Relembrando o "Cartolinhas"...



Olá Pai. Gosto muito de ti.
Ainda estou um bocadinho emocionado, sabes? Devia fazer isto mais vezes!
Hoje eu não não era eu. Eu, eras tu! E tu não eras tu. Tu eras o avô! Parece confuso, não parece?!
A eira já não existe pai. Mas estávamos quase no mesmo sítio. Quase, quase...
O bandolim deu lugar ao banjo. Mas aos poucos, de forma simples, fomos fazendo memória!
Voltou-se a ouvir a "Maria e o Manel", a "Canção de Embalar" ou o "Cartolinhas"!
O teu ouvido já só pressente metade das notas, o ritmo não era bem o que estava escrito mas, que importa isso?
Tu, não sei... Mas eu, hoje, voltei a ter seis anos! Durante aquela hora e meia tive a infância toda dentro de mim! Tive a felicidade da Isabelita e a Aldina andarem por lá a ajudarem a mãe a manter a casa um bocadinho mais asseada para a Visita Pascal. E depois de começarmos a tocar, enquanto o André ouvia atento no colo da Odete e a Rita e o Tiago brincavam no recinto da Escola Primária, chegaram o Dinis e a Bia, logo seguidos pelo Zé Mário, meu irmão e ídolo de infância que veio dar ainda mais brilho a este quadro.
Tocaste com um e com outro e, no fim, tiveste ainda tempo para ouvir algumas modinhas vindas da geração que deixaste. Cabe-nos a responsabilidade de o saber transmitir aos vindouros.
Gosto mesmo muito de ti, pai.
O André acabou por não dar tréguas e tivemos que o vir adormecer. Quando seguia no carro, mesmo antes de desaparecer, reparei que todos tinham seguido já para dentro de casa e estavas tu apenas, à espera que eu desaparecesse da vista para fechares a porta. De forma calorosa, dei-te um sorriso e um adeus. Respondeste de igual forma.
Hoje, em pleno período pascal, a vida eterna parou em nossa casa.
Obrigado. Prometo voltar mais vezes e com mais tempo. Para voltarmos a ser mais felizes.
Boa Páscoa.

Miguel

O Último Concerto

Para uns é mais cedo, para outros é mais tarde. Para mim foi neste fim de semana: o “último” concerto. Se bem que dividido em 2 atos: Coimbra e Aveiro.
Coimbra tem um encanto que não se explica.
Chego cerca de uma hora antes do que estava previamente estabelecido. Isso dá-me tempo para saborear memórias recentes no recinto encostado à minha direita. Nestas últimas férias fui muito feliz no Portugal dos Pequenitos onde passei horas seguidas olhando de longe a felicidade da Rita e do Tiago. Nesse dia, os meus dois únicos filhos (agora já são três) mais não eram que a extensão da alma de criança que trago dentro do meu corpo. Lembro-me de seguir cada movimento com uma atenção tal que os sorrisos saíam-me de forma cada vez mais frequente enquanto me dava conta que ainda tenho muito que aprender para continuar a ser criança.
Sigo o meu caminho e demoro ainda um pouco até descobrir a entrada para o local onde será o concerto quando a noite resolver aparecer. Lá dentro, juntamente com os meus colegas, faço o reconhecimento das instalações e aproveito um sítio confortável para descansar o corpo. Enquanto isso, há tempo para cumprimentar uma amiga que durante a semana trato por professora. Falámos um pouco e voltando a ficar sozinho fico a sorrir com a curiosidade de estar prestes a fazer música com alguém a quem na semana seguinte estarei a chegar estantes ou a tirar fotocópias. A vida tem, de facto, os seus encantos. Entretanto chega a amiga de Arouca (há sempre alguém de Arouca em qualquer canto do mundo) e troco dois beijinhos como quem partilha toda a bondade e admiração que se consegue encontrar num corpo tão franzino como o meu.
Entretanto seguimos para o aquecimento. Enquanto me posiciono vou admirando o local. Olho em redor e reparo que “não estás cá”. Por esta altura terias já trocado umas palavras comigo e eu dir-te-ia que os meus pequenos estão bem mas que o tempo para ser “músico” é cada vez menor. Estou certo que me animarias de alguma forma e acabaríamos a conversa deixando na minha garganta o gosto amargo de não te encontrar nas aulas de composição.
O ensaio acaba e somos convidados a jantar. A esmagadora maioria segue nos autocarros. Eu sigo o caminho oposto e faço-o de forma mais solitária. Há momentos em que estando na periferia conseguimos uma realização mais plena do que estamos a viver. Sozinho é mais fácil reparar na beleza do Mondego a fazer lembrar as trovas ao Douro nos meus primeiros tempos de estudante.
O céu já veste de negro quando acabo por regressar ao local do concerto muito antes da maioria dos meus colegas. Faço uma ronda pelos camarins quando sou interrompido por uma voz doce que se recorda das minhas feições mas não do meu nome. “Não, também não fui jantar com eles” – respondo eu, sorrindo, enquanto volto ao meu lugar de descanso/concentração.
Entretanto vários colegas vão trocando algumas impressões, também comigo. Aproveito para parabenizar um amigo pela conquista de um prémio e sou surpreendido com a curiosidade sobre o meu rebento mais novo e sobre a estreia de teatro que vai acontecer no fim de semana seguinte e que “anda tudo a pensar no mesmo”. A internet, às vezes, tem o seu encanto...
A hora aproxima-se e vamos começando a subir empacotados em elevadores. À saída dos mesmos, por ironia do destino, espera-nos outra “sala de espera”. Mais uma vez deixo-me ficar um pouco à margem. É incrível o que se consegue assimilar desse lado da vida. Voltei a olhar em redor e voltaste a “não estar cá”. As meninas exibem roupas requintadas que lhes realça a beleza natural e parecem trazer no rosto a tal “face das pequenas” que o Paião eternizou no seu Pó de Arroz. E tudo salta à vista como se de um quadro de Rembrandt se tratasse.
Entretanto, vamos obedecendo a indicações preciosas que nos são dadas pelo que num ápice estamos perfilados em frente a uma porta à espera da aprovação de alguém. É chegado o momento de sermos melhores que nós mesmos.
O concerto corre bem, a música de Rossini aqui e ali vai-me preenchendo a alma e depois de atirar um até amanhã a alguns dos meus colegas é já a caminho do carro que sinto que tudo valeu a pena.
É com a banda sonora que os meus sapatos entoam no passeio que me dou conta que este é o “último” concerto. A minha boca, em surdina, ainda vai cantando o “Amen” da fuga final (aquela música entranha-se no cérebro) e é nesse cenário que me lembro dos Queen e daquela que foi a última canção do último álbum editado com o Freddie ainda vivo. E tudo parece fazer ainda mais sentido: “The Show Must Go On”. Abro a porta do carro e imagino o Freddie debilitado a fazer toda a canção de forma perfeita, num só take, como nos é contado pelo Brian. O fim não é necessariamente mau. Depende da forma como se acaba. E o Freddie acabou bem.
Entro e pouso o livro da partitura no banco do passageiro. Só aí reparo no nome Rossini escrito a letras garrafais na capa e lembro-me que é italiano. Deixo escapar um sorriso disfarçado: afinal “estavas cá”. Sigo o caminho para casa sabendo que no dia seguinte em Aveiro me espera outro “último” concerto. Que não será muito diferente deste. Ou de outro qualquer...

