Não há tempo para ter tempo...

 
Não há tempo para ter tempo.
Uma constante na minha vida que se tem agravado neste último mês. 
Isso é mau porque nos priva de fazermos muito do que gostamos e, sobretudo, de estar com aqueles que realmente gostamos de estar.
Este mês tem a particularidade de me ter atirado para fora de casa em todos os serões fruto de um sem número de ensaios, reuniões e atividades que o meu corpo começa a dizer, ainda que de forma indireta, que tenho de parar.
Não há tempo para ter tempo. E isso é mau.
Quando damos por ela estamos a sair de manhãzinha de casa e a regressar já pela noite dentro, em hora muito avançada, e com os filhos a dormir.
Todos os dias ao sair de casa, quer pelo estado do tempo, pela intensidade do vento, pelas folhas no chão, sei lá... Mas, dizia eu, ao sair de casa, lembro-me sempre de algo que já não faço mas que gostei muito de ter feito.
Os últimos dias têm-me dado um manto branco logo pela manhã e eu, antes de entrar para o carro, olho para os lados da Felgueira onde na minha meninice fui várias vezes ao musgo para fazer o presépio do “grupo coral dos pequeninos”. Outras vezes, ao chegar a casa na hora de almoço, olho o comando da consola que o Tiago esqueceu no chão e penso para mim mesmo: “logo à noite vou dar uns tiros na ps4 ou jogar wii em família” mas logo caio na realidade.
Não há tempo para ter tempo. E isso é mau. Ou não. Há sempre um lado positivo. Nem que seja o lado mais pequenininho. E o lado positivo é que acabamos por chegar a um ponto em que não dá mais. O tempo “perdido” em grandes viagens até à universidade tem sido um ótimo conselheiro. Faz-nos perceber que o Variações sabia umas coisas quando escrevia “Muda de Vida”.
Enquanto isso não acontece vou-me agarrando a alguns desses flashes que costumam surgir quando saio de manhã bem cedinho. Há uns dias foi este “Escape from the Planet of the Robot Monsters” que me passou pela cabeça. A princípio achei estranho pois, como o tempo é muito escasso, costumam ser grandes clássicos a assaltar-me a memória. Mas desta vez não. O jogo não é mais do que mediano mas, talvez devido aos excelentes gráficos, me tenha voltado a cativar. Faz lembrar um tempo em que se comprava um jogo pela beleza da “capa da cassete”. O que é certo é que estes dias tenho andado intrigado a pensar em como um jogo tão mediano não me sai da cabeça.
Um dia destes dou por mim a desmarcar algum ensaio. Só para tirar as dúvidas.
O pior é que, lá está...
Não há tempo para ter tempo.
E isso, afinal de contas, é mau.
Ou talvez não.
Logo à noite vou ouvir o “Variações”.
Só que, lá está mais uma vez...
Não há tempo para ter tempo.
Raios...
Menos mal. Lembrei-me agora que dá para ouvir no carro, durante as viagens...

Como eu gostaria de envelhecer

Este fim de semana foi um bocadinho estranho. Voltou aquela sensação de fazer algo que se gosta muito e percebermos  que isso nos faz mal. Porque de forma paradoxal nos faz mais tristes. E ninguém pode gostar de estar triste.
Fui ao jantar da Banda Musical de Arouca e lembrei-me a toda a hora dos meus tempos de Escola Primária. Nos anos 80, enquanto criança, brincava com uma imensidão de amigos logo pela manhã. Depois, ao toque da campainha, lá ia cada um para a sua sala conforme a classe que frequentava.
No sábado à noite essa imagem surgiu-me frequentemente na cabeça. Não que tenha brincado com alguém (longe disso) mas porque de forma similar também as pessoas foram conversando umas com as outras até que, na hora do repasto, cada qual foi para a respetiva mesa conforme o grupo de amigos mais chegado. É estranho ter feito (fazer) parte de uma família tão grande e bonita com é a da Banda Musical de Arouca durante quase trinta anos e, na hora da verdade, não ter uma mesa do meu "grupo de amigos". Dá para me pôr a pensar onde terei falhado.
Valeram aqueles cinco minutos com a Margarida que foram realmente genuínos e aqueles outros cinco minutos do lado de fora da tenda com o amigo "Costa" que me perguntou pelos meus pais e me abraçou com o olhar de forma sincera.
Encostado a um esteio, do lado de fora, vi chegar a Eva que me cumprimentou com dois beijinhos e me perguntou: "Aqui fora? Sozinho?" ao que eu respondi: "Prefiro estar sozinho cá fora do que estar sozinho lá dentro".
Eu bem sei. A minha forma de estar na vida é muito estranha. Mesmo que digam a toda a hora que sou um exemplo e tal... Às vezes quase que preferia não o ser mas não acabar de forma tão solitária. Mas isso logo passa. E a razão encontrei-a hoje de manhã em casa dos meus pais. Deus revela-se de formas estranhas. Tudo o que descrevi atrás se relativizou quando me dei conta que gostaria de envelhecer como o meu pai. Ele sim, verdadeiramente um exemplo a seguir e que, curiosamente, faz o seu caminho mais ou menos de forma solitária. Mas sempre com a sua companheira de toda a vida e com os filhos e os netos que muito o querem e amam. E era assim que eu um dia gostaria de envelhecer: com a minha companheira de sempre, com os meus queridos filhos e netos perto de mim, e com muitos e longos textos como aqueles que li hoje de manhã saídos da "pena" do meu pai e que retratam tempos em que tinha verdadeiros amigos.
Um dia pai, hei-de ser como tu.
Nunca me deixes que eu nunca te deixarei. E assim seremos sempre pelo menos dois.

