God Save The Queen - O Concerto

“Há dias que são mais dias que os outros porque os enchemos de paz e alegria”.

Hoje amanheci em Gondomar; mesmo acordando em Arouca.
O nervoso miudinho começou cedo. Tudo o que ia chegando de Lisboa via facebook fazia a ansiedade crescer à mesma velocidade com que as crianças contam os dias e as horas para o Natal. Para ajudar a controlar o tempo sento-me ao piano onde os meus dedos me dão os Queen, sobretudo os sons que não vão passar à noite. “My Melancholy Blues” e “It’s a Hard Life” são as que toco mais vezes até entrar em “modo Queen”. Não demora muito tempo, reconheço. Enquanto isso, e muito antes da ligação que partilhaste no meu facebook desejando-me um bom concerto, lembro-me do dia em que fomos ao Porto, àquela casa na Rua 31 de Janeiro, onde comprei os meus dois primeiros álbuns dos Queen. A celeridade com que nos sentámos para ver a letra do Bohemian Rhapsody... E eu tenho saudades, amigo. Muitas.
A caminho de Gondomar, tudo parece sorrir à minha passagem. Há dias assim. Mesmo que a chuva teime em cair cada vez com mais força. Cheguei cedo, o relógio ainda não tinha chegado às 15h30. Ao sair do carro lembrei-me duma frase que durante anos a fio dizia antes de me levantar da cama pela manhã. E repeti-a mesmo ali, baixinho, para dentro de mim: “hoje o meu dia vai ser bom”. Sábia e feliz premonição. Enquanto esperava no exterior do pavilhão pelos meus colegas que haveriam de chegar de autocarro fui recordando milhões de pequeninas coisas, pequeninos pontos com que fui cosendo a minha vida. É reconfortante quando, por pouco que seja, nos decidimos a fazer o nosso percurso voltados de costas para a vida e damos conta que está lá tanta gente. A sensação de que vale a pena tem um sabor difícil de igualar.
Entro no pavilhão e assim que avisto os primeiros colegas logo ouço: “Olha, chegou o fã dos Queen”. Para início de jornada o quadro não poderia ter trazido melhor matiz. Enquanto vou procurando a respetiva credencial dizem-me que fiz falta no concerto de ontem. Não me tinha apercebido disso mas soube muito bem ouvir. 
O teste de som é feito olhando as cadeiras vazias que estarão ocupadas quando a noite já tiver acordado. À medida que a hora se aproxima a ansiedade vai crescendo em cada um a seu modo. Os homens trajam mais a rigor dando um ar mais solene à ocasião. As meninas, essas, trazem consigo uma beleza ainda maior que aquela que transportam nos outros dias. Ou por outra, a beleza é igual, apenas fica mais realçada. De tal forma que a cada passo dado pelo pavilhão fazem lembrar um qualquer bailado feito pela Natalia Makarova. Tudo parece mais gracioso. Como se tudo dentro de cada uma trouxesse mais poesia que um soneto de Shakespeare ou mais sonho que a Pedra Filosofal do António Gedeão. Deve ser a tal labareda que o próprio Camões disse arder sem se ver.
A hora chega, finalmente, e tento aproveitar ao máximo esta oportunidade única. Sobretudo para ouvir ao vivo as canções que o Freddie nunca cantou em concerto.
No palco, não raras vezes, as paredes do coração chegam a tocar a ponta dos dedos. O concerto passa a correr. A um ritmo tal que nem dá para ter sido ainda melhor. Pelo meio tenho a possibilidade de tocar campainha no “Bicycle Race”. Sou um autêntico felizardo.
Termino o concerto em pé mas a minha alma está de joelhos em sinal de agradecimento.
No final, uma amiga cumprimenta-me e pergunta-me como foi. Despeço-me e pelo caminho perguntam-me se vou tirar uma foto com o Pablo. Confesso, até gostava. Mas o Freddie, é o Freddie...
Entro no carro com a mira apontada para Arouca onde me espera um computador para escrever as milhentas palavras que tenho a fervilhar na cabeça. Porque, como costumo dizer, as memórias escritas parecem chegar-se para mais perto de nós. E isso sabe muito bem.
Pelo caminho venho a saborear o facto de alguns colegas começarem a chamar-me Miguel em detrimento de Rui. Hoje, de facto, foi um dia um bocadinho mais dia que os outros.
Obrigado.
Até amanhã, Freddie.

