Memórias ao sabor dos Sons da Praça e da Ala dos Namorados

Os sons voltaram à praça no dia 2 de agosto. Desta vez com a Ala dos Namorados em cartaz. Sair de casa para um concerto desta envergadura tem de obedecer a alguns pré-requisitos: com três filhos pequenos há uma lista interminável de problemas que têm de ser antecipados para irem pré-resolvidos. Foi assim que saímos de casa. Pelo caminho levei memórias de um tempo de primeira universidade onde fiz a travessia do mar de amigos até à solidão. Uma ponte muito ténue, diga-se. A Ala dos Namorados ajuda a trazer algumas das boas memórias desses dias. Havia uma canção que ouvia vezes sem conta na extinta Roma Megastore pela voz do Nuno Guerreiro. Ficava completamente embriagado pelo timbre e pelo acompanhamento ao piano que mais parecia sair de um qualquer génio inimitável, como aqueles que ouvi falar nas aulas de História da Música. De Rossas até ao centro da vila transportei essa secreta vontade de, por momentos, voltar a esses dias ao som dessa música. 
Sentámo-nos nos degraus da praça. Confessei o meu segredo à Odete com as palavras: Só espero que cantem “Ao Sul”. Haveria de ser a canção que abriu o espetáculo. O que poderia desejar mais para quem pedia tão pouco? Uma noite de muitas memórias e, sobretudo, muita admiração. Sejamos francos: a Ala vive muito à custa do talento do Manuel Paulo que me conseguiu prender toda a atenção durante todo o concerto. 
Obrigado Ala e obrigado Banda Musical de Arouca pelo ótimo serão. 
Pelo meio ficou aquele orgulho secreto de quem ouviu sons saídos de arranjos que tiveram a minha humilde contribuição. Por isso as “Águas Furtadas”, por exemplo, pareceram ainda mais bonitas. 
Desculpa Pedro não ter marcado presença no jantar. A minha vida é um caos. O Variações bem insiste em dizer-me ao ouvido: “muda de vida”... 
No dia seguinte tudo voltou ao normal. Ou quase tudo... É que as notas do Manuel Paulo foram uma presença constante na minha cabeça. É bom sinal. 
Até para o ano se Deus quiser, se possível, novamente na companhia de toda a família.

O professor Albino e o Orfeão da Escola Secundária de Arouca

Foto:
Orfeão da Escola Secundária de Arouca no salão dos Bombeiros Voluntários de Arouca na primeira metade dos anos 90.

Cheguei ao antigo liceu no ano letivo de 1988/89. Diziam os papéis afixados nas janelas de um dos pavilhões que iria frequentar as aulas da turma do 7.º I. Tinha uma vida nova pela frente. As rotinas não seriam muito diferentes do ano letivo anterior: apanhar o autocarro logo pela manhã na paragem da Barroca, ir em pé, qual sardinha enlatada, a ouvir o António Sala e a Olga Cardoso no programa despertar e depois acordar para o dia no convívio com os colegas e ao som da voz dos professores que nos calhavam em sorte. Apenas o edifício era diferente, tudo o resto era parecido. Havia o bónus, claro, dos novos colegas de turma que eram sempre recebidos de braços abertos, sobretudo para jogar à bola logo pela manhã. Na hora de almoço, a fila da cantina era ainda maior mas, na companhia dos melhores amigos, o tempo pouco importa. No final do dia continuava a esperar-se no centro da vila a camioneta que nos levava de regresso a casa onde encontrávamos os tais “dois braços à nossa espera” como a Amália tão bem eternizou na “Casa Portuguesa”. E temos de ser francos: mesmo sendo geralmente bem comportado tenho de fazer aqui um reconhecimento público aos condutores dos autocarros. Deveriam ser elevados à categoria de santos tais eram as tropelias que tinham de nos aturar. Era este, assim “grosso modo”, o cenário que se poderia pintar aquando da minha chegada ao sétimo ano de escolaridade.
No liceu, o presidente do Conselho Diretivo era o querido professor Albino. Aprendi, em boa hora, a seguir-lhe o exemplo. Há aquelas pessoas que reconhecemos como modelo. Que, dentro do seu modo de vida, nos transmitem serenidade e admiração. Desde cedo o coloquei nessa “prateleira” e, diga-se a verdade, não me dei nada mal com isso. Pelo contrário: recolhi sábios ensinamentos e exemplos de vida. Claro que, sendo eu aluno, estava obviamente do outro lado da barricada. Por isso era comum entre os alunos, nos corredores, ouvir-se o carinhoso nome de “Ovo Estrelado” em lugar de professor Albino. Era o nome de código que num dia qualquer alguém se lembrou de utilizar como alcunha de tão prestigiada personagem.
Lembro-me da primeira vez que o professor Albino se cruzou comigo num dos corredores do liceu era eu um dos alunos mais pequeninos da escola e, por isso mesmo, andava ainda a descobrir as artérias do novo edifício. Deu-me um bom dia acompanhado de um sorriso ao qual retribui com um sorriso envergonhado.
Lembro-me ainda de um ano letivo em que tinha de andar “à boleia” para fazer o regresso a casa pois os horários da escola não eram coincidentes com os dos autocarros. Numa dessas vezes foi o professor Albino que nos levou (a mim e ao Bruno) tendo feito um interrogatório mais ou menos pormenorizado para averiguar porque é que estávamos a regressar dessa forma e não de autocarro mostrando-se sensível ao nosso ponto de vista. Tudo isto, creio, a bordo de um Citroen AX vermelho (perdoem-me se a memória, desta vez, me está a atraiçoar).
Durante o meu percurso pelo liceu era ainda usual as colocações de alguns professores saírem muito tarde. Havia sempre uma ou duas disciplinas que ficávamos algumas semanas ainda sem professor. Aconteceu no 10.º ano a psicologia. Foi assim que durante uns quinze dias, talvez, o professor Albino foi o nosso “stor” de psicologia. Foi nesse mesmo ano que chegou a ter uma conversa séria e responsável com a nossa turma, no início do ano letivo, pois iríamos ter a professora Laurinda a transmitir-nos os conhecimentos na disciplina de matemática. Lembro-me perfeitamente de pedir a nossa colaboração e compreensão. Confesso que nunca mais vi a professora Laurinda desde os meus tempos de liceu. Gosto de imaginar que está bem e que a vida, a partir de certa altura, terá deixado de ser madrasta com ela. É desta forma que a abraço em muitas das viagens que faço pela memória.
A recordação maior que trago do professor Albino tem a ver com o orfeão que orgulhosamente dirigia. Ainda hoje admiro a forma como esse orfeão era criado. O apelo chegava através de um aviso levado às salas pela mão das funcionárias. Todos os interessados eram convidados a dirigir-se ao edifício da cantina no intervalo maior da manhã. Era impressionante a quantidade de alunos que abdicava do tempo desse precioso intervalo para fazer parte do orfeão. À nossa espera estava o professor Albino. Os exercícios de aquecimento de voz eram feitos a correr (o tempo era escasso) e, quando esta começava a fraquejar e a tosse aparecia ele pedia-nos para tentarmos conter a tosse e engolir saliva. Parece que ajudava a “olear” as cordas vocais. Lembro-me de cantar a “Pompa e Circunstância” de E. Elgar ou o “Va Pensiero” de Verdi.
Quando se tem um gene mais voltado para a solidão, como parece ser o meu caso (ou para o "ensimesmismo" como já me disseram), há lugares, pessoas e tempos aos quais gostaríamos muito de voltar. O intervalo das 10h15 que trazia os ensaios do orfeão dirigidos pelo professor Albino é, certamente, um bom exemplo de tudo isso. Deixou-me memórias de (e com) pessoas que jamais ousarei apagar.
Caro professor Albino, agora vale o que vale, mas queria que soubesse que a semente lançada à terra nessa altura deu bom fruto. Serviu de exemplo. Dos bons.
Muito grato, professor. Muito grato.

