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Sabes André, um dia, quando começares a perceber as coisas, vais ficar admirado.
Gostava de poder já falar contigo das minhas histórias da adolescência. De dias em que fui feliz de uma forma que espero que o consigas ser também, embora à tua maneira. Se calhar vai soar-te um pouco estranho ouvires tantos relatos meus e nenhum deles empregar a palavra "facebook" ou "internet". Não sei se um dia conseguirás imaginar que para ouvir e ver os videoclips das minhas músicas preferidas tinha de esperar pelo início da tarde de cada domingo. Durante uma hora ficava colado ao ecrã na esperança de que nessa semana passassem as músicas de acordo com as minhas preferências. Era a altura de ter o vídeo sempre pronto a gravar para depois poder (re)ouvir tudo durante a semana.
Ver o vídeo que te deixo é relembrar "Bohemian Rhapsody", "You Win Again", "Amazing", "Everything I Do", "What's Up", "Go West" e tantas, tantas outras músicas que me trazem muitos outros bons momentos com pessoas boas. Desejo do fundo do coração que consigas ter amigos tão bons como eu tive.
Ontem, ao descobrir este vídeo no youtube, voltei a brincar muito. Um dia, espero poder fazê-lo contigo.
Dorme bem.
Até já.

Miguel

28 de Agosto de 2016 - O Milagre da Vida

28 de Agosto de 2016

Olá André. Obrigado por teres vindo.
Sabes... Dizem-me que hoje tudo continua como dantes. O Big Ben não se atrasou, o Taj Mahal continua magnífico como devem ser as verdadeiras provas de amor, voltou a não chover no deserto do Sahara, os jardins da Babilónia continuam suspensos e até a Mona Lisa continua a esboçar um sorriso. Por tudo isso, talvez este dia tenha passado despercebido ao comum dos mortais. Mas não para mim. Porque tu nasceste. Há muito que estávamos à tua espera: eu, a tua mãe, os teus irmãos e toda a tua família que já te foi carregando no colo para te mostrar o quanto tem para te amar.
Quis muito que chegasses. Tanto e de tal forma que acabaste mesmo por chegar. E quando fores um bocadinho maior eu hei-de encontrar as palavras certas para te descrever o olhar emocionado da tua mãe na sala de partos quando estavas já no colo acabadinho de nascer.
Tens muita sorte, sabes? Mal acabavas de nascer e já Deus te tinha oferecido um mundo inteiro de presente. E como se não bastasse, para além do teu pai e da tua mãe, tinhas já a Rita e o Tiago prontinhos para te abraçar e para fazer inúmeras brincadeiras contigo. Ainda por cima nasceste no mesmo dia do Tiago. Consegues imaginar como ele estava contente?
És o mais novo, como eu e a tua mãe. Por isso acho que consigo imaginar um pouco da sorte que realmente tens. Espero conseguir dar-te o que de mais parecido encontrar com o que me foi dado pela tua tia Isabelita, a tua tia Cristina e o teu tio Zé Mário. É justo dizer que os teus avós são o exemplo que estou a tentar seguir. E eu hei-de contar-te tantas histórias de quando éramos pequeninos que irei conseguir que tenhas vontade de ficar sempre pequenino. E esse é um dos maiores segredos da felicidade. Mas não digas a ninguém, fica só aqui entre nós.
Entretanto vamo-nos amando no presente. Tu ainda muito pequenino e eu contigo no colo a dar-te todo o mimo de que sou capaz. Já deves ter reparado que a tua mãe anda a dormir um bocadinho menos. Isto cá para nós, eu acho que é só porque ela quer passar todo o tempo contigo. A Rita e o Tiago estão sempre a pedir para te carregar no colo. Imagina só o quanto hás-de brincar com eles. A Rita gosta de escolher a tua roupinha e o Tiago tem já mais de uma dezena de bolas de futebol e equipamentos para jogar contigo quando aprenderes a caminhar. Mas não tenhas pressa. Tudo terá o seu tempo. E nós cá estaremos para te acompanhar.
Obrigado por teres vindo.
Hoje aconteceu um milagre. Ainda que me digam que tudo continua como dantes. Mas ambos sabemos muito bem que não, pois não?
Gosto muito de ti. Um beijinho do teu pai.