Miguel

P.S.
Interessante como muitos dos pormenores foram pensados. Até a própria música em que colocaram o “Brian May” a cantar enquanto o Pablo aproveitava para trocar de roupa não é escolhida ao acaso. De facto, a primeira versão de “Too Much Love Will Kill You” a sair para o grande público foi em 1992 num álbum a solo do próprio Brian May. Só em 1995 davam a conhecer uma versão com o Freddie.
Obrigado pela atenção aos pormenores.

P.S. 2

Dizia a Odete enquanto eu almoçava se havia alguma canção que eu gostasse e que fosse ficar de fora do programa. Ri-me e disse-lhe que seria fácil encontrar outras vinte e cinco para um concerto de igual calibre. Vim a pensar nisso no caminho de regresso. Foi fácil chegar às 25. O difícil foi ficar só por 25. Mas cá vai...

Save Me
Good Old-Fashioned Lover Boy
I Want To Break Free
It’s A Hard Life
Breakthru
The Miracle
I’m Going Slightly Mad
Hammer To Fall
Friends Will Be Friends
My Melancholy Blues
Heaven For Everyone
Living On My Own
Let Me Live
These Are The Days of Our Lives
A Winter’s Tale
Is This The World We Created?
Spread Your Wings
Time
In My Defence
Love Kills
The Fallen Priest
I Was Born To Love You
There Must Be More To Life Than This
Let Me In Your Heart Again
In the Lap of the Gods... Revisited

"Despertar" para o meu liceu...



Hoje vou contar-te uma história. De forma antecipada, peço já as minhas desculpas pois, como já deves saber, estou pouco à vontade com as palavras. Mas hoje, aqui e agora, a vontade de te contar uma história falou mais alto. Então, cá vai...

