E tu, ainda te lembras do Clube de Vídeo?

As melhores recordações que trago dos finais da década de 80 e início da de 90 são os amigos. Ponto.
Depois há aquelas memórias mais queridas de coisas que fazíamos com esses mesmos amigos. Uma das que mais me eriça a pele é o antigo clube de vídeo que existia no centro comercial. Todos os finais da tarde depois das aulas, ou já noite dentro antes de mais um ensaio da banda, ia com o Pedro ver as novidades.
Confesso que dei pouco lucro ao negócio. Aliás, se ainda houver registos, basta procurar pelo número de sócio 699 (o cartão creio que ainda anda cá por casa) para verificar que foram poucos os movimentos feitos com tal cartão. Já o Pedro era um cliente muito mais assíduo. Eu era mais envergonhado pelo que ficava muitas vezes do lado de fora a olhar pela vitrine a variedade de fitas disponíveis. Havia preços para tudo. Os filmes normais andavam pelos 100$00 e 150$00, outros mais requisitados pelos 200$00 e as novidades mais procuradas ficavam por 250$00 por um dia. Por isso gostava de ir com o Pedro. Ele entrava pela loja dentro e pegava nas caixas dos filmes para ler as sinopses e eu lá perdia o medo e ia “à boleia”. Foi assim que ganhei cumplicidade com muitos dos filmes das fotos. Para todos os estilos, uns melhores do que outros, vi todos esses (e muitos mais), alguns muitas mais vezes do que aquelas que o comum dos mortais aguenta. Ainda nos dias de hoje é frequente a minha querida Odete sorrir quando estou a fazer zapping. Diz ela que não sabe porque ainda faço zapping se acabo sempre por deixar no canal que está a dar um filme dos anos 80. Isto cá para nós, eu acho que ela está a exagerar um bocadinho. Quando não joga o Benfica, às vezes, também vejo os Jogos sem Fronteiras, os Soldados da Fortuna ou os Três Dukes na RTP Memória. Chego mesmo a pensar que eles só passam aquilo na TV por minha causa pois mais ninguém deve ver aquilo. Mas, adiante...
Estávamos a falar do clube de vídeo. Andava no 9.º ano do liceu quando os meus pais compraram um vídeo lá para casa. Por essa altura havia apenas a RTP o que fazia com que a esmagadora maioria das pessoas tivesse apenas acesso a um canal de televisão. Ter um vídeo em casa não era para qualquer um pelo que tenho noção que fui um grande felizardo. Fiz-me nessa altura sócio do clube de vídeo e logo no meu primeiro aluguer tive um problema: aluguei o filme “Continuaram a chamar-me Trinitá” com o Bud Spencer e o Terence Hill que o meu primo Picatojo tinha aconselhado e fi-lo por uma semana. O problema é que ao devolver o filme, no computador estava apenas indicado o aluguer por um dia. Só depois de uma exaustiva explicação consegui sair sem pagar multa. Uma falha de comunicação. Perfeitamente natural. O que é certo é que eu tinha pago mais de 400$00, creio, e depois de tudo bem explicado, do outro lado do balcão houve a compreensão necessária. Acabaria por alugar apenas uma meia dúzia de filmes pois o meu pai não era muito de dar dinheiro para essas coisas. Também por isso, juntávamo-nos em grupo em casa de alguém para assistir a algum filme alugado ou que tínhamos conseguido emprestado lá no liceu. Foi assim que vi a maioria dos filmes nas fotos acima. Tenho mesmo muitas saudades dessas sessões e dessa trupe. Nesses dias julgava que seria assim para a vida inteira. Obviamente, não foi. Acho que o meu gosto pelos filmes dessa época, no fundo, é uma oportunidade que encontro para me sentir mais próximo desses amigos. Desses, ou de outros quaisquer. Creio que não haverá mal nenhum nisso. Neste aspecto, acho que fiz mais pela vida do que ela por mim. Ainda bem que na maioria das vezes não é assim.
E tu, também visitavas o clube de vídeo?