Um simples aluno, daqueles que gostou muito de andar na escola.

Miguel Brandão

Nota:
Foto gentilmente cedida pela enorme amiga Carla Tomé juntamente com outras duas fotos dessa mesma atuação.

Há alguém que goste tanto de videojogos como tu?

A pergunta que dá o título a este pequeno texto surgiu, há dias, da boca da Odete. Desengane-se o leitor se pensa que está diretamente relacionada com o tempo que gasto a jogar. Nada podia ser mais errado. O tempo que me sobra é pouco ou quase nenhum. Apenas dá para uma partida rápida aqui e ali, e sempre com muitos dias ou semanas de intervalo. É por isso que este texto já anda na minha cabeça há algum tempo e, confesso, era para se chamar “Há muito que deixei de fazer o que gosto”. No entanto, aquela interrogação da Odete levou-me a reorganizar as ideias. A verdade é que soltei um sorriso rasgado e acabei por responder: “Sim. Há muita gente que gosta muito mais de videojogos do que eu”. Ela insistiu: “E em Arouca? Haverá alguém?”. Voltei a sorrir e respondi, hesitando um pouco: “Não sei. Mas há cá muita gente que joga muito mais e melhor do que eu. Há muita malta nova que passa o dia agarrada aos jogos. Eu não tenho vida para isso”. A Odete é bastante perspicaz e continuou: “E da tua idade? Achas que há alguém em Arouca como tu?”. Confesso: fiquei desarmado. Respondi-lhe que era natural que não houvesse. E lembrei-me do seguinte exemplo que usei para lhe responder: “Tenho guardadas, de forma imaculada, todas as análises a jogos do ZX Spectrum e Commodore Amiga da secção MICROMANIA da extinta JND do Jornal de Notícias de 1989 a 1994. É natural que mais alguém tenha feito isso embora não conheça ninguém em Portugal que o tenha feito. O que é menos comum é eu ter ido mais além e ter transformado tudo num PDF, ter feito uma pesquisa na internet até encontrar a capa da revista n.º1 que ainda trazia o rosto da Tina Turner na minha memória, e ter organizado tudo para encadernar para ler e reler.” Ao acabar de responder mostrei-lhe a minha partilha desse documento em PDF num grupo de retrogaming do facebook onde gente que não conheço me agradecia para toda a vida tal partilha. Houve até quem dissesse que eu tinha feito um autêntico serviço público. A Odete sorriu porque apesar de não partilhar esta minha paixão, aceita de forma carinhosa o meu jeito de viver os videojogos.
Não quero (nem vou) com este texto fazer uma descrição detalhada do meu percurso pelos videojogos mas queria deixar aqui alguns aspetos particulares que podem ajudar a justificar a pergunta feita pela Odete.
Em primeiro lugar, é bem provável que tenha mais de um milhar de jogos em formato físico para as mais diferentes máquinas de videojogos. Só um apaixonado por este mundo poderia ter comprado mais de 80 jogos para a PS2 ainda antes de ter a referida máquina. No último mês, aproveitando ótimos negócios no Marketplace, comprei 17 jogos PS4 e 2 jogos XBOX ONE. Mesmo não tendo tempo para jogar gosto de ter a maior parte dos clássicos e de ter uma “biblioteca” bem organizada. No entanto, apesar de me deliciar com algumas das novas produções, são os títulos da minha adolescência que me continuam a despertar maior fascínio.
A minha relação com este mundo é de uma espécie de revolta constante. Há muito que não faço o que gosto. Preenchem-me o tempo com obrigações sem sentido. Talvez seja tempo de uma resolução de ano novo. Veremos se serei capaz de cumprir. Talvez as pessoas só precisem de me entender. Ou, se calhar, nem isso. Apenas aceitar.
Quem é da minha idade sabe muito bem o que é entrar num salão de jogos arcade. Sabe também, por exemplo, que Shinobi, Midnight Resistance, Toki ou Rodland são experiências que não se esquecem. É em nome de muitos desses títulos que continuo a minha demanda. É por isso que estou a dar uma segunda oportunidade à Xbox One comprando digitalmente clássicos como Sensible World of Soccer, uma remasterização do Gods dos famosos Bitmap Brothers e um jogo novo oriundo do Brasil e que é uma excelente homenagem a jogos como Lotus Esprit Turbo Challenge e que tem por título Horizon Chase Turbo.
É por isso que sei que vou ter o remake do Toki que acabou de sair para a Nintendo Switch ainda antes de comprar a consola. Anseio pelo dia que lhe vou deitar as mãos e que o vou acabar de uma ponta a outra antes que o dia se transforme em noite. No fundo é aquela sensação de saber transportar já uma felicidade que, em rigor, ainda não me pertence.
Quando deixei de ser uma criança, talvez aí por volta dos 40, dei conta que devemos dar importância àquilo que realmente é importante. Desde aí, tenho-me focado muito mais no Commodore Amiga e na minha paixão pelos videojogos. Porque gosto de videojogos. Mas, sobretudo, porque gosto do Nuno, do Simão Pedro, do Miguel “Confiança”, do Tono, do Sérgio e do Pedro. Na impossibilidade de seguir o mesmo rumo de vida, encontrei neste mundo peculiar uma forma de chegar mais perto. É a mágoa que trago comigo: que o mundo não tenha sido assim para sempre. Fica aquela nostalgia que me esforçarei por manter. É por isso que os meus raros momentos de “jogatana” acabam quase sempre com a minha MIST ligada onde tenho todo o espólio do Commodore Amiga instalado. E haverá melhor forma de terminar um dia do que estar acompanhado de Kick Off, Rick Dangerous ou Turrican?