"Chamava-se Miguel.
Naquele dia, como em tantos outros, acordou às 7h da manhã. Quando descia para tomar o pequeno-almoço já a mãe tinha regressado da padaria que ficava ali por baixo da casa do Ferraz. Antes de sair para a escola gostava de olhar ao espelho para verificar se o penteado estava na configuração habitual. A roupa, essa, incluía sempre umas calças de ganga duma qualquer marca da moda, uma camisa sempre por fora das calças e uma par de botas texanas do mais pontiagudo que houvesse no mercado. Para o ritual ficar completo, o último retoque englobava a passagem de uma palmada de água pelo cabelo e um cheirinho do perfume do irmão mais velho para não fazer má figura junto das meninas. Só assim poderia deitar as mãos ao seu caderno diário (uma capa forrada com o póster do Freddie Mercury) e sair rumo a outro "dia mais feliz da sua vida".
A camioneta passava perto das 8h e era apanhado quase sempre "in extremis". Ao abrir a porta de casa, o Miguel encontrava quase sempre o Tono ou o Sérgio cujos dias lhe ensinaram que dificilmente apareceriam amigos de igual calibre pela vida fora. Sábios ensinamentos. E lá seguiam em passo apressado até à paragem da barroca, mesmo que por vezes tivessem que subir o combro junto à antiga serração pois os camiões estacionados e os trabalhadores a jogar à bola na estrada faziam com que não quiséssemos interromper.
A paragem, embora ainda esteja no mesmo sítio, era, na altura, bem diferente. Sobretudo porque ao virar a esquina da loja da Emilinha avistava-se logo uma imensidão de gente; pessoas a quem pertencíamos e que nos faziam querer ter um dia igual quando o amanhã chegasse.
Entrar na camioneta era um dos rituais mais aguardados. Nunca se conseguia lugar sentado mas para além do Tono e do Sérgio, abraçava-se o Pedro, falava-se de futebol com outro amigo qualquer, cumprimentava-se a Carminda ou procurava-se o sorriso da Patrícia. E isso não tem preço. Mesmo que estivéssemos em pé, apertados, pior do que sardinhas enlatadas. E depois começava a "Canção do Despertar" da Rádio Renascença com o António Sala e a Olga Cardoso. E todos cantavam entre encontrões e pisadelas. O Miguel chegava à escola de coração cheio.
Quando as aulas não começavam logo às 8h30 haviam os famosos jogos "turma contra turma" que fizeram o Miguel correr quilómetros durante os seis anos de liceu. Celebrar um golo com os amigos com quem se partilhava a sala de aulas é uma sensação que ainda hoje o Miguel gostava de ver repetida.
As salas 7, 11, 28 ou 41 foram, a seu tempo, míticas. Testemunhas de histórias que só o coração soube guardar até hoje. E o Miguel bem se lembra de partilhar a carteira com o Rui, o Bruno, a Helena, o Freitas ou o grande Nepinhas.
Há tantas coisas de que o Miguel tem saudades... As aulas de Educação Física, as conversas no balneário, as filas da cantina, a proximidade que se criava com os funcionários, os professores... A D. Emília do Bufete era uma santa mulher, o Sr. Antero das fotocópias um exemplo de vida e o tempo que se passava em amena cavaqueira com a mãe do Celso antes de tirar a senha para mais um pão com fiambre fica guardado para a eternidade.
O Miguel tem ainda saudades das conversas com os colegas da mesa ao lado ou da frente. Trocar bilhetes com a Dulce, a Fátima, a Carla, a Susana ou um riso com a Rosário faz parte do passado que deveria ser sempre presente.
A sala de convívio e os filmes que lá passavam em altura de eleições para a Associação de Estudantes também têm o cheiro de saudade. Isso e os filmes que passavam no casarão ou na sala de Moral. Foi lá que o Miguel viu o Batman, o Encontro de Irmãos, Em Busca da Esmeralda Perdida ou o Homem com os Dois Cérebros, por exemplo.
Depois havia ali o corredor mesmo em frente ao pavilhão 2 onde costumavam estar os mais populares. E era em muitos desses corredores que o Miguel sorria muitas vezes para a menina que amava em segredo.
À noite, enquanto se vinha esperar a camioneta à vila, havia sempre tempo para uma partida de bilhar no Cheiro Verde com o Pedro. Sim, esse mesmo: aquele que Deus fez e deitou fora a receita. De tal forma que se torna difícil encontrar igual. Talvez não haja.
O dia acabava já em casa com um beijo ao pai e à mãe que, diga-se em abono da verdade, davam sentido a tudo o resto.
Chamava-se Miguel."

Hoje o Miguel tem 40 anos e, não tendo nada disso, no fundo, até tem. Está tudo na distância que vai do coração até à ponta dos dedos ou, por vezes, até à "ponta" dos olhos. Hoje foi pelos dois lados. Quando é assim, costuma trazer um nó na garganta. Vou tentar não lhe dar muita confiança.
Engraçado como mesmo com esta idade, no caminho para o trabalho, ele continua a procurar o sorriso da Patrícia, o olhar da Carminda, o rosto do Pedro ou o abraço do Tono.
A vida é bonita, não é?
Um abraço e um beijinho a todos os meus colegas de liceu.
Vocês, não sei... Mas eu ainda vou cantar o "Despertar" antes de me deitar.
Boa noite.

Miguel

Top +



Sabes André, um dia, quando começares a perceber as coisas, vais ficar admirado.
Gostava de poder já falar contigo das minhas histórias da adolescência. De dias em que fui feliz de uma forma que espero que o consigas ser também, embora à tua maneira. Se calhar vai soar-te um pouco estranho ouvires tantos relatos meus e nenhum deles empregar a palavra "facebook" ou "internet". Não sei se um dia conseguirás imaginar que para ouvir e ver os videoclips das minhas músicas preferidas tinha de esperar pelo início da tarde de cada domingo. Durante uma hora ficava colado ao ecrã na esperança de que nessa semana passassem as músicas de acordo com as minhas preferências. Era a altura de ter o vídeo sempre pronto a gravar para depois poder (re)ouvir tudo durante a semana.
Ver o vídeo que te deixo é relembrar "Bohemian Rhapsody", "You Win Again", "Amazing", "Everything I Do", "What's Up", "Go West" e tantas, tantas outras músicas que me trazem muitos outros bons momentos com pessoas boas. Desejo do fundo do coração que consigas ter amigos tão bons como eu tive.
Ontem, ao descobrir este vídeo no youtube, voltei a brincar muito. Um dia, espero poder fazê-lo contigo.
Dorme bem.
Até já.