Hoje era dia

Hoje era dia de levantar cedo.
Entre as 9h e as 10h da manhã já estaria por certo a carregar tralhas para a carrinha do amigo “Repolho”. Já tínhamos trocado cumprimentos e meia dúzia de graçolas com algumas asneiras à mistura. Acredito que faz parte da famosa “mística”. Com o corpo cansado mas de alma cheia estaria a trocar sorrisos com o Pepé escondido na parte da trás da carrinha enquanto os meus colegas tentavam obter o “livre trânsito” para aceder ao centro da vila para efetuar a respetiva descarga de material. Porque hoje era dia de preparar tudo com o maior zelo possível.
Hoje era dia de olhar o sol de forma diferente. Porque ia ser a minha maior companhia durante toda a tarde.
Hoje era dia do “amor à farda” e das “borboletas”.
Hoje era dia de lembrar os que já não estão. Quem o irá agora fazer?
Hoje era dia de estar sozinho no meio de uma multidão. De ficar sentadinho no meu canto a pensar em coisas que passavam despercebidas a todos os outros.
Hoje era dia de ouvir o Sr. Garrido a falar com alguém e perceber a cada instante o que é o amor à Banda Musical de Arouca.
Hoje era dia de ouvir as histórias do padrinho e de rir com as suas brincadeiras com os mais novos ou com as meninas.
Hoje era dia de suar e suportar o calor indo buscar forças onde nem sequer sabemos que existem porque o ar se torna mais “rarefeito” depois de duas ou três minis.
Hoje era dia de lembrar os Bailados Egípcios, as “Reflexões” ou a Pop Show n.º3.
Hoje era dia de ficar a olhar o Valdemar e deixar a admiração crescer naturalmente. Com pessoas assim a humanidade parece fazer mais sentido.
Hoje era dia de rir para o Cajarana que traria certamente os últimos óculos da moda para manter aquele seu charme “moderadamente espetacular”.
Hoje era dia de festa sem procissão.
Hoje era dia de viajar interiormente e fazer o balanço de mais um ano.
Hoje era dia de passar pelos carrosséis com o Pepé para mais um jogo naquele divertimento que nós sabemos.
Hoje era dia de ser noite. De tocar a Tannhauser com a destreza de um Usain Bolt, com a delicadeza de quem trabalha filigrana e com a simplicidade de quem toca um vira.
Hoje era dia de dar boleia ao Nando que, no final da festa, estaria já junto ao palco para fazer comigo o regresso a casa.
Hoje era dia de arrumar as tralhas enquanto a maior parte dos sobreviventes estava já instalado nas tasquinhas.
Hoje era dia de dizer “para o ano há mais”.
A verdade é que hoje foi igualmente dia de levantar cedo. Ainda mais cedo. Mas para trabalhar. A vida muda bastante num simples par de anos. Em frente ao computador lembro aquela nossa conversa rápida em que por entre todas as palavras que sempre me dispensas com muito carinho retive aquelas que disseram: “no último ano notava-se que tu já não era tu. Já não eras o Cebolinha. Sempre ali sozinho, no palco”... Deu-me que pensar.
Engraçado que neste tempo todo desde que os dias deixaram de ser dias, o mais próximo que estive de falar com alguém sobre este amor que nos une pela Banda Musical de Arouca foi na festa deste ano em Tropêço quando uma querida amiga de longa data a quem quero muito, reparou na minha atenção de ouvinte especial e se abeirou dizendo: “Então? Como é estar deste lado?”. Foram os dez minutos que mais falei sobre o assunto. Queria que tivessem sido duzentos. Porque falar da Banda Musical de Arouca, quer seja do lado de dentro, quer seja do lado de fora, é sempre motivo de orgulho e prazer. Faz bem à alma. De fora, há ângulos novos que se notam de forma mais nítida (“como a nossa casa só existe quando estamos fora dela, ou qualquer coisa assim”).
Hoje, nem sequer poderei assistir à entrada. Espero ter algum tempo para ir ouvir um bocadinho e “matar o vício”.
Hoje era dia de vestir a farda. 
Hoje era dia.

O Alexandre fez 50 anos

Olá Alexandre.
O tempo é o que é e não há muito a fazer em relação a isso. Ou se calhar há e por isso é que há pessoas que nos marcam mais que outras; depende do que fazemos no tempo que passamos com elas. Não sei.
É frequente viajar no tempo. Em muitas dessas vezes basta um raio de sol com o ângulo certo, um cheiro a Primavera, uma prata de rebuçado encontrada no chão ou um olhar fortuito sobre uma das árvores do antigo recinto da escola primária e logo os interstícios do cérebro se revolvem levando-me através de memórias de um tempo que deveria ter parado nele mesmo.
Há dias foi mais ou menos assim; ao passar os olhos pelo facebook vejo que fizeste 50 anos. E, de repente, apetece andar 30 anos para trás. Creio que estávamos ainda nos anos 80 quando se falava lá por casa que iria chegar do Brasil um primo do Zé António. Chamava-se Alexandre e tinha uma habilidade particular para o desenho. 
Era ainda muito novo quando te vi envergar a digníssima camisola do GCR Rossas naquela mítica final do Torneio do SAJU ganha nas grandes penalidades e que tu próprio já comentaste algures aqui no meu blogue de forma tão carinhosa e detalhada que me fizeste lembrar o meu irmão que também guardava todas as edições do jornal “A Defesa de Arouca” onde vinham todos os resultados e classificações. Entretanto fui crescendo, o que me deu o direito a partilhar o campo contigo em diversas equipas do GCR Rossas onde, creio, usavas habitualmente o número 4 e foste, muitas vezes, o nosso capitão. Tive mesmo muita pena quando há poucos anos atrás ajudei a organizar um jogo de Velhas Glórias e não conseguiste estar presente. Temos de pensar numa nova oportunidade agora que o campo até já está relvado e tudo...
Há ainda a memória de assistir no extinto palco da antiga residência paroquial à comédia “A Boémia” onde deste vida a uma das cómicas personagens juntamente com o Fernando Antunes, a Vira e o Zé António, entre outros. Felizmente tenho esse registo em vídeo para rever sempre que a memória começar a falhar.
Quis ainda o destino que eu fosse estudar na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto onde também estudaste, o que me fez partilhar algumas (poucas) viagens no saudoso autocarro do Calçada onde falávamos do teu sporting e do meu benfica e onde fiquei a saber da tua afeição pelo Vasco da Gama que agora passa de quando em vez na Sic Radical nos jogos do Brasileirão por volta das dez da noite. E eu lembro-me de ti...
Terá sido também nessas viagens que fiquei com a ideia que gostavas de leitura de ficção (também científica) onde me falaste do monstro de Frankenstein, por exemplo, a propósito de um livro que estavas a ler nessa altura.
Mas uma das memórias que me dá uma maior nostalgia tem a ver com aqueles sábados à tarde onde foste a minha casa para que eu gravasse na minha aparelhagem algumas cassetes com a boa música do “Alan Parsons Project” que, confesso, na altura, desconhecia.
Lembro ainda uma reunião que se fez no centro, no salão da catequese, para averiguar o resultado de uns inquéritos escritos que se tinham realizado sobre o jornal Cruz de Malta. A ideia era saber o que era mais apreciado assim como o que se devia melhorar. Lembro perfeitamente da resposta do meu pai à questão: “O que gosta mais de ler no jornal?”. Resposta do meu pai: “O editorial e os artigos do Alexandre”. Quem me dera rever as respostas a esses inquéritos. Certamente me trariam deliciosas memórias. Lembro em particular um artigo sobre o Garrincha que me deu muito prazer a ler.
E é isto Alexandre. Uma simples constatação no facebook de que fazias 50 anos fez-me recuar no tempo. Pelas estradas boas da vida ainda que, por vezes, sinuosas e íngremes, como aquela que nos leva até ao lugar da Cavada. Obrigado.
E parabéns, já agora.
Temos de marcar um convívio ou uma “futebolada” com a malta dessa altura. Para nos rirmos e falarmos desses tempos.
Um abraço.

