A Fórmula 1 e as chiclas Gorila


Hoje volta a ser dia de voltar um pouco atrás com os ponteiros do relógio do tempo. O meu último post levou-me por um caminho de queridas lembranças que resolvi revisitar. Também para saber se continuavam a ser lembranças mas, sobretudo, para ver até que ponto ainda eram queridas. E são-no, de facto. Muito. Sempre.
Depois do Benfica e de tudo o que se relaciona com o futebol, uma das minhas paixões mais antigas é a Fórmula 1. A febre foi mais uma vez transmitida pelo meu irmão e ficou até hoje. O ídolo de sempre chamava-se Nelson Piquet e, felizmente, ainda fui a tempo de assistir aos seus 3 títulos mundiais. Por essa altura o recinto da Escola Primária era o palco de todas as brincadeiras de muita da pequenada, mesmo em tempo de férias. Estou certo que nenhum deles esqueceu as vezes em que nos ajoelhávamos no chão e com a ajuda de uma pequena tábua desenhávamos os circuitos mais incríveis do universo. Era como se Jacarepaguá, Spa Francorchamps ou Monza estivessem gravadas nas arestas daquela pequena tábua mágica. E depois era pegar na carica preferida (havia quem tivesse mais de 100 diferentes) e tínhamos ali o barulho dos motores, a pole position ou até o Nelson Piquet na ponta dos dedos. Ainda conservo algumas das caricas dessa altura...
Lembro-me que a febre da Fórmula 1 era tal que até os nossos arcos que dominávamos de forma habilidosa com a respectiva "gancheta" também eram baptizados com os nomes das principais "scuderias" de F1: Brabham, Lotus, McLaren...
Por essa altura um dos nossos passatempos preferidos era também o de fazer colecções por tudo e por nada. E os célebres cromos das chiclas Gorila dominavam a preferência da canalhada. Era ainda a mítica colecção de aviões que dominava na altura e que falarei num outro post mas o vício ficou. E foi assim que um pouco mais tarde, já em 1989 e com 13 anos que acabaria por fazer e completar a colecção que vos deixo inteirinha na foto de hoje. Estão lá os capacetes de todos os pilotos da época de 1989 (os n.º 13 e 14 não estavam atribuídos) onde se destaca o nº1 de Ayrton Senna. Claro que o meu preferido era o n.11 do Nelson Piquet embora aqui já estivesse ao serviço da Lotus e numa fase bastante descendente da sua grande carreira.
Curioso é o facto de mesmo tendo passados todos estes anos eu ainda me lembrar de muitos dos nomes e respectivos números de cor. Quanto aos cromos, parecem ainda cheirar ao "tens para a troca", "empresta-me para eu mostrar ao meu irmão" ou ao "eu dou-te e deixas-me copiar no teste". Já passaram mais de 20 anos mas, mesmo assim, para os interessados, informo que ainda tenho por aqui alguns repetidos.
Um grande abraço e até breve.