O Miguel "Confiança"


Creio não errar ao dizer que conheci o Miguel “Confiança” corria o ano de 1990. A minha memória costuma ser mais ou menos nítida pelo que é minha convicção que ainda não foi desta que me atraiçoou.
A minha infância e adolescência foram de ouro. Os amigos eram em grande número e dos melhores que a face da terra havia conhecido. Deus foi bastante generoso comigo, talvez por isso mesmo não me canse de lhe agradecer. Apesar disso, em 1990, resolveu colocar ainda mais um rapazito no meu caminho. Os pais vinham do Porto para morar, imaginem, na casa mesmo ao lado da minha. Da janela de minha casa via-se perfeitamente o recinto da escola primária. Era lá o ponto de encontro de toda a pequenada para todo o tipo de brincadeiras. Lembro-me perfeitamente de olhar pela janela e ver o Miguel a fazer o reconhecimento do recinto montado na sua BMX branca e preta. Felizmente, nessa altura, fazer amigos era muito mais fácil. Foi só sair porta fora e em menos de um minuto já sabíamos que ambos tínhamos o mesmo nome, ele era do FC Porto e eu do SL Benfica e que que tínhamos em comum o gosto pelos videojogos; ele com um ZX Spectrum +2 e eu com um ZX Spectrum +3. Feitas as apresentações ficava logo tudo decidido: éramos amigos.
Há montes de histórias que poderia aqui contar tendo o amigo Miguel “Confiança” (era assim que o chamávamos) como protagonista. Em boa verdade porque foram muitas as partidas que lhe pregámos. Eram uma espécie de “teste” para poder pertencer à ”seita”.
Lembro-me de ter ficado deslumbrado quando vi a enorme coleção de videojogos para o Spectrum que possuía. Quem me dera por a mão àqueles jogos todos, mesmo nos dias de hoje.
Sabes Miguel, recordo muitas vezes algumas das nossas melhores histórias. Lembras-te quando num final de tarde, tinhas chegado a Rossas ainda há poucos dias, tentaste sacar um cavalo com a tua BMX em frente ao pessoal? Disseste “Cá vou eu”, levantaste a roda da frente e... Bem, aquilo correu um bocadinho mal. Estatelaste-te no chão, o guiador furou a tua t-shirt e ainda te aleijaste um bocadinho. Rimo-nos até quase rebentarem os pulmões. Desculpa. É uma característica própria do ser humano rir dos males alheios. Mas não deste “parte fraca”. Levantaste-te e disseste: “Podia ter sido mau. É preciso é saber cair”! Rimo-nos ainda mais pois estava lá o Zezito das Senras (não sei se te lembras dele) que logo responde: “Não que isso de cair tem cá uma sabedoria”...
Desculpa algumas das partidas que te fizemos (embora não tenha sido o mentor de nenhuma delas, confesso que participei numas quantas).
Lembro-me de uma em particular quando estávamos a jogar futebol no recinto da escola com a tua fantástica bola e ela foi ao campo de milho em frente à escola. O que é certo é que a bola nunca mais aparecia e fomos todos lá para o meio do milho procurar. Até que a bola apareceu e alguém deu o alerta... menos a ti. Então viemos todos para o recinto da escola e tu lá no meio do milho a procurar. Enfim, brincadeiras de miúdos mas que hoje são recordações que guardo como se acabasse de meter uma barra de ouro dentro de um cofre.
Há ainda a memória de passar alguns dias das férias na Serra da Freita em que te convidámos e acabaste por não vir pois tinhas ficado de castigo por não teres anotado os números da “Casa Cheia”.
Há tantas histórias Miguel, tantas...
Como aquela de ir roubar cerejas e alguém ter ficado amedrontado com o aparecimento de pirilampos. Ou a outra de estarmos a jogar ao sobe e desce no recinto da escola e pedires para trocar cinco cartas enquanto dizias alto e bom som: “Quem arrisca não petisca”! Delicioso! E tantas outras! Sei lá...
Tenho saudades tuas, sabes? Desde esses anos vi-te apenas por mais uma vez. Foi já há algum tempo, a atravessar a praça, mesmo no coração da nossa vila. Não tive coragem de ir ter contigo e dar-te um abraço. Desculpa. Fiquei ao longe a olhar-te até desapareceres para dentro do centro comercial. Nesse bocadinho vi o rapazinho de há 25 anos atrás e outras tantas boas memórias. Talvez por isso me tenha detido sem ir ao teu encontro. Decidi conservar as memórias da forma imaculada que as guardo. Julgo assim ser mais feliz. Mesmo querendo muito ter-te agradecido.
Olho para trás e tenho pena que tenhamos crescido.
Obrigado por teres sido um bom amigo.
Queria desejar-te um ótimo aniversário.
Espero tê-lo conseguido.

