Hightower


Riso: Acto ou efeito de rir. Alegria; graça. Zombaria; escárnio.

Para a geração seguinte à minha, falar de "Bubba" Smith é o mesmo que traçar no papel os riscos que desenham o desconhecido. É natural.
Mas para todos os que são próximos da minha idade, falar de "Bubba" Smith e, em particular, do agente Moses Hightower da saga Academia de Polícia é como que abrir uma autêntica enciclopédia de bons e velhos momentos. É relembrar amigos e estórias. A nossa História. É, por momentos, voltar a estar lá.
Quem conhece a saga que se iniciou em 1984 facilmente se recorda do grande Hightower que era sempre requisitado quando se tratava de deitar uma porta abaixo ou até mesmo uma parede. A sua força era tal que faria o próprio Sansão corar de vergonha. E era sobretudo essa a sua missão nos filmes da saga: ser forte. Com tudo o que isso implicava no surgimento de peripécias, equívocos e absurdos que nos faziam a nós, comuns mortais, rir às gargalhadas.
Reconheço hoje que os filmes da Academia de Polícia acabaram por não envelhecer muito bem. Muitas das piadas resultaram apenas no seu tempo. Tiveram a sua altura própria.
Reconheço igualmente que não foste um grande actor. Mas não era isso que se pretendia. O importante era o riso. E isso soubeste-me trazer. Foram tantas as vezes em que ri com o Pedro, o Tono ou o Sérgio por causa das tuas intervenções. E hoje queria apenas agradecer-te por isso. Por me teres feito voltar a "estar lá". E sobretudo, ter-me dado conta que o posso fazer sempre que a vontade o quiser.
Vou sentir muitas saudades tuas. Do teu riso. Do meu riso. Perdoa-me se de vez em quando perguntar ao Tono ou ao Pedro por ti. É só para saber como vão indo as coisas contigo...

D. Quixote e Dulcineia


"Mas porque te ris do pobre D. Quixote por amar a Dulcineia, que não existia?
Mas todo o homem só ama a mulher que não existe. E bom é isso.
Porque se ela existisse, o amor deixava de existir. Mesmo que ele a ame, como supõe.
Porque todo o amor só existe nos intervalos da pessoa amada existir. Fora desses intervalos não existe.
Porque só existe essa pessoa real. Como a nossa casa só existe talvez quando estamos fora dela.
Ou qualquer coisa assim. (...)"

Nunca mais vi o Carlos...




Turma 11.B - Ano lectivo: 1992/1993
Foto de equipa, em cima, da esquerda para a direita: Elísio, Paulo Bastos, "Neno", Rui Pedro, Carlos.
Em baixo, da esquerda para a direita: Pedro Alexandre, Miguel (Eu) e Pedro "Cereja".