Dia Mundial do Teatro

Porque ontem foi o Dia Mundial do Teatro.
Deixo aqui a foto de um grande ator. Talvez o melhor e mais completo que Rossas viu nascer. O modelo que tento seguir e que será, porventura, impossível de igualar. Mesmo passando 35 anos da sua partida para o espetáculo eterno, ainda é frequente falar-se no seu nome sempre que o assunto é o Teatro. Uma referência, juntamente com o Silva dos Carreiros ou a Celestinha da Portela.
Os tempos eram outros, os lagares serviam de palco e as “lojas” serviam de salão. Por essa altura o Sr. Brandão da Seca dava o corpo a comédias, farsas, dramas, operetas, monólogos, e tudo o mais que seja possível imaginar. Foi ator, ensaiador, encenador, fez arranjos musicais e, sobretudo, antes de partir, teve ainda tempo para ser um dos fundadores do Grupo Cultural e Recreativo de Rossas. Já não fui a tempo de o ver em palco pois quando nasci tinha ele já 82 anos. Mas fui abençoado pelo destino. O Sr. Brandão da Seca, para além de meu avô, foi o meu padrinho de Batismo. O melhor que eu poderia ter. Trago, algures no meu cérebro, naquela gaveta onde se guardam as memórias mais antigas, a lembrança de estar ainda no edifício da Escola Velha onde hoje é o Centro Cultural e vê-lo a ensaiar um grupo de crianças. Um flash muito curto que me traz apenas o rosto de um ator novato, meu primo, que gritava repetidamente em palco: “tenho fome”. Será, porventura, a memória mais antiga que trago comigo.
Nunca te vi representar avô. Nunca. Mas tenho um punhado bem gordo de deliciosas memórias passadas contigo e que, pelo teu jeito de ser, me provocavam um riso descontrolado. É fácil imaginar o quanto foste grande no palco. Sabes, em muitos dos espetáculos que participo dão-me os parabéns dizendo-me que “é como se o Sr. Brandão da Seca estivesse em palco”. Emociono-me sempre com o elogio, embora tenhamos que ser francos: ninguém se aproxima do que conseguias fazer e, mesmo que pudesse haver alguém que ousasse tal, esse alguém não seria eu. O seu, a seu dono; e ambos sabemos que o Zé Mário é muito mais próximo daquilo que foste do que eu alguma vez serei. Em cima do palco consegue ser mais perfeito que eu em tudo. E isso enche-me ainda mais de orgulho.
Sábado vamos estrear uma nova peça em 2 atos. Creio que irá ultrapassar as 2h30m de duração. Vou voltar a lembrar-me de ti. Estamos todos ansiosos pela estreia. O Grupo, aquele que ajudaste a fundar, está cheio de vida. Faz jus a todos quantos estiveram na sua génese pelo que todos os que nos precederam terão motivos para estar orgulhosos. Valeu a pena avô. Valeu bem a pena. Muito.
Tenho saudades de ti. Daquelas curvas tombadas que me mandavas fazer e que eu tão bem delineava junto à eira. A tua eira, lembras-te? Fecho os olhos e estás ainda a tocar as mais variadas modas com o meu querido pai, um na viola e outro no banjo. Havia pessoas que paravam na beira da estrada para ouvirem um bocadinho.
Sei de cor o teu timbre e o teu riso. Aquele que soltavas quando contavas pela milésima vez a história do “Xanxanário” que ainda hoje sei de memória.
Ontem foi o Dia Mundial do Teatro. O teu dia. Obrigado por mo teres oferecido de mão beijada. Assim como quem pega num neto ao colo. Como a fotografia tão bem demonstra. Um beijo cheio de saudades.

O teu neto,

Miguel

E tu, ainda te lembras dos torneio do SAJU?

Em cima: Zeca, Tono, Eduardo, Rui (Silveiras) e Pedro
Em baixo: Vitor, Paulo Zé Mário e Miguel (Eu)

