Dia 12: Joe Cocker



30 Dias / 30 Artistas – Bandas – Videoclips

Dia 12 – Joe Cocker

As coisas por aqui vão andando muito devagarinho. A um ritmo bastante lento, é certo. Mas vão andando. E hoje consigo dar mais um passo nas minhas memórias musicais. E é assim que chega a vez de Joe Cocker.
Logo à partida surgem na memória Unchain my heart, Up where we belong ou o inacreditável You are so beatiful com a brilhante interpretação do Joe Cocker mexendo as mãos como se estivesse a tocar piano. Excelente.
Mas o que me transporta mesmo para as melhores memórias são o Edge of a dream e o All I know (feels like forever). A primeira porque estava inserida no álbum Love Classics 2 que saiu em 1993 e que descobri aí que tinha o dedo do Bryan Adams. Uma óptima canção.
A segunda saiu da mente brilhante de Diane Warren, autora de inúmeros êxitos que chegaram até nós na voz das mais variadas estrelas pop/rock. Gosto especialmente desta última música. Parece fazer jus ao nome que tem. Ao re-ouvir aqueles acordes todas as boas lembranças que surgem parecem querer dizer que realmente tudo “feels like forever”. No bom sentido.
Até já.

Dia 11: Guns'n'Roses



30 Dias / 30 Artistas – Bandas – Videoclips

Dia 11 – Guns'n'Roses

Depois de um longo período de interregno eis que retomo a minha lista de memórias musicais a que resolvi chamar em tempos de "30 Dias / 30 Artistas".
Foram já dez as excelentes memórias partilhadas. Hoje prossigo esta caminhada com outras lembranças igualmente de ouro.
Trazer a adolescência para perto de nós é voltar frequentemente ao que de melhor os Guns'n'Roses nos trouxeram. Dentro dessa boa música estão, à cabeça, Don't Cry, November Rain, Live and Let Die, Paradise City ou aquela deliciosa versão de Knockin' on Heaven's Door. Que saudades...
Na cabeça ainda estão entranhadas as cores que pintavam as capas dos álbuns Use Your Illusion I & II que o Pedro tinha e que fez o favor de me emprestar na altura para eu passar tão precioso som para cassete.
Depois era ouvir até cansar o que, como se sabe, é bastante difícil.
Muitas saudades desse tempo e, sobretudo, muita angústia por nos dias de hoje o tempo não sobrar para ouvir tão boa música.
Por hoje fico por aqui.
Amanhã haverá mais. Espero eu.
Boas memórias por esses lados?
Grande abraço.