Miguel

Queen - Champions of the World




Freddie Mercury faria hoje 70 anos.
As recordações surgem a uma velocidade tal que parecem desafiar qualquer expressão que possa ter sido utilizada em "Don't Stop Me Now". E é incrível como quando se trata dos Queen há ainda sempre algo de novo a descobrir. Sempre.
Ontem à noite resolvi lembrar-te através de "Bohemian Rhapsody". Aquele testemunho do Mike Myers que me tinha chegado através daquele documentário de 1995 "Queen - Champions of the World", que na altura comprei em VHS e que saiu juntamente com o "Made in Heaven" não me saía da cabeça. São tantas as semelhanças com as minhas experiências pessoais...
Ontem, pela noite dentro, resolvi repassar todo o documentário. São pouco mais de duas horas que passam a correr. É uma pena já não ter os amigos de outrora para partilhar algumas destas sensações. Há, de facto, coisas que eu deveria ter sabido guardar melhor.
Lembras-te da minha capa de liceu, Freddie? Tenho-a aqui comigo. Lá dentro estão outras tantas memórias. Das boas. Obrigado.
Feliz aniversário.

Miguel

Bud Spencer e as eleições presidenciais de 1991

1991 foi um ano de eleições presidenciais. Eram ainda apenas dois os canais de televisão que se podiam ver em casa. Isto para os mais sortudos pois lá em casa só se apanhava o primeiro canal. Nessa altura, felizmente, já a cores. Mas foram alguns os anos em que as únicas cores dadas a ver eram o preto e o branco. A TV tinha uma importância muito maior da que tem hoje e eram comuns os serões em família em frente à TV. Hoje tudo está mais disperso embora à distância de um clique, com tudo o que a internet tem de bom e de mau. 
Naquele tempo muitos dos melhores momentos passados com amigos aconteciam em frente à TV a ver algum filme trazido do clube de vídeo. Os da minha geração certamente perceberão melhor o que tento dizer.
Em 1991 eu tinha já o meu vídeo em casa e o Bud Spencer e o Trinitá estavam ainda em grande. Mesmo que ainda não tivessem chegado lá a casa. "Um dia a casa vem abaixo", os "Indiana Jones", os "Karate Kid" ou as "Academias de Polícia" iam colhendo as preferências. Até que chegaram as eleições presidenciais. No recinto da antiga escola primária esse dia era sempre feito de reencontros. Conversava-se ainda mais que nos outros dias. E, sejamos honestos: nessa altura o Picatojo ainda estava em grande forma. Era a pessoa mais engraçada que eu conhecia. Os pormenores cómicos com que contava todas as suas aventuras eram capazes de fazer inveja aos melhores realizadores de Hollywood. Foi nesse dia, em amena cavaqueira, junto à entrada para a sala "da minha mãe" que contou a célebre cena do filme "Continuaram a chamar-me Trinitá" que vos deixo abaixo. Hilariante. Todos os pormenores, todas as falas, todas as deixas, tudo foi contado com uma graça tal que ainda hoje esboço um sorriso ao lembrar a cara do Picatojo nesse dia.
Haveria de ser esse o primeiro filme que aluguei em meu nome no clube de vídeo e que me fez rir perdidamente vezes sem conta. Convenhamos que naquela idade não éramos tão exigentes em relação ao riso. Era fácil fazer-nos rir. E o Bud Spencer sabia fazê-lo tão bem...
No dia em que deveria entregar o filme no clube de vídeo, estava com o Pedro junto ao campo do parque e deixei cair a cassete ao chão tendo a caixa ficado um pouco estalada. As engenhocas que tive de fazer para que no clube de vídeo ninguém desse conta...
Sabes Bud, com este episódio, durante anos, fizeste-me lembrar o Pedro nos meus dias mais melancólicos. Entretanto as coisas foram mudando, não sei se te deste conta. De tal forma que há tempos, ao ver o Pedro ao longe, entretido nas minhas solitárias divagações, me lembrei de ti. A vida corre agora maioritariamente no sentido inverso. Parece que cheguei já àquela idade em que a vida pára de nos dar coisas para começar a tirá-las... Mas ainda me fazes lembrar o Picatojo, aquilo que ele realmente é e que esses dias são o testemunho do que há-de ficar para a História. Fazes-me lembrar todas as outras histórias que ele contou nesse dia. Por isso não rio sozinho. Hoje, rio contigo.
Obrigado.