Há dias assim. Aqueles em que mais do que em qualquer outro não queremos falhar. E hoje estou assim. Queria ter todas as palavras certas para te dizer. Mais do que isso. Queria entranhar em ti tudo o que tenho para te dizer de tal forma que te conseguisse revolver as entranhas mesmo sem saberes porquê. Queria que sentisses o sangue a queimar-te por dentro mesmo sem encontrares para isso razão aparente. Queria que fosse hoje o dia em que consegui escrever aquele texto melhor que todos os outros como se Camilo, Eça ou Pessoa estivessem empoleirados no meu punho. Mas não consigo. Perdoa-me. Não consigo. Até porque o cansaço já há muito me venceu. Mas não desisto. Por isso vou começar assim, da forma mais simples que julgo ser capaz...
Nunca mais vi o Carlos. Nunca mais. Será certamente um sentimento comum a quem concluiu o secundário num tempo em que não existia internet nem telemóveis. Nunca mais vi o Carlos. E isso dói. Muito. De uma forma que só os corações desprendidos são capazes de perceber. Mas guardo desse tempo muitas das nossas histórias que me fazem tão bem mesmo que saibam sempre a tão pouco. Fecho os olhos e vejo-te chegar à escola na tua "cagiva" sempre em cima da hora. Mesmo que para ti a expressão "em cima da hora" queira dizer 5 minutos atrasado. Acho agora ainda mais graça às inúmeras anedotas que contavas nos intervalos e sinto muitas saudades das nossas conversas sobre o Benfica que defendíamos com unhas e dentes numa turma maioritariamente portista. Lembro-me de quando gritaste GOLO em plena aula de matemática e me abraçaste com o olhar lá do fundo da sala pois o Isaías tinha marcado ao Porto. E desculpa se neste início de texto falo um pouco mais de ti mas de todos os que aparecem na foto és o único que nunca mais vi desde os tempos de liceu e talvez seja a forma que encontrei para colocar a conversa em dia. Foi há 17 anos. Perece que ainda foi ontem. Ou hoje. Há bocadinho. E esta, hein?
Devo estas fotos ao amigo Neno. Era a nossa equipa. Nesse ano haveríamos de conquistar o torneio da escola ganhando na final por 4-0 onde me lembro perfeitamente de marcar o primeiro golo. Memórias, realmente, não me faltam. Escasseia, isso sim, o engenho para as partilhar. Sinto saudades das nossas conversas nos balneários enquanto nos equipávamos ou dos abraços aquando de cada golo marcado. Sinto falta de deambular pelas artérias do liceu convosco com aquelas roupas que hoje nos fariam rebolar a rir.
O Elísio ainda encontro de vez em quando e acabamos sempre por trocar um olá ou um sorriso cúmplice com sabor aos velhos tempos. O Paulo Bastos vou encontrando "virtualmente" pelo facebook e vamos, à nossa maneira, revivendo alguns dos melhores momentos desse 11.º ano. O Neno, por força do destino, encontro agora frequentemente cá por Rossas e a ele devo estas fotos que ajudam a eternizar tantas boas memórias (ainda tenho por aqui mais uma meia dúzia... Eheheh). O Rui Pedro encontro de forma mais espaçada mas o suficiente para trocar algumas impressões sobre as novas aquisições de Benfica e Porto e acabamos sempre a conversa com largos sorrisos no rosto. Os dois Pedros, o Alexandre e o "Cereja", vejo-os muito pouco. Mas sempre com aquele olá cujo timbre parece dizer que bem se lembra daqueles tempos de ouro passados no liceu que agora resolveram demolir. E muitos outros faltam na foto. Sobretudo o Nepinhas e o Freitas de quem haveria ainda tantas histórias a contar.
Sinto falta de chegar a casa e estar a dar o "Isto é Magia" com o Luís de Matos onde lhe descobri muitos dos truques. Sinto falta da "Roda da Sorte" ou do "Com a Verdade M'Enganas". Sinto falta. Não consigo continuar. Já não sou eu a usar as palavras. Sinto serem já elas a usar-me. Talvez o melhor seja mesmo guardar comigo o resto das memórias. Parece impossível. Nunca mais vi o Carlos...



«Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que partilhamos. Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das vésperas dos finais de semana, dos finais de ano, enfim...do companheirismo vivido. Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai para seu lado, seja pelo destino ou por algum desentendimento, segue a sua vida. Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe...nas cartas que trocaremos. Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices... Aí, os dias vão passar, meses...anos... até este contacto se tornar cada vez mais raro. Vamo-nos perder no tempo...Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e perguntarão: "Quem são aquelas pessoas?" Diremos...que eram nossos amigos e...isso vai doer tanto! "Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons anos da minha vida!" A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... reunir-nos-emos para um último adeus de um amigo. E, entre lágrimas abraçar-nos-emos. Então faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vida, isolada do passado. E perder-nos-emos no tempo...Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades... Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!»

Retalhos de Teatro


Foi ontem.
A convite do Nuno, o Grupo Cultural e Recreativo de Rossas apresentou um pequeno espectáculo na Esplanada do Parque. O desafio era grande. A proposta inicial era apresentar uma peça de teatro completa ao ar livre.
Depois de uma primeira reunião onde trocámos várias ideias com o Nuno logo chegámos à conclusão que o melhor seria apresentar uma espécie de "manta de retalhos" que pudesse dar a conhecer às pessoas o trabalho de fundo que temos vindo a desenvolver no que à representação diz respeito. E foi assim que o espectáculo começou a ganhar forma, entrelaçando pequenos sketchs com danças e algumas cançonetas mais cómicas até chegar àquele que seria o alinhamento final.