Feira das Colheitas

A Feira das Colheitas acabou. 
Confesso logo à partida que haverá uma quantidade enorme de gente a quem esta magnífica festa diz muito mais do que a este simples mortal que hoje vos escreve estas linhas. No entanto, e como bom arouquense, isso não impede que nutra por ela aquele carinho que estará nos genes das gentes desta terra. E a edição deste ano, no que a mim diz respeito, teve as suas particularidades. Desde logo, apanhou-me numa fase muito introspectiva. O facto de estar na festa mas "longe da multidão" levou-me a muitas avaliações interiores, tão necessárias quanto proveitosas (embora, por vezes, dolorosas).
Sabia de antemão que estaria ocupado em "trabalho" na sexta-feira, no sábado e no domingo. Isso, só por si, deveria ser motivo de análise e de apreensão logo à partida. Como se pode aproveitar uma Feira das Colheitas assim?!
Mas comecemos pelo início. Costuma ser o mais sensato...
Por saber a pouca disponibilidade que teria nos outros dias, a quinta-feira foi aproveitada para passar um bocadinho nos carrosséis com a Odete e ficarmos os dois deliciados a ver os risos dos nossos pequeninos. E como é tão bom podermos dar-lhe um pouco de mimo de vez em quando... Tenho de agradecer à Odete essa noite pois, a verdade seja dita, o cansaço era tal que nem queria sair de casa e foi ela que me convenceu. Ainda bem.
Nos restantes dias o plano era outro. A missão passava pelo apoio necessário à realização do Encontro de Concertinas e dos Cantares ao Desafio, pela execução de clarinete durante todo o sábado ao serviço da Banda Musical de Arouca e pela apresentação do Folclore durante todo o domingo. Não sobrava tempo para mais. E isso fez-me viajar para "dentro". Analisar. Reformular. Seguir. Reagir.
Deu ainda para passear um bocadinho (pouco) sozinho pela festa. Vi, ao longe, grupos de amigos juntos em amena cavaqueira. Caras conhecidas de outros tempos que mantêm os laços do passado. Uns felizardos. Ainda bem.
Já não tenho os amigos de outros tempos para ir aos carrosséis, andar pela festa ou beber uns copos. Nada de mais. Apenas fica estranho. E no meio de tudo isto levei com duas "pedradas no charco". A primeira na sexta quando estive à conversa com o amigo Neno que vejo tão poucas vezes mas que nunca esquece os fantásticos tempos de outrora. É desta que vai sair o tal jantar com alguma da malta do 10.º ano. Já estou a tratar disso amigo. Já estou a tratar disso. Obrigado pela nossa conversa.
Depois foi a vez de no sábado reencontrar uma das minhas melhores amigas de sempre e que já não via há uns 17 anos. E isso é muito tempo. Mesmo. Mas, no sábado, não pareceu. Por isso foi em tempos uma das minhas melhores amigas. Porque mesmo sem nos falarmos tanto tempo, no sábado, fizémo-lo como se a nossa última conversa tivesse acontecido na véspera. Como se o tempo não tivesse existido entretanto. E eu creio que é isso mesmo que acontece com os verdadeiros amigos. E ficou prometido um novo encontro, desta vez sem deixarmos passar tanto tempo. Porque há muito para contar e para saber. Uma óptima surpresa.
Pelo meio tive a Odete e os meus pequeninos a ver-me na Banda e a apresentar o folclore, o melhor que a festa me poderia trazer.
Dos vários amigos com quem passeava pela festa noutros tempos, nenhum sobrou. Mas há um, de quem gosto muito, que tem sido a minha companhia nestas últimas edições e que me acompanha sempre mesmo quando estou a maior parte do tempo em trabalho. E este ano não foi diferente. Obrigado Nando, és das melhores companhias que eu poderia ter. Acabámos a festa no carro, a caminho de Rossas, concordando que foi bom e a desejar que para o ano seja ainda melhor. Acredito que sim, e que acabará mais ou menos como este ano: contigo no carro a caminho de Rossas. Se assim for, serei um homem feliz.
Até para o ano.

Queen Forever

É já no próximo dia 10 de Novembro que chega às lojas o tão falado novo álbum dos Queen. Infelizmente, para os fãs incondicionais como eu, este álbum de "novo", tem realmente muito pouco. Mais do que isso: é um pouco que acaba por saber a isso mesmo, muito pouco.
Custa a crer que com tanto material "inédito" para trabalhar (e todos sabemos como hoje em dia com o Pro Tools facilmente se fazem óptimos milagres) a esmagadora maioria das canções sejam velhos êxitos. É certo que continuam a ser de qualidade muito superior a tanta coisa nova que anda por aí mas, continua a saber a pouco.
Pergunto-me como é possível ignorar "rarities" do nível de "I Guess We're Falling Out" ou "It's So You" (só para citar alguns) que facilmente se tornariam novos êxitos depois de devidamente trabalhados. E isso sim, seriam realmente inéditos. Os verdadeiros fãs (e são tantos) preferem isso e não uma milionésima versão de muitos outros grandes êxitos que já todos sabemos de cor a salteado e que não necessitavam de um novo cd para os continuarmos a ouvir até à exaustão.
Custa a engolir que se faça passar a grande ideia que o prato forte deste álbum é um suposto inédito "There Must be More to Life Than This" com o Michael Jackson que eu já tenho em minha posse há mais de uma dezena de anos. E não estou a falar da versão a solo do Freddie que já em 1985 era fenomenal... Como é possível?!
No entanto, apesar de todo o hype, nem tudo são pequenas desilusões.
Felizmente a versão mais lenta de "Love Kills" está muito boa e o "Let me in Your Heart Again" acaba por funcionar realmente como um verdadeiro inédito (embora não o seja na totalidade). E isso acaba por ser suficiente para me deixar inebriado por uns tempos. E volto a apaixonar-me por tudo outra vez. Como se voltasse à adolescência. Como se as canções fossem realmente novas...
Mas fica sempre o gosto amargo de sentir que tudo poderia ter sido feito ainda melhor. Muito melhor.
Talvez isso explique o porquê do John Deacon há muito se ter reformado. É um homem muito sábio.
Mesmo assim, obrigado.
Vou estar sempre aqui.


