A melhor turma de sempre

Há algum tempo atrás li um artigo fantástico na revista “Pushstart” que me deixou bastante intrigado. Chamava-se, creio eu, “O melhor videojogo de sempre”.
Hoje, num dia em que as memórias parecem vir ter comigo como quem combina um encontro ao final da manhã, resolvi escrever algumas linhas sobre "a melhor turma de sempre". E, para isso, tenho de começar pelo início.
Era ainda muito pequenino. Tinha apenas 5 anos de idade quando fui inserido numa turma. Eram os tempos da escola primária. Cedo comecei a frequentar uma das salas da parte da manhã e outra da parte da tarde. Ter o Eduardo e o Paulo Daniel como colegas de carteira não é um privilégio para qualquer um. Jogava-se ao “bate-fica rir” ou à macaca, brincava-se com os Estrunfes, via-se o D’Artacão ou os Jovens Heróis de Shaolin (que saudades...), faziam-se corridas de Fórmula 1 dando castanholas em caricas que seguiam de forma veloz pelo circuito previamente traçado na terra com uma pequena tábua. Em cada brincadeira éramos, sem qualquer sombra de dúvida, os heróis de banda desenhada ou até de carne e osso que víamos em casa pela televisão. E depois tínhamos aqueles heróis maiores que se chamam “os nossos professores da Escola Primária” que deixam em cada um de nós uma saudade e gratidão eternas. Até aí a vida também me sorriu ou não tivesse eu sido pupilo tanto do meu pai como da minha mãe. Na sala de cima, na que ficava do lado de lá, o professor era o melhor do mundo. Mesmo quando puxava da cana para corrigir as nossas imperfeições. As minhas memórias davam para um bom livro, acreditem, mas hoje não há tempo para isso. Nessa sala de cima tinha o Pedro “Neca” que me deu uns carrinhos de plástico para o deixar copiar nos ditados. A gente fazia cada negócio... E nos intervalos, quando não se andava para trás e para a frente com os carrinhos naquele muro que separava o recinto da escola do da cantina, jogava-se futebol como autênticos profissionais. Ainda que no lugar das balizas estivessem pedras e alguns remates não dessem golo porque o guarda-redes “não lhe chegava”.
Sem dúvida, nesses gloriosos anos 80, com esses maravilhosos colegas que me acompanharam até ao ano letivo de 85/86, formámos a melhor turma de sempre. Disso eu não tenho qualquer dúvida.
Até que se deu a transição para o ciclo e o ingresso, primeiro no 1.º J e depois no 2.º I. Aos amigos que me acompanhavam da primária juntaram-se outros igualmente espetaculares vindos da freguesia de Várzea. Jogar bola na mata era delicioso. Tínhamos o Carlos “Ovelha” que jogava futebol de forma habilidosa, o José Carlos que era um rei no basebol e o Bruno que agora preside à AECA e que na altura era um rapazinho como todos nós, já com um humor muito refinado e com um talento para o futebol de fazer inveja a qualquer um. Costumava trazer uma bola de couro (na altura estava apenas ao alcance dos felizardos) azul e branca que usávamos com frequência para jogarmos às “31 janeiras”. Delicioso. Tínhamos o saudoso professor Alípio a Matemática que cantava baixinho pelos corredores e a nossa Diretora de Turma, Filomena Maximiano, professora de Estudos Sociais e de História. Lembro-me de termos feito uma peça de teatro na disciplina de Português cujo guião ainda tenho em casa. Lembro ainda os amigos Rui, Tono e José Carlos de Rossas, este último com especial carinho pois pedia frequentemente 12$50 para comprar um pão com marmelada com um timbre de voz que lhe é muito característico. No dia seguinte, escrupulosamente, saldava sempre a dívida. Pequenino em estatura, mas enorme em personalidade. E eu fui-me deliciando e aprendendo para a vida com tudo isso. Foi ainda o tempo de ter meninas novas na turma como a Joana ou a Carla que recordo com grande carinho. Sobretudo esta última pois foi o meu primeiro amor de meninice. Lembro-me de dizermos que éramos namorados ainda que isso implicasse apenas dar a mão de vez em quando e sempre com o maior respeito. E trocávamos bilhetinhos naquelas folhinhas que estavam na moda por essa altura e que as meninas gostavam de colecionar. E, se me permitem, até fazíamos um lindo par. Por tudo isto, reconheço que estava enganado. O leque de amigos era muito mais alargado, tínhamos mesa de ping-pong, as notas eram boas e até tinha direito a um primeiro amor. O que poderia ser melhor do que isto? Afinal esta é que era realmente a melhor turma de sempre.