Bohemian Rhapsody: o filme

13 de julho de 1985.
Uma data que um verdadeiro amante dos Queen dificilmente esquece. Pelo contrário, uma data que conquistou a eternidade. O dia em que os Queen fizeram a sua memorável atuação no Live Aid. Mesmo os outros, os que têm outras preferências musicais, são quase unânimes em reconhecer essa performance como uma das melhores, não da história dos Queen, mas, isso sim, das melhores da história do Rock.
Mas, vamos ao início... E o início está numa preparação de um filme que começou de forma desastrosa há muitos anos atrás. Quando anunciaram o Sacha Baron Cohen para o papel do Freddie eu deixei de ver as notícias sobre uma possível concretização do filme. Como seria possível o que o Brian e o Roger estavam a fazer depois do (já difícil de digerir) afastamento público do John?!
Felizmente os erros foram parados a tempo. O projeto parou. Foi repensado. O caminho tinha de ser outro. E, vendo bem, a verdade é que estamos sempre a tempo de fazer bem as coisas. Foi por isso, por acreditar que as coisas ainda podiam ser bem feitas, que, quando o projeto ressurgiu, reerguendo-se praticamente do zero, eu não dei muita importância. Escolhi um certo afastamento. O medo que o caminho a seguir fosse igual ou pior era algo que deveria ser realmente levado em conta. Até que me fui apercebendo das escolhas que estavam a ser feitas e comecei a sentir que as coisas poderiam estar a levar o rumo certo. Depois vi umas entrevistas do Rami Malek e fiquei realmente esperançado que finalmente isto ia correr bem. Depois, foi só tentar ler o menos possível sobre o assunto para me deixar surpreender na altura de colocar os olhos na tela. Aconteceu ontem no Norteshopping. Depois de uma corrida atribulada com direito a avaria na máquina da bilheteira, lá me consegui sentar no lugar ao lado da Odete antes do início da sessão. 
O receio de que algo corresse mal tinha quase desaparecido depois de ter obtido algum feedback, ainda que indiretamente, através de amigos de longa data. Ao contrário do que imaginava anos antes, preparei-me para o melhor e não para o pior. O filme lá começou e logo sou surpreendido com o tema da 20th Century Fox cheio de guitarradas: “Isto promete”. Toda a apresentação dos créditos iniciais é feita tendo o Live Aid como fundo e eu fico com a certeza de que isto hoje não pode correr mal. E não correu. Bem pelo contrário. Estou em sintonia completa. Ou não tivesse eu também começado este texto pelo Live Aid.
Confesso que conhecia já praticamente todas as pequenas histórias dentro da História que o filme nos apresenta. Mas não me canso de as ouvir. E ouvi-las contadas daquela forma soberba só me pode deixar agradecido. Pensei que abordariam a totalidade da vida do Freddie mas, focar o filme direcionando-o para a brutal interpretação daquele dia 13 de julho de 1985 foi um golpe de génio. Enquanto amante da música dos Queen tenho de estar grato a quem assim decidiu. Mesmo que isso obrigue a muita boa música ter forçosamente de ficar de fora.
Foi bom ver darem o protagonismo merecido à Mary Austin e assistir a algumas piadas interessantíssimas. Claro que a composição do “We Will Rock You” não foi mesmo assim mas essa cena ficou muito boa. Enquanto os via bater o pé e as palmas fui lembrando as palavras de um jornalista qualquer que terá escrito sobre essa mesma música: “Se alguém sonha compor uma canção para coroar o mundo, está a perder o seu tempo: ela já existe desde 1977”.
Não sei se o filme é bom ou não. Não percebo nada de cinema. Mas percebo de música e percebo dos Queen. Emocionei-me em boas partes do filme (ou não estivesse a sua boa música sempre presente em alto som). O Rami Malek está de parabéns pois fez um bom trabalho, mesmo sem saber tocar piano. Fiz uma viagem no tempo. Várias. Bem sei que ainda existem bons amigos que me dizem constantemente que devo olhar em frente. Sou capaz de aceitar isso, embora perceba mais facilmente que desconhecidos não me entendam. Mas um dia hei-de conseguir que os meus amigos percebam que, pelo menos no meu caso, olhar para trás é a melhor forma de seguir em frente. Devo muito daquilo que sou à maravilhosa música dos Queen que está muito bem retratada neste filme.
Obrigado Freddie, Brian, Deacon e Taylor.
Mais uma vez. E outra E outra. E outra...

Eu, a Carla, o Nepinhas e o Pedro

“Fui para os bosques para viver livremente,
Para sugar o tutano da vida,
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi”. 

Houve um tempo em que éramos mais novos. Não havia tempo para grandes preocupações. Ou então as nossas grandes preocupações é que não eram assim tão grandes. Passavam por não perder o relato do Benfica aos domingos à tarde, levar um novo truque de cartas para mostrar ao Nepinhas na escola no dia seguinte, levar algumas moedas para o bilhar no Cheiro Verde com o Pedro e ter uma roupa lavadinha preparada para não fazer figura triste no liceu junto à Carla nas aulas da manhã. O resto aparecia feito.
No auge da vida, eram assim os meus dias. E nada mais sonhava para além disso. Continuar assim era chegar mais além.
Deus foi muito generoso comigo e, na altura apropriada, ofereceu-me bons amigos, assim como um pai que pousa na mão do filho um saco de berlindes ainda a reluzir. Dentre esses há os que, ainda que mal comparado, são como os berlindes que ainda tenho naquela caixa pousada no sótão que só eu sei onde está e apenas eu estou autorizado a mexer.
Mas, dizia eu, Deus foi muito generoso comigo. É preciso é saber ler nas entrelinhas. Estar atento aos sinais. Abraçar cada momento como se fosse único. E depois é deixarmo-nos ir por onde a alma nos levar. Ela sabe o caminho.
O encontro foi no domingo. Desde aí não paro de olhar a foto. Mas não é um olhar qualquer. É quase como se estivesse no átrio do Colégio de Welton a ser instigado a fazê-lo da melhor forma possível pelo John Keating. É por isso que aqueles rostos que a fotografia parou no tempo são muito mais do que isso. Falam de tanta coisa que, às tantas, queremos lá ficar muito tempo. Foi assim que no domingo fui “para os bosques”.
Depois de uma resolução de ano novo como há muito não tinha, consegui cumprir alguns sonhos antigos. Este domingo realizou-se mais um deles.
O primeiro a chegar foi o Nepinhas. Uma espécie de pontualidade britânica. Enquanto esperávamos fomos logo tratando de começar a planear o futuro almoço/jantar do antigo 10.º/11.ºB numa conversa que envolveu javali à mistura.
Depois chegou o Pedro no seu jeito natural que me lembra sempre os tempos em que foi o meu melhor amigo e que, por isso, me deixa sempre uma sensação agridoce a cada reencontro.
Por último chegou a Carla acompanhada pelo filhote. Trazia consigo um álbum de fotografias e uma caixinha também cheia de fotos e outras boas recordações. A tarde prometia. A foto que há mais de vinte anos tinha ficado gravada na minha memória, aquela que eternizou os momentos antes da minha entrada em palco em pleno Palácio de Cristal tinha sido finalmente trazida pela Carla.
E foi assim que passámos os quatro uma tarde inteira sentados à mesa a conversar.
Tudo o que a Carla trazia dentro daquela caixinha milagrosa foi apenas o acender o rastilho para todos os episódios engraçados que fomos recordando dos tempos em que partilhámos os mesmos corredores e até a mesma sala de aula. Partilhámos risos e saudades. Não tinha noção de que as fotos eram em tamanha quantidade. Foi bom ver imagens de passeios da escola, o interior da antiga sala de Religião e Moral, aquele festival vicarial e diocesano da canção que tanto me marcou (e que tinha tantas fotos que desconhecia).
Um pouco à pressa também mostrei algumas fotos que andam perdidas cá por casa mas haverá mais, certamente, a partilhar. Como alguns bilhetes que trocámos na altura e que ainda estão guardados religiosamente, e não é só cá em casa.
O tempo passou a uma velocidade vertiginosa. Nem sequer deu para tocar um bocadinho de piano a lembrar esses dias gloriosos. Mas é mesmo assim. Não se pode fazer logo tudo num primeiro reencontro.
Para um homem solitário como eu, ter, no mesmo domingo, reunidas três pessoas que, cada uma a seu tempo e à sua maneira, foram a certa altura da minha vida os meus melhores amigos, é algo digno de registo.
Os caminhos da vida são sinuosos e estreitos. Mas podem levar-nos a sítios que nunca ousamos sequer imaginar. A estes meus companheiros de domingo devo um agradecimento enorme por me terem levado, por um bom par de horas, até “aos bosques”. Porque só se é realmente livre quando se está com amigos. É este o verdadeiro tutano da vida.
Até um ano destes.