O meu irmão era um autêntico génio da bola. Tratava a bola com uma delicadeza tal, apenas ao alcance dos predestinados. Era, para mim, um autêntico ídolo. É certo que Deus também me concedeu algum talento mas nunca lhe haveria de chegar aos calcanhares. É por isso que as minhas primeiras memórias dos torneios de futebol que se faziam por Arouca são ainda na qualidade de adepto. Foi assim que assisti em 1989 ao primeiro título do GCR Rossas no mítico torneio do SAJU. Uma vitória suada, conseguida nos penalties, depois de um empate a duas bolas no final dos 40 minutos de jogo mais aqueles que haveria de durar o prolongamento. Outras se seguiram. E eu presenciei grande parte delas. Hoje é dia de recordar alguns desses feitos ou outras histórias mais ou menos engraçadas.
Era carismático aquele equipamento branco e verde patrocinado pelo Luís Bastos ou aqueles dois patrocinados pelos Móveis Antunes, um preto e amarelo e outro vermelho e branco que tive a enorme honra de envergar. Já para não falar naquelas chuteiras todas iguais que o GCR Rossas ofereceu a todos os jogadores. Pareciam uns “barcos”... Ahahah! Mais alguém se lembra disso? Ótimas memórias!
Aquele torneio do SAJU em 1990 que o GCR Rossas acabaria por perder na final por 3-2 frente ao ARDA foi marcante. Felizmente há uma filmagem desse jogo decisivo sendo um dos registos mais antigos da nossa querida Associação. No dia da estreia o Silvério que era para ser o guarda-redes, apareceu com o braço partido e teve de se arranjar um à pressa dentre a assistência. O escolha não podia ser melhor, não pela qualidade futebolística pois, como se veio a comprovar, deixava bastante a desejar mas antes, pela quantidade de histórias engraçadas que protagonizava. Recordo com saudade a famosa frase: “A minha sogra bem me disse que a roupa estava molhada. Ai que frio!!”. Só quem por lá passou sabe as risadas que essa frase proporcionou e como ficou para a história.
Outra história marcante haveria de acontecer alguns anos mais tarde. Em pleno SAJU, estávamos num jogo de Taça. Ali era a eliminar. Perder significava o fim. Era um jogo contra o Tropêço em que me lembro de fazer um jogo fenomenal. Alguns ainda se lembrarão de uma ilustre jogada em que faço três “cuecas” consecutivas sobre o mesmo adversário arrancando algum burburinho na assistência e, quando me dirijo para a baliza adversária sou completamente “tesourado” pela vítima. Estivemos a ganhar por 3-0 e levei a partir daí com o tal adversário sempre em cima de mim a dizer entre dentes: “Não fazes mais isso! Não sais daqui vivo”. Coisas do futebol. Acabaríamos por empatar 3-3 e o jogo teve de ser decidido nos penalties. E aqui é que vem a memória mais engraçada. O Tono era o nosso guarda-redes na altura. Num dos penalties o Pedro do Selmo vira-se para o Tono e diz: “Deixa-te ficar no meio da baliza que vais defendê-la”! O Tono, como bom rapaz que é, seguiu o conselho à risca. Pois o tal fulano, o que me dizia que não sairia dali vivo, rematou com tamanha força que acertou em cheio na cabeça do Tono que, obedecendo ao Pedro, nem mexeu um cabelo sequer. Eu acho que foi por nem ter tido tempo para isso. Ficou estendido no chão aí uns 5 minutos mas o que é certo é que defendeu o penalty e conseguimos o apuramento para a eliminatória seguinte.
Há ainda a boa lembrança daquele outro jogo onde finto um adversário e logo levo uma "sarrafada". Como não caí, o Walsh (era ele o árbitro nesse jogo) estica os braços e grita: “Jogo”! Lá continuei e volta a repetir-se a história. Nova finta, nova "sarrafada" e de novo o Walsh: “Jogo”! Volto a continuar, nova finta e, desta vez, a "sarrafada" definitiva. Caí redondo no chão! Cartão amarelo para o meu oponente e frase para a história do amigo Paulo das Silveiras enquanto ajeitava a bola para cobrar a falta: “Para a próxima cai logo à primeira”! Lembras-te Paulo? Talvez não te lembres da frase mas acredito que ainda te lembres desse episódio! Deste e de muitos outros que agora já não recordo...
Há ainda a lembrança daquelas jogadas perfeitas que conseguíamos fazer e que o Pinho tão bem rematava com a expressão “Lindo” que se tornou quase um hino entre a malta.
A memória mais saborosa, ainda mais do que as vitórias nos mais variados torneios, aconteceu num torneio do BURGO, jogado no Campo do Parque. Era dia de dérbi: Unidos de Rossas vs GCR Rossas. Tudo gente conhecida e amiga mas, sabem como é, dérbi é dérbi. Ninguém gosta de perder. Dizia-se antes de começar em tom de brincadeira que eram os da cerveja contra os do sumo ou os do café contra os da missa. Perdíamos por 2-0 ao intervalo e dizias-me entre dentes para me picar quando vim lançar uma bola junto ao banco adversário: “Ó Miguel, está-se a desenhar”. Olhei para ti e ri-me. Riste-te também. Uma rivalidade amigável. Demais. Quase que apetecia que ganhassem os dois. Mas, adiante... Demos a volta na segunda parte e acabámos por ganhar por 4-2. Memorável. Deveria ter sido filmado. É pena.
Há ainda a memória do Tono a dizer aquela frase peculiar: “Tenho de começar a tentar pensar na tentativa de poder passar a jogar à frente”. Dá que pensar... Eheheh!
Ou aquele jogo em Mansores (o meu primeiro naquele torneio, por sinal) em que a ganhar por 1-0 sofremos um canto contra. Marcam o canto e grita o Tono em tom autoritário: “Estou!” – mas logo vê que não vai chegar à bola pelo que continua a frase: “Car***, não lhe chego”! Na altura não chegou graça nenhuma mas depois rimo-nos muito à custa disso! O jogo ficou 2-2. Partilhei a linha avançada com o Vítor do Curro! Um luxo. Ainda tínhamos saúde física para dar e vender!
Como em tudo, há também memórias menos boas. Serão as boas memórias de outros, certamente. Como quando fizemos aquela viagem no Toyota Corolla do meu irmão, todos sem dar uma única palavra, pois tínhamos sido eliminados na meia-final nos penalties. Eu vinha ainda mais cabisbaixo pois fui o único a falhar a penalidade acertando em cheio no poste da baliza. Isso dos postes parecia “diabo”. Lembro-me de um jogo em que na mesma jogada acertei por 3 vezes seguidas no mesmo poste.
A pior memória foi ver o meu irmão a ficar, literalmente, com o braço virado ao contrário num jogo com o Canto do Muro. Foi um torneio amaldiçoado. Haveria de me lesionar com gravidade no jogo seguinte contra o Burgo e o meu tornozelo nunca mais recuperou totalmente. Hoje parece feito de papel. Dá só para jogar aos domingos de manhã (se eu tivesse tempo para tal).
Foi um privilégio partilhar o campo com tão bons jogadores. Alguns ganhavam até alcunhas peculiares. Havia o Bruno “Andre Flo”, um autêntico matador; o Zé Maroni “Trapattoni”, o mestre da tática; o Carlos “Kongolo”, um poço de força; o Paulinho “Cascavel”, um pezinhos de lã; e havia o Michel que não precisava de alcunha. A mim, chegaram a chamar-me “Caniggia” mas infelizmente não tinha a ver com as minhas capacidades futebolísticas. Era apenas porque nessa altura eu usava o cabelo comprido.
Cheguei ainda a ser campeão universitário de futebol de 5 e representei ainda (de forma esporádica, é certo) o Sport Rossas e Malta, Ponte da Costa e a Banda Musical de Arouca onde fiz os últimos jogos da minha “carreira”.
Ao fim de semana, nos dias de hoje, é frequente olhar de minha casa o campo de futebol relvado. Entre dentes, vou repetindo que chegou com 30 anos de atraso. O uso que lhe teríamos dado nessa altura. A luta que foi para conseguir um campo minúsculo na Portela. Mesmo assim foi um palco importantíssimo. Lembro as manhãs passadas a jogar a bola com o “Porteladas” que tinha uma paixão muito peculiar pelo jogo. Deixa muitas saudades. Às vezes as pessoas eram tantas que tínhamos de jogar ao "bota-fora". Pena essas velhas guardas da altura não terem 1h por semana para fazer uma perninha neste renovado campo de futebol. Era com esses que eu gostava de voltar a jogar. Só assim conseguiria arranjar tempo. Doutra forma talvez não valha a pena.
Volto a olhar o campo de futebol relvado uma última vez antes de regressar a casa. O Isaías do Paço merecia ter jogado num relvado assim.
Rossas, naquele tempo, era grande; muito grande. Mesmo sendo pequena.