A Volta ao Mundo em 80 Anos

Olá pai.
Dizer que Jules Verne foi um génio é dizer muito pouco de quem gostaríamos de dizer muito. São tantas as suas obras de qualidade que pouco importa os adjetivos que usemos para o descrever. E hoje, pai... Hoje eu não queria falhar. Queria ter o talento sublime de Verne e conseguir contar os teus 80 anos com as mesmas palavras com que Verne descreveu 80 dias à volta do mundo. E eu queria conseguir descrevê-lo: o teu mundo. O nosso mundo. Os teus 80 anos. Os meus quase 40; todos contigo. Se eu tivesse hoje, pelo menos, uma ínfima parte desse génio na ponta do meu lápis...
Sabes pai, mesmo sem o talento de Verne, hoje apetece-me dizer-te que o chão da eira ainda está frio. É lá que me vou entretendo a brincar com as caricas, fazendo autênticas corridas de Fórmula 1 enquanto tu e o Padrinho do Paço vão tocando, no banjo e na viola, "A chinela encontrada..." ou o "Cartolinhas". É esta a tua memória mais antiga e mais querida que trago comigo. Como primeira recordação, o quadro não poderia ter-me trazido mais bela matiz.
Depois há ainda as memórias dos passeios até à ponte de Sinja onde me recordo perfeitamente de me pousares uma joaninha na mão; ou os sapatitos do menino e a mão escondida atrás da porta; ou o teu riso quando me vias a dar aquelas "perigosas" curvas tombadas; ou a quantidade interminável de vezes que jogaste comigo o "Jogo do Assalto"; ou quando me deixaste comprar um baralho de cartas por 80$00 e jogavas comigo à bisca dos nove; ou quando te ficava a ver consertar a bicicleta; ou aquelas aulas de piano que, estou certo, ainda não foram inventadas as palavras certas para eu te poder agradecer; ou quando me levavas aos ensaios da Banda às 18h juntamente com o Pedro, o Tono e o Sérgio; ou, etc, etc, etc...
Eu bem sei que não posso ter sempre 6,7, 8, ou 12 anos. Da mesma forma também não estacionaste nos 40. Mas continuas a trazer-me tudo isso até mim sempre que escreves um poema novo ou transcreves uma qualquer música que eu te pedi.
Sabes pai... Gostava de ser como tu. Gostava que a Rita, o Tiago e o André, um dia, olhassem para mim e vissem um "retrato" parecido com o teu ou com o do Padrinho do Paço.
Acho que já sei por onde começar... As férias e o bom tempo já chegaram. A eira já não existe mas um chão frio e caricas são o que não falta por aí. Se não te importares um dia destes apareço no Paço com a minha viola para me acompanhares com o bandolim. Podemos até começar pelo "Cartolinhas" e "A chinela encontrada..." enquanto a Rita e o Tiago vão brincando um com o outro como eu fiz tantas vezes à porta de tua casa. Porque acredito que eles vão gostar muito do pai. Mas, um dia, quero poder lembrar-lhes que o avô é muito melhor que o pai. Ou então vais ser mesmo tu ainda a lembrar-lhes.
A vida está já no ocaso, bem sabemos, mas até aí podias buscar inspiração no Phileas Fogg do Verne. Quando tudo parecia perdido, afinal ele tinha ganho um dia e ainda foi a tempo. Talvez os teus 80 anos tenham sido só 70 ou 60 e ainda tenhas muito para andar. E não haverá nenhum Detetive Fix que te possa deter.
Para o ano cá estarei para voltar a abraçar-te.
Gosto muito de ti.
Um beijo do tamanho do mundo.
Obrigado.