O meu concerto do Miguel Araújo

* Foto: Município de Arouca

Estava anunciado há muito. E desta vez trazia como brinde a participação dos bons amigos do Orfeão de Arouca. Marquei o meu lugar, dentro da minha cabeça, com muitos dias de antecedência.
Trabalhei até às 20h. Foi um corre-corre para conseguir passar por casa para jantar assim como quem bebe uma mini de penalty (os tais 5 minutos de whisky) e, quando dei por mim, estava já no carro a caminho do centro da vila com a Odete e os dois mais velhos: a Rita e o Tiago. Sim, porque o André ainda só tem dois aninhos e ia ser muito difícil segurá-lo por tanto tempo. Ficou com a avó.
Depois de uma voltinha nos carrosséis (depois voltamos cá no final do concerto, ok?) a praça era o destino. Chegámos faltava ainda mais de uma hora para o concerto. Os degraus estavam quase vazios. Pudemos escolher o lugar com todo o cuidado. Depois foi só esperar e ver a praça a encher e reencontrar alguns bons amigos. Como sou um sortudo fiquei acompanhado pela Sandra e pelo Vítor que me tinham oferecido um duplo CD do Miguel Araújo quando me tornei um quarentão.
Começou a primeira batida. “Olha, vão começar pelo Fizz Limão”. Que melhor porta existiria para abrir numa viagem ao passado?!
A forma como o Miguel escreve volta a colocar-nos em lugares e situações da nossa vida mesmo sem nunca nos ter conhecido. E eu sou dos que mais gosta de voltar a estar lá. Mesmo que “1987” seja alusiva a uma Taça dos Campeões Europeus ganha pelo FC Porto. Os tempos do saudoso zx spectrum serão sempre de ouro.
Acho que o segredo do Miguel está em colocar-nos do lado de dentro das canções. É impossível não reconhecermos os nossos pais a cada vez que se nos é dado a ouvir a “Balada Astral”. Ou sentir o cheiro das festas de infância ao som da “Romaria das Festas de Santa Eufémia”. E tantas outras que desfilaram ontem pela praça Brandão de Vasconcelos em Arouca. Cada canção é como que uma viagem ao melhor de nós. Porque no meio de toda a nossa insignificância, todos temos as nossas melhores memórias e os nossos melhores amigos. Mesmo que se tenham perdido no tempo. E apetece sempre voltar. Se um dia se comprovar que teremos todos realmente uma forma de vida melhor do que esta, há-de ser feita com pedacinhos assim. Porque como diz o Miguel, “o Fizz Limão há-de voltar”.
Houve ainda tempo para me voltar a apaixonar pela Odete já no encore final ao som dos “Aviões” num retrato perfeito do que pode ser a afeição que temos por quem amamos.
O concerto acabou ao som dos “Maridos das Outras” que deixa as mulheres histéricas. Eu vejo a coisa pelo outro lado. Tirando a Odete, para as outras mulheres eu também sou um “marido das outras”. E ter tanta mulher assim a desejar-me, ainda que indiretamente, não pode ser assim tão mau... Eheheh!
Regressamos aos carrosséis. Pelo caminho vou ainda a remoer o concerto. É por isso que ainda não acabou. Só acaba quando desligo completamente.
Como todos os concertos há sempre aquelas canções que gostaríamos de ter ouvido e ficaram de fora. As ausências do “Capitão Fantástico”, da “Canção do Ciclo Preparatório” que gosto tanto e, sobretudo, do “Axl Rose” são imperdoáveis.
Sabes Miguel, estive lá no Coliseu quando cantaste com o Zambujo e esgotaste aquilo aí umas 354 vezes. Com a minha Odete, marquei presença no “primeiro”. No original. Quando ainda não estava previsto mais nenhum. Onde até cantaste o “Bohemian Rhapsody” dos Queen, o meu grupo de eleição. Continua a dar-nos as tuas canções. As letras parecem decalcadas das linhas da minha vida. Eu vou seguindo atentamente. Sempre à espera de novas portas para voltar à minha infância. Para voltar àqueles amigos do tempo em que, como dizias ontem, os jogadores tinham as fraldas de fora, as meias para baixo e depois de um sprint já não recuperavam. Dizias tu que esse é que era o verdadeiro futebol. Digo eu que esses é que eram os verdadeiros amigos. Como aquele que encontrei nos carrosséis depois do concerto. 
Obrigado Miguel. Fazes com que eu seja um eterno apaixonado pela vida que podia ter tido e, sobretudo, pela vida que escolhi.
Obrigado Orfeão de Arouca. Gente boa e amiga que serão sempre um orgulho para as suas gentes.
Obrigado João Martins pelos arranjos. Um dia vou compor e orquestrar também assim.
Obrigado Miguel.
E, claro, obrigado Odete, Rita e Tiago. Pela companhia. Por ontem e pela vida toda.