Caderneta de Cromos

Tudo o que me faça reavivar memórias perdidas da minha infância e adolescência tem a minha aprovação. E esse é exactamente o caso desta "Caderneta de Cromos" que passa na Rádio Comercial. Ainda por cima com um toque de humor que torna a experiência ainda mais gratificante. Juntem a tudo isso duas emissões diferentes por dia e aí têm uma óptima receita de como viajar no tempo de forma bastante agradável.
Olhando com alguma atenção para a capa desta caderneta de cromos facilmente se percebe que este é um programa apontado à minha geração. Quem não se lembra da febre do cubo mágico instalada entre a pequenada da escola primária? E os serões passados em frente à televisão com o Carlos Cruz a tentar impingir a querida Bota Botilde aos concorrentes?
O castelo ao fundo? Só podia ser um: o de Grayskull. Aquele onde o malvado Skeletor travava épicas batalhas com He-Man.
O teclado? Uma homenagem mais do que justa ao ZX Spectrum que será talvez o maior ícone dos anos 80. Como sou um felizardo por ter privado de bem perto com essa máquina. Hoje tenho várias cá por casa...
Há ainda os discos e cassetes por razões óbvias e o pormenor fabuloso do Nuno Markl vestir as roupas do Pedro, acabadinho de sair de uma qualquer aventura com a Heidi.
Não menos importante aquela pequena lata que traz na mão onde se consegue ler, com um pouco de atenção, as palavras mágicas: Toddy. Lembro-me muito bem de comprar essas latas na loja da Barroca só para conseguir o brinde que era, na altura, um jogador de futebol. Quando a minha mãe não estava por perto colocava várias colheres no leite para a embalagem acabar mais depressa. Era um vício. Mais tarde os jogadores foram substituídos por índios e cowboys montados a cavalo. Se juntássemos 12 pontos podíamos mandar vir uma tenda para os índios e se conseguíssemos 50 pontos tínhamos direito a um autêntico "forte" para os nossos cowboys. A muito custo lá consegui juntar os 12 pontos e mandei vir a tenda. Nem imaginam a minha alegria quando recebo uma encomenda da Toddy acompanha de um bilhete que dizia mais ou menos o seguinte: "Pedimos desculpa mas, como os pedidos de tendas têm sido em número muito elevado o nosso stock esgotou pelo que lhe enviamos, em substituição, o "forte" para os cowboys. Mais uma vez as nossas desculpas". Eheheh! Recebi um "forte" e ainda tive direito a pedido de desculpas. Memórias tão boas.
Mas o melhor de toda esta "rubrica" é mesmo o nome: "Caderneta de cromos". Transporta-me para a primeira gaveta da esquerda do guarda-roupa onde o meu irmão guardava todas as cadernetas que lhe pertenciam. Como tudo era melhor quando ele me deixava ver essas cadernetas com ele. Desde as de futebol até às do Misha, Ruy: o pequeno Cid, Aviões, Conquistadores do Universo, Notas, Casas, Comboios, Animais e até colecções bíblicas...
É tão bom mastigar estas memórias. Por agora fico por aqui. Falarei um pouco melhor dessas cadernetas e de outras tantas memórias num próximo post. Até lá...

Porque é que nunca partiste...


Desculpa Ivone. Desculpa por não ter estado em Oliveira de Azeméis junto de muitos dos teus amigos, em especial aqueles do 11.º B que tão bem conhecemos.
Quis dizer-te adeus e não consegui. Talvez porque não fizesse sentido. Nunca poderia ser um adeus e, muito menos, o "último"...
Recordo muito bem o dia em que te disse olá pela primeira vez. Estava na secretaria da nossa escola com a Sónia e a Teresa a dar os meus primeiros passos como estagiário e entraste tu com aquele teu jeito de fazer e dizer as coisas e que eu ainda não sabia que te pertencia. "Então são estes os desgraçados?" - dizias tu à Teresa com aquela tua voz grave e imponente. Não descansaste enquanto não nos fizeste ali mesmo um pequeno interrogatório e o que nos rimos quando reagiste ao facto da Sónia ser oriunda das terras do Salazar. Começavam aí os nossos bons momentos.
Sabes, o teu nome não é muito vulgar e por esse facto, embora nunca te tenha dito, fazias-me lembrar dois momentos preciosos da minha vida. O primeiro eram os finais de tarde de segunda a sexta-feira passados a ver o programa "A Roda da Sorte" apresentado pelo Herman José (quando ainda estava em forma) em que foram tantas as vezes que cantava "Ó Ivone, ó Ivone, ó Ivone, goodbye my love". Até agora a frase parece fazer ainda mais sentido. E quando te via lembrava-me sempre dessas tardes tão boas mesmo sem nunca as ter passado contigo.
O outro momento que me trazias mesmo sem saberes tem também a ver com o teu nome mas, sobretudo, pelo teu jeito de ser. Por momentos as tuas feições, os teus gestos e as tuas palavras como que se confundiam com a célebre Ivone Silva que aprendi a admirar desde muito pequenino. Palavra de honra que foram muitas as nossas conversas que julguei que iriam acabar com aquela frase característica que ainda hoje está na memória da maioria dos portugueses: "Com um simples vestido preto eu nunca me comprometo"! E tu conseguias trazer tudo isso para ali onde todos os professores se riam, muitas vezes apenas à tua passagem.
Para ti, eu e a Sónia éramos os "pintainhos". E nós gostávamos disso. Perguntavas constantemente se a Teresa nos estava a dar muito trabalho e ainda me lembro de ter um tarde livre porque estavas sempre a ver-nos na sala dos professores a trabalhar e não descansaste enquanto a Teresa não nos dispensou.
Até nas mensagens que trocávamos no facebook, onde me perguntavas também pela minha pequena Rita mesmo sem a teres conhecido, conseguias arrancar-me um sorriso pois mesmo aí não tinhas qualquer receio de utilizar as palavras menos próprias. Na verdade, assim tornavam-se muito mais cómicas. Obrigado também por isso.
Vejo, pelas reacções dos nossos amigos do 11.º B, o quanto significavas para eles e de como eras ainda maior do que eu julgava ser possível.
É, de facto, impossível não gostar de ti. Do teu riso de timbre grave que preenche um sala. Das papas na língua que não tinhas. Sobretudo, da tua presença. E tu vais continuar presente porque, estou certo, os teus amigos continuarão a fazer memória.
Bem sabes que agora as minhas passagens por Oliveira são pouco frequentes e que as minhas memórias vão começar a falhar. Mas quero que saibas que sempre que a RTP Memória me trouxer as fantásticas rábulas da Ivone Silva eu vou-me lembrar da outra, daquela que conheci em Oliveira de Azeméis e que tinha um igual talento para me fazer rir.
Como diria o grande João Monge através da boca do João Gil: "Ainda tens que me dizer porque é que nunca partiste".