A cidade do Porto e o Coro do DeCA

O Osvaldo era um tipo porreiro.
Soa um pouco estranho, mas é esta a frase que me vai martelando no cérebro mesmo antes de começar este texto. Mas talvez seja melhor começar mesmo do início...
E no início está o Porto. A cidade que, em tempos, foi minha por uma dezena de anos. E hoje foi dia de voltar lá. Houve tempo para chegar um bocadinho antes e voltar a fixar o olhar no 290 da Miguel Bombarda. Um pouco acima, mesmo ali ao lado, percorro Cedofeita quase de uma ponta a outra como fiz outrora alguns milhares de vezes. O café onde parava de manhã e à noite é agora uma boutique. Paro em frente à vitrine e vejo no reflexo a saudade trazida por um rosto igual ao meu. Enquanto sigo o caminho lembro o sorriso rasgado do Osvaldo que todos os dias me trazia o café ao balcão e trocava dois dedos de conversa comigo sobre o nosso Benfica. Nunca mais o vi. Os anos passam. As pessoas também.
Enquanto a praça dos leões vai ficando cada vez mais para trás vou dizendo para os meus botões que ao contrário do que dizia o grande Ary dos Santos, esta é que será a cidade mulher da minha vida.
O relógio parece correr pelo que o passo tem de ser cada vez mais apressado. Mesmo antes de chegar à igreja há ainda tempo para recordar o campo de futebol do CDUP onde passei mesmo há pouco e que me fez reviver os tempos em que fui campeão universitário de futebol de cinco. Quem diria que agora tenho um tornozelo que parece papel?!
Chego à igreja. Mais do que as vozes, afinam-se os últimos pormenores. O Nuno prepara tudo com a qualidade e responsabilidade que lhe são reconhecidas. Os homens trazem roupa de gala e as meninas, neste dia, parecem ainda mais bonitas que nos restantes dias. De tal forma que não cansa o olhar. No concerto há tempo para reconhecer gente amiga na plateia. No final, cumprimenta-se o Filipe e pede-se desculpa ao professor Vasco por só ter marcado presença à noite e ter estado ausente no ensaio da tarde. 
A caminho do carro, sozinho, do tal lado da rua em que parece ser sempre mais noite, vai-se pensando que fazer música em conjunto deve ser das sensações mais extraordinárias que se pode ter. De tal forma que é praticamente indescritível. A sensação é quase como se o Benfica estivesse todo nos meus pés, Chopin todo nas minhas mãos e a 4.ª de Brahms já estivesse comigo desde o dia em que nasci. Sei lá...
Liga-se o carro e a M80 que me dá o “Straight from the Heart” do Bryan Adams logo de início. São 60 Km que se avizinham e é aí que vou escrevendo na cabeça o texto que agora deixo aqui. Sem pressas. Talvez por isso a meia-noite tenha voltado a chegar a casa primeiro do que eu. Não faz mal.
É altura de caminhar de mansinho para os filhotes não acordarem. Pouso a cabeça no travesseiro. O Osvaldo era um tipo porreiro, já disse?
Boa noite.

O que é feito dos nossos ex-alunos (músicos)?



Há professores que nos marcam; que não passam indiferentes; que têm carisma; que, à sua maneira, nos servem de modelo e aos quais, ainda que de forma silenciosa, ficamos gratos para o resto das nossas vidas. Daqueles que todos se lembram quando voltamos a falar neles ainda que tenham passado mais de vinte anos. E fazemo-lo de forma carinhosa e com saudade.
Um dos melhores exemplos que se podem encontrar é o da professora Rosa de Filosofia, ou melhor, da “Lola”. Sejamos honestos, era este o nome mais comum nos corredores do velho liceu.
Os meus caminhos cruzaram-se com os da Lola no ano letivo de 1992/93, andava eu no 11.ºB. Eram os tempos em que o Carlos chegava de manhãzinha com estilo na sua Cagiva mas sempre um bocadinho depois do segundo toque. E sempre a rir-se, é assim que o recordo. Esse 11.ºB é a turma que me deixa mais saudades. Mesmo que do núcleo duro dos rapazes só eu e o Carlos fôssemos benfiquistas. Mas nas aulas de Filosofia ganhávamos uma aliada de peso.
Lembro-me duma aula em que a professora não conseguia conter o riso enquanto nos falava do “isocronismo do pêndulo” ou de outra em que da janela da sala 46 todos ficamos a olhar para um par de namorados sentados junto a um poste em frente ao pavilhão 3. A paixão era tão fervorosa que parecia que a língua iria saltar fora da boca do rapaz a qualquer momento. Estava instalada a confusão na sala. Passámos a aula quase toda a “filosofar” sobre tão querido par. Ainda me lembro de tocar para fora e, ao fazer o seu percurso de regresso à sala dos professores, a professora parou mesmo em frente ao par e disse mais ou menos isto para o rapaz: “O senhor estragou-me a aula toda! Estava aí com uma vontade...”. O par ficou um pouco envergonhado, sem saber o que dizer, até que a professora rematou, bem ao seu jeito e sempre virada para o rapaz: “Para a próxima, pelo menos, veja se vai para trás de um pavilhão”! Foi uma risada geral de quase toda a turma que a seguia já à espera de um sermão do género.
E são estas memórias que nos vão mantendo vivos...
Quem me conhece bem sabe o quanto eu gosto de voltar a estar lá. Todas as artérias da antiga escola ainda se apresentam nítidas na minha memória quando as saudades apertam mais um bocadinho. Mas a verdade é que hoje os corredores da nova escola são bem diferentes. Sei-o bem pois percorro-os frequentemente. E de todas as vezes lembro uma história diferente desses tempos de ouro. E foi numa dessas deslocações à nova escola, já há uns meses atrás, que me cruzei com a professora Rosa que me cumprimentou e perguntou: “Não é você que é músico?”. Respondi afirmativamente e diz-me ela: “Vou precisar de si no último fim de semana de maio. Não marque nada nesse dia. Que instrumento é que você toca?”.
E foi dessa forma que se começou a desenhar a minha participação no evento "O que é feito dos nossos ex-alunos (músicos)?". À medida que o dia se ia aproximando começaram as chegar as informações por mail. Por isso nos juntámos numa quarta-feira à noite para conseguir realizar o desejo da professora Rosa de apresentarmos uma música em conjunto no final do evento. Foi bom rever algumas caras embora estas sejam ainda das que vejo com bastante frequência.
Nas informações chegadas por mail pediam-me para que a minha atuação fosse um bocadinho diferente, sugerindo que fosse um pouco humorada e, se possível, com recurso ao acordeão. Confesso que fiquei indeciso com o que haveria de apresentar embora o uso do acordeão tenha ficado posto de parte quase à partida por várias razões. A escolha final acabou por ser o “Não descalces os sapatos”. Uma espécie de homenagem ao enorme Carlos Paião que tantas excelentes músicas pôs na boca do Herman José quando este estava no auge da carreira.
É essa a interpretação que vos deixo, superiormente captada pelo João Martins a quem não tenho palavras suficientes para agradecer.
A todos os colegas que me acompanharam em tão magnífica noite, o meu reconhecido abraço apertado. Temos de nos voltar a juntar um dia destes. Quanto mais não seja, para nos rirmos um bocado. Nós e a professora Rosa. Porque todos gostamos dela. Também da professora Rosa mas, sobretudo da Rosa, que, por acaso, também é professora.
Um beijinho de gratidão, Rosa. Ou Lola, para os mais ousados!

