande Zeca, o Afonso, que terá vivido por ali nos seus tempos de mocidade. Todas as janelas parecem sorrir ao largo da Sé fazendo lembrar autênticas bocas de cena; o sítio perfeito para os trovadores soltarem acordes às suas donzelas em juras de amor capazes de rivalizar com as que foram trocadas entre Pedro e Inês. Os meus colegas vão trocando frases de quem se quer bem. Momentos que vou guardando para a eternidade. 
A caminho da cantina, na companhia dum amigo, lembro os tempos da minha primeira universidade enquanto vejo uma tuna a atuar para um grupo de caloiros. As lembranças vão sendo assaltadas pelos saraus inigualáveis de Ciências e pelo som do “Sonho de um Poeta” da Javardémica que ainda trago na ponta dos dedos. Boas velhas memórias que foram novas noutros tempos. Enquanto me detenho, por momentos, para encher um pouco mais a alma, reparo numa mãe com uma das mãos sobre os ombros do filho pequeno enquanto a outra aponta para os bandolins. O menino esboça um sorriso. A mãe sorri ainda mais ao olhar o filho. 
O regresso à Sé começa com uma subida de 1.ª categoria composta por um número interminável de degraus que me julga um estudante de vinte anos quando, na realidade, já estou à porta dos quarenta. Passado esse teste com distinção há ainda tempo para um cerveja, devidamente acompanhado, enquanto se prepara a voz para o grande concerto. 
No fim da noite, Delius e Nietzsche devem estar satisfeitos com a nossa atuação e a sensação é a de dever cumprido. 
Já em Arouca atira-se um até amanhã à companheira de viagem e, já em casa, encosta-se a cabeça no travesseiro com o pensamento no dia seguinte. 

Domingo, Aveiro. 
O Teatro Aveirense traz-nos uma perspectiva diferente. Na sala de aquecimento o espaço é tal que somos convidados a deitarmo-nos no chão. E é assim, com todos à mesma altura, de costas voltadas para o mundo, que passam pela minha cabeça as imagens do “Clube dos Poetas Mortos” quando o professor Keating pede aos alunos para que subam à secretária para olharem as coisas de diferentes perspectivas. Mente sábia. 
Nos momentos de descontração antes do concerto perguntam-me pela Odete e pelo bebé. Sou um felizardo. Sugerem-me temas para as minhas composições e sinto que é desta que este empurrãozinho vai materializar as milhentas ideias que fervilham na minha cabeça. Mais não posso do que ficar grato. Por momentos, lembro as palavras do António Zambujo no coliseu quando dizia ao Miguel Araújo que para um criador todos os dias são dias de trabalho. 
Pelo piano ao fundo da sala vão passando vários colegas trazendo um som de fundo convidativo enquanto ligo para casa a confirmar se está tudo bem. 
O concerto é marcado por uma nota original do meu colega de fila que nos faz rir por algum tempo. No final alguém vai trauteando a música do saudoso “Justiceiro” que eu imediatamente reconheço e que tão boas memórias desperta em mim. É bom saber que não somos os únicos a recordar tais preciosidades. 
Os últimos 60 km percorridos no regresso definitivo a casa é feito ao som do Oceano Pacífico da RFM que me traz o fantástico “Tudo o que eu te dou” na hora em que abro a garagem de casa. Deito-me no conforto da minha cama, encostadinho à mãe dos meus filhos, com os olhos postos na aula de composição às 9h da manhã seguinte. 
E o concerto acabou. 