E tu, quais são as histórias que te lembras?

Parabéns Cajarana!

Parabéns Cajarana.
Prometo que não me vou alongar muito mas hoje, se me permitires, queria deixar-te aqui meia dúzia de palavras. Afinal de contas, fazes anos hoje (salvo seja)!
Às vezes, a forma que encontramos de mostrar o nosso afecto a alguém pode parecer estranha. Porque não usamos as palavras mais simples ou óbvias.
Por isso queria dizer-te que gostava que continuasses a ser essa pessoa “moderadamente espetacular” que tens sido sempre que estou contigo. Como dizer: assim quase a roçar o fixe mas sem deslumbrar... Eheheh! Tenho saudade de te ver fazer borboletas ou daquela imagem que guardo de ti na minha última Feira das Colheitas ao serviço da Banda Musical de Arouca onde demonstraste como se imitava um drone. Fenomenal.
Sinto falta das entradas, procissões e, sobretudo, das cervejas fresquinhas... Ui!!! Aquele grupo de Arrumadores é “qualquer coisa”! Lá está, à tua semelhança consegue ser quase fixe mas sem deslumbrar!!!!
Faço ainda uma vénia àquela comida divinal regada com verde branco que algumas vezes tive o privilégio de provar na tua humilde casa em tão boa companhia pois é tudo gente de bem.
Gosto de andar por aqui no facebook e de ver como te vão correndo as coisas. Fico duplamente satisfeito quando te vejo em fotos com o Jiló, um dos meus melhores amigos. Estás bem entregue. Falo por experiência própria. E depois, sabes como é... Amigo do meu melhor amigo, meu melhor amigo é...
Eu, tu, o Pepé e o Repolho éramos um autêntico “Quarteto Fantástico”. Tenho muitas saudades.
Espero que continues com essa tua boa disposição e sentido de humor refinado que te caracteriza. Isso ajuda a fazer de ti um portador da verdadeira mística da Banda Musical de Arouca e um fiel depositário do que de melhor se passa naquela casa.
Ora diz lá... É estranha esta forma de mostrar que gosto de ti rapaz. Não é?
Mas hoje pareceu-me fazer todo o sentido dizer-te que gosto de ti ao dizer que és aquilo que eu vejo como um músico modelo para uma das Associações que ajudou a marcar de forma extremamente positiva a minha vida.
Sabes... Isto está a ficar longo e eu não quero abusar. Só te quero deixar “moderadamente comovido”. Por isso vou ter de terminar. Não sem antes explicar o porquê da foto que acompanha este post. Essa imagem diz respeito a uma novela que passou no início da década de 80 no canal 1 da RTP. Chamava-se “Pai Herói”. Se quiseres saber mais basta pesquisares um pouco na net. Lembro-me até de ter um pequeno jogo didático que recebi no Natal onde tinha de completar a imagem final do genérico da novela. Bem, mas isso é outro assunto.
E perguntas tu: “Mas o que é que essa imagem tem a ver comigo?”
Respondo eu: “Tem tudo, amigo Cajarana”.
Era esta foto ou uma com gajas nuas. Optei por esta. Sabes, como presente de aniversário, decidi mostrar-te as tuas origens. És André Cajarana de Batismo (metade de nascença e metade na Banda). Mas antes de ti existiu o André Cajarana original. É precisamente esse que aparece na foto que te deixo e que era o protagonista principal da tal novela que passou na RTP. Era interpretado pelo conhecido Tony Ramos que dividia a trama, entre outros, com o célebre “Baldaracci”.
Gosto “moderadamente” de ti rapaz.
Aquele abraço. Sem encostar muito por causa das más línguas.

Cebolinha

Parabéns amigo Eduardo!

Foto: Eu e o Eduardo no início da década de 80.