Miguel

O Último Concerto: Parte II

Hoje a sensação é um bocadinho estranha. Afinal, para além do último concerto que relatei neste mesmo blogue no passado dia 28 de março, havia ainda um outro “último” concerto. Ou talvez não seja bem isso. É mais uma espécie de “Encore”, mas de grande qualidade.
Saio do trabalho a correr com tempo apenas para uma paragem rápida em casa para trocar de roupa. E é assim, já todo de preto, que entro no carro com destino a Aveiro.
Ao entrar no Auditório sou surpreendido pelo Luiz que, juntamente com o Rodrigo, nos vai dirigir dali a pouquinho. Vem ao meu encontro e pergunta pelo meu blogue. Por momentos penso tratar-se de um lapso auditivo mas ele faz questão de continuar e de me dar os parabéns pelos textos sobre o coro do DeCA. Agradeço da forma mais simpática que sou capaz e aproveito para retribuir o agradecimento pela forma como todo o repertório foi trabalhado durante as aulas. Desejámo-nos “sorte” e fui procurar o meu lugar no meio do coro.
No meio de todo o burburinho habitual, naqueles momentos que antecedem as atuações, houve tempo para tomar consciência que tudo parece estar a acontecer de forma diferente. O destino como que adivinha que se trata da última atuação. As 21h dão lugar às 18h, o professor Lourenço dá lugar ao Luiz e ao Rodrigo e a Sé de Aveiro passa a vez àquela que é a sala de todos os dias: o novo Auditório que temos agora de colocar bonito para o público, como quando se arranja um bocadinho melhor a nossa casa para receber uma visita importante. Só as meninas bonitas não têm que dar lugar a outras. Continuam as mesmas: bonitas, doces e delicadas. Deambulam pela sala como poemas largados ao vento.
Os meus colegas começam a aproximar-se e, os mais chegados, cumprimentam-me com a célebre frase do “Brandão” que há-de continuar por mais uns tempos enquanto ainda nos arrancar alguns sorrisos da cara. Entretanto o professor pede quatro voluntários para ajudar a passar um estrado. Durante algum tempo permaneço como voluntário único. Estranho. Finalmente dois colegas juntam-se a mim nessa nobre missão. Chegados ao outro Auditório, o velho, damos conta que afinal o que estava planeado para quatro pessoas era perfeitamente executável por duas pelo que lá venho a alombar com um estrado juntamente com outro colega.
Já todos em posição em cima dos estrados, somos convidados a fazer o aquecimento. Faço-o com todo o gosto e empenho que sou capaz embora pense para mim que eu e o meu colega de carga não precisaríamos (alguns risos)!
E o concerto começa. Desta vez, muito diferente de todas as outras. Por tudo acontecer tão rápido. Não houve tempo sequer para um nervoso miudinho. Nada. Talvez por isso, mais do que as memórias visuais, tenha apostado nas auditivas. A beleza desta vez foi realçada pela delicadeza das vozes que pareciam desenhar sons no ar como quem trabalha filigrana.
E o concerto acabou. A porta do Auditório abre-se para a saída e volto a encontrar cá fora aquela vida que passa sempre a correr. Como se tivesse que chegar ao carro de forma mais rápida que aquela com que o Jesse Owens percorria os 100 metros. Fazer música com os meus colegas traz-me essa calma que não encontro em muitas das horas do meu dia-a-dia. É do que mais sentirei saudades quando acabar a licenciatura: fazer música em conjunto. É natural.
A viagem de regresso dura cerca de uma hora. É lá que se mastigam estas boas memórias que sei que ficarão guardadas durante algum tempo. O suficiente para ser mais feliz à minha maneira. Chego a casa e lembro a voz da Amália quando encontro “dois braços à minha espera” numa casa que é portuguesa. Abraço e mimo os meus filhos enquanto penso que não há nada mais “tonal” que o riso das crianças.
Há caras que provavelmente não voltarei a ver. 
Foi o último concerto. 
A noite anoitece.
Suspensão.
Barra dupla.