Miguel

22 de outubro de 2017

Há dias que sabemos que vão ser bons. Porque vão ficar na nossa história.
Por isso, a certa altura, é natural ficarmos um bocadinho ansiosos. É então que se decide começar a preparar esse dia com alguma antecedência.
Este foi o dia em que me tornei presidente do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas. Comecei a prepará-lo bem cedo, há mais de trinta anos.
Hoje tenho 41 anos mas quando era ainda muito pequenino, tinha apenas 5 anos, ganhei um irmão mais novo. Chamava-se Grupo Cultural e Recreativo de Rossas e tinha sido lavrada a sua escritura no dia 11 de junho de 1981.
A meu primeiro contributo oficial dentro da associação foi no atletismo. O Grupo estava a dar os primeiros passos, ainda sem equipamentos para todos, mas corri como nunca tinha feito até então na prova da minha terra. Fiquei em 33.º lugar. Pouco importa. O que haveria de ficar para a história é que o GCRR estreava-se no atletismo e eu estive lá.
Entretanto o GCRR também lançava sementes no Teatro (a sua principal atividade) havendo duas tentativas para ensaiar duas peças com as crianças disponíveis. Nenhuma chegou a cena na altura mas estive nos ensaios que se fizeram. Na primeira, que agora não recordo o nome, eu faria um papel de príncipe. Na outra, seria o ator principal na comédia “Apanhado em Flagrante”. Ainda tenho os papéis cá em casa passados com a letra da minha mãe. É certo que não chegámos a fazê-la em palco. Mas o GCRR lançava as primeiras sementes depois de ter sido fundado. E eu estive lá.
Depois o GCRR começou com as equipas de futebol infantil/juvenil para participar no famoso Torneio do Parque. A equipa não era das mais famosas mas, que importa isso?! Já sabem, não é? O GCRR estava a começar e eu também estive lá.
Até que, a 29 de julho de 1988 o GCRR, desde a sua fundação, levava pela primeira vez a cena um espetáculo. Foi na freguesia de Tropêço. Já sabem, não é? Eu também estava lá. Na plateia, é certo, pois ainda era muito novo para aquelas lides. Mas estava lá.
Já perceberam a ideia, pois já?
Até aos dias de hoje há milhares de datas que se podem encontrar no riquíssimo Historial do GCRR e há uma coisa que é comum: é que estive sempre lá. Sempre.
É por isso para mim um enorme orgulho poder hoje dizer que sou o 11.º Presidente do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas. Conheci todos os meus antecessores e reconheço a todos eles o enorme trabalho que fizeram. Saiba eu honrar esse legado e o GCRR estará, certamente, num bom caminho.
Um abraço sentido a todos os sócios e amigos, de uma forma especial àqueles que estiveram lá nessa primeira hora.
Conto convosco.
Obrigado por confiarem em mim.

Miguel Brandão

E tu, ainda te lembras do Clube de Vídeo?

As melhores recordações que trago dos finais da década de 80 e início da de 90 são os amigos. Ponto.
Depois há aquelas memórias mais queridas de coisas que fazíamos com esses mesmos amigos. Uma das que mais me eriça a pele é o antigo clube de vídeo que existia no centro comercial. Todos os finais da tarde depois das aulas, ou já noite dentro antes de mais um ensaio da banda, ia com o Pedro ver as novidades.
Confesso que dei pouco lucro ao negócio. Aliás, se ainda houver registos, basta procurar pelo número de sócio 699 (o cartão creio que ainda anda cá por casa) para verificar que foram poucos os movimentos feitos com tal cartão. Já o Pedro era um cliente muito mais assíduo. Eu era mais envergonhado pelo que ficava muitas vezes do lado de fora a olhar pela vitrine a variedade de fitas disponíveis. Havia preços para tudo. Os filmes normais andavam pelos 100$00 e 150$00, outros mais requisitados pelos 200$00 e as novidades mais procuradas ficavam por 250$00 por um dia. Por isso gostava de ir com o Pedro. Ele entrava pela loja dentro e pegava nas caixas dos filmes para ler as sinopses e eu lá perdia o medo e ia “à boleia”. Foi assim que ganhei cumplicidade com muitos dos filmes das fotos. Para todos os estilos, uns melhores do que outros, vi todos esses (e muitos mais), alguns muitas mais vezes do que aquelas que o comum dos mortais aguenta. Ainda nos dias de hoje é frequente a minha querida Odete sorrir quando estou a fazer zapping. Diz ela que não sabe porque ainda faço zapping se acabo sempre por deixar no canal que está a dar um filme dos anos 80. Isto cá para nós, eu acho que ela está a exagerar um bocadinho. Quando não joga o Benfica, às vezes, também vejo os Jogos sem Fronteiras, os Soldados da Fortuna ou os Três Dukes na RTP Memória. Chego mesmo a pensar que eles só passam aquilo na TV por minha causa pois mais ninguém deve ver aquilo. Mas, adiante...
Estávamos a falar do clube de vídeo. Andava no 9.º ano do liceu quando os meus pais compraram um vídeo lá para casa. Por essa altura havia apenas a RTP o que fazia com que a esmagadora maioria das pessoas tivesse apenas acesso a um canal de televisão. Ter um vídeo em casa não era para qualquer um pelo que tenho noção que fui um grande felizardo. Fiz-me nessa altura sócio do clube de vídeo e logo no meu primeiro aluguer tive um problema: aluguei o filme “Continuaram a chamar-me Trinitá” com o Bud Spencer e o Terence Hill que o meu primo Picatojo tinha aconselhado e fi-lo por uma semana. O problema é que ao devolver o filme, no computador estava apenas indicado o aluguer por um dia. Só depois de uma exaustiva explicação consegui sair sem pagar multa. Uma falha de comunicação. Perfeitamente natural. O que é certo é que eu tinha pago mais de 400$00, creio, e depois de tudo bem explicado, do outro lado do balcão houve a compreensão necessária. Acabaria por alugar apenas uma meia dúzia de filmes pois o meu pai não era muito de dar dinheiro para essas coisas. Também por isso, juntávamo-nos em grupo em casa de alguém para assistir a algum filme alugado ou que tínhamos conseguido emprestado lá no liceu. Foi assim que vi a maioria dos filmes nas fotos acima. Tenho mesmo muitas saudades dessas sessões e dessa trupe. Nesses dias julgava que seria assim para a vida inteira. Obviamente, não foi. Acho que o meu gosto pelos filmes dessa época, no fundo, é uma oportunidade que encontro para me sentir mais próximo desses amigos. Desses, ou de outros quaisquer. Creio que não haverá mal nenhum nisso. Neste aspecto, acho que fiz mais pela vida do que ela por mim. Ainda bem que na maioria das vezes não é assim.
E tu, também visitavas o clube de vídeo?