Olá Eduardo. É, para mim, um enorme prazer poder dar-te hoje este abraço de parabéns. O facebook diz que são 42 e é mais ou menos aí que começo a dar conta que o tempo tem realmente passado a grande velocidade. Peço desde já desculpa mas as memórias são tantas e tão marcantes que o abraço que te deixo, para além de ser apertado terá forçosamente de ser demorado.
As minhas primeiras memórias contigo são do tempo que retrata a foto que deixei acima: início da década de 80. Começámos a fazer-nos amigos na escola primária. Por sorte a nossa professora era a minha mãe pelo que não terá sido apenas uma casualidade teres sido escolhido, juntamente com o Paulo Daniel, para meu colega de carteira. Lembro-me que nessa altura, os primeiros a acabar os trabalhos iam escrever o respectivo nome ao quadro e depois, enquanto os restantes acabavam os seus afazeres, sobrava um bocadinho de tempo livre para brincar um bocadinho, ainda que sem fazer qualquer barulho ou algazarra. Foi assim que brinquei montes de vezes contigo a fazer verdadeiras corridas de Fórmula 1 com as afias ou as tampas das canetas em percursos desenhados sobre a secretária através dos nossos lápis que eram colocados de forma estratégica sobre a mesa. Talvez não te recordes mas uma das brincadeiras que mais gostava nessas alturas era a de quando desenhávamos as mais originais naves espaciais numa folha de caderno e depois fazíamos autênticas batalhas intergalácticas onde os tiros eram disparados com riscos saídos da esferográfica. Também recordo com muita saudade o momento em que íamos junto da secretária da professora dizer as tabuadas e, enquanto ela se distraía ligeiramente corrigindo algum trabalho de outro colega nosso, lá lhe conseguíamos recuperar alguns dos bonecos que ela nos tinha confiscado por anteriormente estarmos a brincar em vez de trabalhar.
Desde esses tempos nunca esqueci o teu nome completo (Eduardo José Ferraz Garrido Duarte Brandão). Às vezes a tua avó ligava lá para casa para saber se podias vir brincar comigo. Eram ótimas notícias. Parece que ainda te estou a ver num desses dias a abrir o portão da minha casa de infância com uma saca de plástico branca cheia de carrinhos e bonecos: havia um lancia branco com uma tira vermelha e outra verde que eu gostava muito e outro ao estilo de “le mans” azul com o número 10 que também estava entre as minhas preferências. Foram tantas as vezes que brincámos com eles naquele muro que separava o recinto da escola do da cantina. Tempos tão bons. E a bonecada era mesmo à fartura; também por isso adorava brincar contigo. Tinhas muitos bonecos e de qualidade. Eram pilhas de Estrunfes perseguidos pelo Gasganete, era o Dartacão, e até me lembro de uma vez que trouxeste peças de xadrez que eram uma espécie de soldados da idade média, creio eu. Bem ou mal, está tudo gravado na minha cabeça, no lado bom da memória. Quando não havia nada disso, brincava-se com as caricas fazendo corridas em pistas desenhadas na terra com uma pequenina tábua e as tardes passavam a correr. Como aquela em que ao atirar um avião de papel feito com uma folha arrancada de um caderno do Asterix no recinto da cantina, ele apanhou uma rajada de vento que nunca se voltará a repetir e avançou a escola primária indo parar apenas no campo que era feito pelos da “borneira”, como lhe chamávamos. Tudo gente boa que torna as memórias ainda mais felizes. Fazíamos por essa altura a famosa coleção dos aviões que vinham nas chiclas “Gorila” e que ainda guardo lá em casa numa pequena caixa juntamente com os brinquedos que sobreviveram à minha infância. Por essa altura passava o Sport Billy, o Willy Fog, os Estrunfes, o Dartacão ou o Misha na televisão num mundo que parecia, de facto, feito à nossa medida.
Sabes, parece que ainda estou a ver a minha mãe a abrir a porta de casa e do outro lado estares tu com a tua avó porque vinhas oferecer uma saca de castanhas ou de nozes. Ou as vezes que íamos buscar os livros à biblioteca da escola, aberta pelo meu pai aos sábados ao início da tarde.
Não se brincava às caçadinhas ou às escondidinhas. Nem pensar. Os nomes eram muito mais pomposos. Brincávamos, isso sim, ao bate-fica e ao tape-tape. Nem sei sequer se te lembras de eu, tu e o Paulo Daniel termos inventado a variante de jogar ao bate-fica mas sem poder sair dos cobertos da escola que nos provocava um riso mais ou menos descontrolado. Por isso o batizámos de “bate-fica rir”. Muito bom. Olho para trás e todas as nossas feições parecem ainda nítidas. Tudo isso rematado com um chapéu à cowboy azul e vermelho que andavas com frequência.
Há uma história engraçada que guardo para mim desde esses tempos. Numa dessas vezes que vinhas brincar para a escola a tua avó tinha-te recomendado que deverias regressar a casa às 16h. Como é óbvio, nessa tarde, a hora já tinha sido mais do que ultrapassada. Por ironia do destino, estávamos a brincar fazendo uma espécie de corridas pelo que usaste o teu relógio electrónico para cronometrar os tempos. Quando a tua avó chegou logo te perguntou: “Então Eduardinho? Não sabes que horas são?” ao que tu respondeste, por que tinhas o cronómetro ligado: “Sei lá! Só sei que são 10 segundos”. Foi gargalhada geral.
Depois haveria de chegar a tua BMX que a minha memória (talvez atraiçoada pelo passar dos anos) guarda como azul escura ou preta, com um amortecedor amarelo e uns tons de vermelho (talvez os punhos). Creio que foi essa BMX que o Francisco da Costa usou já no ciclo quando num dos dias a escola organizou uma espécie de “gincana” ou “prova de perícia” com bicicletas.
Fomos colegas de futebol no saudoso torneio do parque onde chegaste a ser capitão de equipa num dos anos em que o equipamento era vermelho e branco. Lembro-me de na cerimónia de abertura o teu pai, na qualidade de presidente da câmara (creio eu), entregar uma bola de futebol a cada equipa. Quando chegou a vez do GCR Rossas ele disse aos microfones: “Agora vou entregar a bola ao meu filho”.
Tinhas um sentido de humor brilhante, qualidade que era alargada a outros amigos comuns que moravam próximo de ti: o Rui, o Paulo, o Zezito, os Picatojos... Chamavam-te Kennedy por o teu pai ser presidente da Câmara. Brilhante.
Houve também telefonemas no sentido inverso. E foi assim que, dessa forma, me deslocava eu a tua casa para brincar. Lembro-me de ficar impressionado com o ZX Spectrum, sobretudo com o Target Renegade. Mas Wec Le Mans, Paris-Dakar, Cybernoid 2, Impossible Mission 2 ou Sol Negro, por exemplo, também trazem boas memórias. Houve um dia que deu direito a disparar uma chumbeira contra várias latas colocadas numa espécie de piscina que tinhas lá em casa até que todas fossem ao fundo. Dias muito bons.
Foste tu, na paragem da barroca, que me ensinaste por essa altura a jogar ao Oito Americano. Eu tinha comprado recentemente o meu ZX Spectrum +3 e, nesse dia, disseste-me que aos domingos faziam análise a vários jogos na secção Micromania. A partir daí não perdi um único jornal ao domingo de manhã. Ainda tenho vários recortes guardados cá em casa.
Adorava também no ciclo os jogos que fazíamos “turma contra turma”, era eu do 1.ºJ e tu do 2.ºH. Foi aí que conheci o Soviético, o Pedro e o Custódio de Santa Marinha, por exemplo. Eram teus amigos, passaram automaticamente a ser meus amigos também.
Já maiores, fomos ainda colegas no futebol do GCR Rossas onde estivemos em várias finais chegando a ganhar alguns torneios. Era o mais próximo que conseguíamos estar do nosso Benfica, paixão que ainda hoje partilhamos.
Tenho mesmo muitas saudades de quando eras o Eduardinho e a tua irmã a Nina. 
Foram tempos muito felizes.
Agora também são, de outra forma. É inevitável. O teu cabelo está muito mais branco e a minha barba, vê lá tu, já tem falhas. A nossa professora da escola primária, a minha mãe, está já no ocaso da vida e a saúde já não é o que era. Faz parte da lei da vida. Mas continuo a gostar muito de ti e a lembrar-me dos nossos grandes momentos em muitos dos dias que passam. Neste dia 10 de janeiro as memórias são em maior número. É natural.
E desculpa se me alonguei demais.
Era apenas para dar um abraço apertado. Perdoa-me se foi demorado demais.
Um ótimo dia para ti e para a tua família.