Miguel

28 de Agosto de 2016 - O Milagre da Vida

28 de Agosto de 2016

Olá André. Obrigado por teres vindo.
Sabes... Dizem-me que hoje tudo continua como dantes. O Big Ben não se atrasou, o Taj Mahal continua magnífico como devem ser as verdadeiras provas de amor, voltou a não chover no deserto do Sahara, os jardins da Babilónia continuam suspensos e até a Mona Lisa continua a esboçar um sorriso. Por tudo isso, talvez este dia tenha passado despercebido ao comum dos mortais. Mas não para mim. Porque tu nasceste. Há muito que estávamos à tua espera: eu, a tua mãe, os teus irmãos e toda a tua família que já te foi carregando no colo para te mostrar o quanto tem para te amar.
Quis muito que chegasses. Tanto e de tal forma que acabaste mesmo por chegar. E quando fores um bocadinho maior eu hei-de encontrar as palavras certas para te descrever o olhar emocionado da tua mãe na sala de partos quando estavas já no colo acabadinho de nascer.
Tens muita sorte, sabes? Mal acabavas de nascer e já Deus te tinha oferecido um mundo inteiro de presente. E como se não bastasse, para além do teu pai e da tua mãe, tinhas já a Rita e o Tiago prontinhos para te abraçar e para fazer inúmeras brincadeiras contigo. Ainda por cima nasceste no mesmo dia do Tiago. Consegues imaginar como ele estava contente?
És o mais novo, como eu e a tua mãe. Por isso acho que consigo imaginar um pouco da sorte que realmente tens. Espero conseguir dar-te o que de mais parecido encontrar com o que me foi dado pela tua tia Isabelita, a tua tia Cristina e o teu tio Zé Mário. É justo dizer que os teus avós são o exemplo que estou a tentar seguir. E eu hei-de contar-te tantas histórias de quando éramos pequeninos que irei conseguir que tenhas vontade de ficar sempre pequenino. E esse é um dos maiores segredos da felicidade. Mas não digas a ninguém, fica só aqui entre nós.
Entretanto vamo-nos amando no presente. Tu ainda muito pequenino e eu contigo no colo a dar-te todo o mimo de que sou capaz. Já deves ter reparado que a tua mãe anda a dormir um bocadinho menos. Isto cá para nós, eu acho que é só porque ela quer passar todo o tempo contigo. A Rita e o Tiago estão sempre a pedir para te carregar no colo. Imagina só o quanto hás-de brincar com eles. A Rita gosta de escolher a tua roupinha e o Tiago tem já mais de uma dezena de bolas de futebol e equipamentos para jogar contigo quando aprenderes a caminhar. Mas não tenhas pressa. Tudo terá o seu tempo. E nós cá estaremos para te acompanhar.
Obrigado por teres vindo.
Hoje aconteceu um milagre. Ainda que me digam que tudo continua como dantes. Mas ambos sabemos muito bem que não, pois não?
Gosto muito de ti. Um beijinho do teu pai.

Miguel

Queen - Champions of the World




Freddie Mercury faria hoje 70 anos.
As recordações surgem a uma velocidade tal que parecem desafiar qualquer expressão que possa ter sido utilizada em "Don't Stop Me Now". E é incrível como quando se trata dos Queen há ainda sempre algo de novo a descobrir. Sempre.
Ontem à noite resolvi lembrar-te através de "Bohemian Rhapsody". Aquele testemunho do Mike Myers que me tinha chegado através daquele documentário de 1995 "Queen - Champions of the World", que na altura comprei em VHS e que saiu juntamente com o "Made in Heaven" não me saía da cabeça. São tantas as semelhanças com as minhas experiências pessoais...
Ontem, pela noite dentro, resolvi repassar todo o documentário. São pouco mais de duas horas que passam a correr. É uma pena já não ter os amigos de outrora para partilhar algumas destas sensações. Há, de facto, coisas que eu deveria ter sabido guardar melhor.
Lembras-te da minha capa de liceu, Freddie? Tenho-a aqui comigo. Lá dentro estão outras tantas memórias. Das boas. Obrigado.
Feliz aniversário.