Miguel 

Gods

Ontem voltei a jogar “Gods”. Não por muito tempo, é certo. Mas já não o fazia desde 1991, mesmo tendo comprado a versão Mega Drive há uns anos atrás para alargar a minha coleção. A vida parece começar, aos poucos, a recompor-se. Começo a conseguir algum tempo para coisas que valem realmente a pena.
Há jogos acima da média que, por vezes, nos passam ao lado pelas mais variadas razões. Neste caso, o que ditou o afastamento deste Gods foi o facto de o ter comprado juntamente com outros oito grandes jogos: Prince of Persia, Speedball II, Rainbow Islands, Parasol Stars, Magic Pockets, Mercs, Rodland e Prehistorik. Não havia tempo para jogar todos de forma aprofundada e a preferência, na altura, caiu para outros títulos. É por isso que nos dias de hoje há ainda tanto caminho a desbravar para um amante de retrogaming como eu.
Queria então dizer-te que hoje me lembrei do dia em que o ZX Spectrum +3 chegou lá a casa. Foi o meu primeiro computador. Apetecia-me dizer ao meu pai que deveria ter sido mais cedo. Talvez uns três ou quatro anos antes. Para que o meu irmão fosse um bocadinho mais novo e tivesse sido também tocado pela magia que me tocou. Estou convencido que essa diferença temporal teria feito com que os meus dias a fio, primeiro no Spectrum e mais tarde no Commodore Amiga, tivessem valido ainda mais a pena.
Porque hoje teria infinitas histórias para lembrar e, sobretudo, teria o meu irmão para as partilhar. Não seria uma experiência completamente solitária. E só o meu irmão poderia fazer que fosse melhor. Muitas das horas com Rodland, Midnight Resistance, War Zone, Kick Off 2 ou Speedball II teriam outro sabor. Principalmente quando são revisitados nos dias de hoje.
Estou certo que esta manhã ia a correr contar-te que redescobri o “Gods” e que o jogo é incrivelmente bom. Uma pérola que deixei para trás no seu devido tempo e à qual deveria ter dado outra atenção, sem dúvida.
Ontem, enquanto a Odete adormecia os pequeninos, liguei o Amiga e resolvi dar uma oportunidade a esta boa memória. Em boa hora o fiz. Quando dei por mim estava a não querer mais deitar-me; a desculpar-me com a célebre frase: “só mais uma vez”; a desejar que aquele bocadinho não acabasse nunca mais; a penitenciar-me por não lhe ter dado o devido valor na altura devida; a lamentar-me por não poder na manhã de hoje voltar ao liceu para contar tudo o que tinha progredido na última noite.
Há memórias que, de facto, já não voltam em forma partilhada. Aprendi, a custo, a deixá-las em paz. E diga-se a verdade: no que diz respeito a certas memórias, quando revividas de forma solitária, acabam por ter outro sabor. Muito melhor.
Mesmo assim, tenho andado a tratar de mostrar tudo e mais alguma coisa ao Tiago. Acho que daqui a uns anos ele não se vai cansar de me agradecer.

E tu, ainda te lembras do Castanhola?