Miguel

P.S. - Ironia do destino. Faz hoje precisamente 5 anos que ofereci aos pintainhos do 11.º B um célebre livro intitulado "3x4=D". E eu não esqueço que estiveste a lê-lo nesse dia em plena sala dos professores...

"Das crianças" (Porque a Rita fez 2 anos)

Olá Rita.
Foi no sábado passado que fizeste 2 anos e só hoje te consigo escrever estas pequeninas linhas.
Espero que me perdoes mas hoje não me vou alongar muito. Não consigo. E é por isso que não te vou falar dos abraços fortes que te tenho dado nestes dias bem antes de adormeceres. Nem tão pouco te vou dizer a que sabem aqueles momentos em que roubas o pano da louça, meia dúzia de latas de conserva e ficas a "pôr a mesa" na tua mesa dos brinquedos. Acabas, pegas numa lata e, já virada para mim, lá dizes: "Queres papar, pai? Queres?"
Também não me posso demorar a falar de todas as nossas brincadeiras sobre o "pouco ou muito" e o famoso "A Rita vai esconder". É das minhas brincadeiras favoritas, sobretudo por realçar da forma mais carinhosa que pode haver o timbre grave que imprimes ao teu riso mais ou menos descontrolado.
Se tivesse tempo, claro que podia ainda falar das vezes em que queres tocar no piano do pai e que me deixam deliciado a ouvir. Ou de quando te lembras de contar praticamente até vinte quase sem te enganares. Delicioso.
Sabes, o tempo não é mesmo muito e não posso ficar aqui contigo o quanto gostaria. Mas acho que ainda te consigo dizer que eu e a mamã gostamos muito de ti. E é também por isso que te vamos trazer lá para Setembro um bebé a sério para brincar contigo.
Sabes, eu e a mamã nunca te vamos conseguir agradecer o quanto nos tens trazido. Embora de outra forma, também nós temos voltado a ser pequeninos com tudo o que isso implica de bom. Muito bom. Tenho chorado muitas vezes e, acredita, isso é o melhor que me poderia estar a acontecer.
A melhor forma que hoje encontro para te dizer obrigado é deixar-te com a última estrofe do poema "Das crianças" de Isa Mallof:

" (...)
As crianças olham as coisas
Como se não percebessem nada do que vêem
E têm com elas uma intimidade digital.
Eis a essência e também o Graal.
Mas o melhor da infância foi que eu era imortal."


Encontramo-nos daqui a pouco quando acordares do teu sono tranquilo a chamar por mim.
Um beijo do teu pai.

Miguel

Os meus tempos de liceu - (Um primeiro devaneio)

