O Último Concerto: Parte II

Hoje a sensação é um bocadinho estranha. Afinal, para além do último concerto que relatei neste mesmo blogue no passado dia 28 de março, havia ainda um outro “último” concerto. Ou talvez não seja bem isso. É mais uma espécie de “Encore”, mas de grande qualidade.
Saio do trabalho a correr com tempo apenas para uma paragem rápida em casa para trocar de roupa. E é assim, já todo de preto, que entro no carro com destino a Aveiro.
Ao entrar no Auditório sou surpreendido pelo Luiz que, juntamente com o Rodrigo, nos vai dirigir dali a pouquinho. Vem ao meu encontro e pergunta pelo meu blogue. Por momentos penso tratar-se de um lapso auditivo mas ele faz questão de continuar e de me dar os parabéns pelos textos sobre o coro do DeCA. Agradeço da forma mais simpática que sou capaz e aproveito para retribuir o agradecimento pela forma como todo o repertório foi trabalhado durante as aulas. Desejámo-nos “sorte” e fui procurar o meu lugar no meio do coro.
No meio de todo o burburinho habitual, naqueles momentos que antecedem as atuações, houve tempo para tomar consciência que tudo parece estar a acontecer de forma diferente. O destino como que adivinha que se trata da última atuação. As 21h dão lugar às 18h, o professor Lourenço dá lugar ao Luiz e ao Rodrigo e a Sé de Aveiro passa a vez àquela que é a sala de todos os dias: o novo Auditório que temos agora de colocar bonito para o público, como quando se arranja um bocadinho melhor a nossa casa para receber uma visita importante. Só as meninas bonitas não têm que dar lugar a outras. Continuam as mesmas: bonitas, doces e delicadas. Deambulam pela sala como poemas largados ao vento.
Os meus colegas começam a aproximar-se e, os mais chegados, cumprimentam-me com a célebre frase do “Brandão” que há-de continuar por mais uns tempos enquanto ainda nos arrancar alguns sorrisos da cara. Entretanto o professor pede quatro voluntários para ajudar a passar um estrado. Durante algum tempo permaneço como voluntário único. Estranho. Finalmente dois colegas juntam-se a mim nessa nobre missão. Chegados ao outro Auditório, o velho, damos conta que afinal o que estava planeado para quatro pessoas era perfeitamente executável por duas pelo que lá venho a alombar com um estrado juntamente com outro colega.
Já todos em posição em cima dos estrados, somos convidados a fazer o aquecimento. Faço-o com todo o gosto e empenho que sou capaz embora pense para mim que eu e o meu colega de carga não precisaríamos (alguns risos)!
E o concerto começa. Desta vez, muito diferente de todas as outras. Por tudo acontecer tão rápido. Não houve tempo sequer para um nervoso miudinho. Nada. Talvez por isso, mais do que as memórias visuais, tenha apostado nas auditivas. A beleza desta vez foi realçada pela delicadeza das vozes que pareciam desenhar sons no ar como quem trabalha filigrana.
E o concerto acabou. A porta do Auditório abre-se para a saída e volto a encontrar cá fora aquela vida que passa sempre a correr. Como se tivesse que chegar ao carro de forma mais rápida que aquela com que o Jesse Owens percorria os 100 metros. Fazer música com os meus colegas traz-me essa calma que não encontro em muitas das horas do meu dia-a-dia. É do que mais sentirei saudades quando acabar a licenciatura: fazer música em conjunto. É natural.
A viagem de regresso dura cerca de uma hora. É lá que se mastigam estas boas memórias que sei que ficarão guardadas durante algum tempo. O suficiente para ser mais feliz à minha maneira. Chego a casa e lembro a voz da Amália quando encontro “dois braços à minha espera” numa casa que é portuguesa. Abraço e mimo os meus filhos enquanto penso que não há nada mais “tonal” que o riso das crianças.
Há caras que provavelmente não voltarei a ver. 
Foi o último concerto. 
A noite anoitece.
Suspensão.
Barra dupla.

Os Animais das Caixas de Fósforos


Antes da febre dos animais do Pingo Doce que me trouxe duas cadernetas lá para casa com a Rita e o Tiago em plena aceleração para ver quem primeiro acaba a coleção, muito antes disso, dizia eu, outros animais eram procurados. Tudo quando eu tinha mais ou menos a idade dos meus filhos.
Primeiro lembro-me de uma caderneta intitulada “Fauna Selvagem” que os meus irmãos tinham lá para casa mas as memórias que tenho é de uma caderneta já com os cromos colados e fazendo parte do passado. Gostava de ficar a admirar aqueles animais estranhos e coloridos mas era uma coleção já “fora de circulação” pelo que há outras que me são mais queridas.
A primeira tem o nome de Zoo Disney e lembro-me perfeitamente do dia em que o meu irmão chegou com a caderneta novinha em folha lá a casa. Corria o ano de 1981, tinha eu 5 aninhos apenas. Como eu a gostava de folhear. Fi-lo vezes sem conta. Durante muito tempo invejei (no bom sentido) o meu irmão. A minha casa de infância era minúscula mas ele tinha direito a uma gaveta enorme, cheia de cadernetas, inteirinha só para ele. Lembro-me que, quando o meu irmão não estava, tinha de pedir autorização à minha mãe para ver a gaveta das cadernetas. Como eu era muito pequenino ainda estava em idade de estragar muitas coisas. E há coisas que não se podem estragar. Felizmente essa coleção resistiu ao passar dos anos como se pode ver na foto deixada acima.
Mas a minha coleção de animais preferida é aquela das caixas de fósforos. Completei-a por três vezes. A primeira acabou por se perder com o tempo. A segunda, onde as caixas de fósforos eram contornadas por uma linha cor-de-rosa, dei-a na altura, creio eu, ao meu primo José Ilídio, que dividia comigo muitas das brincadeiras, uma das quais tinha as referidas caixas de fósforos no papel principal. A terceira vez que fiz a coleção, foi a que ficou para a história. É aquela que deixo na foto e que guardo de forma carinhosa no sótão de minha casa. Com essas mesmas caixas e com o meu primo José Ilídio, fiz montes de corridas nos muros da antiga escola primária. A cada letra correspondia um animal. Pois nós tivemos a feliz ideia de a cada letra fazer corresponder um país e era assim que fazíamos autênticas corridas, com a ajuda de um dado. Era assim que os muros da escola se transformavam em autênticos Jogos Olímpicos. Não demorou muito para que o Pelicano começasse a ser o animal preferido; afinal de contas, o “P” era a letra do nosso Portugal. E era assim que, mesmo sem dar muito nas vistas, o número seis do dado aparecia com mais frequência sempre que a vez calhava ao Pelicano fazendo-o correr mais veloz que os seus oponentes.
Sabe bem recordar. Na realidade, não era bem assim. Mas naqueles muros, na ponta dos nossos dedos, Portugal era quase sempre sinónimo de ouro olímpico. Porque às crianças tudo é possível. E com uns pais que nos dão “asas”, tudo é permitido. Até ser feliz com as coisas mais simples. É muito reconfortante ter vivido num tempo em que as melhores brincadeiras da infância estavam dentro da nossa imaginação.
Um grande abraço, Lídio!