Acontece com frequência quando volto a jogar algum daqueles videojogos que mantenho imaculado nas minhas memórias e que tão bem está desenhado na minha cabeça. Muitas vezes, por paradoxal que possa parecer, para tudo se esfumar, basta voltar a jogá-lo nos dias de hoje. Chega até a dar “medo”, imaginem. Fica-se algum tempo com a cassete ou disquete na mão até nos decidirmos. Porque há jogos que não “envelhecem” muito bem. Ficavam melhores se continuassem como os guardámos na memória. Voltar a jogá-los, muitas vezes, significa o princípio do fim.
Aqueles que tiveram o privilégio de terem passado tardes inteiras com amigos e primos a jogar Jet Set Willy, Chuckie Egg, Emilio Butragueño, Double Dragon ou Target Renegade – só para citar alguns dos que ainda se mantêm bons - certamente saberão a sensação que estou a tentar descrever.
Para um saudosista como eu, é fácil estabelecer um paralelo entre esta sensação própria do mundo dos videojogos e a relação que mantemos com os grandes amigos que fizeram a nossa adolescência e juventude.
Já aqui escrevi textos sobre alguns dos melhores amigos que tive. Alguns deles são como esses videojogos: eram tudo naquela altura da vida mas, nos dias de hoje (e não há mal nenhum nisso pois a vida leva-nos por caminhos bem diferentes), quando os encontramos, muitas vezes nem nos cumprimentamos ou, se o fazemos, não conseguimos ter uma conversa de mais de cinco minutos sem que nos sintamos constrangidos por, no fundo, ao fim desse tempo, estarmos ali a “fazer sala”. Passamos a ser pouco mais do que estranhos. E isso dói. Muito. Mesmo muito.
Mas depois há os outros, os que continuam com igual ou melhor qualidade. Mesmo que os encontros sejam cada vez em menor número. E desses, dos bons, o melhor exemplo será o Nepinhas (quase só eu tinha o privilégio de te chamar assim, lembras-te?).
Voltar a estar contigo é parar o tempo: é ter o liceu ainda na forma antiga. Quando nos encontramos logo começamos a falar das nossas memórias e o tempo nunca chega para dizermos tudo. Nunca “fazemos sala” um para o outro. E isso distingue os que são realmente grandes.
Lembro-me que fomos bons amigos e, felizmente, colegas de carteira em muitas das disciplinas. A primeira excelente memória que tive contigo (e desculpa por partilhá-la aqui) foi na nossa primeira aula ao ar livre de “Produção Vegetal” em que fazíamos um qualquer trabalho e o professor Filipe ia orientando. Até que chamou a atenção dos alunos da turma que estavam naquela zona para uns alporques e como eram feitos. Como andávamos os dois sempre a dizer piadas, quando o professor se distanciou, aproveitei para fazer aquela que seria a minha primeira tentativa de “alfinetada” dizendo uma piadinha para ti. Dizia eu: “Ó Castanhola, o professor diz que isto é uma alporca. Eu sou o “Al” e tu és a “Porca””. Mal sabia eu com quem me estava a meter. Resposta pronta do amigo Nepinhas: “Que eu saiba tu é que costumas ficar por baixo”. Gargalhada geral. Começava aí uma das amizades mais bonitas que já tive. E foram tantas as piadas que trocámos. Tantas e com tanta qualidade... Como teu colega de carteira testemunhei inúmeras graças que ias dizendo e que não haveria livro com páginas suficientes para anotar.
Sabes, tenho saudades dos dias em que, manhã cedo, atravessava o portão do liceu e a primeira pessoa que procurava eras tu. Lembras-te da minha ansiedade quando chegava mortinho por te mostrar mais um truque de cartas que tinha aprendido no dia anterior ao ver o programa do Luís de Matos? E as vezes que passávamos todo o tempo dos intervalos a recordar os episódios dos Trapalhões que, por essa altura, passavam na recém-criada sic?
E quando a professora Deolinda Pires no 12.º ano nos chamou no final da aula depois de nos entregar o primeiro teste? Nós que éramos alunos tão bons e naquele ano não estávamos a estudar nada... Até nisso fomos juntos.
A memória mais engraçada que tenho contigo, infelizmente, não posso contar aqui na sua totalidade. Fica para quando nos encontrarmos outra vez. Tínhamos acabado de entrar nos balneários junto ao campo de futebol pois íamos ter Educação Física. Estávamos já a equipar-nos e entra o Freitas a cantar “Ó oliveira da serra”... A tua resposta, que não posso reproduzir aqui, ainda hoje me provoca gargalhadas. Como aquelas que arrancaste a todos nesse dia. E o Freitas lá ficou todo corado e com o rabo entre as pernas... Mas sempre a rir-se. Sempre.
Gostavas de estar comigo e eu gostava de estar contigo. Ainda gosto. Muito.
Tenho saudades das tuas anedotas, dos teus raciocínios matemáticos, das tuas histórias passadas nos bombeiros e, sobretudo, tenho saudades das nossas brincadeiras no 12º Ano, na sala 7, junto à mesa da Carla e da Susana.
Sabes, gosto de pensar que um dia, numa outra forma de vida, Deus nos dará também a possibilidade de, como Ele, estarmos em mais do que um lado ao mesmo tempo. Se assim for, estou certo que um dos locais onde eu estarei, será nos antigos corredores do liceu com um rapaz de casaco azul e um humor inacreditável. Porque há amigos que ficam. Para sempre.
Chamam-te Castanhola. Para mim serás sempre o Nepinhas.
Parabéns amigo.