A Banda Juvenil da Banda Musical de Arouca de 1984


Fazer parte da Banda Musical de Arouca foi uma das coisas mais marcantes que aconteceram na minha vida. Tão marcante que ficará para sempre. Ainda que tenha deixado em 2016 de ser músico e que, por esse motivo, não faça já parte do respetivo grupo fechado existente no facebook. Mesmo fazendo parte dos órgãos sociais como elemento do Conselho Fiscal.
Não sei ao certo o dia nem os pormenores que estiveram na base da criação da Banda Juvenil da Banda Musical de Arouca. Sei que o registo fotográfico mais antigo que conheço e que muito justamente está perpetuado numa das paredes da casa de ensaio, data de 1984. Terá sido a primeira formação. Foram aqueles rostos que me acolheram, a mim e a tantos outros, no final da década de 80 quando dava os meus primeiros passos como músico filarmónico.
Na altura de recordar, aquela em que de forma consciente mais nos sentimos gratos, há um nome que é transversal a tudo e a todos: Valdemar Noites. Aquele que terá sido o principal responsável pela riqueza desse alfobre em boa hora plantado.
Mas, talvez seja melhor começar esta história pelo início. Corriam os primeiros dias do mês de agosto ou talvez ainda os últimos do mês de julho. O telemóvel toca e o número não me é familiar. Atendo e do outro lado está uma voz alegre e amiga à minha espera. “A malta vai juntar-se e desta vez tens que vir”. Apesar da minha reserva inicial (uma vez que não fiz parte da primeira formação de 1984) acabei por ceder à insistência (o que não foi nada difícil, bem pelo contrário) e aceitei o convite. O dia combinado foi o de 14 de agosto, uma terça-feira. Aquele que, a fazer fé nas palavras dos mentores da ideia (uma vénia a todos eles) seria o mais apropriado para juntar o maior número de amigos dessa data. Foi assim que se desenhou a minha presença nesse encontro de gente que é mais gente porque é assim. E ainda bem.
Cheguei cedo. Gosto de cumprir horários. À minha espera estavam o Morre em Pé, a Linita, o Galório e o Mascote. Como praxe tive direito a uma música (brindaram-me com o Bohemian Rhapsody dos Queen. Sou um sortudo), uma cerveja e uma selfie. Um procedimento que se viria a repetir a cada elemento que chegava. Cada um com a sua música personalizada. Fui-me emocionando aos poucos para que não transparecesse cá para fora. Assim como uma criança que joga às escondidas da forma mais simples e inocente que é capaz.
Entre muitos reencontros, muitos risos, muito vinho e cerveja, houve amizade. Não fosse o Mauro marcar presença e seria eu o mais novo da noite. Isso pode ajudar a explicar a enorme gratidão que sinto pois foram esses (e outros que não estiveram nessa noite) que me transmitiram há muitos anos valores que transporto comigo com o orgulho próprio de quem tem consciência do muito que a vida trouxe. Ter a oportunidade de conversar com o Pinheiral, o Tozé ou o Nino, reconforta a alma de qualquer mortal.
Com o avançar da noite o vinho era cada vez menos e os risos eram cada vez em maior quantidade. Falou-se no “enterrado”, partilharam-se gravações da Banda Juvenil em 1989, creio, (dessa eu já fazia parte) e, do nada, apareceram os mais variados instrumentos para cada um exibir os seus dotes. Ouviu-se o clarinete, o piano, a guitarra e até o trompete onde o Lameiras procurou toda a noite pelas notas da melodia da novela “O Astro” onde o Tony Ramos interpretava um trompetista. Tudo acompanhado da dose certa de boa disposição.
Depois, diziam, era da praxe fazer alguns discursos com palavras de circunstância. Houve quem os fizesse em francês ou russo o que, para a ocasião, até talvez fosse o mais apropriado. Na qualidade de elemento que marcava presença pela primeira vez tive também de cumprir o meu dever de dizer algumas palavras. Tenho pena de não ter conseguido transmitir tudo o que me ia na alma naquele momento mas penso que o principal da mensagem chegou ao destino. E foi durante estes discursos que vivi o momento mais emocionante da noite ao ouvir as palavras do Tozé. Lembrar as idas à ópera do amigo Pinga toca bem fundo cá dentro. Mas houve uma frase que me ficou a martelar durante dias: aquela gratidão por “naquele tempo haver gente que disponibilizava o seu tempo para, gratuitamente, educar os filhos dos outros”. Essas palavras ficaram, amigo Tozé. Jamais as esquecerei. Estarei eternamente grato a toda essa gente.
Acho que essa noite me tocou especialmente por me ter trazido de forma mais clara e consciente o motivo principal pelo qual estou grato. E não tem a ver com cultura ou sabedoria. Tem a ver com amizade. A diferença entre as duas está no facto de me terem encorajado desde tenra idade, não a ser melhor do que ninguém mas a ser a cada dia, melhor do que mim mesmo.
Obrigado Vítor pelo convite e pela amizade.
Obrigado Valdemar. Como diria um desses “ex-músicos” nesse mesmo jantar ao querer de ti dizer muito: “O Valdemar é um autêntico cabeça-de-série”.
Creio que a expressão procurada seria “fora-de-série” mas, como na medicina, o nome do remédio pouco importa. O que conta é o efeito que provoca. E, neste caso, a mensagem passou perfeitamente. Porque é facilmente reconhecido por todos. 
Obrigado Banda Juvenil de 1984.
Obrigado Banda Musical de Arouca.
Continuem assim grandes. Só assim poderei acreditar que um dia serei também maior.