Falar da minha vida ou, se quisermos, falar do melhor de mim é falar também dos meus tempos de liceu (ainda que não em regime de exclusividade!!!). Desde o primeiro dia até ao último. Desde o dia em que conheci os novos amigos da freguesia de Chave ou o "Cabaça" até ao dia em que tivemos a última aula suplementar de Matemática com a querida professora Angelina Martins para nos prepararmos para a respectiva prova específica. Foram seis anos de ouro cheios de tudo o que a vida consegue despertar de melhor em nós e aos quais tenho recorrido à medida que os anos passam, cada vez com maior frequência a um ritmo quase exponencial.
A minha vida foi-se construindo nem sempre pelos caminhos mais óbvios ou direitos. Mas sempre por caminhos honestos. Gosto de dizer, em tom de brincadeira, que talvez por isso tenha feito tanto do percurso de forma solitária. Nessa altura terão sido as muitas memórias daqueles seis anos mágicos que me ajudaram a manter de pé. Ou, pelo menos, a não me deixar cair. E eu fecho os olhos e ainda continua tudo lá. Por momentos, tudo volta a ser como dantes e duma forma completamente nítida e querida. Cristalina.
Entro no autocarro às 8h da manhã e volto a não conseguir lugar sentado. Enquanto nos vamos segurando uns aos outros a rádio vai dando o famoso "hino" do programa "Despertar" da Renascença trazido pelo António Sala e pela Olga Cardoso. Ainda sinto o cheiro das salas, desde a sala 11 (a nossa sala do 7.º ano) até à sala 7 (a do 12.º ano).
Sinto falta da cumplicidade criada com algumas das funcionárias, em particular com a mãe do Celso que tantas vezes me vendeu senhas para pães com fiambre que substituíam o meu almoço.
Tenho saudades dos inúmeros jogos de futebol contra outras turmas e a quantidade de caras que desfilam pela minha cabeça e que pertencem a pessoas que nunca mais vi nem sei o que fazem na vida.
Tenho saudades dos 100% nos testes quando ainda era um aluno aplicado. Mas também sinto falta daqueles últimos tempos em que não estudava nada e as notas caíram radicalmente (ai como hoje teria feito diferente. Desculpa mãe).
Sinto falta das nossas aulas de Educação Física e das nossas conversas no balneário. E dos momentos passados no campo de basquetebol com a minha bola vermelha e branca que ainda possuo e guardo religiosamente.
Sinto até falta daquela estratégia que inventámos para copiar nos testes no 8.º ano e que os professores nunca descobriram. Ou daquela aventura no 11.º ano quando a professora de Filosofia me apanhou a copiar e me obrigou a entregar os "copianços" junto com o teste. Tirei 14, creio eu, e os "copianços" também vinham corrigidos... Eheheh!
Saudades das horas livres e de quando ainda era permitido jogar cartas no bufete. E ainda me lembro das roupas que se vestiam por esses dias e os penteados mirabolantes. Já para não falar nas inúmeras horas passadas a jogar bilhar no Cheiro Verde.
E eu sinto tanto a falta desses dias. Tanto. Tanto.
Com o tempo fui desaprendendo o que é ter amigos. E o pior é que me fui habituando a isso. Fui perdendo um a um como quem guarda as moedas num bolso mal alinhavado. Já experimentaram a sensação de estarem a pagar qualquer coisa e ao meterem a mão ao bolso repararem que ele está vazio? Não é muito agradável, pois não?
Agora os amigos são outros e o tempo passa sempre a correr.
Por agora fico por aqui. Faltam-me as forças para continuar a escrever. Prometo voltar um dia destes com outras memórias dessa altura. As que ainda trago hoje, por agora, ficam para mim. Acredito ingenuamente que assim se tornam mais nossas...
Um grande abraço.

Socorro, sou maluca!!!

Já sabia que a minha amiga Catarina tinha uma carinha laroca. Desde há muito.
Também já sabia que tinha uma voz suave, delicada; mas ao mesmo tempo profunda e imponente. Divina.
Também sabia que é fácil conversarmos com ela. E o difícil mesmo é acabarmos uma conversa sem ouvir dela um sorriso que contagia.
Devido às mais variadas actividades os nossos caminhos foram-se cruzando aqui e ali por feliz coincidência.
Como diz um amigo meu, às vezes os melhores encontros dão-se porque sabemos por-nos a jeito. Pois muito bem. Embora desconfiasse, não sabia do talento da Catarina para a escrita. Felizmente para todos nós, ao entrar no mundo "bloguista" a Catarina pôs-se a jeito para podermos assim encontrar-nos mais vezes. E eu agradeço, como é óbvio.
Esta aventura da Catarina começou ontem e eu sou já um leitor assíduo.
O blogue chama-se Socorro, sou maluca!!! e pode ser consultado aqui.
Será certamente uma página a visitar e onde aparecerão textos ricos de conteúdo.
Fica então aqui o registo dessa estreia.
Grande abraço e vão passando também por lá.

Miguel

P.S. - O que eu também não sabia é que a Catarina era maluca mas, pelos vistos, deve estar a melhorar. Senão não pedia por socorro... Eheh!!!

