Há alguém que goste tanto de videojogos como tu?

A pergunta que dá o título a este pequeno texto surgiu, há dias, da boca da Odete. Desengane-se o leitor se pensa que está diretamente relacionada com o tempo que gasto a jogar. Nada podia ser mais errado. O tempo que me sobra é pouco ou quase nenhum. Apenas dá para uma partida rápida aqui e ali, e sempre com muitos dias ou semanas de intervalo. É por isso que este texto já anda na minha cabeça há algum tempo e, confesso, era para se chamar “Há muito que deixei de fazer o que gosto”. No entanto, aquela interrogação da Odete levou-me a reorganizar as ideias. A verdade é que soltei um sorriso rasgado e acabei por responder: “Sim. Há muita gente que gosta muito mais de videojogos do que eu”. Ela insistiu: “E em Arouca? Haverá alguém?”. Voltei a sorrir e respondi, hesitando um pouco: “Não sei. Mas há cá muita gente que joga muito mais e melhor do que eu. Há muita malta nova que passa o dia agarrada aos jogos. Eu não tenho vida para isso”. A Odete é bastante perspicaz e continuou: “E da tua idade? Achas que há alguém em Arouca como tu?”. Confesso: fiquei desarmado. Respondi-lhe que era natural que não houvesse. E lembrei-me do seguinte exemplo que usei para lhe responder: “Tenho guardadas, de forma imaculada, todas as análises a jogos do ZX Spectrum e Commodore Amiga da secção MICROMANIA da extinta JND do Jornal de Notícias de 1989 a 1994. É natural que mais alguém tenha feito isso embora não conheça ninguém em Portugal que o tenha feito. O que é menos comum é eu ter ido mais além e ter transformado tudo num PDF, ter feito uma pesquisa na internet até encontrar a capa da revista n.º1 que ainda trazia o rosto da Tina Turner na minha memória, e ter organizado tudo para encadernar para ler e reler.” Ao acabar de responder mostrei-lhe a minha partilha desse documento em PDF num grupo de retrogaming do facebook onde gente que não conheço me agradecia para toda a vida tal partilha. Houve até quem dissesse que eu tinha feito um autêntico serviço público. A Odete sorriu porque apesar de não partilhar esta minha paixão, aceita de forma carinhosa o meu jeito de viver os videojogos.
Não quero (nem vou) com este texto fazer uma descrição detalhada do meu percurso pelos videojogos mas queria deixar aqui alguns aspetos particulares que podem ajudar a justificar a pergunta feita pela Odete.
Em primeiro lugar, é bem provável que tenha mais de um milhar de jogos em formato físico para as mais diferentes máquinas de videojogos. Só um apaixonado por este mundo poderia ter comprado mais de 80 jogos para a PS2 ainda antes de ter a referida máquina. No último mês, aproveitando ótimos negócios no Marketplace, comprei 17 jogos PS4 e 2 jogos XBOX ONE. Mesmo não tendo tempo para jogar gosto de ter a maior parte dos clássicos e de ter uma “biblioteca” bem organizada. No entanto, apesar de me deliciar com algumas das novas produções, são os títulos da minha adolescência que me continuam a despertar maior fascínio.
A minha relação com este mundo é de uma espécie de revolta constante. Há muito que não faço o que gosto. Preenchem-me o tempo com obrigações sem sentido. Talvez seja tempo de uma resolução de ano novo. Veremos se serei capaz de cumprir. Talvez as pessoas só precisem de me entender. Ou, se calhar, nem isso. Apenas aceitar.
Quem é da minha idade sabe muito bem o que é entrar num salão de jogos arcade. Sabe também, por exemplo, que Shinobi, Midnight Resistance, Toki ou Rodland são experiências que não se esquecem. É em nome de muitos desses títulos que continuo a minha demanda. É por isso que estou a dar uma segunda oportunidade à Xbox One comprando digitalmente clássicos como Sensible World of Soccer, uma remasterização do Gods dos famosos Bitmap Brothers e um jogo novo oriundo do Brasil e que é uma excelente homenagem a jogos como Lotus Esprit Turbo Challenge e que tem por título Horizon Chase Turbo.
É por isso que sei que vou ter o remake do Toki que acabou de sair para a Nintendo Switch ainda antes de comprar a consola. Anseio pelo dia que lhe vou deitar as mãos e que o vou acabar de uma ponta a outra antes que o dia se transforme em noite. No fundo é aquela sensação de saber transportar já uma felicidade que, em rigor, ainda não me pertence.
Quando deixei de ser uma criança, talvez aí por volta dos 40, dei conta que devemos dar importância àquilo que realmente é importante. Desde aí, tenho-me focado muito mais no Commodore Amiga e na minha paixão pelos videojogos. Porque gosto de videojogos. Mas, sobretudo, porque gosto do Nuno, do Simão Pedro, do Miguel “Confiança”, do Tono, do Sérgio e do Pedro. Na impossibilidade de seguir o mesmo rumo de vida, encontrei neste mundo peculiar uma forma de chegar mais perto. É a mágoa que trago comigo: que o mundo não tenha sido assim para sempre. Fica aquela nostalgia que me esforçarei por manter. É por isso que os meus raros momentos de “jogatana” acabam quase sempre com a minha MIST ligada onde tenho todo o espólio do Commodore Amiga instalado. E haverá melhor forma de terminar um dia do que estar acompanhado de Kick Off, Rick Dangerous ou Turrican?

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