Lembrando o mítico Sousa

Na foto: O Sr. Maurício Noites na flauta, eu na Requinta, o Sousa no Clarinete e o Valdemar também no clarinete.

A foto será algures de uma atuação da Banda Musical de Arouca em Santa Eulália, em finais dos anos 80 ou início dos anos 90.

Normalmente, quando escrevo um texto sobre alguma memória marcante ou sobre alguém que me é querido, as coisas costumam fluir de uma forma mais ou menos natural. Sempre com alguma emoção nas palavras a usar mas, de uma forma geral, costumo ficar satisfeito com as palavras que escrevo. Sobretudo porque me transportam para lá. Ainda que por breves (mas bastante saborosos) instantes, volto a sentir e a ser feliz da mesma forma.
Pois bem. Hoje não está a ser bem assim. Convenhamos que, pior do que isso: não está a ser mesmo nada assim. Em frente ao computador as memórias surgem igualmente a um ritmo ligeiro mas continuo estático sem escrever uma única palavra. Apenas me limito a olhar para o ecrã. Talvez hoje eu tenha resolvido ir um bocadinho mais fundo nesta viagem ao passado. Talvez não queira de lá sair. Não sei... Hoje parece-me estranha esta forma que encontrei para deslindar este novelo de recordações.
Há pessoas que a certa altura da nossa vida são muito importantes. Fazem parte do nosso dia-a-dia. Estão connosco quando estamos a fazer algo que gostamos. Aos poucos vamo-nos afeiçoando a elas. Até que nos damos conta que desapareceram. Num ápice, não as vemos há cerca de duas dezenas de anos.
Isso aconteceu-me, por exemplo, com o Sousa.
Não via o Sousa, creio eu, desde os saudosos anos 90. Talvez os anos de ouro da Banda Musical de Arouca.
O Sousa é um dos exemplos que me vem logo à memória quando me perguntam o que é, afinal, isso da mística da Banda Musical de Arouca. Porque essa mística é, também, uma maneira de ser. Como a do Sousa, acrescento eu. Confesso que a vida me tem concedido imensos privilégios. Tenho sido um abençoado em muito do que acontece na minha vida. Uma dessas bênçãos deu-ma a Banda Musical de Arouca quando me colocou, desde a primeira hora, a tocar ao lado do Sousa e do Valdemar. Que poderia eu pedir mais?
Guardo na memória montes de histórias que não consigo recordar de início ao fim sem antes me rir de forma descontrolada. Não há outra forma de lembrar o Sousa.
Nos anos 80 era frequente as bandas de música recorrerem a músicos profissionais para alicerçar a sua qualidade em bases sólidas. Muitos dos músicos da casa aprendiam apenas o básico, tinham logo direito a uma farda e eram “lançados às feras”. Uma realidade um pouco diferente daquela que encontramos nos dias de hoje. O Sousa era um desses casos. Fazia parte de uma trupe efetiva de músicos que vinham reforçar a já de si muito talentosa Banda Musical de Arouca. Era assim que tanto ele como o Pereira Luís, o Cravo, o Carlos Russo, o Raposo (e por vezes o Franklin ou o saudoso Mendes de Sousa) entre outros, faziam parte da família. Eram sempre eles que vinham e não outros. Era para mim um orgulho tocar com gente assim.
Numa altura em que quase todos os músicos fumavam, o Sousa não fugia à regra. Se bem que marcava a diferença: os outros andavam pelo Gigante e pelo Ventil mas o Sousa só fumava Ritz. Só quando o tabaco acabava e ele estava mesmo desesperado é que lá cravava um Ventil a algum dos meus colegas. A mim nunca me cravou pois, felizmente, nunca fumei.
Para além de excelente clarinetista, uma das principais características do Sousa era a quantidade de asneiras que empregava em cada frase que dizia. E isso encaixava na Banda como uma luva. Só quem por lá andava por essa altura compreenderá bem o que estou a dizer. As histórias que lhe saíam da boca eram de uma graça impressionante. Tinha diálogos com o Sr. Maurício completamente surreais que guardo comigo para a eternidade. Então aquela do congresso que se fez para saber qual a melhor coisa do mundo... Ainda hoje me rio com a do “pão-de-ló”!!!
Já aqui escrevi também sobre aquele dia em que borrou as calças ao fazer as necessidades pelo que à tarde apareceu com umas calças de ganga. O que ele se ria a contar... Naquele tempo os jogos do campeonato eram quase sempre ao domingo à tarde pelo que enquanto os jogos decorriam normalmente estávamos no coreto a tocar. O Sousa era o primeiro a “meter” veneno. Sempre que acabávamos de tocar uma peça começava logo a espalhar: “O Benfica já perde! O Sporting já ganha! O Porto ainda empata!” E tudo isto sem saber sequer os resultados. Era só para ver a malta em polvorosa! E depois ria-se! Muito!