Miguel

Bud Spencer e as eleições presidenciais de 1991

1991 foi um ano de eleições presidenciais. Eram ainda apenas dois os canais de televisão que se podiam ver em casa. Isto para os mais sortudos pois lá em casa só se apanhava o primeiro canal. Nessa altura, felizmente, já a cores. Mas foram alguns os anos em que as únicas cores dadas a ver eram o preto e o branco. A TV tinha uma importância muito maior da que tem hoje e eram comuns os serões em família em frente à TV. Hoje tudo está mais disperso embora à distância de um clique, com tudo o que a internet tem de bom e de mau. 
Naquele tempo muitos dos melhores momentos passados com amigos aconteciam em frente à TV a ver algum filme trazido do clube de vídeo. Os da minha geração certamente perceberão melhor o que tento dizer.
Em 1991 eu tinha já o meu vídeo em casa e o Bud Spencer e o Trinitá estavam ainda em grande. Mesmo que ainda não tivessem chegado lá a casa. "Um dia a casa vem abaixo", os "Indiana Jones", os "Karate Kid" ou as "Academias de Polícia" iam colhendo as preferências. Até que chegaram as eleições presidenciais. No recinto da antiga escola primária esse dia era sempre feito de reencontros. Conversava-se ainda mais que nos outros dias. E, sejamos honestos: nessa altura o Picatojo ainda estava em grande forma. Era a pessoa mais engraçada que eu conhecia. Os pormenores cómicos com que contava todas as suas aventuras eram capazes de fazer inveja aos melhores realizadores de Hollywood. Foi nesse dia, em amena cavaqueira, junto à entrada para a sala "da minha mãe" que contou a célebre cena do filme "Continuaram a chamar-me Trinitá" que vos deixo abaixo. Hilariante. Todos os pormenores, todas as falas, todas as deixas, tudo foi contado com uma graça tal que ainda hoje esboço um sorriso ao lembrar a cara do Picatojo nesse dia.
Haveria de ser esse o primeiro filme que aluguei em meu nome no clube de vídeo e que me fez rir perdidamente vezes sem conta. Convenhamos que naquela idade não éramos tão exigentes em relação ao riso. Era fácil fazer-nos rir. E o Bud Spencer sabia fazê-lo tão bem...
No dia em que deveria entregar o filme no clube de vídeo, estava com o Pedro junto ao campo do parque e deixei cair a cassete ao chão tendo a caixa ficado um pouco estalada. As engenhocas que tive de fazer para que no clube de vídeo ninguém desse conta...
Sabes Bud, com este episódio, durante anos, fizeste-me lembrar o Pedro nos meus dias mais melancólicos. Entretanto as coisas foram mudando, não sei se te deste conta. De tal forma que há tempos, ao ver o Pedro ao longe, entretido nas minhas solitárias divagações, me lembrei de ti. A vida corre agora maioritariamente no sentido inverso. Parece que cheguei já àquela idade em que a vida pára de nos dar coisas para começar a tirá-las... Mas ainda me fazes lembrar o Picatojo, aquilo que ele realmente é e que esses dias são o testemunho do que há-de ficar para a História. Fazes-me lembrar todas as outras histórias que ele contou nesse dia. Por isso não rio sozinho. Hoje, rio contigo.
Obrigado.