Eu, o Nelson Mandela e o concerto dos Queen



Madiba foi um homem extraordinário. Inspirador. Daqueles que nos faz acreditar com maior ternura que por trás de tudo há um Deus que nos carrega no colo.
O relógio diz-me que a meia-noite já ficou para trás e eu estou deitado na minha cama com a tv sintonizada na sic radical. Como muitos milhares de pessoas aguardo com uma ansiedade mais ou menos controlada a chegada dos Queen (ou do que ainda resta deles). Fosse este concerto há pouco mais de 20 anos e eu estaria talvez na fila da frente mas o tempo foi passando e as circunstâncias vão mudando. Dizem que as pessoas também. Confesso, sou uma pessoa muito mais solitária do que outrora. Mais reservada. Mas consigo tomar o sabor das coisas de uma forma mais completa. Mesmo com o corpo e a mente a pedirem todo o descanso do mundo.
Deitado na minha cama vi todo o concerto dos Queen e não houve um único momento em que eu não quisesse ter estado lá. E, raios... Nos dias de hoje até teria sido tão fácil. Ainda este mês estive em Lisboa para ver a “República das Bananas” do La Féria. Como é que tinha ousado ficar em casa num concerto dos Queen (ou o que ainda resta deles. Já disse?).
Enquanto o concerto se ia desenrolando dei comigo a pensar que, muito provavelmente, nenhum dos milhares que estava lá ao vivo terá ouvido tanta música dos Queen nesse dia como eu. Isto com o meu corpo cansado numa cama estendido. E lembrei-me do Madiba. Isso mesmo. Do dia em que foi libertado e vi as imagens na televisão. Há dias (re)passou o filme Invictus na tv. A certa altura há uma cena em que o Mandela convida o capitão da seleção de rugby para tomar chá. É arrepiante ouvir da boca do Morgan Freeman que tudo se deveu a um poema. Que nos longos dias que passou em Robben Island era um poema que o ajudava a manter de pé quando tudo o que lhe apetecia era deixar-se cair.
Pois bem, respeitando as evidentes diferenças, os Queen foram mais ou menos isso para mim. Ajudaram-me de tal forma que me conseguiram manter de pé numa longa fase da minha vida em que julguei cair a todo o momento.
É por isso que ontem deveria ter estado lá. Como sinal de agradecimento.
Estiveram só eles.
Ainda que sem o Freddie.
E sem o John.
E sem mim.

