
Ontem realizou-se mais um cortejo de Carnaval em Rossas. Por motivos de força maior, não pude sequer marcar presença no tradicional leilão, também para contribuir com alguma coisa mas, sobretudo, para estar com pessoas com quem não nos cruzamos habitualmente no dia-a-dia. Até nisso este cortejo foi diferente.
Quando era pequenino, ainda muito antes do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas organizar anualmente um concurso de mascarados, eram os cortejos que davam a oportunidade da malta de Rossas mostrar as suas habilidades na elaboração de "caretas" e disfarces. O povo aderia em massa. Na parte baixa da freguesia havia até espaço para dois cortejos: o da parte baixa e o da parte de cima da estrada nacional. Lembro-me de cortejos em que até "árabes" montados nos seus cavalos apareceram; ou de ver o Fernando Antunes com uma chupeta num carrinho de bebé; ou a primeira vez que andou por lá um gorila montado numa bicicleta e que andei todo o caminho a tentar descobrir quem seria o autor de uma ideia, na altura, ainda muito original. Só no final vim a saber que se tratava do Dário, um dos 14 filhos da senhora Emília da Portela. Recordo que as carrinhas com ofertas eram sempre muitas, assim como os tractores de lenha. Num desses anos a carrinha do lugar do Paço, cuja responsabilidade coube inúmeras vezes ao saudoso Sr. Costa, levava um autêntico grupo rock: eu era o vocalista com um cadeado a servir de microfone. Mas o que impressionava mais era mesmo a bateria, estrategicamente colocada e tocada pelo Luís do Selmo. Bons tempos.
E falar desse dia, para mim, é sobretudo falar de ti. Íamos sempre mascarados. Fosse como fosse. Mesmo quando o cortejo começou a perder o fulgor de outros tempos. Éramos uma espécie de resistentes. Conseguíamos encontrar sempre um casaco velho ou umas calças rotas, calçavam-se os sapatos "ao contrário" e já estávamos prontos para mais uma tarde de riso. Nada de fantasias compradas ou algo que se parecesse com isso. A alegria estava mesmo nessa simplicidade. Era, realmente, uma das coisa que eu mais gostava: andar pelo cortejo a tentar descobrir-te lá no meio. Recordo, com saudade, um cortejo em especial. Descobriste-me primeiro. Deste por mim e eu não dei por ti. Até que te aproximaste de mim. Vinhas completamente embrulhada num cobertor. Chegaste bem junto a mim, abriste o cobertor e, por baixo, lá estavas tu, com uma roupa completamente normal. Olhei-te e disseste-me apenas: "Vim de cobertor. O que é que achas"? Desatei-me a rir até nunca mais parar. Ainda hoje, se me perguntarem, eu digo que esse foi o melhor disfarce de sempre que apareceu num cortejo em Rossas. E que ninguém me ouse contrariar.
Na foto, não sei se ainda te recordas, mas somos mesmo nós os dois no ano de 1996 se a memória não me atraiçoa. Dá uma saudade ao ver essa Escola Primária com esse sol num domingo à tarde. Como eram tão bons esses domingos. Enfim...
Sabes... A minha Rita ainda é muito pequenina, mas não há-de faltar muito para começar a dar atenção aos disfarces de Carnaval. Quando chegar a essa altura vou-lhe contar, com todo o entusiasmo de que for capaz, as nossas histórias dos cortejos de Rossas. E quando ela já souber escolher o seu próprio disfarce para levar ao concurso do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas e me vier pedir ajuda, vou ficar todo contente se ela me disser que quer ir de "cobertor". Porque tem infinitamente mais valor um cobertor pensado por nós do que uma princesa "comprada" no supermercado.
Um abraço enorme.
Miguel
P.S. Parece que o concurso de mascarados do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas é já no próximo sábado à noite no Centro Cultural. Talvez ainda apareça por lá. Pelo menos para a Rita se ir ambientando...