Descubra as diferenças...



Domingo de manhã, 10h15m.
É esta a hora mágica que ainda hoje recordo com uma vontade gigantesca de lá voltar. Era a hora dos ensaios do "grupo coral dos pequenos" quando eu ainda era isso mesmo: pequeno. Lembro-me de muitas caras que passaram por lá mas que pelas mais variadas razões acabariam por desistir. Creio que mais tarde ou mais cedo chegavam à conclusão que aquele não era bem o caminho a seguir. E, provavelmente, todos estariam certos pois os gostos e vocações diferem bastante de pessoa para pessoa. Também por isso, a primeira foto tem um valor incalculável; porque talvez à excepção do Tono e do Sérgio (que terão faltado nesse dia por algum motivo) acabou por eternizar aqueles que realmente "ficaram" até ao fim. Éramos como uma verdadeira família e todas as recordações que tenho dessa altura acabam sempre com o sorriso de alguém na minha memória. Lembro-me muito bem (e a foto comprova) que era dos mais pequeninos e, por essa razão, ficava frequentemente na primeira fila. Terão sido infinitas as vezes em que a Vira nos pedia para alinharmos os pés pela passadeira vermelha que ainda hoje percorre a Igreja do fundo ao cimo. E a saudade que me dá de todas aquelas vezes em que deixava a primeira voz a cantar sozinha e vinha ajudar os rapazes a "segurar" a segunda voz. E podia contar aqui tantas e tantas histórias dessa altura... Até mesmo das vezes em que íamos ao musgo para fazermos o presépio da Igreja pois nessa altura ainda não havia acólitos e essa tarefa cabia ao grupo coral dos mais novos. Tenho saudades desses tempos do Padre Moreira Duarte mesmo quando a missa era às 8h da manhã.
Hoje tenho 34 anos e nunca consegui encontrar desde então uma forma tão gratificante de passar os meus domingos de manhã. É por isso que as palavras faltam quando se pensa em agradecer à Cristina e, sobretudo, à Vira todo o tempo dispensado connosco em troca de nada. Apenas pelo prazer de lançar estas "sementes à terra".
Passados mais de vinte anos alguém se lembrou de tirar uma outra foto. Agora já no grupo coral "dos grandes". Como na primeira foto também aqui há ausências a destacar sendo a maior a nossa querida "Sra Lúcia" que era sempre a primeira a chegar aos ensaios à sexta à noite. Embora desejemos sempre mais, não deixa de ser reconfortante ver que há ainda 3 caras que se mantêm da primeira foto para a segunda. Um sinal de que as sementes de outrora deram fruto. É certo que não somos profissionais. Longe disso. Sentimos até bastantes dificuldades em conseguir animar todas as eucaristias. O meu pai também já não tem as forças de outrora. Nota-se a falta de alguém como a Vira que terá sido talvez a última grande "ensaiadora" que o grupo coral de Rossas conheceu. Mas mantém-se o espírito de entreajuda e de "família". E às vezes vem um arrepio malandro quando o meu pai se lembra de inovar e traz à tona algum cântico diferente do habitual e a Angelina se vira para mim e diz: "cantávamos isto no tempo da Vira, lembras-te?" Claro que me lembro, Lina. Claro que me lembro. Com muita saudade.
Ao longo de toda a minha vida fiz muitos erros. E o tempo que passei no grupo coral não é excepção. Dar-me conta tarde de mais não me envergonha. Pelo contrário. Dá-me mais força para compensar de alguma forma o tempo perdido. E é por isso que de todas as vezes que estas memórias tão fortes se entranham em mim eu acabo a desejar, apesar de tudo, que a certa altura tivesse sido diferente. Porque só assim teria sido ainda melhor...
Um grande abraço a todos os que estão presentes nas fotos. Até sempre.

Retalhos de uma tarde a fazer o Presépio... (1 de Dezembro)







O ZX Spectrum e eu

* Foto dos jogos para ZX Spectrum que felizmente ainda possuo...