Miguel

Até já...

Foto 1:
Membros da Banda Musical de Arouca que foram presenteados com uma medalha de "Mérito e Dedicação" pelos mais de 25 anos prestados ao serviço da Banda.

Foto 2:
Repolho, Cajarana, Cebolinha e Pepé na Festa do Senhor de Urrô de 2015

“A vida é como um cobertor demasiado pequeno. Puxa-se para cima e fica-se com os pés de fora, sacudimo-lo para baixo e ficamos a tremer de frio nos ombros; mas as pessoas bem dispostas conseguem encolher os joelhos e passam uma noite muito confortável.” 

Eis que é chegado o momento em que os joelhos começam a doer e queremos esticar um bocadinho as pernas. Mas sempre sem perder a boa disposição. 
Com 29 anos de Banda, na hora da partida, não é o gosto pela música que mais nos move. Porque dessa forma nunca partiríamos. A dor maior do parto para uma nova vida é olharmos aqueles que ainda lá estão e que connosco foram envelhecendo dentro da mesma Banda ao longo de todo este tempo; vê-los e dizer-lhes adeus. Rasga bem fundo cá por dentro. E ficamos um bocadinho mais tristes porque é precisamente com estes que deveríamos querer continuar. Para sermos ainda mais felizes e durante mais tempo. Mas depois olhamos para o outro lado e sentimos que estamos a fazer o que tem mesmo de ser feito. Porque vamos ser isso mesmo: mais felizes. De outra forma. A lembrar um anúncio alemão que está muito na moda por estes dias. 
É por isso que hoje, na hora da despedida, gostava de dizer-te tantas e tantas coisas. Como um texto que li há já algum tempo do Ricardo Araújo Pereira e onde procuro inspiração e, já agora, copio a ideia base. 
É por isso que hoje gostava de dizer-te que não me recordo (nem sinto especial prazer) do dia em que o meu pai, juntamente com o Sr. Soares, me levou pela primeira vez à casa de ensaio, no seu Toyota Corolla 1200 branco. Não me recordo sequer do meu tio ter fumado três cigarros dentro do carro até aparecer o Renault 5 preto do Valdemar. 
Gostava de dizer-te que não me desmancho a rir de forma descontrolada de cada vez que me recordo daquela festa em que o Sousa borrou as calças quando foi fazer as necessidades de forma aflitiva num canto qualquer e, à tarde, apareceu de calças de ganga azuis e com aquele riso maroto tão característico dele enquanto contava toda aquela peripécia. 
Gostava de dizer-te que não faço a mínima ideia do que são “borboletas” e que não recordo, quase uma a uma, todas as que foram feitas por esses arraias fora, por miúdos e graúdos com a nossa mui nobre farda vestida. Nem recordo com especial sabor esta última Feira das Colheitas onde o Cajarana serviu de cobaia e explicou aos mais novos como se fazia, entre outros, os famosos “drones”, como ele costuma dizer, de forma "moderadamente espetacular". 
Gostava de dizer-te que não me lembro sequer das 354 vezes que o Valdemar me terá dito que eu tinha cara de bombardino, uma das quais em frente ao saudoso Sr. Noites que, depois de me olhar de alto a baixo, lá disparou: “Esse aí tem cara de tudo”. 
Gostava de dizer-te ainda que uma das minhas saídas preferidas não foi aquela em 1996 onde fomos a Coruche e, durante a viagem, se inventou o famoso “grijo” que o “Nazi” popularizou e que surgiu apenas porque estávamos a passar junto a uma tabuleta com indicação para Grijó. Podia ainda dizer-te que não faço a mínima ideia se essa viagem foi feita connosco a cantar o “Vira-Vira” dos Mamonas Assassinas onde trocávamos a palavra “suruba” por “Xarula”. Nós lá saberíamos porquê. E também não faço a mínima ideia (nem sequer tenho saudades) de irmos parte da viagem a picar o “Nazi” com um alfinete onde só parávamos se ele pronunciasse uma certa quantidade de palavras por uma ordem pré-definida por nós de forma mais ou menos aleatória. 
Queria também dizer-te que não vou sentir qualquer falta daqueles almoços e jantares com o Repolho, o Pepé e o Cajarana que me fazem a alma maior. 