Hoje era dia

Hoje era dia de levantar cedo.
Entre as 9h e as 10h da manhã já estaria por certo a carregar tralhas para a carrinha do amigo “Repolho”. Já tínhamos trocado cumprimentos e meia dúzia de graçolas com algumas asneiras à mistura. Acredito que faz parte da famosa “mística”. Com o corpo cansado mas de alma cheia estaria a trocar sorrisos com o Pepé escondido na parte da trás da carrinha enquanto os meus colegas tentavam obter o “livre trânsito” para aceder ao centro da vila para efetuar a respetiva descarga de material. Porque hoje era dia de preparar tudo com o maior zelo possível.
Hoje era dia de olhar o sol de forma diferente. Porque ia ser a minha maior companhia durante toda a tarde.
Hoje era dia do “amor à farda” e das “borboletas”.
Hoje era dia de lembrar os que já não estão. Quem o irá agora fazer?
Hoje era dia de estar sozinho no meio de uma multidão. De ficar sentadinho no meu canto a pensar em coisas que passavam despercebidas a todos os outros.
Hoje era dia de ouvir o Sr. Garrido a falar com alguém e perceber a cada instante o que é o amor à Banda Musical de Arouca.
Hoje era dia de ouvir as histórias do padrinho e de rir com as suas brincadeiras com os mais novos ou com as meninas.
Hoje era dia de suar e suportar o calor indo buscar forças onde nem sequer sabemos que existem porque o ar se torna mais “rarefeito” depois de duas ou três minis.
Hoje era dia de lembrar os Bailados Egípcios, as “Reflexões” ou a Pop Show n.º3.
Hoje era dia de ficar a olhar o Valdemar e deixar a admiração crescer naturalmente. Com pessoas assim a humanidade parece fazer mais sentido.
Hoje era dia de rir para o Cajarana que traria certamente os últimos óculos da moda para manter aquele seu charme “moderadamente espetacular”.
Hoje era dia de festa sem procissão.
Hoje era dia de viajar interiormente e fazer o balanço de mais um ano.
Hoje era dia de passar pelos carrosséis com o Pepé para mais um jogo naquele divertimento que nós sabemos.
Hoje era dia de ser noite. De tocar a Tannhauser com a destreza de um Usain Bolt, com a delicadeza de quem trabalha filigrana e com a simplicidade de quem toca um vira.
Hoje era dia de dar boleia ao Nando que, no final da festa, estaria já junto ao palco para fazer comigo o regresso a casa.
Hoje era dia de arrumar as tralhas enquanto a maior parte dos sobreviventes estava já instalado nas tasquinhas.
Hoje era dia de dizer “para o ano há mais”.
A verdade é que hoje foi igualmente dia de levantar cedo. Ainda mais cedo. Mas para trabalhar. A vida muda bastante num simples par de anos. Em frente ao computador lembro aquela nossa conversa rápida em que por entre todas as palavras que sempre me dispensas com muito carinho retive aquelas que disseram: “no último ano notava-se que tu já não era tu. Já não eras o Cebolinha. Sempre ali sozinho, no palco”... Deu-me que pensar.
Engraçado que neste tempo todo desde que os dias deixaram de ser dias, o mais próximo que estive de falar com alguém sobre este amor que nos une pela Banda Musical de Arouca foi na festa deste ano em Tropêço quando uma querida amiga de longa data a quem quero muito, reparou na minha atenção de ouvinte especial e se abeirou dizendo: “Então? Como é estar deste lado?”. Foram os dez minutos que mais falei sobre o assunto. Queria que tivessem sido duzentos. Porque falar da Banda Musical de Arouca, quer seja do lado de dentro, quer seja do lado de fora, é sempre motivo de orgulho e prazer. Faz bem à alma. De fora, há ângulos novos que se notam de forma mais nítida (“como a nossa casa só existe quando estamos fora dela, ou qualquer coisa assim”).
Hoje, nem sequer poderei assistir à entrada. Espero ter algum tempo para ir ouvir um bocadinho e “matar o vício”.
Hoje era dia de vestir a farda. 
Hoje era dia.