Apesar de exímio executante, não gostava muito de fazer os solos empurrando quase sempre para o Valdemar e, mais tarde, também para o Jorge. Talvez por isso tenha ganho a fama de calaceiro o que, em rigor, era bem verdade.
Lembro-me de uma festa (creio que em Moldes) em que lhe cobriram o carro, um Rover Preto (acho eu, ajudem-me), cheio de flores. No fundo, era uma partida de reconhecimento pelo carinho que a maior parte da malta mais nova sentia por ele. O sentimento era recíproco. A tal ponto que numa dessas festas fora, aquando do regresso, nós, os mais novos, vínhamos a fazer o maior barulho possível. Era a chamada “borga” elevada ao máximo nível. A tal ponto que cada um tinha em seu poder partes de instrumentos da percussão para que o silêncio não ganhasse quando as vozes se cansassem. O Sousa, como outros, precisavam de descansar pois o dia seguinte era de trabalho. Pediu para que nos moderássemos embora sem sucesso. Aliás, a cada pedido feito o barulho aumentava ainda mais. Mas o Sousa é o Sousa. Levantou-se, e com aquele riso entre meia dúzia de asneiras, sentou-se junto a nós e começou também ele a cantar e a fazer barulho. Quem não estava pelos ajustes era o Carlos “Aguilhão” que ainda nos veio passar um sermão e tentou tirar algumas das nossas percussões. Ainda se virou para o Sousa mas ele, nessa hora, conseguiu colocar a cara mais séria que foi capaz e lá deixou escapar: “Eu?! Eu não vinha a fazer barulho nenhum! Eu até também queria dormir!”. Foi só o tempo do Carlos virar costas e gargalhada geral. Ainda o estou a ver a sair do autocarro do Calçada com um “Adeus malta”!
Lembro-me também das inúmeras vezes que jogou à bisca dos nove com o meu tio, o Sr. Soares. Lembro-me de uma em particular que teve o Pereira Luís como “adjunto” que se colocou estrategicamente por trás do meu tio para ir dizendo o respetivo jogo ao Sousa. Nem assim. Nunca o vi ganhar. O Sr. Soares limitava-se a dizer: “Ó Sr. Sousa, quando o senhor nasceu já eu era professor disto”! Ótimas memórias.
Mas do Sousa há duas memórias que guardo com especial carinho. A primeira diz respeito a uma festa em que na viagem de autocarro, como em tantas outras, fomos jogar uma suecada. O local escolhido era aquela salinha que tinha em baixo numa das camionetas do Calçada. O meu parceiro nesse dia foi o Movilar (talvez ele se lembre desta história) e os oponentes eram o Sousa e o outro não sei precisar mas acredito que fosse o Mauro. O combinado era pagar uma garrafa de vinho a quem chegasse primeiro às 10 vitórias. Sabem como é o Sousa, não sabem? O jogo esteve nos 9-9 e o Sousa fez milhentos “macetes”. Nós ganhávamos mas íamos a bater a última vaza e ele tinha já deitado uma carta ao chão para dizer que tinham sido mal dadas ou outra desculpa qualquer. Fez isto aí umas cinco ou seis vezes seguidas. Mas não adiantou. Porque os Deuses estiveram do nosso lado e ganhámos todas essas partidas. O que é certo é que lhe perdoamos a garrafita mas, para surpresa nossa, na hora do almoço lá chegou uma garrafita de verde banco à nossa mesa trazida por um empregado. Já vinha quase meia mas mereceu na mesma o nosso agradecimento. Ao fundo do restaurante, numa outra mesa, o Sousa sorria e acenava. Agradecemos da mesma forma.
Mas a melhor memória que tenho do Sousa foi numa festa em Silveiras. Como todos sabem, era natural ver o Sousa a olhar para as meninas e a trocar impressões sobre as que eram mais jeitosas e bonitas. Pois bem, nesse dia lá estava uma menina toda bonita a olhar a Banda em pleno coreto ao fim da manhã. Logo o Sousa alerta o Sr. Maurício e me aconselha: “Olha para aquilo! Eu não, mas tu que ainda és novo e tal...”. Vira-se para o Valdemar para continuar a ladainha e estava este a rir-se a olhar para mim! E retorquiu: “Ó Sousa, olha que essa é a namorada do Cebolinha”! Mas ele não se desmanchou. Virou-se para mim e atirou: “Ai sim?! Pois bem rapaz. Tens bom gosto!” E lá nos rimos os três.
Parece impossível estar quase 20 anos sem ver o Sousa. Acontece com algumas pessoas na nossa vida, não é verdade? Mas no fundo, acreditamos que elas estão bem e isso costuma bastar. No caso do Sousa isso durou apenas até há alguns dias atrás. Quando um amigo conterrâneo partilhou no facebook um vídeo da Banda em 1992 na festa em honra de Nossa Senhora do Campo. Lá estava eu ao lado do Sousa em plena procissão. Partilha leva a partilha até que alguém comenta: “Deus o tenha”. Foi assim que fiquei a saber que desde 2015 o mundo filarmónico anda mais triste porque já não tem as gargalhadas do Sousa.
Ficam as memórias. As boas, claro. O que já não é pouco.
Até sempre.