O meu primeiro contacto com um Spectrum foi em casa do meu amigo Eduardo há muitos anos atrás. Andava eu ainda na escola primária quando por altura do seu aniversário o Eduardo me convidou para uma tarde bem passada em casa dele. É certo que era ainda aquele Spectrum com o teclado "chiclete" como haveria de ficar conhecido, mas não foram precisos mais do que os primeiros 30 segundos para me conquistar por completo.
Os jogos, como facilmente se depreende da imagem que hoje deixo, eram ainda naquelas cassetes áudio e demoravam uma "eternidade" a entrar. Isto quando entravam. Era uma espécie de ritual pelo qual tínhamos que passar para depois podermos jogar horas a fio. Quem não se lembra do fantástico truque da chave de fendas a apertar e a desapertar um parafuso milagroso no gravador para conseguir que alguns jogos entrassem?
Corria o ano de 1988 quando o Spectrum chegou finalmente lá a casa. Era um "ZX Spectrum +3" e vinha já com uma drive de disquetes toda catita o que fazia com que os jogos entrassem de forma mais fiável e muito, mas mesmo muito mais rápida. Tinha a vantagem de trazer vários jogos dentro de uma mesma disquete mas tinha o enorme senão de não ter qualquer amigo com quem trocar esses mesmos jogos pois era um processo menos económico. Praticamente toda a malta usava as cassetes áudio pelo que não demorou muito a conseguir convencer os meus pais a comprar o precioso cabo que permitia fazer a ligação do microcomputador a um gravador normal. Lembro-me perfeitamente da casa minúscula em plena cidade do Porto onde fiz tão importante compra. E recordo ainda com uma maior nitidez a cara da minha mãe quando me disse que poderia também escolher um jogo para trazer. A escolha, bem ou mal, acabaria por ser o shooter "1943" e que, apesar de não ser uma conversão muito bem conseguida, ganhou dessa forma o seu lugar na História.
Falar de Spectrum é falar também de dois primos meus, companheiros de aventura, e que guardo num cantinho muito especial no mais íntimo de mim: o Nuno e o Simão Pedro.
O Nuno morava em Paiva mas ficava em minha casa muitos fins-de-semana inteirinhos a brincar, sobretudo com bonecos a fazer guerras de índios contra cowboys. Claro que com a aquisição do Spectrum todas as outras brincadeiras praticamente "acabaram" a partir daí. Era todo o tempo sentado em frente àquele monitor que apenas conhecia 3 cores: verde, branco e preto. Lembro-me muito bem de acabarmos jogos como NOMAD, Double Dragon ou das milhentas horas passadas a jogar Last Ninja 2, Pinball Simulator, Continental Circus, Super-Test 1 e 2, Paris-Dakar e Emílio Butragueño. Tempos que me marcaram de tal forma que ainda hoje é muito difícil falar deles sem me emocionar um bocadinho.
Lembro-me ainda como se tivesse sido há apenas alguns segundos atrás duma noite em que estávamos sentados à lareira na minúscula cozinha da minha primeira casa e de recebermos a visita dos meus tios de Santa Eulália. O Natal estava próximo e eu bem ouvi o meu tio Ilídio dizer à minha mãe que o Pai-Natal ia trazer um "ZX Spetrum +2" para o meu primo Simão Pedro. Sei que nessa noite não me cansava de repetir à minha mãe: "O Pedro é que vai ficar contente".
Com ele recordo sobretudo o jogo "Emílio Butragueño" que era realmente um vício mas sei que ainda hoje ele nutre um carinho muito especial por um tal de "Habilit" que eu também visito de vez em quando através de um precioso emulador aqui no pc.
Dos jogos que mais me marcaram embora apenas tenha lembranças jogadas "a solo" foram, sem dúvida "Impossible Mission II" e "Target Renegade".
Depois há ainda os tempos finais de Spectrum numa altura em que ganhei um novo vizinho vindo do Porto e que chamávamos "Miguel Confiança". Um bom amigo, sem dúvida, e que tinha resmas de jogos para o Spectrum. Foi através dele que tive oportunidade de experimentar os excelentes "Emlyn Hughes International Soccer" e "Snoball in Hell". Que saudades...
Depois, felizmente, os meus pais haveriam de comprar um Commodore Amiga 500 (um dos acontecimentos mais marcantes na minha vida) e o Spectrum encostou às boxes. Como as diferenças para o Amiga eram avassaladoras acabei por dar todo o meu arquivo de jogos do Spectrum ao meu primo Simão Pedro que tão bem o soube aproveitar.
E depois? Acabou?
Não. Não acabou. Depois veio a Internet e a possibilidade de revivermos muito daquilo que foi o nosso passado. Embora não seja a mesma coisa, através de um simples emulador consigo jogar qualquer jogo lançado para tão maravilhosa máquina. Principalmente aqueles que não tive possibilidade de experimentar na altura pois os meus pais não eram de gastar muito dinheiro nessas coisas...
Além disso, através do conhecido site "miau" adquiri 2 Spectrums "chiclete" e 1 "ZX Spectrum +2" a funcionar na perfeição. Tudo para juntar ao meu "ZX Spectrum +3" que ainda possuo e que ainda funciona. Apesar de ter oferecido todos os meus jogos na altura, adquiri no mesmo site cerca de duas centenas deles pelo que consegui recuperar uma boa parte dos grandes êxitos que tinha na colecção da altura. Fica a mágoa de não ter conseguido recuperar o Double Dragon, o Cybernoid 2 e o Impossible Mission mas, não se pode ter tudo...
Descobri recentemente que é possível jogar todos os jogos que se queira no mesmo "ZX Spectrum +2" de então com os arquivos num leitor de mp3 usando uma daquelas cassetes adaptadoras que se compram nas lojas dos chineses. Escusado será dizer que já tenho essa artimanha toda aqui em casa. Ainda dá um pequeno erro aquando do carregamento dos jogos mas nada que um bocadinho de tempo, paciência e uma chave de fendas não resolvam.
Um grande abraço, sobretudo aos amigos e primos aqui mencionados e continuação de muitos e bons jogos.