O Alexandre fez 50 anos

Olá Alexandre.
O tempo é o que é e não há muito a fazer em relação a isso. Ou se calhar há e por isso é que há pessoas que nos marcam mais que outras; depende do que fazemos no tempo que passamos com elas. Não sei.
É frequente viajar no tempo. Em muitas dessas vezes basta um raio de sol com o ângulo certo, um cheiro a Primavera, uma prata de rebuçado encontrada no chão ou um olhar fortuito sobre uma das árvores do antigo recinto da escola primária e logo os interstícios do cérebro se revolvem levando-me através de memórias de um tempo que deveria ter parado nele mesmo.
Há dias foi mais ou menos assim; ao passar os olhos pelo facebook vejo que fizeste 50 anos. E, de repente, apetece andar 30 anos para trás. Creio que estávamos ainda nos anos 80 quando se falava lá por casa que iria chegar do Brasil um primo do Zé António. Chamava-se Alexandre e tinha uma habilidade particular para o desenho. 
Era ainda muito novo quando te vi envergar a digníssima camisola do GCR Rossas naquela mítica final do Torneio do SAJU ganha nas grandes penalidades e que tu próprio já comentaste algures aqui no meu blogue de forma tão carinhosa e detalhada que me fizeste lembrar o meu irmão que também guardava todas as edições do jornal “A Defesa de Arouca” onde vinham todos os resultados e classificações. Entretanto fui crescendo, o que me deu o direito a partilhar o campo contigo em diversas equipas do GCR Rossas onde, creio, usavas habitualmente o número 4 e foste, muitas vezes, o nosso capitão. Tive mesmo muita pena quando há poucos anos atrás ajudei a organizar um jogo de Velhas Glórias e não conseguiste estar presente. Temos de pensar numa nova oportunidade agora que o campo até já está relvado e tudo...
Há ainda a memória de assistir no extinto palco da antiga residência paroquial à comédia “A Boémia” onde deste vida a uma das cómicas personagens juntamente com o Fernando Antunes, a Vira e o Zé António, entre outros. Felizmente tenho esse registo em vídeo para rever sempre que a memória começar a falhar.
Quis ainda o destino que eu fosse estudar na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto onde também estudaste, o que me fez partilhar algumas (poucas) viagens no saudoso autocarro do Calçada onde falávamos do teu sporting e do meu benfica e onde fiquei a saber da tua afeição pelo Vasco da Gama que agora passa de quando em vez na Sic Radical nos jogos do Brasileirão por volta das dez da noite. E eu lembro-me de ti...
Terá sido também nessas viagens que fiquei com a ideia que gostavas de leitura de ficção (também científica) onde me falaste do monstro de Frankenstein, por exemplo, a propósito de um livro que estavas a ler nessa altura.
Mas uma das memórias que me dá uma maior nostalgia tem a ver com aqueles sábados à tarde onde foste a minha casa para que eu gravasse na minha aparelhagem algumas cassetes com a boa música do “Alan Parsons Project” que, confesso, na altura, desconhecia.
Lembro ainda uma reunião que se fez no centro, no salão da catequese, para averiguar o resultado de uns inquéritos escritos que se tinham realizado sobre o jornal Cruz de Malta. A ideia era saber o que era mais apreciado assim como o que se devia melhorar. Lembro perfeitamente da resposta do meu pai à questão: “O que gosta mais de ler no jornal?”. Resposta do meu pai: “O editorial e os artigos do Alexandre”. Quem me dera rever as respostas a esses inquéritos. Certamente me trariam deliciosas memórias. Lembro em particular um artigo sobre o Garrincha que me deu muito prazer a ler.
E é isto Alexandre. Uma simples constatação no facebook de que fazias 50 anos fez-me recuar no tempo. Pelas estradas boas da vida ainda que, por vezes, sinuosas e íngremes, como aquela que nos leva até ao lugar da Cavada. Obrigado.
E parabéns, já agora.
Temos de marcar um convívio ou uma “futebolada” com a malta dessa altura. Para nos rirmos e falarmos desses tempos.
Um abraço.