Os Animais das Caixas de Fósforos


Antes da febre dos animais do Pingo Doce que me trouxe duas cadernetas lá para casa com a Rita e o Tiago em plena aceleração para ver quem primeiro acaba a coleção, muito antes disso, dizia eu, outros animais eram procurados. Tudo quando eu tinha mais ou menos a idade dos meus filhos.
Primeiro lembro-me de uma caderneta intitulada “Fauna Selvagem” que os meus irmãos tinham lá para casa mas as memórias que tenho é de uma caderneta já com os cromos colados e fazendo parte do passado. Gostava de ficar a admirar aqueles animais estranhos e coloridos mas era uma coleção já “fora de circulação” pelo que há outras que me são mais queridas.
A primeira tem o nome de Zoo Disney e lembro-me perfeitamente do dia em que o meu irmão chegou com a caderneta novinha em folha lá a casa. Corria o ano de 1981, tinha eu 5 aninhos apenas. Como eu a gostava de folhear. Fi-lo vezes sem conta. Durante muito tempo invejei (no bom sentido) o meu irmão. A minha casa de infância era minúscula mas ele tinha direito a uma gaveta enorme, cheia de cadernetas, inteirinha só para ele. Lembro-me que, quando o meu irmão não estava, tinha de pedir autorização à minha mãe para ver a gaveta das cadernetas. Como eu era muito pequenino ainda estava em idade de estragar muitas coisas. E há coisas que não se podem estragar. Felizmente essa coleção resistiu ao passar dos anos como se pode ver na foto deixada acima.
Mas a minha coleção de animais preferida é aquela das caixas de fósforos. Completei-a por três vezes. A primeira acabou por se perder com o tempo. A segunda, onde as caixas de fósforos eram contornadas por uma linha cor-de-rosa, dei-a na altura, creio eu, ao meu primo José Ilídio, que dividia comigo muitas das brincadeiras, uma das quais tinha as referidas caixas de fósforos no papel principal. A terceira vez que fiz a coleção, foi a que ficou para a história. É aquela que deixo na foto e que guardo de forma carinhosa no sótão de minha casa. Com essas mesmas caixas e com o meu primo José Ilídio, fiz montes de corridas nos muros da antiga escola primária. A cada letra correspondia um animal. Pois nós tivemos a feliz ideia de a cada letra fazer corresponder um país e era assim que fazíamos autênticas corridas, com a ajuda de um dado. Era assim que os muros da escola se transformavam em autênticos Jogos Olímpicos. Não demorou muito para que o Pelicano começasse a ser o animal preferido; afinal de contas, o “P” era a letra do nosso Portugal. E era assim que, mesmo sem dar muito nas vistas, o número seis do dado aparecia com mais frequência sempre que a vez calhava ao Pelicano fazendo-o correr mais veloz que os seus oponentes.
Sabe bem recordar. Na realidade, não era bem assim. Mas naqueles muros, na ponta dos nossos dedos, Portugal era quase sempre sinónimo de ouro olímpico. Porque às crianças tudo é possível. E com uns pais que nos dão “asas”, tudo é permitido. Até ser feliz com as coisas mais simples. É muito reconfortante ter vivido num tempo em que as melhores brincadeiras da infância estavam dentro da nossa imaginação.
Um grande abraço, Lídio!

Lembrando o mítico Sousa

Na foto: O Sr. Maurício Noites na flauta, eu na Requinta, o Sousa no Clarinete e o Valdemar também no clarinete.

A foto será algures de uma atuação da Banda Musical de Arouca em Santa Eulália, em finais dos anos 80 ou início dos anos 90.