Nostalgia

13:06

O dia avança devagar. Quase parado. O tempo para viajar no Tempo parece sobrar. É sempre assim quando nos dispomos a caminhar para trás. O tempo é sempre muito. Demasiado. Basta querermos. Chega a ser tão grande que o próprio pensamento faz eco em qualquer direção. A ressonância é enorme.
Sentado em frente ao computador, neste momento, se não fosse uma pessoa, seria talvez uma espécie de nostalgia personificada.
Abro o dicionário e este diz mais ou menos isto: “Nostalgia: (...) Estado melancólico causado pela falta de algo ou de alguém”. Mais um clique, desta vez na Wikipedia, e as palavras não são muito diferentes: “Nostalgia é um termo que descreve uma sensação de saudade idealizada, e às vezes irreal, por momentos vividos no passado associada com um desejo sentimental de regresso impulsionado por lembranças de momentos felizes e antigas relações sociais. (...)”
Confesso, a parte das “antigas relações sociais” revolve-me as entranhas. Onde terei falhado? Não sei. Creio não o ter feito. Mas continua a mexer cá por dentro.
Há decisões difíceis e esta terá sido uma das maiores entre todas as que são grandes. A hora em que decidi dar a volta às voltas que o Tempo dá. Afinal de contas o Tempo, hoje e agora, sobra. Ou, pelo menos, parece. E é assim que vou tramá-lo. Hoje, finalmente, vou virar-te as costas, percebeste?

É por isso que se eu pudesse, este respirar fundo era um campo de futebol aos domingos de manhã. Não em Sinja mas antes na Portela. Mais pequenino e mais íntimo. E mostravas-me o mesmo sorriso da última sexta à entrada do liceu, lembras-te? Continua igualzinho, apenas com mais cabelos brancos. Ainda mais do que quando foste meu professor no ciclo e no liceu. Perguntaste-me pelo tornozelo e eu disse-te que parecia papel. Ias jogar futebol e eu estava a chegar para um concerto. Também mudei nestes últimos 25 anos. O meu cabelo está também agora mais branco. E trocámos um último sorriso enquanto dizíamos adeus.

Se eu pudesse, este cheiro a Primavera era o recinto da antiga escola primária que tão poucos conhecerão como eu. E dizias “cá vou eu” enquanto sacavas aquele cavalo na tua BMX que acabaria por correr mal, te furou a t-shirt e nos abriu os pulmões de tanto rir. Felizmente não te magoaste. Desculpa esta característica própria do ser humano de se rir dos males alheios.
Tenho saudades tuas, sabes? Desde esses anos vi-te apenas por mais uma vez. Foi já há algum tempo, a atravessar a praça, mesmo no coração da nossa vila. Não tive coragem de ir ter contigo e dar-te um abraço. Desculpa. Fiquei ao longe a olhar-te até desapareceres para dentro do centro comercial. Nesse bocadinho vi o rapazinho de há 25 anos atrás e outras tantas boas memórias. Talvez por isso me tenha detido sem ir ao teu encontro. Decidi conservar as memórias da forma imaculada que as guardo. Julgo assim ser mais feliz. Mesmo querendo muito ter-te agradecido.

Se eu pudesse, esta terra que seguro nas mãos era tudo menos um parque de estacionamento. Muito menos uma casa de escuteiros. Era, isso sim, o campo virgem de outrora de onde a tua avó tirou o punhado de terra que nos atirou na brincadeira enquanto regressávamos de mais um ensaio do grupo coral. Eu gostava muito da tua avó, sabias? E de ti e de todas as nossas boas histórias, sabias? Como aquela do “hóquei de praia” e a dos “Bryan Adams”. Sinto muito a tua falta. Quando ainda eras o Pujante. E quando eu ainda era eu. O Tempo é mesmo tramado. No outro dia, na igreja, quando cheguei e te cumprimentei, fiquei algum tempo a pensar nestas coisas. Gosto muito de ti, já disse? Agora tens menos cabelo e eu, lá está... Ainda tenho cabelo mas está mais branco. Gosto de te ver. Faz-me lembrar oitocentos e trinta e quatro episódios dos nossos melhores dias. E isso não tem preço. Nem tempo.

Se eu pudesse, este sol era um jogo de futebol de baliza a baliza. Como tantos que fizemos em que não podíamos defender com as mãos. Tenho saudades até das vezes em que a bola ia ao campo do outeiro ou até mesmo ao campo da seca onde a tua avó andava frequentemente de enxada na mão. A esta distância consigo ver-nos com aquela camisola que tinha um jogador estampado que as nossas mães fizeram iguaizinhas, uma para cada um.
Já viste como está o sol hoje? Digo-te que era capaz de sair agora mesmo, de onde estou, a correr até à escola primária. Sempre a correr. Sem parar. Só para jogar mais uma vez. E outra. E mais outra. E ainda outra. Sempre mais outra “última vez”. Bem sei que já não dá. Porque agora somos outros. O tua barba continua certinha mas está agora mais branca. A minha também está a começar a ficar branca mas está longe de ser certinha. As preocupações trouxeram também umas “peladas” que estão difíceis de ultrapassar. O Tempo teima em querer trazer-me ao presente mas consigo ainda recordar o meu coração a ficar cheio ao ver na semana passada as fotos que partilhaste das tuas lições de “bicicleta” ao teu irmão. E volto a lembrar aquele dia que também era de sol quando cheguei a Rossas com a minha bicicleta nova em folha que os meus pais me deram nos anos e que trouxe da Casinha da loja do tio do Tono. Depois de mim foste o primeiro a experimentá-la no recreio da escola. No tempo em que a frase “Deixa-me dar uma volta” era muito popular. 