Miguel

O Último Concerto: Parte II

Hoje a sensação é um bocadinho estranha. Afinal, para além do último concerto que relatei neste mesmo blogue no passado dia 28 de março, havia ainda um outro “último” concerto. Ou talvez não seja bem isso. É mais uma espécie de “Encore”, mas de grande qualidade.
Saio do trabalho a correr com tempo apenas para uma paragem rápida em casa para trocar de roupa. E é assim, já todo de preto, que entro no carro com destino a Aveiro.
Ao entrar no Auditório sou surpreendido pelo Luiz que, juntamente com o Rodrigo, nos vai dirigir dali a pouquinho. Vem ao meu encontro e pergunta pelo meu blogue. Por momentos penso tratar-se de um lapso auditivo mas ele faz questão de continuar e de me dar os parabéns pelos textos sobre o coro do DeCA. Agradeço da forma mais simpática que sou capaz e aproveito para retribuir o agradecimento pela forma como todo o repertório foi trabalhado durante as aulas. Desejámo-nos “sorte” e fui procurar o meu lugar no meio do coro.
No meio de todo o burburinho habitual, naqueles momentos que antecedem as atuações, houve tempo para tomar consciência que tudo parece estar a acontecer de forma diferente. O destino como que adivinha que se trata da última atuação. As 21h dão lugar às 18h, o professor Lourenço dá lugar ao Luiz e ao Rodrigo e a Sé de Aveiro passa a vez àquela que é a sala de todos os dias: o novo Auditório que temos agora de colocar bonito para o público, como quando se arranja um bocadinho melhor a nossa casa para receber uma visita importante. Só as meninas bonitas não têm que dar lugar a outras. Continuam as mesmas: bonitas, doces e delicadas. Deambulam pela sala como poemas largados ao vento.
Os meus colegas começam a aproximar-se e, os mais chegados, cumprimentam-me com a célebre frase do “Brandão” que há-de continuar por mais uns tempos enquanto ainda nos arrancar alguns sorrisos da cara. Entretanto o professor pede quatro voluntários para ajudar a passar um estrado. Durante algum tempo permaneço como voluntário único. Estranho. Finalmente dois colegas juntam-se a mim nessa nobre missão. Chegados ao outro Auditório, o velho, damos conta que afinal o que estava planeado para quatro pessoas era perfeitamente executável por duas pelo que lá venho a alombar com um estrado juntamente com outro colega.
Já todos em posição em cima dos estrados, somos convidados a fazer o aquecimento. Faço-o com todo o gosto e empenho que sou capaz embora pense para mim que eu e o meu colega de carga não precisaríamos (alguns risos)!
E o concerto começa. Desta vez, muito diferente de todas as outras. Por tudo acontecer tão rápido. Não houve tempo sequer para um nervoso miudinho. Nada. Talvez por isso, mais do que as memórias visuais, tenha apostado nas auditivas. A beleza desta vez foi realçada pela delicadeza das vozes que pareciam desenhar sons no ar como quem trabalha filigrana.
E o concerto acabou. A porta do Auditório abre-se para a saída e volto a encontrar cá fora aquela vida que passa sempre a correr. Como se tivesse que chegar ao carro de forma mais rápida que aquela com que o Jesse Owens percorria os 100 metros. Fazer música com os meus colegas traz-me essa calma que não encontro em muitas das horas do meu dia-a-dia. É do que mais sentirei saudades quando acabar a licenciatura: fazer música em conjunto. É natural.
A viagem de regresso dura cerca de uma hora. É lá que se mastigam estas boas memórias que sei que ficarão guardadas durante algum tempo. O suficiente para ser mais feliz à minha maneira. Chego a casa e lembro a voz da Amália quando encontro “dois braços à minha espera” numa casa que é portuguesa. Abraço e mimo os meus filhos enquanto penso que não há nada mais “tonal” que o riso das crianças.
Há caras que provavelmente não voltarei a ver. 
Foi o último concerto. 
A noite anoitece.
Suspensão.
Barra dupla.

Os Animais das Caixas de Fósforos


Antes da febre dos animais do Pingo Doce que me trouxe duas cadernetas lá para casa com a Rita e o Tiago em plena aceleração para ver quem primeiro acaba a coleção, muito antes disso, dizia eu, outros animais eram procurados. Tudo quando eu tinha mais ou menos a idade dos meus filhos.
Primeiro lembro-me de uma caderneta intitulada “Fauna Selvagem” que os meus irmãos tinham lá para casa mas as memórias que tenho é de uma caderneta já com os cromos colados e fazendo parte do passado. Gostava de ficar a admirar aqueles animais estranhos e coloridos mas era uma coleção já “fora de circulação” pelo que há outras que me são mais queridas.
A primeira tem o nome de Zoo Disney e lembro-me perfeitamente do dia em que o meu irmão chegou com a caderneta novinha em folha lá a casa. Corria o ano de 1981, tinha eu 5 aninhos apenas. Como eu a gostava de folhear. Fi-lo vezes sem conta. Durante muito tempo invejei (no bom sentido) o meu irmão. A minha casa de infância era minúscula mas ele tinha direito a uma gaveta enorme, cheia de cadernetas, inteirinha só para ele. Lembro-me que, quando o meu irmão não estava, tinha de pedir autorização à minha mãe para ver a gaveta das cadernetas. Como eu era muito pequenino ainda estava em idade de estragar muitas coisas. E há coisas que não se podem estragar. Felizmente essa coleção resistiu ao passar dos anos como se pode ver na foto deixada acima.
Mas a minha coleção de animais preferida é aquela das caixas de fósforos. Completei-a por três vezes. A primeira acabou por se perder com o tempo. A segunda, onde as caixas de fósforos eram contornadas por uma linha cor-de-rosa, dei-a na altura, creio eu, ao meu primo José Ilídio, que dividia comigo muitas das brincadeiras, uma das quais tinha as referidas caixas de fósforos no papel principal. A terceira vez que fiz a coleção, foi a que ficou para a história. É aquela que deixo na foto e que guardo de forma carinhosa no sótão de minha casa. Com essas mesmas caixas e com o meu primo José Ilídio, fiz montes de corridas nos muros da antiga escola primária. A cada letra correspondia um animal. Pois nós tivemos a feliz ideia de a cada letra fazer corresponder um país e era assim que fazíamos autênticas corridas, com a ajuda de um dado. Era assim que os muros da escola se transformavam em autênticos Jogos Olímpicos. Não demorou muito para que o Pelicano começasse a ser o animal preferido; afinal de contas, o “P” era a letra do nosso Portugal. E era assim que, mesmo sem dar muito nas vistas, o número seis do dado aparecia com mais frequência sempre que a vez calhava ao Pelicano fazendo-o correr mais veloz que os seus oponentes.
Sabe bem recordar. Na realidade, não era bem assim. Mas naqueles muros, na ponta dos nossos dedos, Portugal era quase sempre sinónimo de ouro olímpico. Porque às crianças tudo é possível. E com uns pais que nos dão “asas”, tudo é permitido. Até ser feliz com as coisas mais simples. É muito reconfortante ter vivido num tempo em que as melhores brincadeiras da infância estavam dentro da nossa imaginação.
Um grande abraço, Lídio!