Normalmente, quando escrevo um texto sobre alguma memória marcante ou sobre alguém que me é querido, as coisas costumam fluir de uma forma mais ou menos natural. Sempre com alguma emoção nas palavras a usar mas, de uma forma geral, costumo ficar satisfeito com as palavras que escrevo. Sobretudo porque me transportam para lá. Ainda que por breves (mas bastante saborosos) instantes, volto a sentir e a ser feliz da mesma forma.
Pois bem. Hoje não está a ser bem assim. Convenhamos que, pior do que isso: não está a ser mesmo nada assim. Em frente ao computador as memórias surgem igualmente a um ritmo ligeiro mas continuo estático sem escrever uma única palavra. Apenas me limito a olhar para o ecrã. Talvez hoje eu tenha resolvido ir um bocadinho mais fundo nesta viagem ao passado. Talvez não queira de lá sair. Não sei... Hoje parece-me estranha esta forma que encontrei para deslindar este novelo de recordações.
Há pessoas que a certa altura da nossa vida são muito importantes. Fazem parte do nosso dia-a-dia. Estão connosco quando estamos a fazer algo que gostamos. Aos poucos vamo-nos afeiçoando a elas. Até que nos damos conta que desapareceram. Num ápice, não as vemos há cerca de duas dezenas de anos.
Isso aconteceu-me, por exemplo, com o Sousa.
Não via o Sousa, creio eu, desde os saudosos anos 90. Talvez os anos de ouro da Banda Musical de Arouca.
O Sousa é um dos exemplos que me vem logo à memória quando me perguntam o que é, afinal, isso da mística da Banda Musical de Arouca. Porque essa mística é, também, uma maneira de ser. Como a do Sousa, acrescento eu. Confesso que a vida me tem concedido imensos privilégios. Tenho sido um abençoado em muito do que acontece na minha vida. Uma dessas bênçãos deu-ma a Banda Musical de Arouca quando me colocou, desde a primeira hora, a tocar ao lado do Sousa e do Valdemar. Que poderia eu pedir mais?
Guardo na memória montes de histórias que não consigo recordar de início ao fim sem antes me rir de forma descontrolada. Não há outra forma de lembrar o Sousa.
Nos anos 80 era frequente as bandas de música recorrerem a músicos profissionais para alicerçar a sua qualidade em bases sólidas. Muitos dos músicos da casa aprendiam apenas o básico, tinham logo direito a uma farda e eram “lançados às feras”. Uma realidade um pouco diferente daquela que encontramos nos dias de hoje. O Sousa era um desses casos. Fazia parte de uma trupe efetiva de músicos que vinham reforçar a já de si muito talentosa Banda Musical de Arouca. Era assim que tanto ele como o Pereira Luís, o Cravo, o Carlos Russo, o Raposo (e por vezes o Franklin ou o saudoso Mendes de Sousa) entre outros, faziam parte da família. Eram sempre eles que vinham e não outros. Era para mim um orgulho tocar com gente assim.
Numa altura em que quase todos os músicos fumavam, o Sousa não fugia à regra. Se bem que marcava a diferença: os outros andavam pelo Gigante e pelo Ventil mas o Sousa só fumava Ritz. Só quando o tabaco acabava e ele estava mesmo desesperado é que lá cravava um Ventil a algum dos meus colegas. A mim nunca me cravou pois, felizmente, nunca fumei.
Para além de excelente clarinetista, uma das principais características do Sousa era a quantidade de asneiras que empregava em cada frase que dizia. E isso encaixava na Banda como uma luva. Só quem por lá andava por essa altura compreenderá bem o que estou a dizer. As histórias que lhe saíam da boca eram de uma graça impressionante. Tinha diálogos com o Sr. Maurício completamente surreais que guardo comigo para a eternidade. Então aquela do congresso que se fez para saber qual a melhor coisa do mundo... Ainda hoje me rio com a do “pão-de-ló”!!!
Já aqui escrevi também sobre aquele dia em que borrou as calças ao fazer as necessidades pelo que à tarde apareceu com umas calças de ganga. O que ele se ria a contar... Naquele tempo os jogos do campeonato eram quase sempre ao domingo à tarde pelo que enquanto os jogos decorriam normalmente estávamos no coreto a tocar. O Sousa era o primeiro a “meter” veneno. Sempre que acabávamos de tocar uma peça começava logo a espalhar: “O Benfica já perde! O Sporting já ganha! O Porto ainda empata!” E tudo isto sem saber sequer os resultados. Era só para ver a malta em polvorosa! E depois ria-se! Muito!
Apesar de exímio executante, não gostava muito de fazer os solos empurrando quase sempre para o Valdemar e, mais tarde, também para o Jorge. Talvez por isso tenha ganho a fama de calaceiro o que, em rigor, era bem verdade.
Lembro-me de uma festa (creio que em Moldes) em que lhe cobriram o carro, um Rover Preto (acho eu, ajudem-me), cheio de flores. No fundo, era uma partida de reconhecimento pelo carinho que a maior parte da malta mais nova sentia por ele. O sentimento era recíproco. A tal ponto que numa dessas festas fora, aquando do regresso, nós, os mais novos, vínhamos a fazer o maior barulho possível. Era a chamada “borga” elevada ao máximo nível. A tal ponto que cada um tinha em seu poder partes de instrumentos da percussão para que o silêncio não ganhasse quando as vozes se cansassem. O Sousa, como outros, precisavam de descansar pois o dia seguinte era de trabalho. Pediu para que nos moderássemos embora sem sucesso. Aliás, a cada pedido feito o barulho aumentava ainda mais. Mas o Sousa é o Sousa. Levantou-se, e com aquele riso entre meia dúzia de asneiras, sentou-se junto a nós e começou também ele a cantar e a fazer barulho. Quem não estava pelos ajustes era o Carlos “Aguilhão” que ainda nos veio passar um sermão e tentou tirar algumas das nossas percussões. Ainda se virou para o Sousa mas ele, nessa hora, conseguiu colocar a cara mais séria que foi capaz e lá deixou escapar: “Eu?! Eu não vinha a fazer barulho nenhum! Eu até também queria dormir!”. Foi só o tempo do Carlos virar costas e gargalhada geral. Ainda o estou a ver a sair do autocarro do Calçada com um “Adeus malta”!
Lembro-me também das inúmeras vezes que jogou à bisca dos nove com o meu tio, o Sr. Soares. Lembro-me de uma em particular que teve o Pereira Luís como “adjunto” que se colocou estrategicamente por trás do meu tio para ir dizendo o respetivo jogo ao Sousa. Nem assim. Nunca o vi ganhar. O Sr. Soares limitava-se a dizer: “Ó Sr. Sousa, quando o senhor nasceu já eu era professor disto”! Ótimas memórias.
Mas do Sousa há duas memórias que guardo com especial carinho. A primeira diz respeito a uma festa em que na viagem de autocarro, como em tantas outras, fomos jogar uma suecada. O local escolhido era aquela salinha que tinha em baixo numa das camionetas do Calçada. O meu parceiro nesse dia foi o Movilar (talvez ele se lembre desta história) e os oponentes eram o Sousa e o outro não sei precisar mas acredito que fosse o Mauro. O combinado era pagar uma garrafa de vinho a quem chegasse primeiro às 10 vitórias. Sabem como é o Sousa, não sabem? O jogo esteve nos 9-9 e o Sousa fez milhentos “macetes”. Nós ganhávamos mas íamos a bater a última vaza e ele tinha já deitado uma carta ao chão para dizer que tinham sido mal dadas ou outra desculpa qualquer. Fez isto aí umas cinco ou seis vezes seguidas. Mas não adiantou. Porque os Deuses estiveram do nosso lado e ganhámos todas essas partidas. O que é certo é que lhe perdoamos a garrafita mas, para surpresa nossa, na hora do almoço lá chegou uma garrafita de verde banco à nossa mesa trazida por um empregado. Já vinha quase meia mas mereceu na mesma o nosso agradecimento. Ao fundo do restaurante, numa outra mesa, o Sousa sorria e acenava. Agradecemos da mesma forma.
Mas a melhor memória que tenho do Sousa foi numa festa em Silveiras. Como todos sabem, era natural ver o Sousa a olhar para as meninas e a trocar impressões sobre as que eram mais jeitosas e bonitas. Pois bem, nesse dia lá estava uma menina toda bonita a olhar a Banda em pleno coreto ao fim da manhã. Logo o Sousa alerta o Sr. Maurício e me aconselha: “Olha para aquilo! Eu não, mas tu que ainda és novo e tal...”. Vira-se para o Valdemar para continuar a ladainha e estava este a rir-se a olhar para mim! E retorquiu: “Ó Sousa, olha que essa é a namorada do Cebolinha”! Mas ele não se desmanchou. Virou-se para mim e atirou: “Ai sim?! Pois bem rapaz. Tens bom gosto!” E lá nos rimos os três.
Parece impossível estar quase 20 anos sem ver o Sousa. Acontece com algumas pessoas na nossa vida, não é verdade? Mas no fundo, acreditamos que elas estão bem e isso costuma bastar. No caso do Sousa isso durou apenas até há alguns dias atrás. Quando um amigo conterrâneo partilhou no facebook um vídeo da Banda em 1992 na festa em honra de Nossa Senhora do Campo. Lá estava eu ao lado do Sousa em plena procissão. Partilha leva a partilha até que alguém comenta: “Deus o tenha”. Foi assim que fiquei a saber que desde 2015 o mundo filarmónico anda mais triste porque já não tem as gargalhadas do Sousa.
Ficam as memórias. As boas, claro. O que já não é pouco.
Até sempre.