Queria dizer-te ainda mais. Queria dizer-te que não dou qualquer valor ao grupo dos “Arrumadores da Banda” e que não acho que tenha sido a melhor ideia que alguém teve dentro desta nossa Instituição nos últimos tempos. E queria dizer-te que não foi, muitas vezes ainda antes do sol raiar, ou então já fora de horas e com algumas caixas sobre o “lombo” que passei os meus melhores últimos momentos na Banda. 
Gostava também de dizer-te que a cada festa feita ao serviço da Banda nunca sinto a falta daqueles que já lá não estão nem me deixo ficar sentado, no meu canto, a recordar muitos dos bons momentos passados com eles quando eu ainda era muito diferente do que sou hoje. 
Queria ainda dizer-te que, para mim, a palavra “Valência” mais não significa do que um clube que milita na primeira divisão espanhola e não me traz uma das melhores memórias enquanto músico da Banda. Queria dizer-te que não volto a ver o filme todo enquanto fecho os olhos por pequeninos momentos. Não volto a sentir o teu abraço, não lembro o hotel, a viagem, o ter o enorme Repolho ao meu lado, os “arrozitos” do Figueiredo e, sobretudo, a célebre canção que compus no início da viagem de regresso com a guitarra que alguém teve a feliz ideia de levar e que fez com que chegasse a Arouca completamente sem voz. Não me lembro sequer de todos os músicos, um a um, terem cantado em alta voz, na traseira (salvo seja) do autocarro: “Está tudo f%...”. E queria dizer-te ainda que não senti qualquer orgulho quando o Movilar (grande Movilar) subiu ao palco para receber um prémio que era nosso e, por isso, também um bocadinho meu; talvez a fatia mais pequena. E queria realçar que não fico com um sorriso nos lábios de cada vez que me lembro destes dias e que não volto a ler várias vezes o texto que na altura escrevi neste mesmo blogue no dia 19 de julho de 2014 pela madrugada dentro, de forma solitária, no meu quarto de hotel, texto esse que celebrizou a querida frase: “Se eu soubesse escrever”. 
Queria dizer-te que os almoços em casa do grande amigo Cajarana não são já uma saudade e que ainda hoje não me cai um lagrimazita pelo canto do olho quando sei que são também estas coisas que estou, momentaneamente, a deixar para trás. 
Queria dizer-te tudo isso e muito mais, mas não posso. Não posso. Não posso mesmo. E não posso porque, se o fizesse, estaria a mentir. 
A Banda Musical de Arouca, aquilo que ela realmente é, está de tal forma entranhada em mim que não poderia, nem queria, nem conseguiria vivê-la de outra forma. Nunca com uma intensidade menor. É por isso que tenho que te largar a mão por uns tempos. De olhos postos no regresso. Mesmo que este, porventura, nunca aconteça. Porque dói mais se for de outra forma. 
A subida ainda é longa, lembras-te? Confesso: tirei os olhos da roda da frente. E ao fazê-lo dei conta que, por agora, não dá mais. Fica adiado o sonho de vestir a farda juntamente com os meus filhos. É chegada a hora da partida. Ouço mais perto o relógio que a vai dar. Felizmente tenho o consolo de guardar boas memórias em número suficientemente grande para me sentir eternamente pertença dessa grande família que é a Banda Musical de Arouca. 
Claro que num percurso tão longo também tive dias e memórias menos boas como aquela em que no final de um ensaio chorei em casa como uma criança até bem depois das 4h da manhã. Mas hoje não lhes dou hipóteses. Faço como a Mafalda Veiga e “guardo apenas o que é bom de guardar”. E há tanto de bom para guardar. Tanto. Memórias e pessoas. Pessoas que marcam e às quais espero voltar. Porque o tempo ajuda a criar laços mas a amizade e o amor é que os tornam fortes. E foram tantas as viagens de autocarro em que tudo se fortaleceu. 
Sábado, no concerto de Natal, é o dia de vestir a farda pela última vez. Ainda com mais orgulho de quando o fiz pela primeira vez, no dia 1 de Abril de 1988. Para mim tudo é já uma enorme saudade. 
E é assim que aproveito para terminar com as palavras que a Odete em tempos me dispensou e que hoje parecem fazer todo o sentido. Acredito profundamente que é a melhor forma de te abraçar e dizer adeus. 