A Carta da Morte



Obrigado Hélder.

No dia em que escrevo estas linhas, confesso que estou um pouco emocionado.
Todos os que conhecem o meu sobrinho Hélder sabem, certamente, reconhecer-lhe o imenso talento nas mais variadas artes. O que talvez não saibam é o porquê de hoje me ter emocionado um bocadinho. Mas facilmente perceberão se conseguirem ler este pequeno texto até ao fim.
Tinha mais ou menos a tua idade, Hélder, quando comecei a fazer os meus primeiros truques "a sério" de magia. Como não havia internet o gosto surgiu-me do programa "Isto é Magia" do Luís de Matos que passava durante a semana, todos os dias, ao fim da tarde. Corria, creio eu, o ano de 1994.
Na época eu era um felizardo pois tinha um vídeo lá em casa e gravava todos os programas para depois rever todos os truques vezes sem conta para conseguir descobrir alguns deles. Frequentemente, sentia-me pequenino. Tudo era apresentado de uma forma soberba e contagiante. E eu ficava ali, petrificado, atento a todos os pormenores. E era sempre ali, algures pelo meio, que o Luís de Matos era "maior" do que eu. E isso era o que mais me fascinava...
Não demorou a descobrir-lhe alguns dos truques. Daí até eu arranjar uns copos e umas bolas e começar a fazer desaparecer coisas em frente aos espectadores lá de casa foi um pequeno passo. O facto de eu dizer as minhas gracinhas também ajudava (ainda consigo ver a cara de riso dos meus pais depois de alguns dos meus truques).
A minha primeira cobaia para além do agregado familiar era o meu colega de carteira, o Nepinhas, que na escola, no dia seguinte, levava com alguns dos truques que eu ia descobrindo. Ai que saudades...
Foi assim que aprendi a fazer malabarismos com bolas, a desaparecer cartas, a prever os números do totoloto, entre outras coisas...
Depressa alarguei os meus horizontes a mágicos estrangeiros que mais esporadicamente apareciam na televisão (David Copperfield era o nome maior). E foi um desses mágicos que me trouxe, na altura, o meu truque preferido. E como eu fiquei radiante quando descobri como era feito... Chamava-se: A Carta da Morte.
Por isso hoje fiquei bastante emocionado. Porque ao ver-te, Hélder, revi-me, há 20 anos atrás, com o mesmo entusiasmo, embora com muito menos capacidade. Graças a ti, Hélder, hoje, voltei a fazer magia no meu liceu. Voltei a ser, por momentos, o "maior" da minha rua. E isso, às vezes, sabe bem...
Continua Hélder. És enorme. Fazes coisas que eu nunca serei capaz. E, como o Luís de Matos, também me fazes sentir pequenino muitas vezes. Obrigado por isso. Porque me "engrandece".
Ainda não eras nascido Hélder. Mesmo assim, passados todos estes anos, tenho a certeza que pegando num baralho consigo fazer esse truque da "Carta da Morte" à primeira tentativa. E tu sabes como isso sabe tão bem. Não sabes?
Obrigado.