1 de maio de 1994

Há dias em que nos levantamos de manhã cedo sem sabermos ainda que irão marcar a nossa vida de alguma forma. Assim foi no dia 1 de maio de 1994.
A ideia era ser um domingo mais ou menos igual a muitos outros, apenas com a particularidade de se disputar em Rossas pela primeira vez a “Estafeta da Paz”, inserida naquele que seria o 1.º Maio Cultural. Como se tratava de uma novidade, a juventude foi-se organizando formando um número interessante de equipas que eram constituídas por três elementos cada. Foi assim que num dos dias anteriores, no antigo recinto da escola primária onde a malta nova se juntava todos os dias ao final da tarde, eu, o Paulo das Silveiras e o Pedro do Selmo fizemos a nossa equipa. A corrida haveria de começar ao início da tarde no lugar de Saril e acabar já em Provizende e, fica aqui o registo, a nossa equipa foi a vencedora. Mas não foi isso que ficou para a história. Não é essa a memória que me chega em primeiro lugar quando recordo esse dia.
A verdade é que antes de nos deslocarmos para a prova dava ainda para ver um pouco da corrida de Fórmula 1 que passava na RTP. Confesso, o meu ídolo de infância sempre foi o Nélson Piquet que, por essa altura estava já retirado. Como o Senna, o Prost, o Mansell, o Lauda ou o Berger tinham sido adversários do Piquet eu estava naquela fase de tentar encontrar um novo ídolo para que as corridas tivessem um outro sabor. O jovem Schumacher começava a destacar-se e o carro da Benetton era cheio de cores bonitinhas pelo que começava a apostar aí as minhas fichas. E foi assim que ao despiste do Ayrton Senna a minha primeira reação foi de felicidade. Primeiro porque significava que o Schumacher ia para a frente e depois porque os acidentes eram muito mais frequentes nessa altura. Estávamos habituados a acidentes espetaculares, os motores falhavam, a gasolina acabava, os pneus estoiravam... Os carros, por vezes, ficavam desfeitos mas a imagem usual era o piloto sair pelo próprio pé como se nada tivesse acontecido. Foi assim que fiquei imediatamente após o acidente do Senna: à espera que saísse pelo próprio pé. Mas tardava em sair. Não saiu. Foi visível a cabeça tombada e o corpo imóvel. Aí sim, veio a preocupação. Não era nada disso que eu queria.
Foi com o helicóptero em pista junto ao carro do Senna que saí de casa para a tal prova de atletismo. Nessa altura não havia internet, nem telemóveis. Para onde íamos não havia forma de nos mantermos atualizados. Foi assim que no local da prova não falei de outra coisa com o amigo Paulo da Silveiras. Lembro-me de regressarmos e, ao separarmo-nos pois eu tinha já chegado a casa, termos dito um “até amanhã” e desejado que o Senna estivesse a recuperar bem num qualquer hospital. Não estava. Ligo a TV e confirma-se o pior. Não demoraram cinco minutos para o telefone lá de casa tocar. Nunca ninguém me telefonava mas, nesse dia a minha mãe chamou por mim: “É para ti. É o Paulo”. Tinha acabado de chegar a casa e era para ver se eu já sabia da triste notícia.
A Fórmula 1 nunca mais foi a mesma. O Ayrton Senna foi, muito provavelmente, o melhor piloto de todos os tempos. Fui um felizardo por poder ter assistido em direto a muitas das corridas em que se bateu pela vitória. Sobretudo os famosos duelos com o Alain Prost. Fica na memória aquela primeira vitória em 1985 no circuito do Estoril ainda ao serviço da Lotus em que chovia torrencialmente e ele deu voltas de avanço a praticamente todos os pilotos.
Obrigado Senna por hoje me voltar a lembrar dos circuitos que fazia com uma pequena tábua no chão da antiga escola primária onde fazia autênticos Grandes Prémios com caricas nas quais escrevia os nomes dos pilotos. Ainda sei muitos dos nomes e respetivos números de cor. Ou então recordo as corridas com arco e gancheta que fazíamos em volta da capela dando os nomes das mais prestigiadas “scuderias” aos arcos que tínhamos em mãos. Tempos de ouro: quer na vida, quer na Fórmula 1.
Este fim de semana vi a primeira vitória do Bottas. Esta época promete. Não será como as de antigamente mas é com o presente que se consegue honrar o passado. Ainda que o Senna nunca seja passado. Será sempre presente.
Obrigado. Ainda que continue a preferir o Piquet. Que também foi tricampeão mundial, acrescente-se.

