Falar da minha vida ou, se quisermos, falar do melhor de mim é falar também dos meus tempos de liceu (ainda que não em regime de exclusividade!!!). Desde o primeiro dia até ao último. Desde o dia em que conheci os novos amigos da freguesia de Chave ou o "Cabaça" até ao dia em que tivemos a última aula suplementar de Matemática com a querida professora Angelina Martins para nos prepararmos para a respectiva prova específica. Foram seis anos de ouro cheios de tudo o que a vida consegue despertar de melhor em nós e aos quais tenho recorrido à medida que os anos passam, cada vez com maior frequência a um ritmo quase exponencial.A minha vida foi-se construindo nem sempre pelos caminhos mais óbvios ou direitos. Mas sempre por caminhos honestos. Gosto de dizer, em tom de brincadeira, que talvez por isso tenha feito tanto do percurso de forma solitária. Nessa altura terão sido as muitas memórias daqueles seis anos mágicos que me ajudaram a manter de pé. Ou, pelo menos, a não me deixar cair. E eu fecho os olhos e ainda continua tudo lá. Por momentos, tudo volta a ser como dantes e duma forma completamente nítida e querida. Cristalina.
Entro no autocarro às 8h da manhã e volto a não conseguir lugar sentado. Enquanto nos vamos segurando uns aos outros a rádio vai dando o famoso "hino" do programa "Despertar" da Renascença trazido pelo António Sala e pela Olga Cardoso. Ainda sinto o cheiro das salas, desde a sala 11 (a nossa sala do 7.º ano) até à sala 7 (a do 12.º ano).
Sinto falta da cumplicidade criada com algumas das funcionárias, em particular com a mãe do Celso que tantas vezes me vendeu senhas para pães com fiambre que substituíam o meu almoço.
Tenho saudades dos inúmeros jogos de futebol contra outras turmas e a quantidade de caras que desfilam pela minha cabeça e que pertencem a pessoas que nunca mais vi nem sei o que fazem na vida.
Tenho saudades dos 100% nos testes quando ainda era um aluno aplicado. Mas também sinto falta daqueles últimos tempos em que não estudava nada e as notas caíram radicalmente (ai como hoje teria feito diferente. Desculpa mãe).
Sinto falta das nossas aulas de Educação Física e das nossas conversas no balneário. E dos momentos passados no campo de basquetebol com a minha bola vermelha e branca que ainda possuo e guardo religiosamente.
Sinto até falta daquela estratégia que inventámos para copiar nos testes no 8.º ano e que os professores nunca descobriram. Ou daquela aventura no 11.º ano quando a professora de Filosofia me apanhou a copiar e me obrigou a entregar os "copianços" junto com o teste. Tirei 14, creio eu, e os "copianços" também vinham corrigidos... Eheheh!
Saudades das horas livres e de quando ainda era permitido jogar cartas no bufete. E ainda me lembro das roupas que se vestiam por esses dias e os penteados mirabolantes. Já para não falar nas inúmeras horas passadas a jogar bilhar no Cheiro Verde.
E eu sinto tanto a falta desses dias. Tanto. Tanto.
Com o tempo fui desaprendendo o que é ter amigos. E o pior é que me fui habituando a isso. Fui perdendo um a um como quem guarda as moedas num bolso mal alinhavado. Já experimentaram a sensação de estarem a pagar qualquer coisa e ao meterem a mão ao bolso repararem que ele está vazio? Não é muito agradável, pois não?
Agora os amigos são outros e o tempo passa sempre a correr.
Por agora fico por aqui. Faltam-me as forças para continuar a escrever. Prometo voltar um dia destes com outras memórias dessa altura. As que ainda trago hoje, por agora, ficam para mim. Acredito ingenuamente que assim se tornam mais nossas...
Um grande abraço.