Lembrando o mítico Sousa

Na foto: O Sr. Maurício Noites na flauta, eu na Requinta, o Sousa no Clarinete e o Valdemar também no clarinete.

A foto será algures de uma atuação da Banda Musical de Arouca em Santa Eulália, em finais dos anos 80 ou início dos anos 90.

Normalmente, quando escrevo um texto sobre alguma memória marcante ou sobre alguém que me é querido, as coisas costumam fluir de uma forma mais ou menos natural. Sempre com alguma emoção nas palavras a usar mas, de uma forma geral, costumo ficar satisfeito com as palavras que escrevo. Sobretudo porque me transportam para lá. Ainda que por breves (mas bastante saborosos) instantes, volto a sentir e a ser feliz da mesma forma.
Pois bem. Hoje não está a ser bem assim. Convenhamos que, pior do que isso: não está a ser mesmo nada assim. Em frente ao computador as memórias surgem igualmente a um ritmo ligeiro mas continuo estático sem escrever uma única palavra. Apenas me limito a olhar para o ecrã. Talvez hoje eu tenha resolvido ir um bocadinho mais fundo nesta viagem ao passado. Talvez não queira de lá sair. Não sei... Hoje parece-me estranha esta forma que encontrei para deslindar este novelo de recordações.
Há pessoas que a certa altura da nossa vida são muito importantes. Fazem parte do nosso dia-a-dia. Estão connosco quando estamos a fazer algo que gostamos. Aos poucos vamo-nos afeiçoando a elas. Até que nos damos conta que desapareceram. Num ápice, não as vemos há cerca de duas dezenas de anos.
Isso aconteceu-me, por exemplo, com o Sousa.
Não via o Sousa, creio eu, desde os saudosos anos 90. Talvez os anos de ouro da Banda Musical de Arouca.
O Sousa é um dos exemplos que me vem logo à memória quando me perguntam o que é, afinal, isso da mística da Banda Musical de Arouca. Porque essa mística é, também, uma maneira de ser. Como a do Sousa, acrescento eu. Confesso que a vida me tem concedido imensos privilégios. Tenho sido um abençoado em muito do que acontece na minha vida. Uma dessas bênçãos deu-ma a Banda Musical de Arouca quando me colocou, desde a primeira hora, a tocar ao lado do Sousa e do Valdemar. Que poderia eu pedir mais?
Guardo na memória montes de histórias que não consigo recordar de início ao fim sem antes me rir de forma descontrolada. Não há outra forma de lembrar o Sousa.
Nos anos 80 era frequente as bandas de música recorrerem a músicos profissionais para alicerçar a sua qualidade em bases sólidas. Muitos dos músicos da casa aprendiam apenas o básico, tinham logo direito a uma farda e eram “lançados às feras”. Uma realidade um pouco diferente daquela que encontramos nos dias de hoje. O Sousa era um desses casos. Fazia parte de uma trupe efetiva de músicos que vinham reforçar a já de si muito talentosa Banda Musical de Arouca. Era assim que tanto ele como o Pereira Luís, o Cravo, o Carlos Russo, o Raposo (e por vezes o Franklin ou o saudoso Mendes de Sousa) entre outros, faziam parte da família. Eram sempre eles que vinham e não outros. Era para mim um orgulho tocar com gente assim.
Numa altura em que quase todos os músicos fumavam, o Sousa não fugia à regra. Se bem que marcava a diferença: os outros andavam pelo Gigante e pelo Ventil mas o Sousa só fumava Ritz. Só quando o tabaco acabava e ele estava mesmo desesperado é que lá cravava um Ventil a algum dos meus colegas. A mim nunca me cravou pois, felizmente, nunca fumei.
Para além de excelente clarinetista, uma das principais características do Sousa era a quantidade de asneiras que empregava em cada frase que dizia. E isso encaixava na Banda como uma luva. Só quem por lá andava por essa altura compreenderá bem o que estou a dizer. As histórias que lhe saíam da boca eram de uma graça impressionante. Tinha diálogos com o Sr. Maurício completamente surreais que guardo comigo para a eternidade. Então aquela do congresso que se fez para saber qual a melhor coisa do mundo... Ainda hoje me rio com a do “pão-de-ló”!!!
Já aqui escrevi também sobre aquele dia em que borrou as calças ao fazer as necessidades pelo que à tarde apareceu com umas calças de ganga. O que ele se ria a contar... Naquele tempo os jogos do campeonato eram quase sempre ao domingo à tarde pelo que enquanto os jogos decorriam normalmente estávamos no coreto a tocar. O Sousa era o primeiro a “meter” veneno. Sempre que acabávamos de tocar uma peça começava logo a espalhar: “O Benfica já perde! O Sporting já ganha! O Porto ainda empata!” E tudo isto sem saber sequer os resultados. Era só para ver a malta em polvorosa! E depois ria-se! Muito!