1 de maio de 1994

Há dias em que nos levantamos de manhã cedo sem sabermos ainda que irão marcar a nossa vida de alguma forma. Assim foi no dia 1 de maio de 1994.
A ideia era ser um domingo mais ou menos igual a muitos outros, apenas com a particularidade de se disputar em Rossas pela primeira vez a “Estafeta da Paz”, inserida naquele que seria o 1.º Maio Cultural. Como se tratava de uma novidade, a juventude foi-se organizando formando um número interessante de equipas que eram constituídas por três elementos cada. Foi assim que num dos dias anteriores, no antigo recinto da escola primária onde a malta nova se juntava todos os dias ao final da tarde, eu, o Paulo das Silveiras e o Pedro do Selmo fizemos a nossa equipa. A corrida haveria de começar ao início da tarde no lugar de Saril e acabar já em Provizende e, fica aqui o registo, a nossa equipa foi a vencedora. Mas não foi isso que ficou para a história. Não é essa a memória que me chega em primeiro lugar quando recordo esse dia.
A verdade é que antes de nos deslocarmos para a prova dava ainda para ver um pouco da corrida de Fórmula 1 que passava na RTP. Confesso, o meu ídolo de infância sempre foi o Nélson Piquet que, por essa altura estava já retirado. Como o Senna, o Prost, o Mansell, o Lauda ou o Berger tinham sido adversários do Piquet eu estava naquela fase de tentar encontrar um novo ídolo para que as corridas tivessem um outro sabor. O jovem Schumacher começava a destacar-se e o carro da Benetton era cheio de cores bonitinhas pelo que começava a apostar aí as minhas fichas. E foi assim que ao despiste do Ayrton Senna a minha primeira reação foi de felicidade. Primeiro porque significava que o Schumacher ia para a frente e depois porque os acidentes eram muito mais frequentes nessa altura. Estávamos habituados a acidentes espetaculares, os motores falhavam, a gasolina acabava, os pneus estoiravam... Os carros, por vezes, ficavam desfeitos mas a imagem usual era o piloto sair pelo próprio pé como se nada tivesse acontecido. Foi assim que fiquei imediatamente após o acidente do Senna: à espera que saísse pelo próprio pé. Mas tardava em sair. Não saiu. Foi visível a cabeça tombada e o corpo imóvel. Aí sim, veio a preocupação. Não era nada disso que eu queria.
Foi com o helicóptero em pista junto ao carro do Senna que saí de casa para a tal prova de atletismo. Nessa altura não havia internet, nem telemóveis. Para onde íamos não havia forma de nos mantermos atualizados. Foi assim que no local da prova não falei de outra coisa com o amigo Paulo da Silveiras. Lembro-me de regressarmos e, ao separarmo-nos pois eu tinha já chegado a casa, termos dito um “até amanhã” e desejado que o Senna estivesse a recuperar bem num qualquer hospital. Não estava. Ligo a TV e confirma-se o pior. Não demoraram cinco minutos para o telefone lá de casa tocar. Nunca ninguém me telefonava mas, nesse dia a minha mãe chamou por mim: “É para ti. É o Paulo”. Tinha acabado de chegar a casa e era para ver se eu já sabia da triste notícia.
A Fórmula 1 nunca mais foi a mesma. O Ayrton Senna foi, muito provavelmente, o melhor piloto de todos os tempos. Fui um felizardo por poder ter assistido em direto a muitas das corridas em que se bateu pela vitória. Sobretudo os famosos duelos com o Alain Prost. Fica na memória aquela primeira vitória em 1985 no circuito do Estoril ainda ao serviço da Lotus em que chovia torrencialmente e ele deu voltas de avanço a praticamente todos os pilotos.
Obrigado Senna por hoje me voltar a lembrar dos circuitos que fazia com uma pequena tábua no chão da antiga escola primária onde fazia autênticos Grandes Prémios com caricas nas quais escrevia os nomes dos pilotos. Ainda sei muitos dos nomes e respetivos números de cor. Ou então recordo as corridas com arco e gancheta que fazíamos em volta da capela dando os nomes das mais prestigiadas “scuderias” aos arcos que tínhamos em mãos. Tempos de ouro: quer na vida, quer na Fórmula 1.
Este fim de semana vi a primeira vitória do Bottas. Esta época promete. Não será como as de antigamente mas é com o presente que se consegue honrar o passado. Ainda que o Senna nunca seja passado. Será sempre presente.
Obrigado. Ainda que continue a preferir o Piquet. Que também foi tricampeão mundial, acrescente-se.

A Via Sacra e a "Mãe Ciana"...

Foto: Tono, Lena, Cristina, Sérgio, Zé Mário e eu algures no início da década de 90.


Ontem foi dia de mais uma Via Sacra. Demorada, como sempre. Mas muito gratificante. O percurso é longo e há várias paragens. Tempo suficiente para caminharmos também interiormente.
A princípio “vamos pelos pais”.
As memórias mais antigas que tenho das cerimónias da Páscoa trazem-me um pregador vindo de fora. Os meus pais gostavam de estar na igreja a horas, ainda que isso significasse chegar com quase uma hora de antecedência. O Toyota Corolla branco apenas saía de casa quando a querida “Mãe Ciana” (era assim que muitos a tratavam de forma carinhosa) chegava para que os meus pais a levassem para assistir às cerimónias. A idade era já muito avançada mas recordo a sua simpatia. Foi assim durante alguns anos. Sempre. No final, ao sair do carro, depois de muito agradecer aos meus pais, rematava sempre com a seguinte frase: “Este foi o último ano. Para o ano já não vai ser preciso”. A lucidez com que se encara o adiantar da idade, às vezes, faz pensar. Mesmo assim, durante alguns anos, felizmente, não teve razão. O ano anterior não tinha sido o último e ia havendo lugar para uma outra “última vez”.
É verdade que também “vamos pelos amigos”. Afinal de contas, quem melhor para nos guiar?
Há os que estão na foto. Mas há outros. Bastantes. É impossível não os recordar. Os tempos são , de facto, diferentes. Para os mais novos será difícil acreditar que houve tempos em que os amigos se juntavam no recinto da escola primária para depois irem “em bando” para as cerimónias. Lembro em particular uma noite em que o Luís do Selmo ia a fazer rimas de forma improvisada (uma espécie de cantar ao desafio) e rimou "cavalo" com "acabá-lo". Na altura, achei uma graça incrível, de tão inesperado que foi. Até para ele que quase não conseguia dizer a última palavra por tanto rir, pois a rima tinha-lhe surgido em cima da hora. Um verdadeiro improviso.
Confesso. Dou-me conta que falhei. Por essa altura era minha convicção que nos encontraríamos sempre nesta quadra e voltaríamos a fazer bando. Continuaríamos a cantar, a ler as escrituras e a conviver antes e depois das cerimónias. Como daquela vez em que parámos na casa em frente à Guidinha para beber um copinho, recordação que tenho que agradecer à amiga Cristina “do talho”!
É verdade que também “vamos pelos filhos”.
Hoje vou com a minha filha pela mão até à capela. Pelo caminho vou-lhe falando dos bons amigos dessa altura. Já não há bando, mas o Tono apareceu ontem para cantar e à noite chefiava os escuteiros.
No fim, volto para casa com a minha filha pela mão. O bando está agora espalhado a ser feliz em outros lugares e a fazer feliz um número mais alargado de pessoas em outras tantas famílias. Tudo tem o seu tempo. Apenas tenho saudades, só isso!
Hoje é tempo de dar a mão à minha filha, já disse?
Foi assim que entrámos em casa já noite dentro. Ambos bastante cansados. Eu completamente rendido à viagem interior que me foi proporcionada. Ela, apenas muito cansada pelo longo percurso percorrido.
Um dia, acredito, há-de chegar a vez de ela descobrir esse privilégio da viagem interior. O sorriso há-de ser parecido com o que trago hoje quando se aperceber que tudo vale a pena. Porque, no fundo, “pela fé é que vamos”.
Uma Santa Páscoa para todos.