Miguelito

God Save The Queen - O Concerto

“Há dias que são mais dias que os outros porque os enchemos de paz e alegria”.

Hoje amanheci em Gondomar; mesmo acordando em Arouca.
O nervoso miudinho começou cedo. Tudo o que ia chegando de Lisboa via facebook fazia a ansiedade crescer à mesma velocidade com que as crianças contam os dias e as horas para o Natal. Para ajudar a controlar o tempo sento-me ao piano onde os meus dedos me dão os Queen, sobretudo os sons que não vão passar à noite. “My Melancholy Blues” e “It’s a Hard Life” são as que toco mais vezes até entrar em “modo Queen”. Não demora muito tempo, reconheço. Enquanto isso, e muito antes da ligação que partilhaste no meu facebook desejando-me um bom concerto, lembro-me do dia em que fomos ao Porto, àquela casa na Rua 31 de Janeiro, onde comprei os meus dois primeiros álbuns dos Queen. A celeridade com que nos sentámos para ver a letra do Bohemian Rhapsody... E eu tenho saudades, amigo. Muitas.
A caminho de Gondomar, tudo parece sorrir à minha passagem. Há dias assim. Mesmo que a chuva teime em cair cada vez com mais força. Cheguei cedo, o relógio ainda não tinha chegado às 15h30. Ao sair do carro lembrei-me duma frase que durante anos a fio dizia antes de me levantar da cama pela manhã. E repeti-a mesmo ali, baixinho, para dentro de mim: “hoje o meu dia vai ser bom”. Sábia e feliz premonição. Enquanto esperava no exterior do pavilhão pelos meus colegas que haveriam de chegar de autocarro fui recordando milhões de pequeninas coisas, pequeninos pontos com que fui cosendo a minha vida. É reconfortante quando, por pouco que seja, nos decidimos a fazer o nosso percurso voltados de costas para a vida e damos conta que está lá tanta gente. A sensação de que vale a pena tem um sabor difícil de igualar.
Entro no pavilhão e assim que avisto os primeiros colegas logo ouço: “Olha, chegou o fã dos Queen”. Para início de jornada o quadro não poderia ter trazido melhor matiz. Enquanto vou procurando a respetiva credencial dizem-me que fiz falta no concerto de ontem. Não me tinha apercebido disso mas soube muito bem ouvir. 
O teste de som é feito olhando as cadeiras vazias que estarão ocupadas quando a noite já tiver acordado. À medida que a hora se aproxima a ansiedade vai crescendo em cada um a seu modo. Os homens trajam mais a rigor dando um ar mais solene à ocasião. As meninas, essas, trazem consigo uma beleza ainda maior que aquela que transportam nos outros dias. Ou por outra, a beleza é igual, apenas fica mais realçada. De tal forma que a cada passo dado pelo pavilhão fazem lembrar um qualquer bailado feito pela Natalia Makarova. Tudo parece mais gracioso. Como se tudo dentro de cada uma trouxesse mais poesia que um soneto de Shakespeare ou mais sonho que a Pedra Filosofal do António Gedeão. Deve ser a tal labareda que o próprio Camões disse arder sem se ver.
A hora chega, finalmente, e tento aproveitar ao máximo esta oportunidade única. Sobretudo para ouvir ao vivo as canções que o Freddie nunca cantou em concerto.
No palco, não raras vezes, as paredes do coração chegam a tocar a ponta dos dedos. O concerto passa a correr. A um ritmo tal que nem dá para ter sido ainda melhor. Pelo meio tenho a possibilidade de tocar campainha no “Bicycle Race”. Sou um autêntico felizardo.
Termino o concerto em pé mas a minha alma está de joelhos em sinal de agradecimento.
No final, uma amiga cumprimenta-me e pergunta-me como foi. Despeço-me e pelo caminho perguntam-me se vou tirar uma foto com o Pablo. Confesso, até gostava. Mas o Freddie, é o Freddie...
Entro no carro com a mira apontada para Arouca onde me espera um computador para escrever as milhentas palavras que tenho a fervilhar na cabeça. Porque, como costumo dizer, as memórias escritas parecem chegar-se para mais perto de nós. E isso sabe muito bem.
Pelo caminho venho a saborear o facto de alguns colegas começarem a chamar-me Miguel em detrimento de Rui. Hoje, de facto, foi um dia um bocadinho mais dia que os outros.
Obrigado.
Até amanhã, Freddie.