Miguel

P.S. Já alguns amigos que fui conhecendo entretanto me prometeram oferecer umas cassetes de Spectrum que tinham para lá perdidas algures no sótão das respectivas casas. Pois muito bem. Apenas para lembrar que o Natal está à porta e eu não me importava nada de receber uma prendinha tão simpática...


Aonde é que pára a polícia?

Leslie Nielsen deixou-nos. E ao partir deixou ficar uma sensação estranha de vazio como se acabasse de partir um cúmplice de boa parte dos momentos mais queridos da minha adolescência.
Lembro-me das minhas visitas diárias ao clube de vídeo acompanhado pelo Pedro onde foram tantas as vezes em que ficávamos com a cassete do "Aonde é que pára a polícia?" na mão a relembrar todas as peripécias com que nos fazias rir na película. Foi precisamente por sugestão do Pedro que alugámos esse mesmo filme para vermos num sábado à noite em casa da Sara. E como era bem diferente (para melhor) das comédias que estávamos habituados a ver na altura. Lembro-me que nessa noite para além da "seita" habitual também o Luís do Selmo foi connosco e adormeceu a meio!!! E como nós no final não nos cansávamos de dizer: "como é possível ter adormecido num filme destes"... Ri-me até não poder mais. E como tenho saudades de o fazer contigo...
Haveríamos de ver o segundo filme mais ou menos da mesma forma e como eu recordo com carinho aquele dia em que o Tono a conversar, por tudo e por nada dizia: "Vi uma cena parecida com essa no Aonde é que pára a polícia 2 1/2". O que nós o gozávamos depois disso...
Hoje este tipo de humor está presente em inúmeros filmes mas, na altura, era ainda um caminho a desbravar. De tal forma que quando saiu o terceiro capítulo fui vê-lo ao Porto, propositadamente, com o Zé Mário e com o Pedro. Metemo-nos no autocarro da Calçada e lá fomos nós até ao extinto cinema Charlot na Boavista. Lembro-me de nos desmancharmos a rir com aquela introdução onde apareciam os "carteiros descontentes" numa paródia ao filme "Os Intocáveis". Momentos mesmo muito bons e que me saltam sempre na memória quando olho para os dias que fizeram a minha adolescência. E eu tenho saudades...
No cinema acabaria ainda por ver "Drácula: morto mas contente" e "Mr Magoo" embora já numa altura em que este tipo de filmes entrava num período de saturação... No entanto o Drácula tem o sabor especial de me recordar o primeiro dia em que me sentei ao lado da Odete numa sala de cinema. E isso não tem preço... (Obrigado Pedro).
Mais tarde já com as potencialidades que a internet proporciona acabei por trazer cá para casa a saga "Aeroplano" onde, embora de forma mais solitária, me ri a valer.
Resta-me agradecer-te por hoje, sobretudo no papel de "Frank Drebin", me teres trazido de volta o Zé Mário, a Sara, a Célia, o Pedro, o Tono, o Sérgio, o Carlos, o Luís, o Paulo das Silveiras, sei lá... Todos esses que me fazem lembrar os dias solarengos sentados no muro da velha escola primária.
Obrigado.