“Uma vez estava a pensar na ressurreição… Comecei por pensar na de Jesus, mas depois continuei a pensar em como todos ressuscitamos. Mozart e Beethoven ressuscitaram na Música; Picasso na Pintura; Camões e Fernando Pessoa na Literatura; outros nos Descobrimentos, na Escultura, na Moda, no Cinema, no Futebol, na Ciência, nas Tarefas Domésticas, na Fábrica, na Família... Jesus no Amor, nas opções humanizantes que nunca tornaram ninguém mais pequenino.… Podemos não ter os dons da sabedoria que imortalizaram nas Ciências e nas Artes tantos homens e mulheres. Mas todos temos talento para a Amizade e o Amor. Dando-lhes uso, o Fernando torna-se mais Pessoa e nós também!” 

Obrigado a todos por hoje eu ser mais pessoa. Mais músico. 

Até já. 

Cebolinha 


“A despedida é tão doce tristeza que continuarei a dizer “boa noite” até que seja de manhã.” 

William Shakespeare 

Gustav Mahler - Sinfonia n.º2 em Dóm "Ressurreição"



O tempo não chega. Nunca. Cada vez menos.
Estudar música é dos desafios mais interessantes que tive nesta minha vida que conta ainda apenas com 39 anos.
Quando em 1994 acabava o ensino secundário e me decidia pela Matemática Aplicada deixando o piano para trás, não imaginava sequer as voltas que a vida ainda haveria de dar e as boas surpresas que esta ainda tinha para me trazer.
Foi duro o caminho que me fez chegar primeiro a professor de Matemática. As colocações eram sempre longe de casa e com o nascimento da pequenina Rita a vida teve de ser repensada. Veio o desemprego e depois veio também o pequenino Tiago para se juntar à Rita. Com a família a mostrar-me forças onde eu julgava nem sequer existirem veio um emprego na Biblioteca Municipal e a possibilidade de estudar Composição na Universidade de Aveiro. Quando consegui finalmente ser "trabalhador-estudante" lembrava as palavras sábias da minha querida professora de piano Marília Rocha e respondi-lhe vezes sem conta, entre dentes, para os meus botões: "Tinhas razão. Aqui estou eu. Tinhas razão".
Entretanto sou agora um Auxiliar de Acção Educativa na Academia de Música de Arouca que, todas as segundas (e um bocadinho às terças e quintas) se desloca a Aveiro para aprender mais e mais. Música, claro está.
Poder fazer a nossa própria música, alargar horizontes ganhando cumplicidade com as mais diversas técnicas de compor é, qualquer que seja a forma, uma ótima (senão a melhor) forma de viver os nossos dias. Depois há vários caminhos a desbravar onde mais não temos que fazer do que deixar a música entrar. É apenas ela que se respira e nada mais.
É difícil explicar a sensação de nos colocarem, a cada instante, olhos nos olhos com Rossini, Beethoven, Brahms, Ligeti e tantos outros. Os maiores entre os melhores.
Resta o senão de apenas poder fazê-lo a "meio-gás". De outra forma tudo seria ainda melhor. E como tu sabes que eu não sou a "meio-gás". Acaba por ser uma luta contra mim mesmo.
No passado dia 27 de novembro puseram-me no Teatro Aveirense com os meus colegas "em frente" a Mahler e à sua "Ressurreição". Ir à Universidade tão pouco tempo por semana faz com que não se esteja entranhado o suficiente para viver tudo do lado de dentro. Para lhe tomar o devido sabor. Por outro lado, deixa-nos apreciar tudo de outra forma, mais à margem e, se calhar, mais racional. E assim consegue-se dar uma dimensão mais aproximada do que realmente estamos a viver.
No meu canto, naquele em que parece ser sempre mais noite, fui vendo caras de risos, de cumplicidade, de gente que é mais gente porque é assim. E deu uma vontade de voltar a ter 20 anos...
Vi selfies que dariam para ilustrar uma bíblia, entre risos e sorrisos de uns para os outros e com os outros. Vi abraços, beijos, carinhos, segredos, partidas, promessas e tanta coisa mais entre gente que se juntou com um objetivo principal: fazer música. Da boa, por sinal. E eu sou mais feliz por poder estar lá. Ainda que em "part-time" e mais na zona da fronteira.
Na hora de entrar para o palco tudo fica para trás. É o tempo de fazer com que o todo seja maior que a soma das partes e de ser mais ou menos aquilo que Mahler um dia felizmente criou, também para nós.
Deixo-vos com uma foto tirada do facebook da Universidade de Aveiro onde se comprova a minha presença no meio do coro e com um vídeo tirado do youtube onde se pode ver e ouvir um pouco do que foi a parte final da sinfonia onde também estou embora, quase irreconhecível.
Hoje à noite, na Casa da Música, há mais. O espetáculo volta a acontecer. Por motivos vários não poderei estar presente. Com grande pena minha. Sei que os meus colegas estarão à altura.
E como eu queria estar lá, à margem de tudo, a ver mais selfies, risos, abraços ou promessas de bem querer.
Hoje sou mais músico. Obrigado.