Apesar de exímio executante, não gostava muito de fazer os solos empurrando quase sempre para o Valdemar e, mais tarde, também para o Jorge. Talvez por isso tenha ganho a fama de calaceiro o que, em rigor, era bem verdade.
Lembro-me de uma festa (creio que em Moldes) em que lhe cobriram o carro, um Rover Preto (acho eu, ajudem-me), cheio de flores. No fundo, era uma partida de reconhecimento pelo carinho que a maior parte da malta mais nova sentia por ele. O sentimento era recíproco. A tal ponto que numa dessas festas fora, aquando do regresso, nós, os mais novos, vínhamos a fazer o maior barulho possível. Era a chamada “borga” elevada ao máximo nível. A tal ponto que cada um tinha em seu poder partes de instrumentos da percussão para que o silêncio não ganhasse quando as vozes se cansassem. O Sousa, como outros, precisavam de descansar pois o dia seguinte era de trabalho. Pediu para que nos moderássemos embora sem sucesso. Aliás, a cada pedido feito o barulho aumentava ainda mais. Mas o Sousa é o Sousa. Levantou-se, e com aquele riso entre meia dúzia de asneiras, sentou-se junto a nós e começou também ele a cantar e a fazer barulho. Quem não estava pelos ajustes era o Carlos “Aguilhão” que ainda nos veio passar um sermão e tentou tirar algumas das nossas percussões. Ainda se virou para o Sousa mas ele, nessa hora, conseguiu colocar a cara mais séria que foi capaz e lá deixou escapar: “Eu?! Eu não vinha a fazer barulho nenhum! Eu até também queria dormir!”. Foi só o tempo do Carlos virar costas e gargalhada geral. Ainda o estou a ver a sair do autocarro do Calçada com um “Adeus malta”!
Lembro-me também das inúmeras vezes que jogou à bisca dos nove com o meu tio, o Sr. Soares. Lembro-me de uma em particular que teve o Pereira Luís como “adjunto” que se colocou estrategicamente por trás do meu tio para ir dizendo o respetivo jogo ao Sousa. Nem assim. Nunca o vi ganhar. O Sr. Soares limitava-se a dizer: “Ó Sr. Sousa, quando o senhor nasceu já eu era professor disto”! Ótimas memórias.
Mas do Sousa há duas memórias que guardo com especial carinho. A primeira diz respeito a uma festa em que na viagem de autocarro, como em tantas outras, fomos jogar uma suecada. O local escolhido era aquela salinha que tinha em baixo numa das camionetas do Calçada. O meu parceiro nesse dia foi o Movilar (talvez ele se lembre desta história) e os oponentes eram o Sousa e o outro não sei precisar mas acredito que fosse o Mauro. O combinado era pagar uma garrafa de vinho a quem chegasse primeiro às 10 vitórias. Sabem como é o Sousa, não sabem? O jogo esteve nos 9-9 e o Sousa fez milhentos “macetes”. Nós ganhávamos mas íamos a bater a última vaza e ele tinha já deitado uma carta ao chão para dizer que tinham sido mal dadas ou outra desculpa qualquer. Fez isto aí umas cinco ou seis vezes seguidas. Mas não adiantou. Porque os Deuses estiveram do nosso lado e ganhámos todas essas partidas. O que é certo é que lhe perdoamos a garrafita mas, para surpresa nossa, na hora do almoço lá chegou uma garrafita de verde banco à nossa mesa trazida por um empregado. Já vinha quase meia mas mereceu na mesma o nosso agradecimento. Ao fundo do restaurante, numa outra mesa, o Sousa sorria e acenava. Agradecemos da mesma forma.
Mas a melhor memória que tenho do Sousa foi numa festa em Silveiras. Como todos sabem, era natural ver o Sousa a olhar para as meninas e a trocar impressões sobre as que eram mais jeitosas e bonitas. Pois bem, nesse dia lá estava uma menina toda bonita a olhar a Banda em pleno coreto ao fim da manhã. Logo o Sousa alerta o Sr. Maurício e me aconselha: “Olha para aquilo! Eu não, mas tu que ainda és novo e tal...”. Vira-se para o Valdemar para continuar a ladainha e estava este a rir-se a olhar para mim! E retorquiu: “Ó Sousa, olha que essa é a namorada do Cebolinha”! Mas ele não se desmanchou. Virou-se para mim e atirou: “Ai sim?! Pois bem rapaz. Tens bom gosto!” E lá nos rimos os três.
Parece impossível estar quase 20 anos sem ver o Sousa. Acontece com algumas pessoas na nossa vida, não é verdade? Mas no fundo, acreditamos que elas estão bem e isso costuma bastar. No caso do Sousa isso durou apenas até há alguns dias atrás. Quando um amigo conterrâneo partilhou no facebook um vídeo da Banda em 1992 na festa em honra de Nossa Senhora do Campo. Lá estava eu ao lado do Sousa em plena procissão. Partilha leva a partilha até que alguém comenta: “Deus o tenha”. Foi assim que fiquei a saber que desde 2015 o mundo filarmónico anda mais triste porque já não tem as gargalhadas do Sousa.
Ficam as memórias. As boas, claro. O que já não é pouco.
Até sempre.