1 - Olho Vivo e Zé D'Olhão
2 - O Concerto de Violino
3 - O Careca
4 - Maria e Manel
5 - A Mula da Cooperativa
6 - O Bombeiro Voluntário
7 - Dança - Alegria - Cirque du Soleil
8 - As Mulheres são uns Amores
9 - Chá, Café ou Laranjada?

O tempo para a preparação era curto, muitos dos nossos actores estavam já em férias e o facto de este ser um desafio um pouco diferente do habitual pelo facto de ser ao ar livre acabou por exigir um esforço ainda maior de todos os envolvidos para que tudo corresse bem.
Hoje, já depois de um noite muito bem dormida, posso dizer que tudo valeu a pena. Ainda bem que o Nuno se lembrou de nós. A esplanada estava a abarrotar. O número de espectadores superou, em muito, as minhas melhores expectativas. Senti-me completamente em casa. Por entre a assistência vi muitas caras familiares mas também muitas outras que não costumam estar nos nossos espectáculos. Caras de riso, de satisfação, de aprovação e, sobretudo, de bem-estar. E esse talvez tenha sido o maior proveito que se conseguiu com a noite de ontem: conquistar público.
Na primeira fila um ilustre espectador: o actor Ruy de Carvalho. Penso que foi um prémio justo para esta nossa Associação que há tantos e tantos anos neste concelho se dedica ao teatro de forma solitária mas, felizmente, reconhecida.
Penso que foi um bom momento. Uma boa colecção de retalhos. Desculpem se tudo foi preparado de forma tão rápida, tão sem tempo que nem deu para ser ainda melhor.
Resta agradecer ao Nuno por ter a coragem de apostar na nossa Associação e ao público: pela presença e, sobretudo, pela forma calorosa como nos recebeu.
Um grande abraço e obrigado por me fazerem continuar a acreditar no Teatro e no trabalho que se desenvolve no Grupo Cultural e Recreativo de Rossas.

Miguel Brandão

P.S. No próximo sábado, dia 30 de Julho, pelas 21h30, vamos apresentar na Casa do Povo de Arouca parte do espectáculo "Onde há fumo... há fogo" que já fizemos no salão dos Bombeiros Voluntários de Arouca. Quem quiser rever alguns desses momentos está, desde já, convidado a assistir...

Porque há palavras que são sempre actuais

 
Porque há palavras que são sempre actuais.
Escrevi estas mesmas palavras neste blogue há um ano atrás mas continuam a fazer todo o sentido.
Para todos aqueles que te querem voltar a abraçar da mesma forma....