A Volta ao Mundo em 80 Anos

Olá pai.
Dizer que Jules Verne foi um génio é dizer muito pouco de quem gostaríamos de dizer muito. São tantas as suas obras de qualidade que pouco importa os adjetivos que usemos para o descrever. E hoje, pai... Hoje eu não queria falhar. Queria ter o talento sublime de Verne e conseguir contar os teus 80 anos com as mesmas palavras com que Verne descreveu 80 dias à volta do mundo. E eu queria conseguir descrevê-lo: o teu mundo. O nosso mundo. Os teus 80 anos. Os meus quase 40; todos contigo. Se eu tivesse hoje, pelo menos, uma ínfima parte desse génio na ponta do meu lápis...
Sabes pai, mesmo sem o talento de Verne, hoje apetece-me dizer-te que o chão da eira ainda está frio. É lá que me vou entretendo a brincar com as caricas, fazendo autênticas corridas de Fórmula 1 enquanto tu e o Padrinho do Paço vão tocando, no banjo e na viola, "A chinela encontrada..." ou o "Cartolinhas". É esta a tua memória mais antiga e mais querida que trago comigo. Como primeira recordação, o quadro não poderia ter-me trazido mais bela matiz.
Depois há ainda as memórias dos passeios até à ponte de Sinja onde me recordo perfeitamente de me pousares uma joaninha na mão; ou os sapatitos do menino e a mão escondida atrás da porta; ou o teu riso quando me vias a dar aquelas "perigosas" curvas tombadas; ou a quantidade interminável de vezes que jogaste comigo o "Jogo do Assalto"; ou quando me deixaste comprar um baralho de cartas por 80$00 e jogavas comigo à bisca dos nove; ou quando te ficava a ver consertar a bicicleta; ou aquelas aulas de piano que, estou certo, ainda não foram inventadas as palavras certas para eu te poder agradecer; ou quando me levavas aos ensaios da Banda às 18h juntamente com o Pedro, o Tono e o Sérgio; ou, etc, etc, etc...
Eu bem sei que não posso ter sempre 6,7, 8, ou 12 anos. Da mesma forma também não estacionaste nos 40. Mas continuas a trazer-me tudo isso até mim sempre que escreves um poema novo ou transcreves uma qualquer música que eu te pedi.
Sabes pai... Gostava de ser como tu. Gostava que a Rita, o Tiago e o André, um dia, olhassem para mim e vissem um "retrato" parecido com o teu ou com o do Padrinho do Paço.
Acho que já sei por onde começar... As férias e o bom tempo já chegaram. A eira já não existe mas um chão frio e caricas são o que não falta por aí. Se não te importares um dia destes apareço no Paço com a minha viola para me acompanhares com o bandolim. Podemos até começar pelo "Cartolinhas" e "A chinela encontrada..." enquanto a Rita e o Tiago vão brincando um com o outro como eu fiz tantas vezes à porta de tua casa. Porque acredito que eles vão gostar muito do pai. Mas, um dia, quero poder lembrar-lhes que o avô é muito melhor que o pai. Ou então vais ser mesmo tu ainda a lembrar-lhes.
A vida está já no ocaso, bem sabemos, mas até aí podias buscar inspiração no Phileas Fogg do Verne. Quando tudo parecia perdido, afinal ele tinha ganho um dia e ainda foi a tempo. Talvez os teus 80 anos tenham sido só 70 ou 60 e ainda tenhas muito para andar. E não haverá nenhum Detetive Fix que te possa deter.
Para o ano cá estarei para voltar a abraçar-te.
Gosto muito de ti.
Um beijo do tamanho do mundo.
Obrigado.