Arouca, 11 de setembro de 2018
Cebolinha

Um adeus à Universidade de Aveiro

Tudo começou há cinco anos atrás.
Os tempos de conservatório há muito tinham passado. Depois de muitos anos sem estudar música decidi aventurar-me num sonho antigo. O desejo de alargar os horizontes do saber falou mais alto e, quando dei por mim, estava em Aveiro numa “aula aberta” de composição a ver se o sonho tinha pernas para andar. Foi aí que conheci a Sara, aquela que eu ainda não sabia, mas que haveria de ser a minha professora de Composição Livre ao longo de cinco preciosos anos e que foi o meu principal apoio ao longo de todo este percurso. Aquilo a que nas escrituras chamam de “pedra angular”.
A Odete foi a principal impulsionadora de tudo isto e, assim que a decisão de fazer os pré-requisitos foi tomada, aconselhei-me com o amigo Ivo que deu o pequeno empurrão que faltava a quem já ia mesmo no fundo da descida do sonho.
Não foi um início fácil. Apesar do 15,4 na prova de admissão, como concorria como titular de um curso superior (Matemática), as vagas eram “diferentes”. Foi assim que as coisas não correram bem logo à primeira tentativa. Éramos vários candidatos nessas circunstâncias pelo que não fui o selecionado para a única vaga existente. Tive de adiar o sonho por mais um ano. E assim foi. Voltei a repetir a prova (embora a nota não contasse absolutamente para nada), desta vez com direito a um 17,4. Felizmente as vagas eram em maior número e consegui ter acesso à frequência da Licenciatura em Música – Composição.
Quis o destino que as minhas companheiras de aventura fossem todas meninas. Juntaram-se a mim, nesse primeiro ano de Composição, a Filipa, a Sveta e a Daniela. Mesmo em DTFM, cujos alunos de 1.º ano tinham bastantes aulas apenas connosco, também eram só meninas. Como o mundo é pequeno, uma delas, vim a descobrir pouco depois, era neta do Sr. Mário de Urrô, por isso, gente de bem. Havia também os colegas de composição de outros anos que tão bem nos acolheram. E haveriam ainda de surgir os colegas de composição nos anos seguintes, como o Tota, o Zé, o Lucas ou a Patrícia.
Nunca esquecerei o meu primeiro dia na Universidade, com uma aula de coro com o Prof. Lourenço (um joia como professor e como pessoa) e com uma aula de Leitura Atonal com o Prof. Vasco Negreiros, a pessoa mais rigorosa que conheço no que diz respeito a horários e afinação. O que eu muito admiro e que me fez aproveitar ensinamentos para a vida. Muitas das suas histórias cómicas ainda estão na minha memória.
Não posso agora enumerar todos os episódios que me recordo. O texto ficaria incrivelmente longo e perderia grande parte do pouco interesse que, por si só, já desperta. Mas há alguns momentos ou pessoas que gostaria de recordar aqui.
A pessoa com quem mais aprendi chama-se Daniela. Mesmo tendo cometido a pequena traição de ao fim de um ano se mudar para a equipa dos pianistas. Uma pessoa que aprendi a admirar e que fez com que este meu trajeto corresse de forma mais natural e menos solitária. Mesmo quando foi para Itália. Vou ter saudades das nossas conversas. Foram poucas, mas foram boas.
É impossível não lembrar o Jean-Claude van Damme da música eletrónica: o grande professor Filipe Lopes. Ele, que muito carinhosamente nas aulas me chamava Brandão (“É verdade ou é mentira?”). O verdadeiro John McClane do mundo da música.
O dia em que fui jantar com outros colegas de Arouca a casa do professor Evgueni também deixou marcas. Não foi fácil chegar a casa nesse dia. Como se costuma dizer, eu bem me encostava à parede mas ela não parava quieta... Eheheh!
Lembro também a primeira edição do “Sons do Imaginário” onde foi estreado o meu “Bailado” para piano solo. Lembro-me de levar doces conventuais de Arouca para o público se ir entretendo no intervalo. Felizmente há um registo em vídeo dessa interpretação.
O Sérgio foi também um ótimo colega, um rapaz extraordinário que me passou “resmas de gigas” de bancos de sons para usar no meu mac ao fazer música.
Há também o Sr. Veiga, o Sr. Vítor e o Sr. João e, principalmente, a D. Conceição que partiu cedo demais e que me perguntava frequentemente pelos meus pequenotes enquanto limpava o Auditório mesmo antes de uma aula de Projetos Multidisciplinares.
Lembro também o primeiro trabalho de grupo em que me vi envolvido, sobre a obra “Vathek”, com colegas que deixam muita saudade.
Há ainda as aulas partilhadas com o amigo Daniel, um conterrâneo que fez por estes dias o seu Recital de Mestrado. Um orgulho para todos os arouquenses.
Como trabalhador-estudante, o percurso foi muito acidentado e cheio de dificuldades. Com a Área Vocacional repartida por todos os dias da semana e com presença obrigatória, era impossível, a quem não se pode deslocar todos os dias à universidade, fazer melhor. A aprovação em muitas das disciplinas foi conseguida sem ter sequer frequentado uma aula. Isso exigiu uma maior preparação e dedicação em casa. Por isso é lembrado com um sorriso suave o 20 conseguido a História, por exemplo, mesmo sem ter assistido a uma única aula.
Deixa também muita saudade o processo de composição da minha peça “Reborn” para trompete. Foram dias a testar sonoridades com o amigo Fábio cujo resultado final acabou por ser bastante satisfatório.
A quem estarei também eternamente grato será ao Romeu que deu vida à minha “Drave” para guitarra, talvez a peça que me é mais querida. E aquele dia em que o Berény quis que eu ouvisse a sua interpretação da minha “Zigurat” para guitarra também me marcou. Pudesse eu ser também assim enorme e era um homem feliz.
Lembro também a oportunidade que tive de atuar em pleno multiusos de Gondomar com uma banda de tributo aos Queen onde tive o privilégio de tocar “campainha” na Bicycle Race, honra que devo à amiga Inês que será um dos rostos que ficará gravado na minha memória para sempre. Também pela sua beleza mas, sobretudo, porque parece também apreciar a boa música dos Queen e isso, claro está, revela muito bom gosto.
Há também aqueles colegas que aprendemos a admirar e que tentamos seguir como modelo desde o primeiro dia. Por isso o Bernardo fará sempre parte das melhores memórias e serei sempre um seguidor atento do seu percurso.
Foi bom também o dia em que soube do meu prémio num concurso de composição que me levou até à Gulbenkian em Lisboa onde encontrei também gente conhecida. Esse modesto prémio fez com que a minha foto aparecesse também no “muro da fama” da universidade junto de outros colegas premiados, esses sim, com um valor enorme.
Há também memórias de alguns jantares (eu sei que não fui a muitos) onde a animação reinou, e de que maneira.
Ao longo destes anos foram muitas as viagens para Aveiro em conjunto com os meus sobrinhos ou com outros amigos de Arouca que tive o prazer de transportar no meu carro e que ajudavam a que as viagens passassem de forma mais animada.
Uma das memórias que mais se entranhou em mim foi aquele dia em que me disseste: “És uma pessoa boa”. Porque isso é o que realmente tem valor e foi a principal lição que recebi, desde cedo, dos meus pais. Lembro-me de te ter dito que o meu segredo era ser feliz com pouco, embora também fosse capaz de ser feliz com muito. E sorrimos.
Não posso deixar de agradecer também às minhas entidades patronais que desde a primeira hora, dentro do razoável, me deram liberdade para moldar o meu horário por forma a conseguir frequentar as aulas mais importantes. Por isso, é justo deixar aqui um agradecimento público à Dra. Isabel Bessa que trago no meu coração, à Prof. Teresa Miller que tanto apoio me deu desde sempre, ao Prof. Edgar por todo o incentivo e disponibilidade e ao Prof. Sérgio Carvalho por toda a compreensão, mesmo quando me via pelos corredores da Academia com calhamaços de livros a estudar. Os meus colegas de trabalho, primeiro na Biblioteca Municipal e depois na Academia de Música, também foram muito importantes pois demonstraram sempre disponibilidade total para me substituir quando necessitava de deslocações extra à Universidade.
Muitos outros mereceriam ser mencionados. É impossível agradecer aqui a todos os que fizeram parte deste meu discreto percurso.
Para o fim deixo três agradecimentos especiais.
O primeiro vai para a professora Sara Carvalho. Mais do que uma professora, foi um pilar importante neste meu percurso universitário. Compreendeu a minha condição de vida e ajudou-me muito neste sonho que não foi fácil mas que, felizmente, chegou a bom porto. Estarei eternamente grato por todos os sábios ensinamentos que me deu. É com uma satisfação especial que vejo que a minha última aula na universidade foi uma aula de composição no dia 5 de julho às 18h30. Felizmente, tive oportunidade de fazer este agradecimento sincero, pessoalmente. Uma boa forma de concluir o meu percurso universitário.
O segundo agradecimento vai para os meus pais. Este, para além de meu, sempre foi um sonho da minha mãe que não percebe nada de música. Devo ao meu pai quase tudo do que são as minhas bases musicais. Foi ele que me iniciou no estudo do piano com aulas diárias lá em casa. Tenho a certeza que é um orgulho para eles eu ter concluído esta etapa, mesmo que tenha sido já à porta dos 42 anos. Mesmo que a minha mãe esteja agora à mercê do Alzheimer e, muito provavelmente, esqueça essa boa nova um minuto depois de a ter recebido.
O último agradecimento vai para a Odete e para os meus três filhotes.
A Odete foi a principal responsável por eu ter tido a coragem de perseguir este sonho. Voltar a estudar aos 37 anos, depois de uma licenciatura “das antigas” em Matemática, depois de ter sido professor, depois do “desemprego”, depois de ser funcionário na Biblioteca e, mais tarde (e que ainda se mantém), auxiliar de educação educativa na Academia de Música de Arouca, e depois de três filhos maravilhosos que merecem um pai a tempo inteiro, revelou-se um desafio muito maior do que seria de supor, à partida. Não fosse o enorme apoio da Odete que, diga-se em nota de rodapé, ainda me incentivou a prosseguir para o Mestrado, e eu nunca teria conseguido. No entanto, o Mestrado pode esperar. Muito provavelmente, vai esperar a vida toda. A minha família merece um pai presente e, no sentido inverso, eu também mereço a minha família. Gosto muito de brincar. Vai ser bom voltar a fazê-lo de forma completamente livre.
Muito obrigado, Odete.
Agora é aproveitar o tempo livre que vai surgir, também para compor. É aproveitar o não ter de ir trabalhar das 9h às 22h com uma hora de almoço e outra para jantar para conseguir um dia livre para ir à universidade. É tentar conseguir um horário em que se chegue a horas decentes a casa, ainda a tempo de brincar com os filhos.
Mais uma etapa concluída na minha modesta vida onde aquele menino que no 6.º ano teve nota 5 a todas as disciplinas com exceção de trabalhos manuais, é apenas um simples auxiliar de ação educativa, mas com a clarividência necessária para alargar o conhecimento. Porque esse, não ocupa lugar.
Agora, deixem-me ficar no meu cantinho e tentem não abusar da minha boa vontade. Porque eu também mereço um bocadinho de descanso.
As férias aproximam-se. Ainda bem. Há tantas coisas em lista de espera que vou aproveitar para fazer. Ouvir Queen com o som no máximo é uma delas.
Um obrigado a todos os que não foram mencionados mas que, de uma forma ou de outra, fizeram parte deste meu percurso. A todos estou muito grato.
Até já.