Poderia cair na fácil tentação de dizer que falar do Pedro é difícil. Porque haveria sempre muito de bom a dizer. Mas essa é a razão que encontro para dizer exactamente o contrário. É bastante fácil falar do Pedro. Talvez o difícil seja dizer tudo, isso sim. Mas nunca será esse o meu propósito. Porque de um amigo como o Pedro, mesmo que me fosse possível, nunca diria tudo. Assim, à semelhança do que fazia Scheherazade para não perecer às mãos do Rei nas histórias das 1001 noites, também eu deixo aqui esta espécie de texto sempre inacabado...
As primeiras recordações que hoje me aparecem são de um tempo em que, ingenuamente, tinha por Arouca o mundo inteiro. Tínhamos ido ao ciclo para vermos as turmas juntamente com o Rui da Portela e o Tono (que acabou por ir mais tarde pois perdeu a camioneta). Estivemos na parte de trás onde tantas e tantas vezes joguei às "31 janeiras" e o Rui lembrou-se de se deitar na rede que já estava toda torta e gasta pelo tempo. Quando vínhamos embora lá ouvimos aquele barulho característico e ao olharmos para trás só me recordo de ver o Rui com o bolso das calças na mão e dizer: "C&%$&%, já me f%&$". Rimo-nos tanto, lembras-te? De tal forma que quando o Tono chegou queríamos-lhe contar e nem conseguíamos... Demais.
Também me lembro dos ensaios de teatro na garagem do Sr. Ferraz em que acompanhávamos as nossas mães e aproveitávamos para brincar. E os ensaios do Orfeão de Rossas onde começámos desde pequeninos.
Também me lembro das tardes que passávamos na serra durante as férias em que íamos no Toyota Corolla do meu pai com o meu irmão a conduzir ou na carrinha de caixa aberta do Sr. Isaías que o Carlos conduzia...
Outro episódio que recordo com um carinho especial é estar à porta do Café Lanterna à espera que chegasses com o teu pai para irmos para os ensaios da Banda à noite. Fecho os olhos e vejo-me a abrir a porta da 4L do teu pai, entrar e ainda pareço ouvir o teu pai a dizer: "Ai que requintinha nós temos... tarari tarari tararira tararirarirarirarirara". Ele dizia isso sempre que eu entrava. Todas as vezes. E nós ríamo-nos sempre. Dá uma saudade...
E quando nos juntávamos em casa da Sara num sábado à noite para ver um filme? Tenho saudades dessa malta...
Também me lembro que fomos os dois com o meu irmão, uma tarde, de propósito ao Porto, ao cinema Charlot apenas para ver o "Aonde é que pára a Polícia 33 1/3". Ou de quando fui fazer a Prova Específica de Matemática e tu foste comigo a Aveiro apenas pelo prazer de ir...
Podia ainda falar das inúmeras tardes e noites passadas a jogar Commodore Amiga que, ainda hoje, recordo até ao mais pequenino pormenor. Ou de quando compraste a tua bicicleta e chegaste com ela pela primeira vez à escola. Ou das nossas futeboladas, correiadas, escondidas, e todas as brincadeiras possíveis e imaginárias passadas no recinto da escola quando este, felizmente, ainda não tinha grades que nos pudessem deter. Ou os tempos passados no liceu em que, mesmo não sendo da mesma turma, passávamos grande parte do tempo juntos. Lembro-me, em particular, de um certo dia em que resolvemos fazer uma brincadeira com uma maçã: tu, de um lado do corredor e eu do outro. Quando passava uma rapariga lá atirávamos a maçã de um lado para o outro. Enfim... Isto para não falar nas infinitas vezes que fomos para o Cheiro Verde jogar bilhar (ai se a minha mãe sabia) onde me ganhavas quase sempre...
Podia ainda falar nos vários festivais em que participámos juntos ou nos ensaios da Banda às 18h em que o meu pai é que nos ia buscar. Ou à noite quando íamos para a cabine telefónica dar o sinal ao meu pai para nos vir buscar e depois fazíamos algumas chamadas a brincar: "Está?... Está..." É melhor nem continuar...
E aqueles ensaios do grupo coral ao domingo de manhã em que as nossas irmãs é que ensaiavam? Muitas vezes, no final, ainda passávamos pela Barroca para comprar o jornal e ver as análises a mais alguns jogos do Amiga...
Também me lembro de quando íamos ao centro comercial ver os filmes do clube de vídeo. Fazíamos isso praticamente todos os dias. E de quando trazias o teu vídeo a minha casa para gravarmos alguns filmes. Ou aqueles vídeoclips que gravávamos do Top+... Ou quando íamos a S. J. da Madeira comprar jogos para o Commodore Amiga e já tratávamos as funcionárias por "tu"...
E quando foste com a bicicleta de corrida do Francisco da Costa pela descida de Carvoeiro e te partiram os dois travões? Isso é que foi uma aventura...
E poderia continuar, continuar, continuar que nunca conseguiria dizer tudo o que passámos durante estes anos e que ainda trago aqui comigo...
Aos poucos, o tempo foi passando e o mundo foi crescendo muito para além das fronteiras de Arouca. Embora estejas sempre presente, a vida foi-nos levando por caminhos um pouco diferentes. É mesmo assim e não há mal nenhum nisso. Mas gostava que soubesses que sempre que me lembro de ti é como se tivesses acabado agora mesmo de chegar à escola de bicicleta ou de bater à porta de minha casa. Dizem que isso nos acontece sempre com as pessoas de coração bom. Acredito profundamente que sim.
Sabes... Nunca mais tive amigos como quando tinha 12 anos. Mas será que alguém tem?

Um abraço forte de parabéns.