A Via Sacra e a "Mãe Ciana"...

Foto: Tono, Lena, Cristina, Sérgio, Zé Mário e eu algures no início da década de 90.


Ontem foi dia de mais uma Via Sacra. Demorada, como sempre. Mas muito gratificante. O percurso é longo e há várias paragens. Tempo suficiente para caminharmos também interiormente.
A princípio “vamos pelos pais”.
As memórias mais antigas que tenho das cerimónias da Páscoa trazem-me um pregador vindo de fora. Os meus pais gostavam de estar na igreja a horas, ainda que isso significasse chegar com quase uma hora de antecedência. O Toyota Corolla branco apenas saía de casa quando a querida “Mãe Ciana” (era assim que muitos a tratavam de forma carinhosa) chegava para que os meus pais a levassem para assistir às cerimónias. A idade era já muito avançada mas recordo a sua simpatia. Foi assim durante alguns anos. Sempre. No final, ao sair do carro, depois de muito agradecer aos meus pais, rematava sempre com a seguinte frase: “Este foi o último ano. Para o ano já não vai ser preciso”. A lucidez com que se encara o adiantar da idade, às vezes, faz pensar. Mesmo assim, durante alguns anos, felizmente, não teve razão. O ano anterior não tinha sido o último e ia havendo lugar para uma outra “última vez”.
É verdade que também “vamos pelos amigos”. Afinal de contas, quem melhor para nos guiar?
Há os que estão na foto. Mas há outros. Bastantes. É impossível não os recordar. Os tempos são , de facto, diferentes. Para os mais novos será difícil acreditar que houve tempos em que os amigos se juntavam no recinto da escola primária para depois irem “em bando” para as cerimónias. Lembro em particular uma noite em que o Luís do Selmo ia a fazer rimas de forma improvisada (uma espécie de cantar ao desafio) e rimou "cavalo" com "acabá-lo". Na altura, achei uma graça incrível, de tão inesperado que foi. Até para ele que quase não conseguia dizer a última palavra por tanto rir, pois a rima tinha-lhe surgido em cima da hora. Um verdadeiro improviso.
Confesso. Dou-me conta que falhei. Por essa altura era minha convicção que nos encontraríamos sempre nesta quadra e voltaríamos a fazer bando. Continuaríamos a cantar, a ler as escrituras e a conviver antes e depois das cerimónias. Como daquela vez em que parámos na casa em frente à Guidinha para beber um copinho, recordação que tenho que agradecer à amiga Cristina “do talho”!
É verdade que também “vamos pelos filhos”.
Hoje vou com a minha filha pela mão até à capela. Pelo caminho vou-lhe falando dos bons amigos dessa altura. Já não há bando, mas o Tono apareceu ontem para cantar e à noite chefiava os escuteiros.
No fim, volto para casa com a minha filha pela mão. O bando está agora espalhado a ser feliz em outros lugares e a fazer feliz um número mais alargado de pessoas em outras tantas famílias. Tudo tem o seu tempo. Apenas tenho saudades, só isso!
Hoje é tempo de dar a mão à minha filha, já disse?
Foi assim que entrámos em casa já noite dentro. Ambos bastante cansados. Eu completamente rendido à viagem interior que me foi proporcionada. Ela, apenas muito cansada pelo longo percurso percorrido.
Um dia, acredito, há-de chegar a vez de ela descobrir esse privilégio da viagem interior. O sorriso há-de ser parecido com o que trago hoje quando se aperceber que tudo vale a pena. Porque, no fundo, “pela fé é que vamos”.
Uma Santa Páscoa para todos.

Relembrando o "Cartolinhas"...



Olá Pai. Gosto muito de ti.
Ainda estou um bocadinho emocionado, sabes? Devia fazer isto mais vezes!
Hoje eu não não era eu. Eu, eras tu! E tu não eras tu. Tu eras o avô! Parece confuso, não parece?!
A eira já não existe pai. Mas estávamos quase no mesmo sítio. Quase, quase...
O bandolim deu lugar ao banjo. Mas aos poucos, de forma simples, fomos fazendo memória!
Voltou-se a ouvir a "Maria e o Manel", a "Canção de Embalar" ou o "Cartolinhas"!
O teu ouvido já só pressente metade das notas, o ritmo não era bem o que estava escrito mas, que importa isso?
Tu, não sei... Mas eu, hoje, voltei a ter seis anos! Durante aquela hora e meia tive a infância toda dentro de mim! Tive a felicidade da Isabelita e a Aldina andarem por lá a ajudarem a mãe a manter a casa um bocadinho mais asseada para a Visita Pascal. E depois de começarmos a tocar, enquanto o André ouvia atento no colo da Odete e a Rita e o Tiago brincavam no recinto da Escola Primária, chegaram o Dinis e a Bia, logo seguidos pelo Zé Mário, meu irmão e ídolo de infância que veio dar ainda mais brilho a este quadro.
Tocaste com um e com outro e, no fim, tiveste ainda tempo para ouvir algumas modinhas vindas da geração que deixaste. Cabe-nos a responsabilidade de o saber transmitir aos vindouros.
Gosto mesmo muito de ti, pai.
O André acabou por não dar tréguas e tivemos que o vir adormecer. Quando seguia no carro, mesmo antes de desaparecer, reparei que todos tinham seguido já para dentro de casa e estavas tu apenas, à espera que eu desaparecesse da vista para fechares a porta. De forma calorosa, dei-te um sorriso e um adeus. Respondeste de igual forma.
Hoje, em pleno período pascal, a vida eterna parou em nossa casa.
Obrigado. Prometo voltar mais vezes e com mais tempo. Para voltarmos a ser mais felizes.
Boa Páscoa.