Miguel

Nas Mãos dos Deuses


Freddie Mercury nasceu a 5 de Setembro de 1946

Se eu pudesse, hoje, acordava em cima da hora, entendendo a expressão “em cima da hora” como acordar já depois das 7h30m tendo que apanhar a camioneta do Caima antes das 8h na paragem da Barroca. Tudo feito como nos melhores dias.
Porque é assim que se faz…O banho matinal toma-se à pressa em água gelada mesmo sem ninguém nos ter desafiado para isso. A preguiça de fazer uma fogueira de véspera fala sempre mais alto. Enquanto se olha para o relógio veste-se uma camisa aos quadrados, umas calças de ganga seguradas por um cinto cheio de rebites e umas botas texanas com uma biqueira o mais aguçada possível. Tudo rematado com um resto do frasco de perfume que o irmão mais velho costuma usar aos domingos à tarde.
Se ainda houver tempo engole-se uma tigela de leite à pressa e atafulha-se meio pão com manteiga pela garganta abaixo enquanto se pega na capa com o poster do Freddie Mercury com meia-dúzia de folhas para levar para a escola porque, imagina-se, é assim que fazem os que são populares lá na escola pelo que será assim que as meninas mais gostam que façamos. Tudo ao jeito do saudoso filme “Namorada Aluga-se”, mas adiante…
Depois é viver intensamente todo o dia com os amigos para a vida e ir percorrendo as artérias da escola fazendo um olhar mais envergonhado quando nos cruzamos com a menina que amamos em segredo. Nessa altura fazem-se umas figuras ainda um bocadinho mais parvas mas que muitas vezes acabam por resultar porque, ao que parece, a fórmula é mesmo assim.
No final do dia, embora se possa fazer na escola, há que ir esperar a camioneta à vila porque é muito mais fixe. Compra-se um caramujo na Arca Doce para cumprir o ritual (aquele creme era mesmo delicioso), joga-se um bocadinho de matrecos no Cheiro Verde e depois é esperar na avenida pela camioneta e enfrentar um molho enorme de colegas para ver quem consegue entrar primeiro e ficar com os melhores lugares.
Chegando a casa vê-se a Roda da Sorte ou o Com a Verdade m’Enganas e janta-se à pressa antes da novela Pedra sobre Pedra. Depois há ainda tempo para jogar um bocadinho de computador ou ficar deitado no sofá a ouvir Queen até não poder mais. E é com essa banda sonora e com todo o cenário que está descrito atrás que se imagina as histórias que gostaríamos que acontecessem no dia seguinte nessa mesma escola e com essas mesmas pessoas com quem dividimos as melhores aventuras que se poderiam ter.
E não adianta dizer mais. Nestes últimos dias tenho voltado a apaixonar-me profundamente pela música dos Queen. Como consequência disso, o meu liceu tem regressado de forma mais assídua às minhas memórias.
Fico à espera do novo álbum com alguns inéditos que prometeste ainda para este ano. Será como se me trouxesses parte da minha adolescência numa bandeja. Como te poderei continuar a agradecer?
Parabéns Freddie…


Certame Internacional de Bandas de Música Cidade de Valência

Facto: A Banda Musical de Arouca acaba de conseguir um honroso 2.º lugar na 128.ª edição do "Certame Internacional de Bandas de Música Cidade de Valência".