Schmeichel (como carinhosamente me chamavas)

As Máquinas Voadoras e as Chiclas Gorila



Cá estou eu de regresso a este "Avião de Papel" com um post um pouco parecido com o anterior pois também dá papel de destaque às míticas chiclas Gorila. Por outro lado, um post um pouco diferente em termos de memórias, pessoas e momentos. As primeiras, embora igualmente queridas, são bastante mais antigas. As pessoas, por razões óbvias, são mais pequeninas. Os momentos, esses, são similarmente inesquecíveis.
De todas as colecções que fiz (e foram bastantes) esta é a mais marcante. Aquela pela qual tenho uma maior ternura. Esta é "a" colecção. E há uma razão especial para isso. Desde muito pequenino que estou familiarizado com a expressão "fazer colecção". Por essa altura o meu irmão era o meu maior ídolo e possuía uma gaveta lá em casa a que chamávamos carinhosamente a "gaveta das cadernetas". Penso que o nome diz tudo. Embora a grande maioria fosse dedicada ao futebol havia por lá uma grande variedade e quantidade de colecções. E foi assim que o vício se foi instalando: com a cumplicidade do meu irmão. Desde muito cedo eu tentava fazer trocas na escola primária para conseguir alguns cromos lá para as colecções que o meu irmão tanto queria completar. E como ele tinha todas aquelas cadernetas tão estimadas e arrumadinhas... De tal forma que, quando não estava em casa, eu tinha de pedir à minha mãe permissão para poder ir à "gaveta das cadernetas" apenas para ficar a contemplar aquele pequeno paraíso. E é desta forma que esta colecção de aviões ganha o seu lugar na História. Porque além de ser uma colecção de grande qualidade e além de ter mais de 800 cromos diferentes, foi a primeira colecção que fiz sem que estivesse a coleccionar cromos para o meu irmão. Esta era a minha colecção. E isso tem a sua importância. Pelo menos para mim...
Lembro-me que o meu primeiro contacto com um cromo destes aviões foi dentro da escola à porta da sala do meu pai, mesmo ao cimo das escadas, quando o Carlos "Coveiro" me deu a novidade da nova colecção que estava a começar e me mostrou ali mesmo o n.º 119. Não descansei enquanto ele não mo deu. Mesmo assim não foi fácil de convencer pelo que o primeiro cromo que consegui angariar foi o que me haveria de sair em sorte numa chicla que consegui cravar a um dos meus amigos. Era o n.º 8 e tinha a forma de um balão. No papelinho vinha o título: "Pioneiros (Aeronáutica)". Isto prometia...
Sei que a febre das chiclas Gorila haveria de durar por muito tempo. E o quão difícil era ampliar a colecção pois a minha mãe não deixava comprar chiclas pois dizia que eram "perigosas". Imaginem que só me deixava comprar rebuçados!
A "época alta" para aumentar a colecção acontecia aquando das Festas de Nossa Senhora do Campo em que parecia um doido a percorrer as ruas da festa vezes sem conta sempre de olhos postos no chão a apanhar tudo o que fosse invólucros de chiclas Gorila na esperança que tivesse pertencido a algum adulto que não ligasse nada a essas coisas. Conseguíamos juntar vários "maços" de cromos.
Como se pode ver na foto que vos deixo (se clicarem nela verão que aumenta substancialmente) a certa altura surgiu o desafio de juntar todos os aviões pertencentes à II Guerra Mundial. Foi a maior asneira que fiz na vida. Lembro-me que me faltavam apenas 3 cromos para conseguir tal façanha. Mesmo assim, na esperança de que os manda-chuva da Gorila não dessem conta, enviei tudo direitinho e passados uns dias recebi o meu álbum ilustrado com todos os aviões da II Guerra Mundial. Uma autêntica desilusão. Lembro-me de pensar: "Ai o álbum é isto?! Quero os meus cromos de volta!!!". Infelizmente já era tarde demais para reparar o erro. A desilusão foi tal que acabei por oferecer o álbum ao meu primo Ilídio que era um dos meus companheiros nessas andanças.
Hoje sobram algumas boas lembranças e todos os pequenos cromos que consegui juntar na altura. São bastantes mas sinto que a colecção está coxa. Contam-se apenas pelos dedos das mãos os aviões da II Guerra Mundial que resistiram ao passar dos anos. E tudo por causa de querer aquele maldito álbum...
Passaram quase 30 anos. À medida que vou passando os cromos um a um pelas minhas mãos sinto vários rostos cruzar comigo. Os cromos cheiram ainda a morango, banana ou até mesmo a poeira e alcatrão. E há alguns onde me demoro um pouco mais. Apertam mais na saudade. São precisamente aqueles que cheiram a Eduardo, Ilídio, Tono, Sérgio, Paulo Daniel, Pedro Vieira, Neca, Michel, sei lá...
E pensar que para lhes dar um abraço nem preciso de sair de casa. À sua maneira estão todos ali dentro, enfiados na minha "gaveta das cadernetas"...