Miguel

O meu concerto dos Queen

Corria o ano de 1985.
A livraria Ferreira era ainda em frente à praça. Era lá que, juntamente com o meu irmão, comprava carteiras de calendários de Fórmula 1. Uma coleção da Impala com um total de 76 calendários e que o meu irmão, creio, ainda tem guardada de forma imaculada. O meu irmão sempre foi um ídolo para mim. Ensinou-me e viveu comigo muitas das melhores coisas que vou levar desta vida para a eternidade. O fascínio pela Fórmula 1, e pelo Nelson Piquet em particular, é uma delas. Mas essa não era a única coleção disponível na altura. Na livraria Ferreira havia uma outra coleção de calendários, também da Impala: “The Top Disco Stars”. Essa ficou a cargo da minha irmã Cristina. Eram, ao todo, 81 calendários. Na altura, aos sábados, passava na televisão o programa “Top Disco” onde se podiam ver as tabelas de vendas. Embora não fosse ainda um fã de música, gostava de tentar adivinhar quem estaria a liderar a tabela. Não, não me lembro de ver os Queen. Mas lembro-me muito bem de “I Just Called to Say I Love you”, “Last Christmas”, “Nikita”, “Still Loving You” ou “We Are the World”, por exemplo, terem liderado a tabela dos mais vendidos. Por isso também me interessava por essa coleção. Lembro-me que alguns dos meus preferidos eram alguns dos mais extravagantes, mesmo sem lhes conhecer qualquer música. E é aqui que surge a minha primeira memória dos Queen. A foto escolhida, ao contrário da maioria dos outros artistas, era de um concerto ao vivo onde o Freddie aparecia deitado no chão a cantar. A imagem nem sequer estava muito nítida. Lembro-me de dizer à minha irmã que aquele calendário não era grande coisa ao que ela me respondeu: “o calendário pode não ser mas olha que eles têm músicas fixes”. Esta será a memória mais antiga que tenho dos Queen.
Mas, vamos ao concerto...
Dizem que foi no dia 7 de junho na Altice Arena mas, na verdade, esse concerto, para mim, começou muito antes. Pelo menos, há muito tempo que vinha a ser preparado. Creio que esse início se deu em 1991. Foi quando despertei para a música e, em particular, para os Queen.
Gosto muito do ano de 1991 pois traz-me de novo o Sérgio, o Tono e o Pedro. Eram os meus amigos inseparáveis. Éramos os verdadeiros quatro cavaleiros do Apocalipse. Partilhámos um sem número de aventuras que, a fazer lembrar as palavras da Carolina Deslandes, julguei durarem para a vida toda. Brincávamos juntos na Escola, andávamos juntos no Grupo Coral, no Grupo Cultural e Recreativo de Rossas, na Banda Musical de Arouca e até no extinto Grupo de Jovens onde, em 1994, cantámos aquela saudosa canção da Sara no Palácio de Cristal.
O meu pai tinha comprado um leitor de vídeo e não demorou muito a que eu começasse a seguir os conselhos do amigo Pedro. Foi ele que me colocou o bichinho de ver o Top+ aos domingos ao início da tarde onde costumava gravar os melhores videoclips para rever as vezes que quisesse. Quis o destino que na primeira vez que vi o Top+ com o vídeo prontinho a gravar passasse o videoclip da “Bohemian Rhapsody” dos Queen. Fiquei completamente rendido. Não apenas a uma música mas a toda uma obra. O Freddie acabaria por morrer em novembro desse ano e as vendas dos “Greatest Hits I e II” dispararam. Não tardou a que ocupassem os dois primeiros lugares dos tops. Lembro-me de pensar: “agora que os descobri é que isto acaba”?!! Não podia estar mais enganado. Estava apenas a começar. Havia tanto a descobrir. Apenas tinha de fazer o caminho ao contrário. E assim fiz. Felizmente ainda não havia internet e isso fez com que as coisas fossem aparecendo a um ritmo natural. Aos poucos fui descobrindo mais uma e outra canção. E mais outra. E mais outra...
E eu creio que, para mim, o concerto do dia 7 de junho começou aí, em 1991. Por isso, talvez não seja exagerado dizer que terei sido o primeiro a chegar à plateia. Muito antes de ter entrado no comboio com a Odete.
Quando os Queen e o Adam Lambert estiveram no Rock in Rio em 2016 ponderei ir ver mas, confesso, o facto de não ter o Freddie nem o John fez-me ficar “de pé atrás”. E depois, pensava eu, vou ficar tão longe do palco que, para ver apenas uns pontinhos lá ao fundo a mexer, não vale a pena. A verdade é que, às vezes, as boas memórias devem ser deixadas em paz para que as consigamos guardar da forma imaculada que as recordamos. Nesse dia, em 2016, assisti a todo o concerto na sic radical, em direto, deitado na minha cama. À medida que o concerto avançava dei comigo a desejar estar lá. Como poderia ter falhado? O concerto estava a ser bom e eu, um dos maiores fãs, tinha resolvido ficar em casa.
Até que veio esta oportunidade do passado dia 7 e eu, desta vez, não podia falhar. Mesmo que só me tivesse realmente decidido nos últimos dias. Até a mãe de um dos meus amigos de infância, a Dona Eduarda, me ofereceu dinheiro para o bilhete. Como poderia colocar a hipótese de não ir?!
Foi o melhor concerto da minha vida. Sem jantar para conseguir um lugar perto do palco soube, assim que entrei na Altice Arena, que aquele ia ser “o dia”. Afinal de contas estava só a meia dúzia de metros do palco. Aquele onde dali a pouco iriam estar o Brian e o Roger. Meio sonho de uma vida ia ser cumprido. Do lado de fora tinha já cumprimentado o Sérgio, não o da minha meninice, mas o outro, o de Chave, que fez teatro comigo e agora é profissional da arte em Lisboa. Já devidamente instalado recebo mensagem da amiga Catarina que também está do lado de dentro da Arena (e, sejamos justos, do lado de dentro dos Queen) e procura saber de mim. Infelizmente estamos em lados opostos pelo que o encontro foi impossível. E como eu gostaria de ter partilhado com ela algumas das músicas...
Antes de ouvir os primeiros acordes tento adivinhar na minha cabeça as canções que me serão dadas a ouvir dali a pouco. Dizem que o concerto celebra ainda os 40 anos do álbum “News of the World” e eu penso que é desta que vou ouvir “Spread Your Wings”, uma das minhas canções favoritas. Infelizmente essa profecia não se veio a concretizar.
Na minha bolsa de apostas, “Hammer to Fall” iria iniciar o concerto. Tiro ao lado. Nem sequer seria tocada naquela noite.
Até que o estrondo começou tendo o palco surgido após aparecer a imagem do tal robot que foi capa desse álbum de 1977 a dar um murro virtual naquilo tudo. Um espetáculo visual e sonoro que me deixou com a boca aberta largos minutos. De tal forma que quando dei conta “Tear it Up”, “Seven Seas of Rhye” e “Tie Your Mother Down” tinham já passado num ápice.
Num concerto onde tudo foi bom é difícil destacar alguns pontos. Mas o primeiro verdadeiro ponto alto talvez tenha sido com “Don’t Stop Me Now”. Por momentos corpo e alma separaram-se. No palco não estavam os Queen. Estava, isso sim, aquela cassete que me gravaste em 1991 onde este “Don’t Stop Me Now” era ouvido em modo "repeat" enquanto pensava na menina que amava em segredo.
Ainda eu não tinha recuperado o fôlego e surge o Adam a cantar “Bicycle Race” sentado em cima de uma bicicleta e eu a lembrar-me daquele concerto onde tive o privilégio de estar em palco com uma banda de tributo em que me pediste para tocar campainha nessa mesma canção.
Haveria de chegar pouco depois “I Want it All” e eu passei o tempo todo a recordar aquele aniversário onde me deste as cassetes de vídeo “Greatest Flix I e II” que me fez descobrir novos videoclips que até então desconhecia completamente.
Por mim o concerto podia ter parado já ali que tinha valido a pena. A emoção estava em alta e o Brian desarma-me completamente com o “Love of my Life” que me remete para um momento único com a Odete, algures em 1996. Descobri esta canção apenas em 1992, quando saiu o álbum “Live at Wembley 86”. Desde essa altura tentei, deitado no sofá de minha casa, com o som no máximo, de olhos fechados, estar “lá” a cantar. Passados todos estes anos consegui cumprir o sonho.
E os êxitos foram-se seguindo, um após outro, num concerto de sonho.
Quando “Bohemian Rhapsody” chegou já eu tinha lembrado várias vezes nessa noite aquele dia em que comprei o álbum “A Night at The Opera” na 31 de Janeiro em que abrimos o CD com aquela curiosidade descontrolada para vermos a letra da canção na íntegra.
Como era previsível, o concerto fechou com “We Will Rock You”, “We Are The Champions” e “God Save The Queen”.
Houve tempo para o Freddie aparecer “virtualmente” várias vezes levando a plateia ao rubro.
Saí da Altice Arena com a sensação de dever cumprido. Embora tenha ficado bastante triste por em nenhum momento da noite se ter falado no John. Nem uma imagem. Nem uma palavra sequer. E isso não se faz. E bem que o poderiam ter feito quando tocaram alguns dos êxitos que saíram da sua cabeça.
Deitado na cama do hotel, ainda em transe, agradeci interiormente cada momento daquela noite. Agora posso fechar definitivamente a porta da minha adolescência. Posso fechar a porta àqueles que foram os dias da nossa vida.