Se eu soubesse escrever, hoje, falaria de tanta coisa que me vai na alma. Mesmo tendo contribuído muito pouco para este sucesso. Quase nada, diria eu.
Mas se eu soubesse escrever, falaria do tempo que se leva a mastigar as coisas boas. De como fazemos tudo de forma mais lenta para lhe tomarmos melhor o sabor. E de como nessas coisas boas o frio na barriga faz prolongar essa doce sensação da mesma forma que o perfume se entranha por algum tempo na mão de quem oferece a flor. Como quando olhamos demasiado tempo para o sol e mesmo depois de fecharmos os olhos ele parece que ainda continua lá. E hoje estou assim: a saborear.
E se eu soubesse escrever, dir-te-ia o Movilar como um garoto tonto das mais belas histórias que conhecemos da meninice; a fazer lembrar a cada passo pelo palco os mais delicados filmes de sapateado do Fred Astaire enquanto trazia na cara o sorriso dos simples. O nosso sorriso. A nossa alegria que parecia nesse momento grande demais para caber dentro de um corpo tão pequeno.
E se eu soubesse mesmo escrever, dir-te-ia um povo louco de alegria; como um Físico fechado no seu laboratório a experimentar uma qualquer fissão nuclear. Como se num instante tudo fosse silêncio e no momento imediatamente a seguir tudo fosse explosão. E ia escrever-te pessoas pelo ar em alegria como pequenos estorninhos rasgando o céu a seu bel-prazer.
E se eu soubesse realmente escrever ia ainda um bocadinho mais longe. E dizia-te aqueles que pareciam que não estavam mas que sempre lá estiveram. Como se à ida para Espanha o autocarro tivesse parado na Bouça para trazer o Sr. Soares da bisca dos nove. E como se ele tivesse acabado de entrar e se sentasse ao lado do Silvino a quem na viagem de regresso cantaríamos os parabéns as vezes que fossem precisas. E tenho a certeza que o Pinga haveria de encontrar um segundo para me segredar, em privado e com os olhos lavados de emoção, uma qualquer frase para eu guardar para a eternidade. E o Sr. Silvério haveria de prolongar a sua alegria ainda mais do que naquela festa da Senhora da Mó onde repetiu vezes sem conta a frase "nunca mais chego a casa". E o Sr. Rosentino haveria de rematar tudo isso com palmas que se iriam perder no tempo. E eu queria conseguir dizer-te que estive com eles todos. Esses e outros que não estiveram lá mas que poderiam ter estado.
Se eu soubesse escrever, dir-te-ia também o abraço que me deste e que me soube tão bem; demorado e apertado como um molhinho de margaridas que se apanham nos combros para oferecer à mãe. Um abraço sentido como se a combustão estivesse a ser experimentada dentro do corpo. Como se um fósforo tivesse sido acendido dentro de mim e depois toda a labareda se fosse prolongando pelo corpo  inteiro.
Se eu soubesse escrever, dir-te-ia da melhor forma todas as coisas boas que hoje se precipitaram. E como eu gostava de saber fazê-lo à semelhança do Aquilino, do Eça ou do Torga. Ou do Gedeão e do Pessoa.
Se eu soubesse escrever, devolver-te-ia as tuas próprias palavras e dir-te-ia que quase não vivi este momento por dentro. E talvez não o tenha realmente feito: "Assim como a nossa casa só existe quando estamos fora dela. Ou qualquer coisa assim".
Se eu soubesse mesmo escrever, dizia-te que temos direito a ser felizes à nossa maneira assim como o arco-íris que muitas vezes se mostra nos dias em que há chuva. E dizia-te ainda que é nestas coisas que penso enquanto caminho pelo lado da rua onde é sempre mais noite.
Muitos outros momentos de glória, de riso e de bem-querer a nossa Banda Musical de Arouca irá encontrar na sua História. Gosto de pensar que, nessa altura, alguém também fará memória de mim.
Se eu soubesse mesmo escrever era mais ou menos isto que eu dizia neste momento.
Mas isso era se eu soubesse escrever...