Relembrando o "Cartolinhas"...



Olá Pai. Gosto muito de ti.
Ainda estou um bocadinho emocionado, sabes? Devia fazer isto mais vezes!
Hoje eu não não era eu. Eu, eras tu! E tu não eras tu. Tu eras o avô! Parece confuso, não parece?!
A eira já não existe pai. Mas estávamos quase no mesmo sítio. Quase, quase...
O bandolim deu lugar ao banjo. Mas aos poucos, de forma simples, fomos fazendo memória!
Voltou-se a ouvir a "Maria e o Manel", a "Canção de Embalar" ou o "Cartolinhas"!
O teu ouvido já só pressente metade das notas, o ritmo não era bem o que estava escrito mas, que importa isso?
Tu, não sei... Mas eu, hoje, voltei a ter seis anos! Durante aquela hora e meia tive a infância toda dentro de mim! Tive a felicidade da Isabelita e a Aldina andarem por lá a ajudarem a mãe a manter a casa um bocadinho mais asseada para a Visita Pascal. E depois de começarmos a tocar, enquanto o André ouvia atento no colo da Odete e a Rita e o Tiago brincavam no recinto da Escola Primária, chegaram o Dinis e a Bia, logo seguidos pelo Zé Mário, meu irmão e ídolo de infância que veio dar ainda mais brilho a este quadro.
Tocaste com um e com outro e, no fim, tiveste ainda tempo para ouvir algumas modinhas vindas da geração que deixaste. Cabe-nos a responsabilidade de o saber transmitir aos vindouros.
Gosto mesmo muito de ti, pai.
O André acabou por não dar tréguas e tivemos que o vir adormecer. Quando seguia no carro, mesmo antes de desaparecer, reparei que todos tinham seguido já para dentro de casa e estavas tu apenas, à espera que eu desaparecesse da vista para fechares a porta. De forma calorosa, dei-te um sorriso e um adeus. Respondeste de igual forma.
Hoje, em pleno período pascal, a vida eterna parou em nossa casa.
Obrigado. Prometo voltar mais vezes e com mais tempo. Para voltarmos a ser mais felizes.
Boa Páscoa.

Miguel

O Último Concerto

Para uns é mais cedo, para outros é mais tarde. Para mim foi neste fim de semana: o “último” concerto. Se bem que dividido em 2 atos: Coimbra e Aveiro.
Coimbra tem um encanto que não se explica.
Chego cerca de uma hora antes do que estava previamente estabelecido. Isso dá-me tempo para saborear memórias recentes no recinto encostado à minha direita. Nestas últimas férias fui muito feliz no Portugal dos Pequenitos onde passei horas seguidas olhando de longe a felicidade da Rita e do Tiago. Nesse dia, os meus dois únicos filhos (agora já são três) mais não eram que a extensão da alma de criança que trago dentro do meu corpo. Lembro-me de seguir cada movimento com uma atenção tal que os sorrisos saíam-me de forma cada vez mais frequente enquanto me dava conta que ainda tenho muito que aprender para continuar a ser criança.
Sigo o meu caminho e demoro ainda um pouco até descobrir a entrada para o local onde será o concerto quando a noite resolver aparecer. Lá dentro, juntamente com os meus colegas, faço o reconhecimento das instalações e aproveito um sítio confortável para descansar o corpo. Enquanto isso, há tempo para cumprimentar uma amiga que durante a semana trato por professora. Falámos um pouco e voltando a ficar sozinho fico a sorrir com a curiosidade de estar prestes a fazer música com alguém a quem na semana seguinte estarei a chegar estantes ou a tirar fotocópias. A vida tem, de facto, os seus encantos. Entretanto chega a amiga de Arouca (há sempre alguém de Arouca em qualquer canto do mundo) e troco dois beijinhos como quem partilha toda a bondade e admiração que se consegue encontrar num corpo tão franzino como o meu.
Entretanto seguimos para o aquecimento. Enquanto me posiciono vou admirando o local. Olho em redor e reparo que “não estás cá”. Por esta altura terias já trocado umas palavras comigo e eu dir-te-ia que os meus pequenos estão bem mas que o tempo para ser “músico” é cada vez menor. Estou certo que me animarias de alguma forma e acabaríamos a conversa deixando na minha garganta o gosto amargo de não te encontrar nas aulas de composição.
O ensaio acaba e somos convidados a jantar. A esmagadora maioria segue nos autocarros. Eu sigo o caminho oposto e faço-o de forma mais solitária. Há momentos em que estando na periferia conseguimos uma realização mais plena do que estamos a viver. Sozinho é mais fácil reparar na beleza do Mondego a fazer lembrar as trovas ao Douro nos meus primeiros tempos de estudante.
O céu já veste de negro quando acabo por regressar ao local do concerto muito antes da maioria dos meus colegas. Faço uma ronda pelos camarins quando sou interrompido por uma voz doce que se recorda das minhas feições mas não do meu nome. “Não, também não fui jantar com eles” – respondo eu, sorrindo, enquanto volto ao meu lugar de descanso/concentração.
Entretanto vários colegas vão trocando algumas impressões, também comigo. Aproveito para parabenizar um amigo pela conquista de um prémio e sou surpreendido com a curiosidade sobre o meu rebento mais novo e sobre a estreia de teatro que vai acontecer no fim de semana seguinte e que “anda tudo a pensar no mesmo”. A internet, às vezes, tem o seu encanto...
A hora aproxima-se e vamos começando a subir empacotados em elevadores. À saída dos mesmos, por ironia do destino, espera-nos outra “sala de espera”. Mais uma vez deixo-me ficar um pouco à margem. É incrível o que se consegue assimilar desse lado da vida. Voltei a olhar em redor e voltaste a “não estar cá”. As meninas exibem roupas requintadas que lhes realça a beleza natural e parecem trazer no rosto a tal “face das pequenas” que o Paião eternizou no seu Pó de Arroz. E tudo salta à vista como se de um quadro de Rembrandt se tratasse.
Entretanto, vamos obedecendo a indicações preciosas que nos são dadas pelo que num ápice estamos perfilados em frente a uma porta à espera da aprovação de alguém. É chegado o momento de sermos melhores que nós mesmos.
O concerto corre bem, a música de Rossini aqui e ali vai-me preenchendo a alma e depois de atirar um até amanhã a alguns dos meus colegas é já a caminho do carro que sinto que tudo valeu a pena.
É com a banda sonora que os meus sapatos entoam no passeio que me dou conta que este é o “último” concerto. A minha boca, em surdina, ainda vai cantando o “Amen” da fuga final (aquela música entranha-se no cérebro) e é nesse cenário que me lembro dos Queen e daquela que foi a última canção do último álbum editado com o Freddie ainda vivo. E tudo parece fazer ainda mais sentido: “The Show Must Go On”. Abro a porta do carro e imagino o Freddie debilitado a fazer toda a canção de forma perfeita, num só take, como nos é contado pelo Brian. O fim não é necessariamente mau. Depende da forma como se acaba. E o Freddie acabou bem.
Entro e pouso o livro da partitura no banco do passageiro. Só aí reparo no nome Rossini escrito a letras garrafais na capa e lembro-me que é italiano. Deixo escapar um sorriso disfarçado: afinal “estavas cá”. Sigo o caminho para casa sabendo que no dia seguinte em Aveiro me espera outro “último” concerto. Que não será muito diferente deste. Ou de outro qualquer...