A Fórmula 1 e as chiclas Gorila


Hoje volta a ser dia de voltar um pouco atrás com os ponteiros do relógio do tempo. O meu último post levou-me por um caminho de queridas lembranças que resolvi revisitar. Também para saber se continuavam a ser lembranças mas, sobretudo, para ver até que ponto ainda eram queridas. E são-no, de facto. Muito. Sempre.
Depois do Benfica e de tudo o que se relaciona com o futebol, uma das minhas paixões mais antigas é a Fórmula 1. A febre foi mais uma vez transmitida pelo meu irmão e ficou até hoje. O ídolo de sempre chamava-se Nelson Piquet e, felizmente, ainda fui a tempo de assistir aos seus 3 títulos mundiais. Por essa altura o recinto da Escola Primária era o palco de todas as brincadeiras de muita da pequenada, mesmo em tempo de férias. Estou certo que nenhum deles esqueceu as vezes em que nos ajoelhávamos no chão e com a ajuda de uma pequena tábua desenhávamos os circuitos mais incríveis do universo. Era como se Jacarepaguá, Spa Francorchamps ou Monza estivessem gravadas nas arestas daquela pequena tábua mágica. E depois era pegar na carica preferida (havia quem tivesse mais de 100 diferentes) e tínhamos ali o barulho dos motores, a pole position ou até o Nelson Piquet na ponta dos dedos. Ainda conservo algumas das caricas dessa altura...
Lembro-me que a febre da Fórmula 1 era tal que até os nossos arcos que dominávamos de forma habilidosa com a respectiva "gancheta" também eram baptizados com os nomes das principais "scuderias" de F1: Brabham, Lotus, McLaren...
Por essa altura um dos nossos passatempos preferidos era também o de fazer colecções por tudo e por nada. E os célebres cromos das chiclas Gorila dominavam a preferência da canalhada. Era ainda a mítica colecção de aviões que dominava na altura e que falarei num outro post mas o vício ficou. E foi assim que um pouco mais tarde, já em 1989 e com 13 anos que acabaria por fazer e completar a colecção que vos deixo inteirinha na foto de hoje. Estão lá os capacetes de todos os pilotos da época de 1989 (os n.º 13 e 14 não estavam atribuídos) onde se destaca o nº1 de Ayrton Senna. Claro que o meu preferido era o n.11 do Nelson Piquet embora aqui já estivesse ao serviço da Lotus e numa fase bastante descendente da sua grande carreira.
Curioso é o facto de mesmo tendo passados todos estes anos eu ainda me lembrar de muitos dos nomes e respectivos números de cor. Quanto aos cromos, parecem ainda cheirar ao "tens para a troca", "empresta-me para eu mostrar ao meu irmão" ou ao "eu dou-te e deixas-me copiar no teste". Já passaram mais de 20 anos mas, mesmo assim, para os interessados, informo que ainda tenho por aqui alguns repetidos.
Um grande abraço e até breve.