Parabéns Pedro


Há textos que nos custam um pouco mais a começar. Queremos dizer tanta coisa que parece que apenas o conseguimos fazer se dissermos tudo ao mesmo tempo. E assim é muito mais difícil dar sentido às palavras que queremos dizer…
Foi ontem que ouvimos a Banda de Lousada a tocar o “Portugal a Cantar”. Perguntaste-me se ainda me lembrava dessa rapsódia e eu respondi-te que sim. Mas podia ter ido bem mais além. Porque aqueles sons fazem parte da banda sonora que fez os nossos melhores dias.
Sabes, há muitas coisas onde eu falho redondamente. Isso é inegável. Salta à vista. Mas se há algo em que me destaco pela positiva é a minha capacidade invulgar de recordar, quase fotograficamente, muitos dos momentos da minha infância/adolescência. Perguntas-me se me lembro do “Portugal a Cantar”? Uma pessoa vulgar e com boa memória responderia que “sim”. Mas eu não fico por aí. Porque eu recordo sempre mais um bocadinho que os outros. É por isso que enquanto perguntavas eu estava já contigo em frente a uma máquina de jogos arcade a ver jogar Tetris. O Fernando Antunes chegava com o recado que o Sr. Aristides estava a chamar para retomarmos o nosso lugar no coreto mas eu (e mais alguns músicos) pensava ser brincadeira. E lá fiquei só mais um minutinho. Foi por isso que quando regressava, já a avistar o coreto de longe, fui surpreendido pela nossa Banda a tocar o “Portugal a Cantar”. Nesse dia, como ontem, também ouvi de fora do coreto. E o Sr. Aristides, como sempre, lá aceitou o inevitável pedido de desculpas com um sorriso mal disfarçado, que era para a gente não abusar!!! Se me lembro do “Portugal a Cantar”? Claro que sim. Mas adiante…
Hoje fazes 40 anos. Somos amigos há pouco menos tempo do que isso. Por essa razão hoje não me queria preocupar com espaço, linhas, palavras ou tempo. Queria apenas preocupar-me em escrever de uma forma mais ou menos conseguida, por exemplo, o recinto da antiga escola primária ou alguns dos momentos que lá passámos nos nossos anos de ouro. Mas não consigo. Não consigo.
Já não sei há quanto tempo nos perdemos. Pouco importa. Sei que lentamente nos fomos desprendendo. Foi um processo natural. Natural e demorado. Porque, de facto, éramos bastante unidos. Não havia outra forma de distanciamento que não necessitasse grandes quantidades de tempo. É relativamente fácil vermos isso hoje, a esta distância. Até parece fácil encontrar um “antes” e um “depois” embora seja impossível encontrar uma linha nítida a diferenciar os campos.
Desculpa Pedro se hoje transformo em palavras apenas episódios desse “antes”. Estou certo que conseguiria encontrar muitos momentos únicos referentes ao “depois” onde fomos e ainda somos grandes amigos. Mas vou apenas vasculhar os tempos mais antigos onde, mais do que “grandes”, fomos também os “melhores” amigos.
E desse tempo, numa espécie de prólogo, não posso contar as nossas pequenas aventuras sem antes falar num “todo” de onde tudo começou. E esse “todo” tem a ver com “família”. Eu não seria aquilo que sou hoje se, para além de toda a minha família que gosto tanto, não tivesse sido acolhido da melhor forma possível pela família “da Domingas” ou pelas duas famílias dos “Almeidas” do Paço. E é justo fazer esta memória antes de qualquer outro texto que possa escrever. Para que o contexto se torne mais nítido.
Sabes…
Já em outras ocasiões partilhei algumas das boas memórias que tive contigo. Hoje apetece fazer um caminho um bocadinho diferente. E dizer-te que muito para além disso, lembro-me de muitas pequeninas coisas (como a do “Portugal a Cantar”) que não interessam a mais ninguém. Ninguém. E isso torna essas memórias tão especiais: o facto de, muito provavelmente, ser o único a recordá-las. Entre essas está, por exemplo, aquela t-shirt que ganhaste no antigo quiosque “de baixo” quando foste premiado num dos cromos da colecção “Esférico”. E também sei que costumavas comprar a revista “foot” em que consegui que me oferecesses parte daquele exemplar de 88 que traz o Mozer na capa com a manchete “Venha daí o PSV”. E sim, ainda tenho essa revista guardada em casa.
Tenho saudades dos videoclips que gravávamos do Top+ e das opiniões que trocávamos sobre as músicas. Sobretudo o gosto que partilhávamos pelos Queen cuja música ainda hoje me deixa em transe (e que me faz aguardar ansiosamente pelo novo cd com alguns inéditos a sair no final do ano). É a ti que devo as primeiras cassetes de tão boa música que me lembro de ouvir nas viagens feitas no velho fiat tempra do meu pai. Antes disso há ainda uma quantidade enorme de outras memórias no toyota corolla 1200 com que o meu pai nos ia buscar ao liceu todas as terças, quartas e quintas para nos levar até às inesquecíveis aulas da Banda.
Sabes… Quando tínhamos 12 anos havia dias em que nos imaginava mais velhos. Talvez com 40 anos como tens agora. Mas acabava sempre por pensar: “ainda falta tanto tempo”!!! Afinal não faltava. Tudo isso era como se de um instante se tratasse e eu não dei conta. Assim como não dei conta que à medida que a idade avança o tempo corre a outra velocidade e em múltiplas direcções. Acaba por ser uma luta impossível de vencer.
As últimas verdadeiras boas lembranças que tenho contigo são de idas ao Porto ao cinema ver “Aonde é que para a polícia 33 1/3”, “Speed 2” e “Street Fighter”, ou de uma vez em que fui à faculdade e foste comigo. Mostrei-te a rua onde morava e acabámos a jogar bilhar no café mesmo em frente.
A partir daí tudo se foi diluindo com alguma naturalidade. Reconheço a minha total responsabilidade nisso. Terá sido a minha tendência solitária a começar a manifestar-se sem eu dar conta disso. Talvez. Ou então será algo natural que faz parte do correr dos tempos. Não sei.
Por tudo o que escrevi atrás, pode não fazer grande sentido dizer-te hoje que, incentivado pelo Pepé, voltei a acabar há dias o “Rodland”. Mas a verdade é que o acabei. E lembrei-me de ti. Dizê-lo agora, pareceu-me uma boa forma de te dar os parabéns.
Grande abraço.