Miguel

P.S.
Interessante como muitos dos pormenores foram pensados. Até a própria música em que colocaram o “Brian May” a cantar enquanto o Pablo aproveitava para trocar de roupa não é escolhida ao acaso. De facto, a primeira versão de “Too Much Love Will Kill You” a sair para o grande público foi em 1992 num álbum a solo do próprio Brian May. Só em 1995 davam a conhecer uma versão com o Freddie.
Obrigado pela atenção aos pormenores.

P.S. 2

Dizia a Odete enquanto eu almoçava se havia alguma canção que eu gostasse e que fosse ficar de fora do programa. Ri-me e disse-lhe que seria fácil encontrar outras vinte e cinco para um concerto de igual calibre. Vim a pensar nisso no caminho de regresso. Foi fácil chegar às 25. O difícil foi ficar só por 25. Mas cá vai...

Save Me
Good Old-Fashioned Lover Boy
I Want To Break Free
It’s A Hard Life
Breakthru
The Miracle
I’m Going Slightly Mad
Hammer To Fall
Friends Will Be Friends
My Melancholy Blues
Heaven For Everyone
Living On My Own
Let Me Live
These Are The Days of Our Lives
A Winter’s Tale
Is This The World We Created?
Spread Your Wings
Time
In My Defence
Love Kills
The Fallen Priest
I Was Born To Love You
There Must Be More To Life Than This
Let Me In Your Heart Again
In the Lap of the Gods... Revisited

"Despertar" para o meu liceu...



Hoje vou contar-te uma história. De forma antecipada, peço já as minhas desculpas pois, como já deves saber, estou pouco à vontade com as palavras. Mas hoje, aqui e agora, a vontade de te contar uma história falou mais alto. Então, cá vai...

"Chamava-se Miguel.
Naquele dia, como em tantos outros, acordou às 7h da manhã. Quando descia para tomar o pequeno-almoço já a mãe tinha regressado da padaria que ficava ali por baixo da casa do Ferraz. Antes de sair para a escola gostava de olhar ao espelho para verificar se o penteado estava na configuração habitual. A roupa, essa, incluía sempre umas calças de ganga duma qualquer marca da moda, uma camisa sempre por fora das calças e uma par de botas texanas do mais pontiagudo que houvesse no mercado. Para o ritual ficar completo, o último retoque englobava a passagem de uma palmada de água pelo cabelo e um cheirinho do perfume do irmão mais velho para não fazer má figura junto das meninas. Só assim poderia deitar as mãos ao seu caderno diário (uma capa forrada com o póster do Freddie Mercury) e sair rumo a outro "dia mais feliz da sua vida".
A camioneta passava perto das 8h e era apanhada quase sempre "in extremis". Ao abrir a porta de casa, o Miguel encontrava quase sempre o Tono ou o Sérgio cujos dias lhe ensinaram que dificilmente apareceriam amigos de igual calibre pela vida fora. Sábios ensinamentos. E lá seguiam em passo apressado até à paragem da barroca, mesmo que por vezes tivessem que subir o combro junto à antiga serração pois os camiões estacionados e os trabalhadores a jogar à bola na estrada faziam com que não quiséssemos interromper.
A paragem, embora ainda esteja no mesmo sítio, era, na altura, bem diferente. Sobretudo porque ao virar a esquina da loja da Emilinha avistava-se logo uma imensidão de gente; pessoas a quem pertencíamos e que nos faziam querer ter um dia igual quando o amanhã chegasse.
Entrar na camioneta era um dos rituais mais aguardados. Nunca se conseguia lugar sentado mas para além do Tono e do Sérgio, abraçava-se o Pedro, falava-se de futebol com outro amigo qualquer, cumprimentava-se a Carminda ou procurava-se o sorriso da Patrícia. E isso não tem preço. Mesmo que estivéssemos em pé, apertados, pior do que sardinhas enlatadas. E depois começava a "Canção do Despertar" da Rádio Renascença com o António Sala e a Olga Cardoso. E todos cantavam entre encontrões e pisadelas. O Miguel chegava à escola de coração cheio.
Quando as aulas não começavam logo às 8h30 haviam os famosos jogos "turma contra turma" que fizeram o Miguel correr quilómetros durante os seis anos de liceu. Celebrar um golo com os amigos com quem se partilhava a sala de aulas é uma sensação que ainda hoje o Miguel gostava de ver repetida.
As salas 7, 11, 28 ou 41 foram, a seu tempo, míticas. Testemunhas de histórias que só o coração soube guardar até hoje. E o Miguel bem se lembra de partilhar a carteira com o Rui, o Bruno, a Helena, o Freitas ou o grande Nepinhas.
Há tantas coisas de que o Miguel tem saudades... As aulas de Educação Física, as conversas no balneário, as filas da cantina, a proximidade que se criava com os funcionários, os professores... A D. Emília do Bufete era uma santa mulher, o Sr. Antero das fotocópias um exemplo de vida e o tempo que se passava em amena cavaqueira com a mãe do Celso antes de tirar a senha para mais um pão com fiambre fica guardado para a eternidade.
O Miguel tem ainda saudades das conversas com os colegas da mesa ao lado ou da frente. Trocar bilhetes com a Dulce, a Fátima, a Carla, a Susana ou um riso com a Rosário faz parte do passado que deveria ser sempre presente.
A sala de convívio e os filmes que lá passavam em altura de eleições para a Associação de Estudantes também têm o cheiro de saudade. Isso e os filmes que passavam no casarão ou na sala de Moral. Foi lá que o Miguel viu o Batman, o Encontro de Irmãos, Em Busca da Esmeralda Perdida ou o Homem com os Dois Cérebros, por exemplo.
Depois havia ali o corredor mesmo em frente ao pavilhão 2 onde costumavam estar os mais populares. E era em muitos desses corredores que o Miguel sorria muitas vezes para a menina que amava em segredo.
À noite, enquanto se vinha esperar a camioneta à vila, havia sempre tempo para uma partida de bilhar no Cheiro Verde com o Pedro. Sim, esse mesmo: aquele que Deus fez e deitou fora a receita. De tal forma que se torna difícil encontrar igual. Talvez não haja.
O dia acabava já em casa com um beijo ao pai e à mãe que, diga-se em abono da verdade, davam sentido a tudo o resto.
Chamava-se Miguel."