A cidade do Porto e o Coro do DeCA

O Osvaldo era um tipo porreiro.
Soa um pouco estranho, mas é esta a frase que me vai martelando no cérebro mesmo antes de começar este texto. Mas talvez seja melhor começar mesmo do início...
E no início está o Porto. A cidade que, em tempos, foi minha por uma dezena de anos. E hoje foi dia de voltar lá. Houve tempo para chegar um bocadinho antes e voltar a fixar o olhar no 290 da Miguel Bombarda. Um pouco acima, mesmo ali ao lado, percorro Cedofeita quase de uma ponta a outra como fiz outrora alguns milhares de vezes. O café onde parava de manhã e à noite é agora uma boutique. Paro em frente à vitrine e vejo no reflexo a saudade trazida por um rosto igual ao meu. Enquanto sigo o caminho lembro o sorriso rasgado do Osvaldo que todos os dias me trazia o café ao balcão e trocava dois dedos de conversa comigo sobre o nosso Benfica. Nunca mais o vi. Os anos passam. As pessoas também.
Enquanto a praça dos leões vai ficando cada vez mais para trás vou dizendo para os meus botões que ao contrário do que dizia o grande Ary dos Santos, esta é que será a cidade mulher da minha vida.
O relógio parece correr pelo que o passo tem de ser cada vez mais apressado. Mesmo antes de chegar à igreja há ainda tempo para recordar o campo de futebol do CDUP onde passei mesmo há pouco e que me fez reviver os tempos em que fui campeão universitário de futebol de cinco. Quem diria que agora tenho um tornozelo que parece papel?!
Chego à igreja. Mais do que as vozes, afinam-se os últimos pormenores. O Nuno prepara tudo com a qualidade e responsabilidade que lhe são reconhecidas. Os homens trazem roupa de gala e as meninas, neste dia, parecem ainda mais bonitas que nos restantes dias. De tal forma que não cansa o olhar. No concerto há tempo para reconhecer gente amiga na plateia. No final, cumprimenta-se o Filipe e pede-se desculpa ao professor Vasco por só ter marcado presença à noite e ter estado ausente no ensaio da tarde. 
A caminho do carro, sozinho, do tal lado da rua em que parece ser sempre mais noite, vai-se pensando que fazer música em conjunto deve ser das sensações mais extraordinárias que se pode ter. De tal forma que é praticamente indescritível. A sensação é quase como se o Benfica estivesse todo nos meus pés, Chopin todo nas minhas mãos e a 4.ª de Brahms já estivesse comigo desde o dia em que nasci. Sei lá...
Liga-se o carro e a M80 que me dá o “Straight from the Heart” do Bryan Adams logo de início. São 60 Km que se avizinham e é aí que vou escrevendo na cabeça o texto que agora deixo aqui. Sem pressas. Talvez por isso a meia-noite tenha voltado a chegar a casa primeiro do que eu. Não faz mal.
É altura de caminhar de mansinho para os filhotes não acordarem. Pouso a cabeça no travesseiro. O Osvaldo era um tipo porreiro, já disse?
Boa noite.

O que é feito dos nossos ex-alunos (músicos)?



Há professores que nos marcam; que não passam indiferentes; que têm carisma; que, à sua maneira, nos servem de modelo e aos quais, ainda que de forma silenciosa, ficamos gratos para o resto das nossas vidas. Daqueles que todos se lembram quando voltamos a falar neles ainda que tenham passado mais de vinte anos. E fazemo-lo de forma carinhosa e com saudade.
Um dos melhores exemplos que se podem encontrar é o da professora Rosa de Filosofia, ou melhor, da “Lola”. Sejamos honestos, era este o nome mais comum nos corredores do velho liceu.
Os meus caminhos cruzaram-se com os da Lola no ano letivo de 1992/93, andava eu no 11.ºB. Eram os tempos em que o Carlos chegava de manhãzinha com estilo na sua Cagiva mas sempre um bocadinho depois do segundo toque. E sempre a rir-se, é assim que o recordo. Esse 11.ºB é a turma que me deixa mais saudades. Mesmo que do núcleo duro dos rapazes só eu e o Carlos fôssemos benfiquistas. Mas nas aulas de Filosofia ganhávamos uma aliada de peso.
Lembro-me duma aula em que a professora não conseguia conter o riso enquanto nos falava do “isocronismo do pêndulo” ou de outra em que da janela da sala 46 todos ficamos a olhar para um par de namorados sentados junto a um poste em frente ao pavilhão 3. A paixão era tão fervorosa que parecia que a língua iria saltar fora da boca do rapaz a qualquer momento. Estava instalada a confusão na sala. Passámos a aula quase toda a “filosofar” sobre tão querido par. Ainda me lembro de tocar para fora e, ao fazer o seu percurso de regresso à sala dos professores, a professora parou mesmo em frente ao par e disse mais ou menos isto para o rapaz: “O senhor estragou-me a aula toda! Estava aí com uma vontade...”. O par ficou um pouco envergonhado, sem saber o que dizer, até que a professora rematou, bem ao seu jeito e sempre virada para o rapaz: “Para a próxima, pelo menos, veja se vai para trás de um pavilhão”! Foi uma risada geral de quase toda a turma que a seguia já à espera de um sermão do género.
E são estas memórias que nos vão mantendo vivos...
Quem me conhece bem sabe o quanto eu gosto de voltar a estar lá. Todas as artérias da antiga escola ainda se apresentam nítidas na minha memória quando as saudades apertam mais um bocadinho. Mas a verdade é que hoje os corredores da nova escola são bem diferentes. Sei-o bem pois percorro-os frequentemente. E de todas as vezes lembro uma história diferente desses tempos de ouro. E foi numa dessas deslocações à nova escola, já há uns meses atrás, que me cruzei com a professora Rosa que me cumprimentou e perguntou: “Não é você que é músico?”. Respondi afirmativamente e diz-me ela: “Vou precisar de si no último fim de semana de maio. Não marque nada nesse dia. Que instrumento é que você toca?”.
E foi dessa forma que se começou a desenhar a minha participação no evento "O que é feito dos nossos ex-alunos (músicos)?". À medida que o dia se ia aproximando começaram as chegar as informações por mail. Por isso nos juntámos numa quarta-feira à noite para conseguir realizar o desejo da professora Rosa de apresentarmos uma música em conjunto no final do evento. Foi bom rever algumas caras embora estas sejam ainda das que vejo com bastante frequência.
Nas informações chegadas por mail pediam-me para que a minha atuação fosse um bocadinho diferente, sugerindo que fosse um pouco humorada e, se possível, com recurso ao acordeão. Confesso que fiquei indeciso com o que haveria de apresentar embora o uso do acordeão tenha ficado posto de parte quase à partida por várias razões. A escolha final acabou por ser o “Não descalces os sapatos”. Uma espécie de homenagem ao enorme Carlos Paião que tantas excelentes músicas pôs na boca do Herman José quando este estava no auge da carreira.
É essa a interpretação que vos deixo, superiormente captada pelo João Martins a quem não tenho palavras suficientes para agradecer.
A todos os colegas que me acompanharam em tão magnífica noite, o meu reconhecido abraço apertado. Temos de nos voltar a juntar um dia destes. Quanto mais não seja, para nos rirmos um bocado. Nós e a professora Rosa. Porque todos gostamos dela. Também da professora Rosa mas, sobretudo da Rosa, que, por acaso, também é professora.
Um beijinho de gratidão, Rosa. Ou Lola, para os mais ousados!