Schmeichel

Sons do Imaginário


Um dia vou ser compositor. Hoje é o dia.

Fazer o caminho com as costas voltadas para o futuro muitas vezes traz as suas vantagens. Torna-nos mais conscientes dos passos que damos ao presente. Engrandece a sensação de realização pessoal que não seria tão vincada se andássemos distraídos.
Quando era ainda muito pequenino, no início da década de 80, o meu pai ensinou-me os primeiros conhecimentos musicais. Por entre tantos livros que me foi apresentando e que nunca terei capacidade suficiente para agradecer da forma que seria justa, estava uma colecção de vários volumes que continha as partituras de muitos dos êxitos dos maiores compositores da História da Humanidade. A complementar tudo isso trazia nas páginas finais uma pequena biografia de muitos desses compositores. Lembro-me de ficar deliciado com todas aquelas histórias de vida e em como queria ter nascido mais capaz para que um dia a minha história pudesse ser um pouco descrita como a das linhas que acabava de ver.
Sim, eu sei... Quem nasce Miguel nunca há-de chegar a Mozart. Mas as pequenas conquistas tomam, frequentemente, a dimensão que lhes sabemos reconhecer. Por isso pai, hoje, queria dizer-te que estavas certo. Desde a primeira hora. Desculpa o meu grande devaneio pela Matemática. Obrigado por me teres apresentado Liszt, Beethoven e Chopin. Ou Schubert e Rossini. Tenho com eles mais cumplicidade do que com Fermat ou Gauss.
Sabes? Valeu a pena. Quando me decidi a enfrentar esta aventura de tentar voltar a estudar aos 37 anos, fi-lo com algum receio. Já não tenho o tempo nem o engenho de outros tempos. A capacidade é outra e em muito menor quantidade. Vim para a faculdade para alargar o meu conhecimento mas, sobretudo, os meus horizontes. Queria ser capaz de fazer bons arranjos e de compor algumas aberturas para Banda. Mas cheguei cá e outros caminhos se abriram.
E hoje, apenas hoje, vão chamar-me "compositor". Vou ter a oportunidade de ouvir pela primeira vez o meu "Bailado" para piano. Fica descansado que eu prometo conseguir uma gravação para te mostrar um dia destes. E dá um abraço meu à mãe que sem ela eu nunca teria continuado o caminho que tu me fizeste começar.
Sabes... Estou em boas mãos. Não fosse a Odete e eu talvez nunca me tivesse inscrito neste curso de Composição. Espero ser capaz de um dia conseguir apresentar a música à Rita e ao Tiago como tu o fizeste comigo. Porque, acredites ou não, já deu muitos frutos.
E agora desculpa mas vou-me preparar para um concerto.
Um abraço enorme.

