"Deus é grande nas grandes coisas; mas é enorme nas pequeninas!"
Olá Tiago.
Finalmente chegaste. Numa manhã calma, sem pressas. E eu estava lá, bem junto da tua mãe. Era, sem dúvida, o lugar mais apropriado pois foi através da tua mamã que comecei a gostar de ti.
A primeira vez que te vi tinhas acabado de sair do ventre da tua mamã e estavas suspenso nas mãos do médico de pernas para o ar. Foi aí que me surgiu a imagem do mundo ao contrário, da visão um pouco diferente das coisas, de uma nova perspectiva.
Levaram-te para uma outra salita para te limparem e chamaram-me para te acompanhar. Tinhas ainda acabado de soltar os primeiros gemidos quando te beijei emocionado. Guardo comigo a cara da tua mãe quando te levei junto a ela, ias ainda embrulhado no meu colo. São momentos bons de guardar pois são momentos de quem ama.
O resto já vais aprendendo, aos poucos, como é. Já reparaste que estou um pouco destreinado na arte de vestir roupas tão pequeninas mas com a tua preciosa colaboração lá nos vamos safando. Espero que vás já guardando nessa cabeça tão pequenina algumas das melodias que te vou trauteando ao ouvido. Sinto que nos aproximam ainda mais.
Sabes, enquanto iam desfilando todas estas peripécias que vivemos nestes teus poucos dias de vida nova eu fui-me recordando de muitas brincadeiras que tive, há muitos anos atrás, com algumas das melhores pessoas que o mundo tem: o Pedro, o Tono, o Sérgio, o teu tio Zé, o Eduardo... Juntos brincávamos com caricas, éramos cowboys, o Nélson Piquet ou os Estrunfes. Tínhamos em cada chuto numa bola o Benfica todo nos pés. Hoje crescemos. Somos mais velhos. Somos pessoas grandes como dizem (e muito bem) os meninos mais pequenos. E eu gosto muito deles na mesma. Mas, se me dessem a escolher, queria que eles fossem sempre pequeninos. É assim que vou guardar para sempre os nossos melhores momentos.
E foi essa a nova perspectiva que me surgiu quando te vi de pernas para o ar. Lembrei-me de um homem que viveu há muitos anos atrás e que tinha um grande discernimento quando olhava as coisas. Tanto que um dia, conta um antigo cobrador de impostos, terá dito: "Deixai vir a mim as criancinhas". Ao ver-te ali, com o mundo ao contrário, dei-me conta que vais ser sempre o meu pequenino. Mesmo quando fores grande, para mim, nunca vais crescer. Porque para os pais os seus filhos são sempre pequeninos. É neste contexto que aquela frase dita há muitos anos atrás por um amigo do teu pai que se chamava Jesus e que era um homem bom ganha um sentido mais profundo. Porque quando o Pai chama as suas criancinhas está a estender os braços a toda a humanidade. E essa é uma maneira bonita de entender o que pode realmente ser a vida e devo-o, em parte, a ti.
É por isso que hei-de brincar muito contigo. Sempre. Com todas as minhas forças. Seja com bonecos, a chutar uma bola, à macaca ou a atirar o pião. Havemos até de completar cadernetas onde saberemos o nome dos jogadores de futebol de trás para a frente. Ou jogar às escondidas e correr no campo atrás de nossa casa até não termos força para mais. Tudo o que nos ajude a ser sempre pequeninos.
Gosto muito de ti.
O teu pai, Miguel.
Tudo ao Contrário
O menino do contra
Queria tudo ao contrário:
Deitava os fatos na cama
E dormia no armário.
Das cascas dos ovos
Fazia uma "omelete";
Para tomar banho
Usava a retrete.
Andava, corria
De pernas para o ar;
Se estava contente
Punha-se a chorar.
Molhava-se ao sol,
Secava na chuva
E em cada pé
Usava uma luva.
Escrevia no lápis
Com um papel;
Achava salgado
O sabor do mel.
No dia dos anos
Teve dois presentes:
Um pente com velas
E um bolo com dentes.
Luísa Ducla Soares












