O Alexandre fez 50 anos

Olá Alexandre.
O tempo é o que é e não há muito a fazer em relação a isso. Ou se calhar há e por isso é que há pessoas que nos marcam mais que outras; depende do que fazemos no tempo que passamos com elas. Não sei.
É frequente viajar no tempo. Em muitas dessas vezes basta um raio de sol com o ângulo certo, um cheiro a Primavera, uma prata de rebuçado encontrada no chão ou um olhar fortuito sobre uma das árvores do antigo recinto da escola primária e logo os interstícios do cérebro se revolvem levando-me através de memórias de um tempo que deveria ter parado nele mesmo.
Há dias foi mais ou menos assim; ao passar os olhos pelo facebook vejo que fizeste 50 anos. E, de repente, apetece andar 30 anos para trás. Creio que estávamos ainda nos anos 80 quando se falava lá por casa que iria chegar do Brasil um primo do Zé António. Chamava-se Alexandre e tinha uma habilidade particular para o desenho. 
Era ainda muito novo quando te vi envergar a digníssima camisola do GCR Rossas naquela mítica final do Torneio do SAJU ganha nas grandes penalidades e que tu próprio já comentaste algures aqui no meu blogue de forma tão carinhosa e detalhada que me fizeste lembrar o meu irmão que também guardava todas as edições do jornal “A Defesa de Arouca” onde vinham todos os resultados e classificações. Entretanto fui crescendo, o que me deu o direito a partilhar o campo contigo em diversas equipas do GCR Rossas onde, creio, usavas habitualmente o número 4 e foste, muitas vezes, o nosso capitão. Tive mesmo muita pena quando há poucos anos atrás ajudei a organizar um jogo de Velhas Glórias e não conseguiste estar presente. Temos de pensar numa nova oportunidade agora que o campo até já está relvado e tudo...
Há ainda a memória de assistir no extinto palco da antiga residência paroquial à comédia “A Boémia” onde deste vida a uma das cómicas personagens juntamente com o Fernando Antunes, a Vira e o Zé António, entre outros. Felizmente tenho esse registo em vídeo para rever sempre que a memória começar a falhar.
Quis ainda o destino que eu fosse estudar na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto onde também estudaste, o que me fez partilhar algumas (poucas) viagens no saudoso autocarro do Calçada onde falávamos do teu sporting e do meu benfica e onde fiquei a saber da tua afeição pelo Vasco da Gama que agora passa de quando em vez na Sic Radical nos jogos do Brasileirão por volta das dez da noite. E eu lembro-me de ti...
Terá sido também nessas viagens que fiquei com a ideia que gostavas de leitura de ficção (também científica) onde me falaste do monstro de Frankenstein, por exemplo, a propósito de um livro que estavas a ler nessa altura.
Mas uma das memórias que me dá uma maior nostalgia tem a ver com aqueles sábados à tarde onde foste a minha casa para que eu gravasse na minha aparelhagem algumas cassetes com a boa música do “Alan Parsons Project” que, confesso, na altura, desconhecia.
Lembro ainda uma reunião que se fez no centro, no salão da catequese, para averiguar o resultado de uns inquéritos escritos que se tinham realizado sobre o jornal Cruz de Malta. A ideia era saber o que era mais apreciado assim como o que se devia melhorar. Lembro perfeitamente da resposta do meu pai à questão: “O que gosta mais de ler no jornal?”. Resposta do meu pai: “O editorial e os artigos do Alexandre”. Quem me dera rever as respostas a esses inquéritos. Certamente me trariam deliciosas memórias. Lembro em particular um artigo sobre o Garrincha que me deu muito prazer a ler.
E é isto Alexandre. Uma simples constatação no facebook de que fazias 50 anos fez-me recuar no tempo. Pelas estradas boas da vida ainda que, por vezes, sinuosas e íngremes, como aquela que nos leva até ao lugar da Cavada. Obrigado.
E parabéns, já agora.
Temos de marcar um convívio ou uma “futebolada” com a malta dessa altura. Para nos rirmos e falarmos desses tempos.
Um abraço.

Miguel

2 comentários:

Alexandre Noites disse...

Meu caro Miguel, ler estas tuas palavras teve o efeito maravilhoso de me tornar 10 anos mais jovem!
Como tenho 50 anos no corpo, mas uns 30 na mente, fiquei com mentalidade de 20! Nada mau para alguém que já vai revelando uma certa calvície aqui e ali…
Também reviveste na minha memória tantas passagens que estavam a ganhar mofo nos recantos mais escondidos do meu cérebro...
Lembro-me perfeitamente das peripécias daquele torneio do SAJU em 91, e também me lembro muito bem d"A Boémia", em que, não entendi muito bem porquê, fiz o papel de um brasileiro! Tenho uma fotografia ou duas dessa peça, gostava muito de ver em vídeo!
Tenho um livro que o Padre Ramos me deu contendo quase todas as edições do Cruz de Malta, se houver oportunidade empresto-te para reviveres boas memórias. Lembro de ter ficado surpreendido por alguém ter indicado os meus artigos nos inquéritos; as respostas eram anônimas, mas alguém (penso que foi o Zé António) disse-me que tinha sido o teu pai.
Continuo a ser um grande fã do Alan Parsons Project… esses sim eram bons tempos na música! Para matar as saudades desse tempo tens aqui uma raridade:

https://www.youtube.com/watch?v=IPkel-PuNug&index=15&list=PLOuJ89V5vO8kfhWdkLt8wQ_TsK9E76E9Z

Fiquei mesmo comovido com este artigo, pelo qual te agradeço imenso. Um bem-haja e um enorme abraço!!!!

Miguel Brandão disse...

Alexandre,
Em primeiro lugar peço imensa desculpa mas, não sei porque razão, e após duas tentativas de partilhas minhas deste artigo no facebook, fui notificado de que se tratava de spam pelo que creio que só ficou visível para ti por estares identificado mas mais ninguém conseguia aceder. Vou tentar resolver isso, ainda que tenha de refazer todo o texto outra vez.
Claro que há ainda muita coisa que falta no texto mas em meia dúzia de palavras não se consegue dizer tudo. Mas muitas vezes o "gesto" é que conta verdadeiramente.
Prometo facultar-te o vídeo da peça d'"A Boémia". Tens é de me dar algum tempo mas até ao Natal eu faço-te chegar isso. Ando a tentar passar todo o arquivo do GCR Rossas de vídeo para DVD e isso leva o seu tempo. Mas prometo arranjar-te isso. Depois vou pedir-te em troca as tais fotos da peça, se tiveres, para colocar no arquivo do GCR Rossas também.
Também faltou dizer que contracenei contigo numa peça que creio que se chamava "Por causa de um sobretudo" onde eu fiz pela primeira vez um papel principal e onde todas a personagens tinham nomes de árvores: Figueira, Oliveira, Videira, etc... Mas dessa não há qualquer registo, nem sequer fotográfico.
Quanto a essa coleção de jornais Cruz de Malta eu também tenho. Como era u colaborador do jornal o Padre Ramos também me forneceu um exemplar desses.
Gostava muito de ter o tempo (e a sapiência necessária) para colocar em papel as memórias desses tempos iniciais do GCR Rossas. Dava um bom livro. Para já não passa de um sonho.
Vou tentar publicar novamente. Se para o conseguir tiver de apagar esta publicação para refazer tudo, peço a tua compreensão.
Um grande abraço.

Miguel