Eu, o Nelson Mandela e o concerto dos Queen



Madiba foi um homem extraordinário. Inspirador. Daqueles que nos faz acreditar com maior ternura que por trás de tudo há um Deus que nos carrega no colo.
O relógio diz-me que a meia-noite já ficou para trás e eu estou deitado na minha cama com a tv sintonizada na sic radical. Como muitos milhares de pessoas aguardo com uma ansiedade mais ou menos controlada a chegada dos Queen (ou do que ainda resta deles). Fosse este concerto há pouco mais de 20 anos e eu estaria talvez na fila da frente mas o tempo foi passando e as circunstâncias vão mudando. Dizem que as pessoas também. Confesso, sou uma pessoa muito mais solitária do que outrora. Mais reservada. Mas consigo tomar o sabor das coisas de uma forma mais completa. Mesmo com o corpo e a mente a pedirem todo o descanso do mundo.
Deitado na minha cama vi todo o concerto dos Queen e não houve um único momento em que eu não quisesse ter estado lá. E, raios... Nos dias de hoje até teria sido tão fácil. Ainda este mês estive em Lisboa para ver a “República das Bananas” do La Féria. Como é que tinha ousado ficar em casa num concerto dos Queen (ou o que ainda resta deles. Já disse?).
Enquanto o concerto se ia desenrolando dei comigo a pensar que, muito provavelmente, nenhum dos milhares que estava lá ao vivo terá ouvido tanta música dos Queen nesse dia como eu. Isto com o meu corpo cansado numa cama estendido. E lembrei-me do Madiba. Isso mesmo. Do dia em que foi libertado e vi as imagens na televisão. Há dias (re)passou o filme Invictus na tv. A certa altura há uma cena em que o Mandela convida o capitão da seleção de rugby para tomar chá. É arrepiante ouvir da boca do Morgan Freeman que tudo se deveu a um poema. Que nos longos dias que passou em Robben Island era um poema que o ajudava a manter de pé quando tudo o que lhe apetecia era deixar-se cair.
Pois bem, respeitando as evidentes diferenças, os Queen foram mais ou menos isso para mim. Ajudaram-me de tal forma que me conseguiram manter de pé numa longa fase da minha vida em que julguei cair a todo o momento.
É por isso que ontem deveria ter estado lá. Como sinal de agradecimento.
Estiveram só eles.
Ainda que sem o Freddie.
E sem o John.
E sem mim.