Caderneta de Cromos

Tudo o que me faça reavivar memórias perdidas da minha infância e adolescência tem a minha aprovação. E esse é exactamente o caso desta "Caderneta de Cromos" que passa na Rádio Comercial. Ainda por cima com um toque de humor que torna a experiência ainda mais gratificante. Juntem a tudo isso duas emissões diferentes por dia e aí têm uma óptima receita de como viajar no tempo de forma bastante agradável.
Olhando com alguma atenção para a capa desta caderneta de cromos facilmente se percebe que este é um programa apontado à minha geração. Quem não se lembra da febre do cubo mágico instalada entre a pequenada da escola primária? E os serões passados em frente à televisão com o Carlos Cruz a tentar impingir a querida Bota Botilde aos concorrentes?
O castelo ao fundo? Só podia ser um: o de Grayskull. Aquele onde o malvado Skeletor travava épicas batalhas com He-Man.
O teclado? Uma homenagem mais do que justa ao ZX Spectrum que será talvez o maior ícone dos anos 80. Como sou um felizardo por ter privado de bem perto com essa máquina. Hoje tenho várias cá por casa...
Há ainda os discos e cassetes por razões óbvias e o pormenor fabuloso do Nuno Markl vestir as roupas do Pedro, acabadinho de sair de uma qualquer aventura com a Heidi.
Não menos importante aquela pequena lata que traz na mão onde se consegue ler, com um pouco de atenção, as palavras mágicas: Toddy. Lembro-me muito bem de comprar essas latas na loja da Barroca só para conseguir o brinde que era, na altura, um jogador de futebol. Quando a minha mãe não estava por perto colocava várias colheres no leite para a embalagem acabar mais depressa. Era um vício. Mais tarde os jogadores foram substituídos por índios e cowboys montados a cavalo. Se juntássemos 12 pontos podíamos mandar vir uma tenda para os índios e se conseguíssemos 50 pontos tínhamos direito a um autêntico "forte" para os nossos cowboys. A muito custo lá consegui juntar os 12 pontos e mandei vir a tenda. Nem imaginam a minha alegria quando recebo uma encomenda da Toddy acompanha de um bilhete que dizia mais ou menos o seguinte: "Pedimos desculpa mas, como os pedidos de tendas têm sido em número muito elevado o nosso stock esgotou pelo que lhe enviamos, em substituição, o "forte" para os cowboys. Mais uma vez as nossas desculpas". Eheheh! Recebi um "forte" e ainda tive direito a pedido de desculpas. Memórias tão boas.
Mas o melhor de toda esta "rubrica" é mesmo o nome: "Caderneta de cromos". Transporta-me para a primeira gaveta da esquerda do guarda-roupa onde o meu irmão guardava todas as cadernetas que lhe pertenciam. Como tudo era melhor quando ele me deixava ver essas cadernetas com ele. Desde as de futebol até às do Misha, Ruy: o pequeno Cid, Aviões, Conquistadores do Universo, Notas, Casas, Comboios, Animais e até colecções bíblicas...
É tão bom mastigar estas memórias. Por agora fico por aqui. Falarei um pouco melhor dessas cadernetas e de outras tantas memórias num próximo post. Até lá...

Porque é que nunca partiste...


Desculpa Ivone. Desculpa por não ter estado em Oliveira de Azeméis junto de muitos dos teus amigos, em especial aqueles do 11.º B que tão bem conhecemos.
Quis dizer-te adeus e não consegui. Talvez porque não fizesse sentido. Nunca poderia ser um adeus e, muito menos, o "último"...
Recordo muito bem o dia em que te disse olá pela primeira vez. Estava na secretaria da nossa escola com a Sónia e a Teresa a dar os meus primeiros passos como estagiário e entraste tu com aquele teu jeito de fazer e dizer as coisas e que eu ainda não sabia que te pertencia. "Então são estes os desgraçados?" - dizias tu à Teresa com aquela tua voz grave e imponente. Não descansaste enquanto não nos fizeste ali mesmo um pequeno interrogatório e o que nos rimos quando reagiste ao facto da Sónia ser oriunda das terras do Salazar. Começavam aí os nossos bons momentos.
Sabes, o teu nome não é muito vulgar e por esse facto, embora nunca te tenha dito, fazias-me lembrar dois momentos preciosos da minha vida. O primeiro eram os finais de tarde de segunda a sexta-feira passados a ver o programa "A Roda da Sorte" apresentado pelo Herman José (quando ainda estava em forma) em que foram tantas as vezes que cantava "Ó Ivone, ó Ivone, ó Ivone, goodbye my love". Até agora a frase parece fazer ainda mais sentido. E quando te via lembrava-me sempre dessas tardes tão boas mesmo sem nunca as ter passado contigo.
O outro momento que me trazias mesmo sem saberes tem também a ver com o teu nome mas, sobretudo, pelo teu jeito de ser. Por momentos as tuas feições, os teus gestos e as tuas palavras como que se confundiam com a célebre Ivone Silva que aprendi a admirar desde muito pequenino. Palavra de honra que foram muitas as nossas conversas que julguei que iriam acabar com aquela frase característica que ainda hoje está na memória da maioria dos portugueses: "Com um simples vestido preto eu nunca me comprometo"! E tu conseguias trazer tudo isso para ali onde todos os professores se riam, muitas vezes apenas à tua passagem.
Para ti, eu e a Sónia éramos os "pintainhos". E nós gostávamos disso. Perguntavas constantemente se a Teresa nos estava a dar muito trabalho e ainda me lembro de ter um tarde livre porque estavas sempre a ver-nos na sala dos professores a trabalhar e não descansaste enquanto a Teresa não nos dispensou.
Até nas mensagens que trocávamos no facebook, onde me perguntavas também pela minha pequena Rita mesmo sem a teres conhecido, conseguias arrancar-me um sorriso pois mesmo aí não tinhas qualquer receio de utilizar as palavras menos próprias. Na verdade, assim tornavam-se muito mais cómicas. Obrigado também por isso.
Vejo, pelas reacções dos nossos amigos do 11.º B, o quanto significavas para eles e de como eras ainda maior do que eu julgava ser possível.
É, de facto, impossível não gostar de ti. Do teu riso de timbre grave que preenche um sala. Das papas na língua que não tinhas. Sobretudo, da tua presença. E tu vais continuar presente porque, estou certo, os teus amigos continuarão a fazer memória.
Bem sabes que agora as minhas passagens por Oliveira são pouco frequentes e que as minhas memórias vão começar a falhar. Mas quero que saibas que sempre que a RTP Memória me trouxer as fantásticas rábulas da Ivone Silva eu vou-me lembrar da outra, daquela que conheci em Oliveira de Azeméis e que tinha um igual talento para me fazer rir.
Como diria o grande João Monge através da boca do João Gil: "Ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste".