Miguel

O Último Concerto

Para uns é mais cedo, para outros é mais tarde. Para mim foi neste fim de semana: o “último” concerto. Se bem que dividido em 2 atos: Coimbra e Aveiro.
Coimbra tem um encanto que não se explica.
Chego cerca de uma hora antes do que estava previamente estabelecido. Isso dá-me tempo para saborear memórias recentes no recinto encostado à minha direita. Nestas últimas férias fui muito feliz no Portugal dos Pequenitos onde passei horas seguidas olhando de longe a felicidade da Rita e do Tiago. Nesse dia, os meus dois únicos filhos (agora já são três) mais não eram que a extensão da alma de criança que trago dentro do meu corpo. Lembro-me de seguir cada movimento com uma atenção tal que os sorrisos saíam-me de forma cada vez mais frequente enquanto me dava conta que ainda tenho muito que aprender para continuar a ser criança.
Sigo o meu caminho e demoro ainda um pouco até descobrir a entrada para o local onde será o concerto quando a noite resolver aparecer. Lá dentro, juntamente com os meus colegas, faço o reconhecimento das instalações e aproveito um sítio confortável para descansar o corpo. Enquanto isso, há tempo para cumprimentar uma amiga que durante a semana trato por professora. Falámos um pouco e voltando a ficar sozinho fico a sorrir com a curiosidade de estar prestes a fazer música com alguém a quem na semana seguinte estarei a chegar estantes ou a tirar fotocópias. A vida tem, de facto, os seus encantos. Entretanto chega a amiga de Arouca (há sempre alguém de Arouca em qualquer canto do mundo) e troco dois beijinhos como quem partilha toda a bondade e admiração que se consegue encontrar num corpo tão franzino como o meu.
Entretanto seguimos para o aquecimento. Enquanto me posiciono vou admirando o local. Olho em redor e reparo que “não estás cá”. Por esta altura terias já trocado umas palavras comigo e eu dir-te-ia que os meus pequenos estão bem mas que o tempo para ser “músico” é cada vez menor. Estou certo que me animarias de alguma forma e acabaríamos a conversa deixando na minha garganta o gosto amargo de não te encontrar nas aulas de composição.
O ensaio acaba e somos convidados a jantar. A esmagadora maioria segue nos autocarros. Eu sigo o caminho oposto e faço-o de forma mais solitária. Há momentos em que estando na periferia conseguimos uma realização mais plena do que estamos a viver. Sozinho é mais fácil reparar na beleza do Mondego a fazer lembrar as trovas ao Douro nos meus primeiros tempos de estudante.
O céu já veste de negro quando acabo por regressar ao local do concerto muito antes da maioria dos meus colegas. Faço uma ronda pelos camarins quando sou interrompido por uma voz doce que se recorda das minhas feições mas não do meu nome. “Não, também não fui jantar com eles” – respondo eu, sorrindo, enquanto volto ao meu lugar de descanso/concentração.
Entretanto vários colegas vão trocando algumas impressões, também comigo. Aproveito para parabenizar um amigo pela conquista de um prémio e sou surpreendido com a curiosidade sobre o meu rebento mais novo e sobre a estreia de teatro que vai acontecer no fim de semana seguinte e que “anda tudo a pensar no mesmo”. A internet, às vezes, tem o seu encanto...
A hora aproxima-se e vamos começando a subir empacotados em elevadores. À saída dos mesmos, por ironia do destino, espera-nos outra “sala de espera”. Mais uma vez deixo-me ficar um pouco à margem. É incrível o que se consegue assimilar desse lado da vida. Voltei a olhar em redor e voltaste a “não estar cá”. As meninas exibem roupas requintadas que lhes realça a beleza natural e parecem trazer no rosto a tal “face das pequenas” que o Paião eternizou no seu Pó de Arroz. E tudo salta à vista como se de um quadro de Rembrandt se tratasse.
Entretanto, vamos obedecendo a indicações preciosas que nos são dadas pelo que num ápice estamos perfilados em frente a uma porta à espera da aprovação de alguém. É chegado o momento de sermos melhores que nós mesmos.
O concerto corre bem, a música de Rossini aqui e ali vai-me preenchendo a alma e depois de atirar um até amanhã a alguns dos meus colegas é já a caminho do carro que sinto que tudo valeu a pena.
É com a banda sonora que os meus sapatos entoam no passeio que me dou conta que este é o “último” concerto. A minha boca, em surdina, ainda vai cantando o “Amen” da fuga final (aquela música entranha-se no cérebro) e é nesse cenário que me lembro dos Queen e daquela que foi a última canção do último álbum editado com o Freddie ainda vivo. E tudo parece fazer ainda mais sentido: “The Show Must Go On”. Abro a porta do carro e imagino o Freddie debilitado a fazer toda a canção de forma perfeita, num só take, como nos é contado pelo Brian. O fim não é necessariamente mau. Depende da forma como se acaba. E o Freddie acabou bem.
Entro e pouso o livro da partitura no banco do passageiro. Só aí reparo no nome Rossini escrito a letras garrafais na capa e lembro-me que é italiano. Deixo escapar um sorriso disfarçado: afinal “estavas cá”. Sigo o caminho para casa sabendo que no dia seguinte em Aveiro me espera outro “último” concerto. Que não será muito diferente deste. Ou de outro qualquer...