Hoje o Miguel tem 40 anos e, não tendo nada disso, no fundo, até tem. Está tudo na distância que vai do coração até à ponta dos dedos ou, por vezes, até à "ponta" dos olhos. Hoje foi pelos dois lados. Quando é assim, costuma trazer um nó na garganta. Vou tentar não lhe dar muita confiança.
Engraçado como mesmo com esta idade, no caminho para o trabalho, ele continua a procurar o sorriso da Patrícia, o olhar da Carminda, o rosto do Pedro ou o abraço do Tono.
A vida é bonita, não é?
Um abraço e um beijinho a todos os meus colegas de liceu.
Vocês, não sei... Mas eu ainda vou cantar o "Despertar" antes de me deitar.
Boa noite.

Miguel

Top +



Sabes André, um dia, quando começares a perceber as coisas, vais ficar admirado.
Gostava de poder já falar contigo das minhas histórias da adolescência. De dias em que fui feliz de uma forma que espero que o consigas ser também, embora à tua maneira. Se calhar vai soar-te um pouco estranho ouvires tantos relatos meus e nenhum deles empregar a palavra "facebook" ou "internet". Não sei se um dia conseguirás imaginar que para ouvir e ver os videoclips das minhas músicas preferidas tinha de esperar pelo início da tarde de cada domingo. Durante uma hora ficava colado ao ecrã na esperança de que nessa semana passassem as músicas de acordo com as minhas preferências. Era a altura de ter o vídeo sempre pronto a gravar para depois poder (re)ouvir tudo durante a semana.
Ver o vídeo que te deixo é relembrar "Bohemian Rhapsody", "You Win Again", "Amazing", "Everything I Do", "What's Up", "Go West" e tantas, tantas outras músicas que me trazem muitos outros bons momentos com pessoas boas. Desejo do fundo do coração que consigas ter amigos tão bons como eu tive.
Ontem, ao descobrir este vídeo no youtube, voltei a brincar muito. Um dia, espero poder fazê-lo contigo.
Dorme bem.
Até já.

Miguel

28 de Agosto de 2016 - O Milagre da Vida

28 de Agosto de 2016

Olá André. Obrigado por teres vindo.
Sabes... Dizem-me que hoje tudo continua como dantes. O Big Ben não se atrasou, o Taj Mahal continua magnífico como devem ser as verdadeiras provas de amor, voltou a não chover no deserto do Sahara, os jardins da Babilónia continuam suspensos e até a Mona Lisa continua a esboçar um sorriso. Por tudo isso, talvez este dia tenha passado despercebido ao comum dos mortais. Mas não para mim. Porque tu nasceste. Há muito que estávamos à tua espera: eu, a tua mãe, os teus irmãos e toda a tua família que já te foi carregando no colo para te mostrar o quanto tem para te amar.
Quis muito que chegasses. Tanto e de tal forma que acabaste mesmo por chegar. E quando fores um bocadinho maior eu hei-de encontrar as palavras certas para te descrever o olhar emocionado da tua mãe na sala de partos quando estavas já no colo acabadinho de nascer.
Tens muita sorte, sabes? Mal acabavas de nascer e já Deus te tinha oferecido um mundo inteiro de presente. E como se não bastasse, para além do teu pai e da tua mãe, tinhas já a Rita e o Tiago prontinhos para te abraçar e para fazer inúmeras brincadeiras contigo. Ainda por cima nasceste no mesmo dia do Tiago. Consegues imaginar como ele estava contente?
És o mais novo, como eu e a tua mãe. Por isso acho que consigo imaginar um pouco da sorte que realmente tens. Espero conseguir dar-te o que de mais parecido encontrar com o que me foi dado pela tua tia Isabelita, a tua tia Cristina e o teu tio Zé Mário. É justo dizer que os teus avós são o exemplo que estou a tentar seguir. E eu hei-de contar-te tantas histórias de quando éramos pequeninos que irei conseguir que tenhas vontade de ficar sempre pequenino. E esse é um dos maiores segredos da felicidade. Mas não digas a ninguém, fica só aqui entre nós.
Entretanto vamo-nos amando no presente. Tu ainda muito pequenino e eu contigo no colo a dar-te todo o mimo de que sou capaz. Já deves ter reparado que a tua mãe anda a dormir um bocadinho menos. Isto cá para nós, eu acho que é só porque ela quer passar todo o tempo contigo. A Rita e o Tiago estão sempre a pedir para te carregar no colo. Imagina só o quanto hás-de brincar com eles. A Rita gosta de escolher a tua roupinha e o Tiago tem já mais de uma dezena de bolas de futebol e equipamentos para jogar contigo quando aprenderes a caminhar. Mas não tenhas pressa. Tudo terá o seu tempo. E nós cá estaremos para te acompanhar.
Obrigado por teres vindo.
Hoje aconteceu um milagre. Ainda que me digam que tudo continua como dantes. Mas ambos sabemos muito bem que não, pois não?
Gosto muito de ti. Um beijinho do teu pai.

Miguel