Algumas boas memórias com o Sérgio

Quando somos pequeninos é muito fácil fazermos amizades. Na minha infância, no recinto da antiga escola primária, fui amigo de dezenas e dezenas de outros meninos que, como eu, aí se deslocavam para brincar. Dentre esses estavam os que se entranhariam mais na minha vida, quanto mais não fosse porque estavam lá comigo a toda a hora. Lembro-me de nuns dias brincar com uns, noutros dias com outros, mas praticamente todos os dias estava lá o Sérgio. E isso deixa marcas. Das boas, felizmente.
Engraçado que quando começo este texto sou atraiçoado pela minha memória. Logo ela que costuma ser tão clara para mim quando aos assuntos da meninice diz respeito. Mas hoje começa logo por falhar. E digo isto pois quando comecei a organizar as primeiras ideias para este texto a primeira coisa que me tentei lembrar foi da tua bicicleta de infância. Desculpa, mas não consegui. Lembro-me bem de eu andar numa pequenina vermelha e toda velha que já tinha sido da minha irmã Isabelita e também recordo de andar numa maiorzinha, também avermelhada, que era do meu irmão. Só quando fiz uns 14 anos o meu pai me deu uma bicicleta “de montanha” que ainda existe e que hei-de recuperar. Quando o meu pai ma ofereceu nos anos foste o primeiro amigo que encontrei quando cheguei com ela novinha a Rossas e, por isso, foste o primeiro a experimentá-la.
Mas, voltando um bocadinho atrás... Consegui lembrar-me de uma bicicleta de crosse azul clarinha com os punhos amarelados que era do teu irmão, de uma vermelha que o Tono tinha e até de uma preta com os punhos vermelhos que era do Paulo mas de ti... nada. Talvez te tivesse acontecido como eu e tenhas, na altura, ficado com a que era do teu irmão. Como eu que tanto tempo usava a que tinha sido da minha irmã. Se calhar, por isso é que não me consegui lembrar. Desculpa.
Mas, felizmente, consigo lembrar-me de muitas outras coisas.
Lembro-me que andávamos juntos nos ensaios do grupo coral dos mais novos e também de, a certa altura, teres feito parte do teu percurso da escola primária em Mansores. Lembro-me também daquela camisola branca com umas riscas verdes e com um jogador na frente que as nossas mães fizeram iguaizinhas e que ainda duraram bastante tempo. E de quando íamos com a “seita” ver filmes para minha casa ou para casa da Sara. Tenho tantas saudades desses amigos... Esses com quem íamos muitos dos dias das nossas férias para a serra e por lá passávamos as tardes na água ou a jogar cartas.
Lembro-me ainda de ter ido contigo certo dia a S. J. da Madeira pois querias comprar alguma roupa e assim passamos a tarde os dois.
Foste ainda meu companheiro de equipa em muitos dos torneios do Sajú e em muitas das festas que fizemos ao serviço da Banda Musical de Arouca. Recordo em especial um regresso de uma festa fora em que à saída, na barroca, o meu clarinete ainda andou uns metros pelo chão. Ai que riso...