Se eu pudesse, este teclado não era de um Mac. Era, isso sim, um Commodore Amiga. E voltávamos a matar naves alienígenas, a estilhaçar braços e pernas a gangues de rua, a disparar bolas pela boca de macacos ou a encaixar peças que iam caindo do céu da forma mais ordenada possível. E, no fim, como um bom jogo dos anos 80/90, acabaríamos por trazer a princesa a salvo para casa.
Esta semana limpei a minha bicicleta, sabias? Enquanto lhe passava o pano ia recordando aquelas retas inteiras de roda no ar. Lembro-me bem da tua bicicleta. Costumavas deixá-la no recinto da escola primária enquanto passávamos uma tarde inteira no sótão de minha casa a dar vida a milhentos heróis saídos das cores hipnotizadoras do monitor do Amiga. E a bicicleta lá ficava, muitas das vezes, guardada pelo pequeno Roberto que te pedia constantemente para o fazer. Sim, é verdade. O pequeno Roberto “das quintas” que agora já é grande e teve de fazer a vida para os lados de Lisboa.
A bicicleta está quase limpa, sabes? Mais uma passagem do pano do pó e fica pronta. Entretanto surge mais uma lembrança. Agora são os corredores do liceu que me querem ver a fraquejar. Mas eu não deixo. Ainda os conheço todos de cor. Deve ser por tê-los percorrido sempre contigo. Mesmo quando acabámos o 12.º ano chegámos a ir lá várias vezes os dois. Eu vinha de propósito do Porto, às quartas, mesmo levando uns ralhetes da minha mãe. Porque éramos amigos. Os melhores. Mas isso era antes, com o cabelo preto. Agora o teu está mais branco. Como o meu, diga-se.

Se eu pudesse, este abraço era o teu abraço. Como aquele que me deste quando acabou o jogo do Benfica com o Marselha em 1990 que ouvimos pela rádio na sala de nossa casa.
Sabes, sempre quis ser como tu embora soubesse que nunca conseguiria. Quem nasce Miguel nunca chega a Zé Mário. É um facto. Mas obrigado por teres sido um modelo para mim. Fez-me ser melhor do que aquilo que eu alguma vez seria sem te ter como exemplo. Como amigo. Como irmão.
Lembrar-te é voltar a ter o Alves, o Humberto Coelho, o Shéu, o Bento, o Nené, o Carlos Manuel e o Chalana na ponta da língua. E tantos abraços e brincadeiras na alcatifa da nossa casa de infância. Gosto de fechar os olhos e voltar a ouvir o “Cielito Lindo” que foi o grande hino daquela noite de Reis. E eu estava lá. Como também estava naquele Toyota Corolla branco que era do pai e que nos levava para a serra nas tardes de Verão juntamente com os nossos amigos. Tudo fazia com que ser feliz parecesse tão fácil. E, se calhar, até é. Mesmo que o teu cabelo esteja agora mais branco. Como o meu, diga-se.
Gosto muito de ti, já te disse?

Tenho que parar, sabes? Digo que o tempo passa devagar mas ambos sabemos que não é verdade. Ou não. Depende do que quisermos fazer com ele. Será?

13:07

Um fim-de-semana com o coro do DeCA

Nota: Foto tirada do site do Diário de Aveiro.


Sexta-feira, Aveiro. 
É dia de sair um bocadinho mais cedo do trabalho para conseguir chegar a tempo ao ensaio geral na Universidade de Aveiro às 20h. Chego, ainda muito a tempo. Já dentro do Auditório, sentado no meu canto, dou conta que afinal a minha presença apenas era necessária às 20h30. Aproveito para descansar na minha cadeira enquanto ouço uns acordes de Liszt que me vão enchendo a alma. Pouco depois, do outro lado da sala, uma amiga larga momentaneamente os amigos mais chegados para me vir cumprimentar e perguntar pelo novo rebento que está a caminho. A alma engrandece à medida que reconhecemos nesses amigos atitudes que caracterizam os que são verdadeiramente grandes. 
Um a um, vão chegando os restantes colegas. Antes de cantarmos há ainda tempo para ver o “jogo mais difícil do mundo” no telemóvel ao lado. 
Ao final da noite Delius e Nietzsche estão já mais próximos e seguros. Enquanto se deixa um abraço de “até amanhã” há ainda tempo de trocar umas palavras com uma grande amiga de Arouca enquanto se aproveita para combinar a boleia para o dia seguinte. 