Até que veio o ano letivo de 1988/89 e mudei-me para o liceu. Ao 7.º I, 8.º F e 9.º E, juntaram-se agora amigos da freguesia de Chave. Tínhamos agora o Armando, o Luís e o Abílio. E o mítico Freitas com quem partilhei tantas vezes a carteira e que me trouxe das melhores aventuras que vivi na minha vida. E havia também a Helena com quem terei namorado (leia-se, partilhar o lugar no autocarro e dar a mão aqui e ali) durante algumas semanas. Nesse 7.º ano, na lição 100 de português a Helena trouxe o Cluedo e divertimo-nos imenso a jogar no bufete. Sim, aquele bufete onde ainda se podia jogar à sueca, as cadeiras eram velhas (tinha uma que só tinha 3 pernas, lembro-me bem) mas em grande quantidade e era uma delícia todo aquele convívio numa sala que fazia jus ao nome. No bufete vendiam-se bollycaos ou donetes cuja coleção de autocolantes andou colada na minha capa durante largos anos. No 9.º ano tínhamos também o Paulo “Rato” que era um ótimo reforço para os jogos de “turma contra turma” e tivemos também uma Diretora de Turma que nos levou a ver o “Clube dos Poetas Mortos” que ajudou a mudar a minha vida e à qual estarei grato para sempre. Mesmo sem me recordar do nome dela. E depois havia aquela invasão de zx spectruns e televisões com as mais recentes novidades do clube de vídeo quando as eleições para a Associação de Estudantes se aproximavam. Como era possível ter tornado a enganar-me? Mas, agora sim. Todas as dúvidas estavam dissipadas. Esta era, definitivamente, a melhor turma de sempre.
Até que chegou o ano letivo de 1991/92 e transitei para o 10.º B e, no ano seguinte, para o 11.º B. Agora éramos grandes. Ou por outra, eu continuava pequenino, mas tinha agora colegas que já eram grandes e populares no liceu. O Neno é das pessoas mais espetaculares que conheci até hoje e ajudou-nos com o Cereja, o Paulo Bastos e o Rui Pedro, por exemplo, a vencer o torneio de futebol no ano de 1992/93. Tínhamos Produção Vegetal e Solos e Climas e tínhamos aulas ao ar livre com galochas calçadas e enxadas na mão. Aqui não houve namorada, mas havia a menina que se amava em segredo e que fazia o coração bater mais forte quando nos cruzávamos “acidentalmente” com ela. Foi por essa altura que me dei conta da felicidade que pode representar transportarmos alguns segredos apenas connosco. Foi também nesse período que tive a felicidade de participar nos ensaios do orfeão da escola que o professor Albino ensaiava com o maior brio no intervalo maior da manhã. Ainda andam no ouvido o “Va Pensiero” e a “Pompa e Circunstância”. Tudo isto deixou tantas marcas que estamos agora, finalmente, passados todos estes anos, a tratar do jantar que nos vai juntar a todos novamente. Já devem ter reparado... Mais uma vez, estava enganado. Agora sim, esta era, de facto, a melhor turma de sempre.
E entrámos no ano letivo de 1993/94. Agora as aulas eram só de manhã e as sextas eram livres. Com menos tempo na escola seria muito mais difícil criar laços. Isto, pensava eu... Nada podia ser mais errado. A forte amizade com o Nepinhas que tinha começado anos antes, solidificou-se de tal forma que se arraigou em mim para a vida toda. A Susana e a Carla entraram na minha vida. A Carla tornou-se de tal forma importante que nunca tinha encontrado uma amiga assim até então. As pessoas boas fazem-nos melhores. E esta turma do 12.ª A tinha tanta gente boa. Tanta. Sobretudo aqueles que estiveram lá desde o início do percurso como a Carminda ou a Patrícia e que me fazem a cada dia querer voltar a estar lá. Tudo parecia fácil. De manhã era-se a pessoa mais feliz do mundo com esses amigos. De tarde era-se também a pessoa mais feliz do mundo a ver o "Isto é Magia", o "Quantum Leap - O Viajante do Tempo", a "Ana Raio e o Zé Trovão" ou o "Com a Verdade M’Enganas" que agora, felizmente, está a repassar na RTP Memória. Talvez por isso eu me tivesse voltado a enganar. Esta é que era a melhor turma de sempre. Definitivamente. Ou não...
A verdade é que nos dias de hoje viajo frequentemente por estas boas memórias das melhores turmas de sempre que me acompanharam ao longo da minha vida e às quais tive o privilégio de pertencer. Trago comigo a mágoa de não ter as caras do “livro de ponto” de todas elas. É por isso que fechar os olhos pode ser um bom exercício. As coisas melhores da minha vida, aquelas que melhor lhe consigo tomar o sabor, as que me revolvem cá dentro, têm entrado em mim quando me encontram de olhos fechados. Dizem que assim se vê muito mais além.
Acredito que apenas quem vê mais além consegue chegar mais longe. É esta a minha esperança.
Obrigado a todos esses meus colegas por me fazerem fechar os olhos com frequência.

2 comentários:

Lola disse...

Delicioso! Tive o prazer de ser professora da turma em parte do secundário! Abraço de palavras!

Anónimo disse...

Ler estes textos faz-me recuar no tempo e, em parte, analisar como é diferente a infância do meu herdeiro... será que vale a pena tanta tecnologia?

...de Guimarães!