Dia Mundial do Teatro

Porque ontem foi o Dia Mundial do Teatro.
Deixo aqui a foto de um grande ator. Talvez o melhor e mais completo que Rossas viu nascer. O modelo que tento seguir e que será, porventura, impossível de igualar. Mesmo passando 35 anos da sua partida para o espetáculo eterno, ainda é frequente falar-se no seu nome sempre que o assunto é o Teatro. Uma referência, juntamente com o Silva dos Carreiros ou a Celestinha da Portela.
Os tempos eram outros, os lagares serviam de palco e as “lojas” serviam de salão. Por essa altura o Sr. Brandão da Seca dava o corpo a comédias, farsas, dramas, operetas, monólogos, e tudo o mais que seja possível imaginar. Foi ator, ensaiador, encenador, fez arranjos musicais e, sobretudo, antes de partir, teve ainda tempo para ser um dos fundadores do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas. Já não fui a tempo de o ver em palco pois quando nasci tinha ele já 82 anos. Mas fui abençoado pelo destino. O Sr. Brandão da Seca, para além de meu avô, foi o meu padrinho de Batismo. O melhor que eu poderia ter. Trago, algures no meu cérebro, naquela gaveta onde se guardam as memórias mais antigas, a lembrança de estar ainda no edifício da Escola Velha onde hoje é o Centro Cultural e vê-lo a ensaiar um grupo de crianças. Um flash muito curto que me traz apenas o rosto de um ator novato, meu primo, que gritava repetidamente em palco: “tenho fome”. Será, porventura, a memória mais antiga que trago comigo.
Nunca te vi representar avô. Nunca. Mas tenho um punhado bem gordo de deliciosas memórias passadas contigo e que, pelo teu jeito de ser, me provocavam um riso descontrolado. É fácil imaginar o quanto foste grande no palco. Sabes, em muitos dos espetáculos que participo dão-me os parabéns dizendo-me que “é como se o Sr. Brandão da Seca estivesse em palco”. Emociono-me sempre com o elogio, embora tenhamos que ser francos: ninguém se aproxima do que conseguias fazer e, mesmo que pudesse haver alguém que ousasse tal, esse alguém não seria eu. O seu, a seu dono; e ambos sabemos que o Zé Mário é muito mais próximo daquilo que foste do que eu alguma vez serei. Em cima do palco consegue ser mais perfeito que eu em tudo. E isso enche-me ainda mais de orgulho.
Sábado vamos estrear uma nova peça em 2 atos. Creio que irá ultrapassar as 2h30m de duração. Vou voltar a lembrar-me de ti. Estamos todos ansiosos pela estreia. O Grupo, aquele que ajudaste a fundar, está cheio de vida. Faz jus a todos quantos estiveram na sua génese pelo que todos os que nos precederam terão motivos para estar orgulhosos. Valeu a pena avô. Valeu bem a pena. Muito.
Tenho saudades de ti. Daquelas curvas tombadas que me mandavas fazer e que eu tão bem delineava junto à eira. A tua eira, lembras-te? Fecho os olhos e estás ainda a tocar as mais variadas modas com o meu querido pai, um na viola e outro no banjo. Havia pessoas que paravam na beira da estrada para ouvirem um bocadinho.
Sei de cor o teu timbre e o teu riso. Aquele que soltavas quando contavas pela milésima vez a história do “Xanxanário” que ainda hoje sei de memória.
Ontem foi o Dia Mundial do Teatro. O teu dia. Obrigado por mo teres oferecido de mão beijada. Assim como quem pega num neto ao colo. Como a fotografia tão bem demonstra. Um beijo cheio de saudades.

O teu neto,

Miguel

E tu, ainda te lembras dos torneio do SAJU?