Sábado, Coimbra. 
A saída acontece ao início da tarde deixando tudo preparado em casa para a festa de anos da pequenina Rita. Toda a viagem é feita na companhia da Eva que me acompanhará na orquestra no concerto da noite. Já em Coimbra, enquanto se bebe um café, põem-se os assuntos em dia. Há tempo para se ser surpreendido por algumas novidades. A hora aproxima-se. Há que entrar na Sé Velha. Sou apanhado de surpresa quando alguém me vem dar os parabéns pela Rita. 
Já bem depois do ensaio de colocação, enquanto se espera pelas senhas de jantar, olham-se as ruas. São estreitas mas sem estrangular. Parecem antes aproximar. Como o par de namorados que troca um beijo enquanto passa. Uma parede traz à lembrança o grande Zeca, o Afonso, que terá vivido por ali nos seus tempos de mocidade. Todas as janelas parecem sorrir ao largo da Sé fazendo lembrar autênticas bocas de cena; o sítio perfeito para os trovadores soltarem acordes às suas donzelas em juras de amor capazes de rivalizar com as que foram trocadas entre Pedro e Inês. Os meus colegas vão trocando frases de quem se quer bem. Momentos que vou guardando para a eternidade. 
A caminho da cantina, na companhia dum amigo, lembro os tempos da minha primeira universidade enquanto vejo uma tuna a atuar para um grupo de caloiros. As lembranças vão sendo assaltadas pelos saraus inigualáveis de Ciências e pelo som do “Sonho de um Poeta” da Javardémica que ainda trago na ponta dos dedos. Boas velhas memórias que foram novas noutros tempos. Enquanto me detenho, por momentos, para encher um pouco mais a alma, reparo numa mãe com uma das mãos sobre os ombros do filho pequeno enquanto a outra aponta para os bandolins. O menino esboça um sorriso. A mãe sorri ainda mais ao olhar o filho. 
O regresso à Sé começa com uma subida de 1.ª categoria composta por um número interminável de degraus que me julga um estudante de vinte anos quando, na realidade, já estou à porta dos quarenta. Passado esse teste com distinção há ainda tempo para um cerveja, devidamente acompanhado, enquanto se prepara a voz para o grande concerto. 
No fim da noite, Delius e Nietzsche devem estar satisfeitos com a nossa atuação e a sensação é a de dever cumprido. 
Já em Arouca atira-se um até amanhã à companheira de viagem e, já em casa, encosta-se a cabeça no travesseiro com o pensamento no dia seguinte. 

Domingo, Aveiro. 
O Teatro Aveirense traz-nos uma perspectiva diferente. Na sala de aquecimento o espaço é tal que somos convidados a deitarmo-nos no chão. E é assim, com todos à mesma altura, de costas voltadas para o mundo, que passam pela minha cabeça as imagens do “Clube dos Poetas Mortos” quando o professor Keating pede aos alunos para que subam à secretária para olharem as coisas de diferentes perspectivas. Mente sábia. 
Nos momentos de descontração antes do concerto perguntam-me pela Odete e pelo bebé. Sou um felizardo. Sugerem-me temas para as minhas composições e sinto que é desta que este empurrãozinho vai materializar as milhentas ideias que fervilham na minha cabeça. Mais não posso do que ficar grato. Por momentos, lembro as palavras do António Zambujo no coliseu quando dizia ao Miguel Araújo que para um criador todos os dias são dias de trabalho. 
Pelo piano ao fundo da sala vão passando vários colegas trazendo um som de fundo convidativo enquanto ligo para casa a confirmar se está tudo bem. 
O concerto é marcado por uma nota original do meu colega de fila que nos faz rir por algum tempo. No final alguém vai trauteando a música do saudoso “Justiceiro” que eu imediatamente reconheço e que tão boas memórias desperta em mim. É bom saber que não somos os únicos a recordar tais preciosidades. 
Os últimos 60 km percorridos no regresso definitivo a casa é feito ao som do Oceano Pacífico da RFM que me traz o fantástico “Tudo o que eu te dou” na hora em que abro a garagem de casa. Deito-me no conforto da minha cama, encostadinho à mãe dos meus filhos, com os olhos postos na aula de composição às 9h da manhã seguinte. 
E o concerto acabou. 

Miguel