Os Campeões do Benfica


Hoje amanheci em Turim. O Benfica vai para a sua 10.ª final europeia. Eu, como sou um bocadinho mais novo, vou para a minha 5.ª final. Mas sei tudo sobre as finais anteriores que, por motivos óbvios, não pude assistir em tempo real. Mas isso não é razão para não me sentir bi-campeão europeu. Sou-o como se tivesse andado com o Eusébio ou o Águas nos relvados de Berna e Amesterdão. Não consigo viver o Benfica de outra forma.
A primeira final europeia de um clube português a que tive o privilégio de assistir pela tv foi no ano de 1983. O Benfica disputava na altura a sua sexta final europeia. A completar quase 7 anos, estava já habituado a ver o Benfica ganhar. Sempre. O Anderlecht acabaria por levar a melhor mas ficava a certeza de que o Benfica haveria de voltar aos grandes palcos para levar a taça que eu sentia ser sua por direito próprio. Afinal era o meu Benfica. O nosso. Meu e de muitos amigos da escola. E dos pais de muitos outros amigos. E mesmo de muitos desconhecidos que ouvia falar pela rua cujos únicos amigos em comum eram o Bento, o Pietra, o Humberto, o Chalana ou o Nené. Também por isso parecia muito injusto não termos direito a ficar com a taça no Estádio da Luz.
Entretanto venceram-se campeonatos, taças, supertaças, dobradinhas e atingiram-se outras finais europeias. A sorte voltou a não querer nada connosco. As glórias de outrora deram lugar a outras de igual estatuto. Chorei as mesmas lágrimas do Silvino, do Veloso, do Rui Águas, do Mozer, do Paneira ou do Valdo.
Mas o pior ainda estava para vir. O clube que me tinha habituado a ver ganhar mais do que qualquer outro entrou em crise. Trocou os grandes palcos por exibições medianas. Em lugar de chorar abraçado a grandes nomes fi-lo, durante alguns anos a fio, abraçado a nomes cujo apelido é até difícil de pronunciar. Mas sempre acreditei que o meu Benfica era aquele de 83, ou 88 e 90. E não o outro que andou perdido durante alguns anos. Mas regressou. Ainda a tempo de me trazer outras finais europeias e muitas vitórias. E de me fazer chorar de alegria, agora ao lado do Gaitan, do Luisão, do Lima e do Garay.
Hoje amanheci em Turim, já disse?! Mesmo sem sair de Rossas. Para que o ambiente fosse perfeito fui buscar aquela cassete dos “Campeões do Benfica” que a minha mãe me deu como prenda de anos em 1987 depois de teres conquistado aquela fantástica dobradinha. Ainda sei as letras de cor.
É a tua 10.ª final europeia Benfica. A minha 5.ª. Vê lá se trazes hoje a taça para nossa casa que eu prometo arranjar por cá um espaço para ela. Faz isso por nós. Por mim. É que gostava muito de chorar abraçado ao meu irmão. E hoje até parece estar um bom dia para isso…