Chegámos também a jogar algumas vezes Commodore Amiga (deveriam ter sido mais) que o teu pai também quase comprou para ti.
Lembro-me ainda de ter partilhado o palco contigo no teatro na canção “O Garoto da Rua”, por exemplo. E lembro-me também de ter sido o teu parceiro de equipa na primeiro torneio de malhas organizado pelo GCR Rossas onde até ficamos bem classificados.
Para o futuro, para continuar a reavivar boas memórias, tenho ainda guardada uma carteira que tu e o teu irmão me ofereceram quando regressaram duma viagem que fizeram ao Brasil. O meu irmão haveria de ficar com uma mais azulada com um Porsche e eu fiquei com uma mais avermelhada que tinha estampado uns pássaros tropicais. Cada vez que lhe pego ainda cheira a infância.
Lembro também episódios menos bons como naquele dia em que ao fim da tarde contavas com todo o pormenor o incêndio na carrinha azul do teu pai. E foi assim que mais tarde essa carrinha azul deu lugar a uma vermelha que ainda hoje recordo como a “SX-55-60”. Se calhar os números até estão errados mas foi assim que recordei até aos dias de hoje. Há coisa que nos ficam na memória, sabe-se lá porquê...
Antes de terminar há ainda duas lembranças que gostaria de partilhar. Talvez por serem das minhas favoritas.
A primeira foi no dia em que o Padre Moreira Duarte veio a casa dos meus pais para apresentar o Padre Ramos que seria o novo padre da freguesia. Lembro-me que estávamos vários da “seita” reunidos em minha casa algures numa sala lá em cima e o meu pai lá me chamou a mim e ao meu irmão para conhecer e cumprimentar o novo padre. Lembro-me de estarmos cá em baixo a falar e ouvirmos alguns estrondos que só mais tarde perceberíamos o que seria. Creio que tu e outros que estavam lá em cima tinham saltado da varanda diretos para a estrada para não terem que ir cumprimentar o novo padre. O que nos rimos depois com isso. Ai como eu queria voltar a estar lá...
A memória que guardo com mais carinho, que não irei explicar aqui, mas que os daquele tempo certamente se lembrarão, resume-se a duas frases que agora aqui te deixo. Imagina-me a rir enquanto as escrevo. Se a tua memória ainda não te atraiçoa, certamente te serão familiares: “Michael Night a da home a da fight” e “A Jangalon a da Selva”.
E, por hoje, é mais ou menos isto que queria partilhar contigo. É uma forma de te dar os parabéns e de te dizer que guardo desde esses tempos o carinho que ainda hoje trago por ti. Mesmo que as nossas vidas há muito se tenham desencontrado. É natural. Acredito que faz parte do percurso natural da vida. Mas hei-de estar sempre grato à família do Isaías e da Fernandinha do Paço. A eles devo muito do que sou hoje.
Há um filme antigo do qual gosto muito em que o ator principal termina com a seguinte frase: “Nunca mais tive amigos como quando tinha 12 anos. Mas quem é que tem?”
Parabéns amigo.
Entretanto vou andando pelo facebook para ver como te vão correndo as coisas.
Grande abraço. Também por hoje, mas sobretudo em nome desses muito bons velhos tempos.

Miguel