Miguel

P.S. - Ironia do destino. Faz hoje precisamente 5 anos que ofereci aos pintainhos do 11.º B um célebre livro intitulado "3x4=D". E eu não esqueço que estiveste a lê-lo nesse dia em plena sala dos professores...

"Das crianças" (Porque a Rita fez 2 anos)

Olá Rita.
Foi no sábado passado que fizeste 2 anos e só hoje te consigo escrever estas pequeninas linhas.
Espero que me perdoes mas hoje não me vou alongar muito. Não consigo. E é por isso que não te vou falar dos abraços fortes que te tenho dado nestes dias bem antes de adormeceres. Nem tão pouco te vou dizer a que sabem aqueles momentos em que roubas o pano da louça, meia dúzia de latas de conserva e ficas a "pôr a mesa" na tua mesa dos brinquedos. Acabas, pegas numa lata e, já virada para mim, lá dizes: "Queres papar, pai? Queres?"
Também não me posso demorar a falar de todas as nossas brincadeiras sobre o "pouco ou muito" e o famoso "A Rita vai esconder". É das minhas brincadeiras favoritas, sobretudo por realçar da forma mais carinhosa que pode haver o timbre grave que imprimes ao teu riso mais ou menos descontrolado.
Se tivesse tempo, claro que podia ainda falar das vezes em que queres tocar no piano do pai e que me deixam deliciado a ouvir. Ou de quando te lembras de contar praticamente até vinte quase sem te enganares. Delicioso.
Sabes, o tempo não é mesmo muito e não posso ficar aqui contigo o quanto gostaria. Mas acho que ainda te consigo dizer que eu e a mamã gostamos muito de ti. E é também por isso que te vamos trazer lá para Setembro um bebé a sério para brincar contigo.
Sabes, eu e a mamã nunca te vamos conseguir agradecer o quanto nos tens trazido. Embora de outra forma, também nós temos voltado a ser pequeninos com tudo o que isso implica de bom. Muito bom. Tenho chorado muitas vezes e, acredita, isso é o melhor que me poderia estar a acontecer.
A melhor forma que hoje encontro para te dizer obrigado é deixar-te com a última estrofe do poema "Das crianças" de Isa Mallof:

" (...)
As crianças olham as coisas
Como se não percebessem nada do que vêem
E têm com elas uma intimidade digital.
Eis a essência e também o Graal.
Mas o melhor da infância foi que eu era imortal."


Encontramo-nos daqui a pouco quando acordares do teu sono tranquilo a chamar por mim.
Um beijo do teu pai.

Miguel