Em cima: Zeca, Tono, Eduardo, Rui (Silveiras) e Pedro
Em baixo: Vitor, Paulo Zé Mário e Miguel (Eu)

O meu irmão era um autêntico génio da bola. Tratava a bola com uma delicadeza tal, apenas ao alcance dos predestinados. Era, para mim, um autêntico ídolo. É certo que Deus também me concedeu algum talento mas nunca lhe haveria de chegar aos calcanhares. É por isso que as minhas primeiras memórias dos torneios de futebol que se faziam por Arouca são ainda na qualidade de adepto. Foi assim que assisti em 1989 ao primeiro título do GCR Rossas no mítico torneio do SAJU. Uma vitória suada, conseguida nos penalties, depois de um empate a duas bolas no final dos 40 minutos de jogo mais aqueles que haveria de durar o prolongamento. Outras se seguiram. E eu presenciei grande parte delas. Hoje é dia de recordar alguns desses feitos ou outras histórias mais ou menos engraçadas.
Era carismático aquele equipamento branco e verde patrocinado pelo Luís Bastos ou aqueles dois patrocinados pelos Móveis Antunes, um preto e amarelo e outro vermelho e branco que tive a enorme honra de envergar. Já para não falar naquelas chuteiras todas iguais que o GCR Rossas ofereceu a todos os jogadores. Pareciam uns “barcos”... Ahahah! Mais alguém se lembra disso? Ótimas memórias!
Aquele torneio do SAJU em 1990 que o GCR Rossas acabaria por perder na final por 3-2 frente ao ARDA foi marcante. Felizmente há uma filmagem desse jogo decisivo sendo um dos registos mais antigos da nossa querida Associação. No dia da estreia o Silvério que era para ser o guarda-redes, apareceu com o braço partido e teve de se arranjar um à pressa dentre a assistência. O escolha não podia ser melhor, não pela qualidade futebolística pois, como se veio a comprovar, deixava bastante a desejar mas antes, pela quantidade de histórias engraçadas que protagonizava. Recordo com saudade a famosa frase: “A minha sogra bem me disse que a roupa estava molhada. Ai que frio!!”. Só quem por lá passou sabe as risadas que essa frase proporcionou e como ficou para a história.
Outra história marcante haveria de acontecer alguns anos mais tarde. Em pleno SAJU, estávamos num jogo de Taça. Ali era a eliminar. Perder significava o fim. Era um jogo contra o Tropêço em que me lembro de fazer um jogo fenomenal. Alguns ainda se lembrarão de uma ilustre jogada em que faço três “cuecas” consecutivas sobre o mesmo adversário arrancando algum burburinho na assistência e, quando me dirijo para a baliza adversária sou completamente “tesourado” pela vítima. Estivemos a ganhar por 3-0 e levei a partir daí com o tal adversário sempre em cima de mim a dizer entre dentes: “Não fazes mais isso! Não sais daqui vivo”. Coisas do futebol. Acabaríamos por empatar 3-3 e o jogo teve de ser decidido nos penalties. E aqui é que vem a memória mais engraçada. O Tono era o nosso guarda-redes na altura. Num dos penalties o Pedro do Selmo vira-se para o Tono e diz: “Deixa-te ficar no meio da baliza que vais defendê-la”! O Tono, como bom rapaz que é, seguiu o conselho à risca. Pois o tal fulano, o que me dizia que não sairia dali vivo, rematou com tamanha força que acertou em cheio na cabeça do Tono que, obedecendo ao Pedro, nem mexeu um cabelo sequer. Eu acho que foi por nem ter tido tempo para isso. Ficou estendido no chão aí uns 5 minutos mas o que é certo é que defendeu o penalty e conseguimos o apuramento para a eliminatória seguinte.
Há ainda a boa lembrança daquele outro jogo onde finto um adversário e logo levo uma "sarrafada". Como não caí, o Walsh (era ele o árbitro nesse jogo) estica os braços e grita: “Jogo”! Lá continuei e volta a repetir-se a história. Nova finta, nova "sarrafada" e de novo o Walsh: “Jogo”! Volto a continuar, nova finta e, desta vez, a "sarrafada" definitiva. Caí redondo no chão! Cartão amarelo para o meu oponente e frase para a história do amigo Paulo das Silveiras enquanto ajeitava a bola para cobrar a falta: “Para a próxima cai logo à primeira”! Lembras-te Paulo? Talvez não te lembres da frase mas acredito que ainda te lembres desse episódio! Deste e de muitos outros que agora já não recordo...
Há ainda a lembrança daquelas jogadas perfeitas que conseguíamos fazer e que o Pinho tão bem rematava com a expressão “Lindo” que se tornou quase um hino entre a malta.
A memória mais saborosa, ainda mais do que as vitórias nos mais variados torneios, aconteceu num torneio do BURGO, jogado no Campo do Parque. Era dia de dérbi: Unidos de Rossas vs GCR Rossas. Tudo gente conhecida e amiga mas, sabem como é, dérbi é dérbi. Ninguém gosta de perder. Dizia-se antes de começar em tom de brincadeira que eram os da cerveja contra os do sumo ou os do café contra os da missa. Perdíamos por 2-0 ao intervalo e dizias-me entre dentes para me picar quando vim lançar uma bola junto ao banco adversário: “Ó Miguel, está-se a desenhar”. Olhei para ti e ri-me. Riste-te também. Uma rivalidade amigável. Demais. Quase que apetecia que ganhassem os dois. Mas, adiante... Demos a volta na segunda parte e acabámos por ganhar por 4-2. Memorável. Deveria ter sido filmado. É pena.
Há ainda a memória do Tono a dizer aquela frase peculiar: “Tenho de começar a tentar pensar na tentativa de poder passar a jogar à frente”. Dá que pensar... Eheheh!
Ou aquele jogo em Mansores (o meu primeiro naquele torneio, por sinal) em que a ganhar por 1-0 sofremos um canto contra. Marcam o canto e grita o Tono em tom autoritário: “Estou!” – mas logo vê que não vai chegar à bola pelo que continua a frase: “Car***, não lhe chego”! Na altura não chegou graça nenhuma mas depois rimo-nos muito à custa disso! O jogo ficou 2-2. Partilhei a linha avançada com o Vítor do Curro! Um luxo. Ainda tínhamos saúde física para dar e vender!
Como em tudo, há também memórias menos boas. Serão as boas memórias de outros, certamente. Como quando fizemos aquela viagem no Toyota Corolla do meu irmão, todos sem dar uma única palavra, pois tínhamos sido eliminados na meia-final nos penalties. Eu vinha ainda mais cabisbaixo pois fui o único a falhar a penalidade acertando em cheio no poste da baliza. Isso dos postes parecia “diabo”. Lembro-me de um jogo em que na mesma jogada acertei por 3 vezes seguidas no mesmo poste.
A pior memória foi ver o meu irmão a ficar, literalmente, com o braço virado ao contrário num jogo com o Canto do Muro. Foi um torneio amaldiçoado. Haveria de me lesionar com gravidade no jogo seguinte contra o Burgo e o meu tornozelo nunca mais recuperou totalmente. Hoje parece feito de papel. Dá só para jogar aos domingos de manhã (se eu tivesse tempo para tal).
Foi um privilégio partilhar o campo com tão bons jogadores. Alguns ganhavam até alcunhas peculiares. Havia o Bruno “Andre Flo”, um autêntico matador; o Zé Maroni “Trapattoni”, o mestre da tática; o Carlos “Kongolo”, um poço de força; o Paulinho “Cascavel”, um pezinhos de lã; e havia o Michel que não precisava de alcunha. A mim, chegaram a chamar-me “Caniggia” mas infelizmente não tinha a ver com as minhas capacidades futebolísticas. Era apenas porque nessa altura eu usava o cabelo comprido.
Cheguei ainda a ser campeão universitário de futebol de 5 e representei ainda (de forma esporádica, é certo) o Sport Rossas e Malta, Ponte da Costa e a Banda Musical de Arouca onde fiz os últimos jogos da minha “carreira”.
Ao fim de semana, nos dias de hoje, é frequente olhar de minha casa o campo de futebol relvado. Entre dentes, vou repetindo que chegou com 30 anos de atraso. O uso que lhe teríamos dado nessa altura. A luta que foi para conseguir um campo minúsculo na Portela. Mesmo assim foi um palco importantíssimo. Lembro as manhãs passadas a jogar a bola com o “Porteladas” que tinha uma paixão muito peculiar pelo jogo. Deixa muitas saudades. Às vezes as pessoas eram tantas que tínhamos de jogar ao "bota-fora". Pena essas velhas guardas da altura não terem 1h por semana para fazer uma perninha neste renovado campo de futebol. Era com esses que eu gostava de voltar a jogar. Só assim conseguiria arranjar tempo. Doutra forma talvez não valha a pena.
Volto a olhar o campo de futebol relvado uma última vez antes de regressar a casa. O Isaías do Paço merecia ter jogado num relvado assim.
Rossas, naquele tempo, era grande; muito grande. Mesmo sendo pequena.