"Sometimes I get the feelin'
I was back in the old days - long ago
When we were kids when we were young
Things seemed so perfect - you know
The days were endless we were crazy we were young
The sun was always shinin' - we just lived for fun
Sometimes it seems like lately - I just don't know
The rest of my life's been just a show"

Para os curiosos, aqui fica o alinhamento do concerto:

Tear It Up
Seven Seas of Rhye
Tie Your Mother Down
Play the Game
Fat Bottomed Girls
Killer Queen
Don’t Stop Me Now
Bicycle Race
I’m in Love With My Car
Another One Bites the Dust
Lucy
I Want It All
Love of My Life
Somebody to Love
Crazy Little Thing Called Love
Under Pressure
I Want to Break Free
Who Wants to Live Forever
Last Horizon
The Show Must Go On
Radio Ga Ga
Bohemian Rhapsody
We Will Rock You
We Are the Champions
God Save the Queen
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Memórias da Adolescência a reboque do Karate Kid

A primeira vez que entrei num cinema foi em Agosto de 1989. Tinha 13 anos.
Participava num Curso de Férias para Jovens Músicos organizado pelo INATEL e foi assim que, juntamente com alguns parceiros de aventura, tive a minha primeira noite de cinema. A escolha não era muito variada: ou optávamos pelo novo 007 ou pelo Karate Kid III. Acabei por me decidir pelo segundo. E foi assim que esta saga ficou marcada na minha vida tendo eu feito o caminho da trilogia no sentido inverso. O capítulo II vi-o na televisão tendo-o revisto algumas vezes na cassete de vídeo com que fiz a respetiva gravação e que ainda guardo cá em casa, no sótão, no baú das boas memórias. O primeiro capítulo também haveria de ser gravado. Mas para isso a tarefa requereu um pouco mais de esforço. Foi preciso alugar o filme no saudoso clube de vídeo. Depois foi só juntar dois leitores de vídeo: o do meu pai e o do amigo Pedro.
Sempre que lembro esta saga recordo um sem número de momentos da minha vida que jamais trocaria por quaisquer outros.
E porque vos falo disto hoje?
Porque ontem, por mera casualidade e felicidade, ao fazer zapping, apanhei o "The Tonight Show" com o Jimmy Fallon. E adivinhem quem era um dos convidados... Isso mesmo: Ralph Macchio, o famoso Daniel Larusso do Karate Kid. Continua com cara de menino mas o rapaz nasceu, imagine-se, em 1961. Estreia hoje, no Youtube Red (não disponível em Portugal) a série Cobra Kai onde volta a dar vida a Daniel Larusso tendo como rival o mesmo opositor do primeiro filme de 1984.
Quando eu tiver um bocadinho de tempo espero conseguir colocar as mãos na série para lembrar bons momentos.
Para os mais saudosos (como eu) aqui fica o trailer da nova série.
Beijinhos e abraços e desculpem lá este meu pequeno devaneio.