E tu, quais são as histórias que te lembras?

Parabéns Cajarana!

Parabéns Cajarana.
Prometo que não me vou alongar muito mas hoje, se me permitires, queria deixar-te aqui meia dúzia de palavras. Afinal de contas, fazes anos hoje (salvo seja)!
Às vezes, a forma que encontramos de mostrar o nosso afecto a alguém pode parecer estranha. Porque não usamos as palavras mais simples ou óbvias.
Por isso queria dizer-te que gostava que continuasses a ser essa pessoa “moderadamente espetacular” que tens sido sempre que estou contigo. Como dizer: assim quase a roçar o fixe mas sem deslumbrar... Eheheh! Tenho saudade de te ver fazer borboletas ou daquela imagem que guardo de ti na minha última Feira das Colheitas ao serviço da Banda Musical de Arouca onde demonstraste como se imitava um drone. Fenomenal.
Sinto falta das entradas, procissões e, sobretudo, das cervejas fresquinhas... Ui!!! Aquele grupo de Arrumadores é “qualquer coisa”! Lá está, à tua semelhança consegue ser quase fixe mas sem deslumbrar!!!!
Faço ainda uma vénia àquela comida divinal regada com verde branco que algumas vezes tive o privilégio de provar na tua humilde casa em tão boa companhia pois é tudo gente de bem.
Gosto de andar por aqui no facebook e de ver como te vão correndo as coisas. Fico duplamente satisfeito quando te vejo em fotos com o Jiló, um dos meus melhores amigos. Estás bem entregue. Falo por experiência própria. E depois, sabes como é... Amigo do meu melhor amigo, meu melhor amigo é...
Eu, tu, o Pepé e o Repolho éramos um autêntico “Quarteto Fantástico”. Tenho muitas saudades.
Espero que continues com essa tua boa disposição e sentido de humor refinado que te caracteriza. Isso ajuda a fazer de ti um portador da verdadeira mística da Banda Musical de Arouca e um fiel depositário do que de melhor se passa naquela casa.
Ora diz lá... É estranha esta forma de mostrar que gosto de ti rapaz. Não é?
Mas hoje pareceu-me fazer todo o sentido dizer-te que gosto de ti ao dizer que és aquilo que eu vejo como um músico modelo para uma das Associações que ajudou a marcar de forma extremamente positiva a minha vida.
Sabes... Isto está a ficar longo e eu não quero abusar. Só te quero deixar “moderadamente comovido”. Por isso vou ter de terminar. Não sem antes explicar o porquê da foto que acompanha este post. Essa imagem diz respeito a uma novela que passou no início da década de 80 no canal 1 da RTP. Chamava-se “Pai Herói”. Se quiseres saber mais basta pesquisares um pouco na net. Lembro-me até de ter um pequeno jogo didático que recebi no Natal onde tinha de completar a imagem final do genérico da novela. Bem, mas isso é outro assunto.
E perguntas tu: “Mas o que é que essa imagem tem a ver comigo?”
Respondo eu: “Tem tudo, amigo Cajarana”.
Era esta foto ou uma com gajas nuas. Optei por esta. Sabes, como presente de aniversário, decidi mostrar-te as tuas origens. És André Cajarana de Batismo (metade de nascença e metade na Banda). Mas antes de ti existiu o André Cajarana original. É precisamente esse que aparece na foto que te deixo e que era o protagonista principal da tal novela que passou na RTP. Era interpretado pelo conhecido Tony Ramos que dividia a trama, entre outros, com o célebre “Baldaracci”.
Gosto “moderadamente” de ti rapaz.
Aquele abraço. Sem encostar muito por causa das más línguas.

Cebolinha